DCC – Capítulo 134

A história da origem das Relíquias

Marco Gionardi:


— O que você quer? — ela perguntou simpática como sempre.

Eu tinha separado especialmente um autômato para falar com ela ao mesmo tempo que falava com Henry. Haviam coisas diferentes para serem discutidas e eu não poderia me arriscar que eles fugissem mais uma vez sem ouvirem o que precisava ser dito. E, considerando que era importante Henry não saber o que eu tinha a dizer para ela, conversar com os dois ao mesmo tempo era o melhor caminho.

Porém, ao ouvir o tom de voz dela, eu revirei os olhos com impaciência, mas era bom eu ser objetivo nas minhas palavras… não tínhamos muito tempo.

— Me parece que você não tem o conhecimento adequado para lidar com as questões políticas, mas, mesmo assim, forçadamente se envolveu… — eu repreendi  cansadamente.

— Pensei que tínhamos um acordo sobre você não se meter na minha vida, — ela disse com um tom sério. Ela realmente estava falando sobre isso!? Só me dava cada vez mais ódio dessa criatura. Era ela que tinha se metido no meu trabalho! Ela nem faz ideia da idiotice que quase fez. Por causa dela, Henry estava mais uma vez no centro das atenções dos nobres de prata.

— Eu pensei que tínhamos um acordo sobre você respeitar a minha soberania! — eu respondi secamente.

— Eu não lhe faltei com respeito em nenhum momento, alteza… — mas de repente a expressão hostil dela suavizou. — Apesar de que eu devo agradecer ao que fez por Amelie. Eu não esperava que você pudesse ter poder para desfazer o feitiço de um obliterante. Eu estou muito agradecida por isso. — Então, a expressão voltou a ser antipática. — Mas por que me chamou aqui afinal? — ela perguntou impaciente, ela estava deixando evidente que queria sair dali o mais rápido possível.

Eu suspirei cansado. Lidar com ela era realmente mais estressante do que com todas as lideranças da galáxia em uma única noite.

— Já que você não quer estar aqui, e eu cada vez menos aprecio a sua presença contagiante e animadora, vamos direto ao ponto então. — Era melhor eu contar sem rodeios. Isso me livraria do problema mais rápido — Devo apenas lembrá-la, que ainda permanece valendo o nosso primeiro acordo, em que tudo o que for conversado aqui, não pode ser dividido com ninguém, muito menos com Henry.

— Ta, ta…. eu sei. Se não você passa a se meter na minha vida… não que esse acordo valha para ambos os lados já que você provavelmente vai usar o que quer que seja contra mim de qualquer forma, como da última vez, não é?

Eu suspirei profundamente, ignorando a acusação. Bom, era verdade. Eu faria o que eu achasse melhor, não importa o que fosse.

— Há algumas informações sobre as Relíquias que você não sabe. Estarei passando elas para você agora, — eu disse, respirando fundo.

— Que espécie de informações são essas? — ela me perguntou desconfiada. Eu realmente tinha nascido com a pior personalidade para lidar com essa situação. Mesmo o som dela respirando me irritava profundamente.

Mas eu tinha que manter a calma. Manter a calma e falar.

— Você obviamente não conhece a história da criação das Relíquias, — eu disse. Não era uma pergunta. Se ela soubesse a verdade, não seria tão estúpida em relação a mim.

— É claro que não sei. O máximo que eu posso imaginar é que elas foram feitas com alguma arte suprema e postas em uma crisálida, sendo alimentadas até criar um certo nível de consciência e autossuficiência, — ela disse especulando.

— É um bom palpite. Na verdade, é o melhor palpite que já deram sobre a origem desses poderes até hoje, — eu elogiei.

— Então é isso, vamos conversar sobre as especulações de origem das Relíquias? — ela perguntou impaciente. Ela fazia questão de deixar bem claro na expressão dela que ela não me suportava. Nem era necessário. A mente jovem dela deixava transparecer todo aquele ódio sem propósito por mim. Ela era praticamente um livro aberto na minha frente.

— Não especulações… fatos. Eu vou lhe contar uma história, — eu disse com a minha expressão mais séria. Ela precisava entender a importância da informação que eu queria passar para ela — E preste bastante atenção pois detesto me repetir:

“Antes do Existir, haviam 4 entidades ancientes que conviviam além do tempo e do espaço. Brah, entidade da criação; Shi, entidade da transformação; Vix, entidade da sabedoria; e Dhar, entidade da organização. Os quatro deveriam trabalhar em conjunto para criar todo o multiverso.

Dhar era muito… transcendental, e não gostava de se misturar com os outros. Preferia ficar recluso, contemplando a obra deles, sendo chamado apenas quando seus poderes fossem necessários. Shi e Vix eram melhores amigos e se davam muito bem, mas Brah não se dava muito bem com Shi, pois eram naturalmente opostos e se auto anulavam.

