DCC – Capítulo 132

Cara a cara

Henry Siever:


Marco caminhava na minha frente com uma pose preguiçosa e cansada. Tudo nele me deixava dividido. A traição que ele me fez por ter roubado Nádia de mim era imperdoável. Mas ele tinha um ponto: ele sempre fazia a coisa certa.

Por um momento eu tinha realmente me preocupado que ele fosse intervir parcialmente com o problema de Belchior III por causa da presença de Alésia, apenas para brincar com a gente como ele sempre parecia querer fazer. Mas então ele desbloqueou as memórias de Amelie que estavam presas, e não tomou nenhuma atitude contra Alésia.

Até ali, eu pensei que ele realmente pudesse estar mostrando algum sinal de caráter. E mesmo eu ficando dividido, eu sempre tinha que lembrar como ele era um duas caras manipulador que se aproveitava de brechas para fazer o que bem entendesse. Ele simplesmente jogar lá no salão que era o imperador não era para apresentar o fato de que ele faria o que era melhor, mas simplesmente para calar qualquer tentativa de argumentação. Afinal, mesmo o imperador tinha suas próprias vontades.

Eu tive a breve ilusão de que ele iria ao menos tentar parar de ser um canalha. Desde que ele tinha me ajudado a localizar Alésia quando ela foi levada, eu estive me sentindo dividido em relação a ele, e depois de ter recuperado Amelie… eu estava com um pé atrás, mas eu ainda tive uma pontada de desejo de ter meu amigo de volta. Só que no segundo que pensei isso, Alésia tinha me enviado uma mensagem dizendo que guardas pediram para levá-la a um encontro com Marco. Seja lá o que esse idiota estivesse tramando, eu não poderia deixar ele se encontrar a sós com a minha esposa.

Ele tomou a frente e continuou andando até chegarmos na ala pessoal dele. Alésia ainda não tinha chegado lá.

— O que está querendo fazer, afinal? — perguntei a ele assim que ele abriu a porta, e me indicou o caminho.

— Precisamos conversar, — ele disse com a voz arrastada.

— Onde está Alésia? — eu perguntei desconfiado.

— Esperando em outra sala, — ele disse diretamente.

— Se isso for algum outro tipo de armação sua para me separar dela, não se preocupe em um dia receber meu perdão. Que se dane que você seja o imperador… mesmo a sua vida eu não vou deixar passar, — eu disse enquanto sentia meus punhos comprimirem involuntariamente com toda aquela tensão no ar.

— É… eu percebi que você ainda tinha alguma esperança bem escondida de que eu teria algum motivo para fazer tudo o que fiz, e que um dia eu voltaria a ser a criança que era quando nos conhecemos, — Marco disse, ignorando a minha ameaça e caminhando até uma poltrona onde se largou sem as cerimônias que ele reservada ao público.

— E você teve? — a frase escapou da minha boca antes que eu pudesse me conter. Porém, não pude deixar de reparar no tom cético bem evidente na minha voz.

— Enfim… — Marco disse sacudindo a mão como se isso fosse um tópico irrelevante. — Você tem chamado muita atenção recentemente. Você não é qualquer um para passar despercebido por onde andar e simplesmente ter uma vida normal. Está atraindo mais do que só a sua fama desproporcional.

— E o que isso tem a ver com você? — eu perguntei, me sentando na frente dele, e cruzei as pernas com uma postura de quem estaria considerando as palavras dele.

— Bom, no momento tem um salão cheio de pessoas pensando que talvez desertar ao império seria a melhor escolha, como se o inimigo aqui fosse eu. Então, acho que eu tenho um pouquinho a ver com isso.

— Você não fez nada para se mostrar útil a nós, — eu rebati. — Desde que assumiu o império você sozinho decidiu agir como o vilão. Não dá para esperar que não te tratemos como um inimigo.

Marco suspirou cansadamente, como se essa conversa estivesse indo para um lado que ele não queria.

— Dhar está voltando…. — ele disse por fim.

Senti meu corpo arrepiar com um calafrio nervoso. Eu tinha tido algumas suspeitas sobre isso, mas ouvir Marco falar diretamente trazia uma nova perspectiva ao problema.

— Quando descobriu isso? — minha mente pensava rapidamente em vários problemas diferentes envolvendo o retorno de Dhar.

— No dia que localizei Alésia quando ela estava nas mãos daqueles contrabandistas de escravos renascidos.

— E por que está me contando isso só agora? — eu perguntei sério.

— Você está de brincadeira? — Marco me olhou zangado. — Eu levei um mês para me recuperar! Um mês! Você não recebe minhas mensagens e sequer quis reportar aos meus chamados. Quando eu me dei ao trabalho de ir pessoalmente, eu ainda tive que ser recebido daquela forma indigna. Mesmo que haja motivos pessoais para lidar comigo, vocês têm agido de forma muito passional e irresponsável! Principalmente aquela garota selvagem.

— Não fale dessa forma sobre a minha esposa na minha frente! — eu reclamei, sentindo o sangue subir à cabeça. — Você se acha o injustiçado, mas foi você quem apareceu em nossa casa nos ofendendo. Para alguém que não é bem-vindo, não foi exatamente a decisão mais esperta.

Marco me olhou com a cara amarrada e um certo choque.

Esposa? — ele repetiu, incrédulo. — Você realmente, realmente a tomou como esposa?

— O que? Acha que eu cometeria a burrice de esperar você tentar roubar ela de mim também? Ela é minha! E não importa o quê, eu nunca vou permitir que você destrua as nossas vidas como fez com Nádia.

Marco se levantou aturdido e zangado. Me encarava com os olhos arregalados como se eu tivesse cometido algum sacrilégio.

— Você não sabe nada sobre Nádia. — A voz dele saiu acusadora e sibilante, quase como um sussurro venenoso. — Você não sabe nada sobre porra nenhuma! Não tem ideia do que fez!

— É claro que não! Você sempre foi tão esperto… tão iluminado… tão superior… — eu deixei meu ressentimento sair em forma de sarcasmo. — Mas só o que parece é que nada nunca foi suficiente para você. Você quis tomar tudo o que era meu. Enquanto era possível para mim lhe dar o que você queria, você sempre fingiu ser um bom amigo. Mas quando eu neguei, então você decidiu que estaria tudo bem tomar de mim.

— Você vai deixar aquela garota imediatamente… — Marco sussurrou a ordem, como se fosse algo de alta prioridade e que eu devesse ter alguma atitude de obediência.

Eu também me coloquei de pé, e o olhei cara a cara sem recuar.

— Você não vai mais brincar comigo, nem com Alésia. Se você se atrever a encostar um dedo sequer nela, eu não vou deixar mais um dedo sequer nas suas mãos para continuar apontando ordens.

— Não se comporte como um idiota… — Marco zombou. — Essa não é a hora de ficar brincando por aí. Você deve me escutar e fazer o que eu digo se você preza pelas vidas patéticas de vocês dois! Abandone Alésia e volte para Keret.

— E ficar debaixo das suas asas sob as suas ordens? — Você não tem o poder necessário para me obrigar. E eu nunca… nunca! Vou baixar minha cabeça para você.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

5 Comentários

  1. Esse sim foi um capítulo emocionante.
    Estou torcendo forte para o Henry.😁💥
    Valeu pelo capítulo Nega Fulor

  2. O marco é um cretino arrogante isso é inegável… mas só porque não deixa tudo claro.
    Sinto pena do Henry sendo importunado por ele. Credo. O cara só quer ficar com a menina! O mundo vai cair se isso acontecer?
    Não é atoa q todos o vejam como vilão 😐

  3. Marco é legal! está bem evidente que ele se preocupa com henry. Mas o desgraçdo não fala a porr* do motivo, aí complica.
    ( triste por chegar nos capítulos atuais ☹️)

    1. É exatamente o que eu penso, porra, custava falar pelo menos o motivo (se houve algum) de toda aquela merda com a Nadia? –‘

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