DCC – Capítulo 131

O presente de Isaac

Isaac Gionardi:


— Dessa vez a festa está passando tão rápido, — eu comentei, olhando para o horizonte pela varanda e vendo o show de luzes nas últimas horas da noite. Alésia estava no salão de baixo se divertindo com as nossas amigas enquanto eu passei esse tempo com pai Henry. Eu ainda poderia voltar para a academia e fingir que não era o príncipe imperial, mas para isso, elas não poderiam me ver aqui.

— Para variar, dessa vez foi divertido, — Pai Henry disse. — Afinal, com tantas surpresas… e pensar que você, moleque, estava o tempo todo lá na academia estudando com a Alésia mas não me deixou saber!

Eu ri sem jeito. Já era bem a quinta ou sexta vez que ele reclamava disso. Mas ele estava feliz.

— O senhor sabe que eu prometi manter segredo de todo mundo. Alésia só ficou sabendo porque coincidiu de ficarmos nas mesmas turmas.

— É… certo… — pai Henry disse revirando os olhos e suspirando enquanto sorria calmamente. — Eu ainda vou me ver com ela, para ela me explicar direitinho essa história.

— Falando em segredos… Quer dizer que vocês dois estão juntos de verdade… — eu disse diretamente.

— Isso te incomoda? — Ele nem se deu ao trabalho de tentar encobrir. Dessa vez, pai Henry virou os olhos do horizonte para mim. Parecia que a minha opinião importava muito para ele.

— Na verdade, não é um incômodo. Eu não me importo, — eu comecei a explicar sinceramente. — Mas… não posso negar que é estranho pra caramba. Eu gosto muito dela e viramos bons amigos. E mesmo ela sendo bem esperta, ela é bem mais nova até do que eu também! Isso é muito esquisito.

— Nem me diga… — pai Henry disse como se concordasse entre um sorriso satisfeito. — Eu amei muito a sua mãe. Eu era louco por ela, e depois que ela se foi, eu só não a segui junto para a morte porque precisava ao menos esperar alguém aparecer para receber a Relíquia da Criação. Parece ingenuidade e mesmo egoísmo da minha parte, mas Alésia é a razão da minha vida e da minha força. Eu amo aquela mulher.

— Certo… essa conversa está ficando mais esquisita. Desde que o senhor disse que quer ir embora antes do fim das festas, nosso tempo tá acabando, quero te dar um presente — eu disse feliz para ele.

Pai Henry levantou uma das sobrancelhas e me olhou com curiosidade.

— Um presente? — Ele perguntou — Por quê? Não era eu que deveria te dar presentes? Acho que estou te devendo ao menos dezesseis anos de presentes.

— Não se preocupe com isso. Não é grande coisa… — Eu disse sem jeito, tirando o embrulho de dentro das minhas vestes. — Eu sei que toda essa história que me contam sobre minha origem é feita de meias verdades. Não é muito complicado entender que tem algum problema entre o fato de que meu padrasto era o marido da minha mãe e melhor amigo do meu pai biológico. Eu não sei quem ta com a razão disso tudo e na verdade nem me importo, desde que eu possa continuar me dando bem com vocês.

— Entendo… — pai Henry disse. Ele parecia considerar bastante a minha opinião, o que me deixava feliz. Porém ele não parecia nem um pouco inclinado a explicar toda a história para mim. Mesmo eu já tendo me cansado de perguntar para o pai Marco e ele sempre dizer que “ainda não era a hora”.

— Então, quando eu era bem mais novo, eu tinha essas ideias malucas de que o senhor não queria me ver, por que não era o imperador. — Nesse momento ele deixou o queixo cair surpreso e ainda aproveitou a deixa para fazer uma pose de ofendido, mas eu senti uma pontada de culpa aparecendo no fundo dos olhos dele. — Eu sei! Eu sei! Era bobagem de criança. E hoje eu entendo um pouco o que o senhor deveria estar passando, mas naquele tempo eu fiz uma coroa para te dar quando aparecesse, pra dizer que para mim, o senhor também era importante.

Ah, aquele foi um momento de vergonha! Entreguei o embrulho para o pai Henry, e ele me deu um olhar significativo enquanto abria. A “coroa” pulou de lá. Era um trocinho ridículo que eu tinha feito trançando uns fios de arame até completar uma circunferência, e depois de ter adicionado alguns adornos toscos.

— Ora essa… — ele disse com um sorriso satisfeito olhando para a coroa e levando para a cabeça.

— Não precisa usar essa coisa ridícula! — eu disse rápido, envergonhado. — É só uma coisa simbólica da minha infância que eu resolvi desenterrar, não precisa usar…

— Se meu filho me deu uma coroa, então eu devo ser coroado! — pai Henry disse sorridente enquanto encaixava a coisa na cabeça, então ele perguntou fazendo a melhor imitação dos nobres metidos que eu já tinha visto: — E ai, como estou?

— Hahaha!