Os deuses inventaram tudo o que existia, mas provar e sentir tais coisas, era outra história. Com o tempo, depois de observar os humanos por muitas eras, Vix se sentiu contaminado por aquelas emoções humanas e se viu perdidamente apaixonado por Brah. Afinal, para a divindade da sabedoria, não entender uma invenção mortal como o amor era algo que ele não podia suportar… O que era obviamente uma perigosa ingenuidade construída pela ignorância.

Brah, que gostava bastante de Vix, mas não o amava como os humanos, prometeu que assim que entendesse aquele sentimento, um dia cederia a ele e o amaria da forma como ele desejava. E assim os quatro seguiram suas existências.

Quando Brah enfim decidiu que estava pronta para corresponder a Vix e foi procurá-lo, no meio do caminho, encontrou-se com Shi. Os dois não se davam muito bem, mas se respeitavam. Aquele dia, porém, se desentenderam, pois Shi não acreditava que Brah pudesse fazer qualquer contribuição a Vix. No meio da discussão, suas mãos se tocaram pela primeira vez desde suas origens, e uma espécie de feitiço, uma arte suprema, foi estabelecida. O que antes era oposto, agora se tornava complementar. E o amor como o dos humanos surgiu forte e imediato entre os dois.

Vix imediatamente percebeu essa perturbação no tecido da realidade, então ele procurou os outros dois deuses, percebeu o que acontecia, e imediatamente ficou despedaçado. Achou que estava sendo traído pelos dois e sendo feito de idiota pelas costas. O desentendimento foi tão grande que colocaria em risco a existência de todas as coisas, ao ponto que o anciente do tudo e criador de todos os deuses interviu.

Ele ouviu a história e entendeu os três lados. Mas havia um porém: Brah havia dado sua palavra como entidade suprema de um dia corresponder ao amor de Vix, e isso não poderia ser desfeito. Só que como uma entidade, um amor consumado com Shi, não seria jamais esquecido.

O grande anciente de tudo então decretou: que os quatro grandes deuses terminassem de construir até o último pequeno detalhe do multiverso, então os quatro seriam mandados aos mundos mortais e renasceriam indefinidamente até que aquela promessa de amor recíproco fosse cumprida. Ele não iria intervir em nada, por isso as consequências seriam ainda mais terríveis: se Brah encontrasse Shi em alguma encarnação futura, e os dois se apaixonassem novamente, o destino deles seria sempre cada vez mais trágico. A matriz dos seus poderes iriam pouco a pouco perder a divindade, até que isso seria o suficiente para colapsar o multiverso.

E assim, Brah, Shi, Vix e Dhar foram enviados aos mundos mortais, onde viveriam vida após vida, até que pela primeira vez os quatro se encontram vivos ao mesmo tempo, no mesmo lugar.”

Eu terminei de contar essa história incrivelmente rápido. Eu imaginava que Alésia iria me interromper centenas de vezes e depois caçoaria com os pensamentos recorrentes que estava tendo sobre isso ser uma “lenda fajuta” que apenas eu conhecia. Mas ela ficou parada na minha frente, fazendo cara de tédio.

— Já terminou? É isso? Me chamou aqui para me contar um velho conto de fadas esquecido há sabe-se lá quantos milênios? O que isso quer dizer?

Eu suspirei cansado. Eu realmente queria acabar com isso logo. Lidar com pessoas como ela era extremamente cansativo e estressante. Milagrosamente, Isaac era uma boa criança, por que se eu tivesse que lidar com esse comportamento mais vezes, eu já teria matado alguém.

— De fato, foi apenas para isso que eu te chamei, — eu respondi cansadamente, já recostado no trono com a cabeça repousada sobre o braço em cima do suporte lateral.

Ela ainda me encarava irritantemente depois, sem mudar a expressão de tédio e desdém para mim. Arrg! Que vontade que eu tinha de devolver o favor de já ter me acertado para ela..

— Então? Qual a moral? — ela perguntou debochando. — Se é um conto de fadas, deve ter uma moral. Você não me chamaria aqui apenas para me contar sobre uma história sem sentido. O Dhar dessa história realmente é o que está envolvido contra o império? Ele por acaso tem alguma personalidade megalomaníaca a ponto de se achar um deus real?

— Pare de ser estúpida um minuto! — eu ralhei. — Eu estou exausto e ainda tenho que passar o resto da noite trabalhando! Tive que limpar a merda que você jogou na minha porta, e ainda tenho que aturar a sua birra de criança marrenta! Será que dá para se comportar com dignidade uma vez na vida e parar para perceber que eu nunca estive contra vocês!? Você sinceramente me dá vontade de torcer o seu pescoço até você virar migalhas para vermes.

Eu briguei com ela colocando para fora um pouco da minha frustração. Obviamente, Henry não estava levando a nossa conversa do outro lado também. Alésia suspirou cansada e me deu uma folga:

— Ok, majestade! — ela tinha que enfatizar meu título com ironia… — Perdoe-me pela minha falta de educação. Você já me contou a sua historinha e eu a ouvi calmamente. Então eu já posso ir?

— Pra variar, reflita por um momento para entender a história! Ela é real! