DCC – Capítulo 123

O Rei de Kanis

 

Alésia Latrell:


— Uau! Esses são nossos lugares? São lindos! — Amelie comentou animada correndo de um lado para o outro dentro de nosso lounge.

— Não se afaste de mim, minha flor! — eu disse para ela, enquanto me sentava em uma confortável poltrona com um design bem diferente.

Nosso lounge tinha sido posto como um anexo ao de Belchior III. O funcionário que providenciou isso em poucos minutos teve o pudor de deixar pouco chamativo, e eu tinha certeza que ele estava em algum lugar apenas para me atender caso eu precisasse de alguma coisa. Sequer parecia uma partição separada de Belchior, o que me deixou extremamente satisfeita. Não seria prudente alertar todo o quadrante 24 agora que uma comitiva independente estava sendo instalada ali. Mesmo porque, nenhuma de nós era do quadrante 24. Estávamos aqui apenas por Briane.

— Nossa… tudo aqui é tão luxuoso! — Isabel comentou enquanto se sentava ao meu lado, mas sem conseguir deixar de olhar para todos os lados. — E pensar que eu estou aqui pertinho do imperador…

— Isso não é nada… — eu disse lembrando de como o interior do palácio era requintado, decorado com móveis de madeira de verdade. — Se tivermos uma oportunidade, eu mostrarei o lado de dentro do palácio para vocês. Só precisaremos partir antes da primeira hora do dia.

— Por que você faz tanta questão de ir embora antes da primeira hora do dia? — Michelly perguntou, sentando-se do meu outro lado.

— Se não formos, o imperador vai querer me ver, e a Henry, e ele é contra nosso casamento… então preferimos evitar conflitos desnecessários, — eu disse. Era apenas meia verdade, mas era suficiente. Afinal, mesmo elas tinham aquele fio de pensamento de que nenhuma mulher seria digna o suficiente de ser a mulher de Henry.

O primeiro ministro Binks se aproximou, ladeado pelo Comandante Anderson. Eles pareciam bem nervosos.

— Acabei de checar a agenda de reuniões. Nossa conferência com o imperador será às três horas da noite. Depois da de Kanis. O que quer que eles queiram fazer para nos difamar, eles com certeza farão nessa hora. O que faremos?

— Espere um momento, — eu disse.

Ativei meu Link Pessoal que me permitiu acessar Sophia. Uma tela que apenas eu podia ver foi projetada na minha frente, com todas as funções que eu precisava. Com meu usuário fantasma, entrei dentro do sistema de controle do festival e acessei a agenda de reuniões. Dentro do nosso setor, Kanis iria se encontrar com o imperador logo antes de Belchior. Eu só precisava fazer uma alteração mínima: coloquei os dois pro mesmo horário.

— Você… o que você fez? — o Comandante Anderson perguntou, observando a minha expressão satisfeita assim que fechei minha tela.

— Eu apenas incitei um leve conflito de horários, — eu disse sorridente.

Ele e o primeiro ministro piscaram algumas vezes tentando absorver o que eu disse, e correram de volta para o monitor informativo do festival no lounge deles. Eles rapidamente acessaram a agenda novamente e deram de cara com o tal conflito de horários. Qualquer um poderia entender que isso era obviamente um “erro”. Duas comitivas não poderiam ter sido agendadas para o mesmo horário com o imperador. Mas não haviam erros em um festival. Errar era algo que não existia nessa instância. O olhar de assombro deles se voltou para mim. Eu podia sentir uma uma emoção cada vez mais forte crescendo neles. Assombro.

Agora era só esperar a comitiva de Kanis vir morder a isca.

Marco Gionardi:


Uma alteração na agenda? Uma notificação subiu em minha tela pessoal. As agendas de encontros eram sempre fechadas com semanas de antecedência. Nenhuma alteração seria feita depois. E essa… quem tinha autorizado? Não dava para ver o rastro de nenhum usuário além do meu no sistema. Então por que eu estava recebendo uma notificação de alteração?

Logo, duas pessoas em meio ao mar de gente ascenderam em minha mente como luzes me indicando o caminho das respostas. Hum… Um deles era o primeiro ministro de Belchior III, e o outro era o General? Ah… Alésia. Tinha que ser. Então ela estava começando a mostrar as garrinhas com a Sabedoria.

Seja lá o que ela estivesse tramando, realmente envolvia Kanis. E ela parecia muito interessada em fazer isso valer. Já que era assim, era uma boa oportunidade para eu mostrar a ela o preço que se paga por interferir na vida dos mortais. Além do que essa sensação incômoda de não saber o que estava acontecendo estava me deixando inquieto. Se ela quer uma reunião com as duas comitivas ao mesmo tempo, que seja. Eu mesmo anteciparia esse encontro.

Bras Kreutzer — Rei de Kanis:


— Acho que está na hora de visitar nossos companheiros de quadrante, — eu disse com um sorriso satisfeito. Era excelente quando tudo ocorria de acordo com a minha vontade. Elites como eu não deveriam ter que passar pelo desgosto de serem afrontadas pelos demais plebeus do meu quadrante.

— Permita-me acompanhá-lo, meu pai, — minha filha Beatrice disse, erguendo-se divinamente de seu assento real. Os demais emissários da nossa corte todos se colocaram de pé, aguardando minhas ordens.

— Muito bem, que assim seja, — eu disse, sorrindo satisfeito para ela. Minha filha era o meu maior orgulho. Minha mais perfeita obra prima da genética. Ela herdava o que havia de melhor e mais nobre do nosso DNA aria. Ela era uma elite entre os Jomons. Liderar o quadrante 24 seria muito pouco para o futuro dela. Mas primeiro eu precisava colocar um pouco de ordem na casa. Desde a guerra, aquelas malditas colônias tentavam pôr suas asinhas de fora. Hoje eu iria derrubar a maior delas, e as outras viriam logo depois, como mariposas voando para o fogo. Prontas para o abate. — Ministro de relações interplanetárias, permaneça para atender qualquer um que venha. Vou sair para dar uma volta.

Imediatamente, o ministro se colocou de joelhos e enterrou a cabeça no chão.

— Como deseja meu rei.

— Vamos, minha querida! — eu disse para minha preciosa filha enquanto saímos pelos lounges dos demais membros do quadrante. Eu era um nobre de brasão vermelho, o que significava que eu estava acima de todos esses meros amarelos e laranjas. O que significava que eu era o dono de todos esses planetinhas que estavam em meu território.

Assim que passávamos, nossos vassalos imediatamente posicionavam-se em linha ao nosso redor e se ajoelhavam obedientemente.

— Oh… você! — minha Beatrice disse com a expressão surpresa enquanto andávamos.

— Alguma coisa, minha querida? — eu perguntei distraidamente.

— Veja essa coisa! — Ela apontava para um dos vassalos ajoelhados de uma das nossas colônias com a expressão de desgosto. — Isso é um Brard?

A comitiva onde o sujeitinho estava estremeceu por inteiro.

— Expliquem-se, — eu disse, olhando para a criatura repulsiva.

— Meu rei, por favor… — O que parecia ser o líder deles se arrastou no chão aos meus pés. — Ele é apenas um criado. Veio aqui apenas para servir nossa soberania.

— Soberania? Que soberania? Vocês são meras colônias insignificantes, que deveriam cumprir seus papéis em elevar o status do meu quadrante e se atrevem a trazer um Brard para o festival de ano novo imperial? Mesmo um servo digno de aparecer na minha frente deveria ser um jomon de baixa classe. Como se atrevem?

— Meu rei, isso não é….

— Basta! — eu disse abanando a mão em direção a essa ralé. Imediatamente meus guardas arrastaram para longe de minha vista esses Brards malditos e seus associados. — Vincent! — Eu chamei logo depois. Vincent era meu assessor particular. — Ordene uma sanção de 50% nos negócios com esse planeta, seja lá qual for. Guardas, podem ir na frente limpando o caminho. Não quero que minha filha tenha que ter esse desgosto outra vez.

A minha imposição é que era soberana. Humpf. A medida que eu andava, esses vermes reconheciam a própria insignificância. Se mais algum houvesse trazido um Brard entre a comitiva, com certeza já teriam escondido todos, e os que não se esconderam a tempo foram imediatamente reprimidos pelos meus guardas.

— Veja papai, uma pequena comoção à frente. Se não é o lounge do nosso querido companheiro soberano Belchior III. Provavelmente eles estão com a comitiva cheia de Brards e mestiços imundos.

Humpf. Hoje eu daria um jeito nesse planetinha medíocre que já me desafiava havia algumas décadas. Mas então… um homem saiu voando do lounge. Não era diretamente proibido pelo imperador voar dentro da propriedade palaciana?

Aquele uniforme… era um dos meus guardas! O que esse idiota estava fazendo?

Então ele aterrissou no chão, em cheio com a cabeça, e permaneceu deitado por um tempo, atordoado. Ele… foi abatido e mandado pelos ares?

— Olha lá se não é a nossa colega Beatrice!!! — Eu ouvi uma voz chamar da direção do lounge de Belchior III. Meus olhos pararam em cima de uma pequena figura vestida de preto cintilante, que segurava o braço do meu segundo guarda de uma forma um pouco estranha, que dava agonia só de olhar, imobilizando-o completamente.

Eu mal tive tempo de registrar a raiva por uma plebeia como aquela pronunciar casualmente o precioso nome de minha filha, quando eu senti o corpo dela ficar tenso e emanar uma quantidade considerável de medo e raiva enquanto falou:

— Você! O que faz aqui?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

1 Comentário

  1. Por algum motivo eu adorei ver o imperador se remoendo pra saber o que a alésia pensava. Kkkkkkkk
    Valeu pelo capítulo nega fulor.😁🖒

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