Começamos a rir como dois idiotas no meio da varanda. Eu nem sabia mais qual era a graça. Eu só estava feliz. Foi quando alguém chamou.

— Henry, venha aqui! — Era o pai Marco. Eu estranhei o chamado. Normalmente, pai Marco deixava todos os autômatos que podia conjurar em palanques do jardim para receber os políticos e os nobres. Então, quando ele se aproximou mais eu senti uma ondulação leve no ar que sempre me dizia quando era e quando não era o corpo verdadeiro dele.

Aquele era realmente o corpo do meu pai Marco. Ele tinha vindo aqui pessoalmente antes mesmo do fim do festival. O que estava havendo? Até hoje todos os protocolos eram de que ele não deveria deixar os mestres e os nobres do império até que o festival acabasse, e mesmo assim ele tinha vindo até aqui pessoalmente?

Eu olhei para os jardins onde ficava o palanque principal. Pai Marco estava lá recebendo os nobres prateados. Eles com certeza perceberiam a diferença entre um autômato e o corpo verdadeiro. Eu até entenderia se fosse um autômato, mesmo não sendo convencional, então devia ser algo muito sério para vir aqui assim falar com o pai Henry.

Enquanto eu pensava isso, todos no salão pareciam estar pensando da mesma forma. Foi quando Cásira tomou a frente e se colocou entre os dois. O olhar de pai Henry era sério. Ele também parecia nunca ter imaginado que pai Marco apareceria aqui pessoalmente apenas para falar com ele.

Todos os presentes estavam tensos com o chamado. Não era novidade para ninguém que o pai Henry odiava profundamente o pai Marco, e que pai Marco não fazia nenhum esforço para tentar corrigir isso. Além de fazerem anos que nenhum dos dois se dirigia a palavra civilizadamente. Eu virei para o pai Henry pronto para suplicar por paz, mas ele ainda estava esperando alguma coisa.

— Jovem mestre, por favor. Estamos no meio do festival, e vossa alteza deve poupar suas forças para lidar com o restante das comitivas. Não faça nada estressante agora, — Cásira disse com a voz firme. Eu nunca a tinha visto tão direta, já que ela sempre tinha se comportado como uma gatinha indefesa na nossa frente.

Pai Marco levantou uma sobrancelha enquanto olhava para ela com uma expressão intrigada. Ele parecia ter a mesma impressão dela.

— Não tente me ensinar sobre como fazer o meu trabalho, — ele respondeu simplesmente. — Apenas por que você decidiu seguir Henry não significa que eu deva fazer o mesmo.

— Eu apenas peço por paz, majestade, — Cásira insistiu. Ela parecia que estava tremendo um pouco apenas por se manter na frente de pai Marco. Ele não estava impondo nenhuma arte intencionalmente sobre ela, mas ela não era mestre em magia, então era mais difícil para ela sequer estar perto dele, com toda a aura que ele emanava naturalmente. Eu tinha que admitir que ela estava se saindo muito bem.

— Não fale como se estivesse preocupada comigo. Acha que eu não sei que estiveram tramando nas minhas costas para que eles fossem embora antes do nascer do dia? — pai Marco disse. — Eu não sou o inimigo aqui, mas parece que vocês querem me tratar como tal.

— Por favor compreenda, jovem mestre! — Madame Sruar tomou a frente e também intercedeu. — Deve entender que há algumas questões que são complicadas de lidar, e forçar um encontro iria apenas piorar as coisas.

— Eu não estou falando o idioma imperial por um acaso? — pai Marco disse finalmente ficando irritado. — Eu sou a porra do imperador de toda essa merda! Sabe o que isso significa? Que tudo o que eu faço nessa porcaria está certo. Eu sou aquele que acaba sendo odiado e temido porque eu tenho que apontar a direção correta, mesmo para aqueles que não sabem onde estão se metendo.

Caramba! Eu nunca tinha visto pai Marco tão exaltado. Mesmo a forma de falar dele foi incrivelmente mais… ousada. Imediatamente, todos ficaram ainda mais tensos. Parecia que todos estavam pensando rapidamente em uma forma de contestar. Obviamente não podiam, já que o imperador era basicamente alguém que deveria tomar toda e qualquer decisão imparcialmente em prol do bem da manutenção do sistema em que a sociedade humana estava estruturada. Eu só pude lançar olhares para os dois tentando entender por que tanta animosidade.

— Então, onde eu estou me metendo? — pai Henry perguntou com uma expressão séria. Por um momento breve eu vi um leve sentimento de dúvida dançar no olhar dele. Então ele ficou zangado de repente. — Muito bem então, vamos lá! Se sou eu que estou me metendo onde não devia, iremos descobrir.

Por que ele tinha tido uma mudança tão brusca no temperamento?


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

5 Comentários

  1. Parece que o Marco chegou ao seu limite auhahuauhauhauhauhauhauha “Eu sou a porra do imperador de toda essa merda! Sabe o que isso significa? Que tudo o que eu faço nessa porcaria está certo.” Carai, vei, como eu ri dessa fala xD

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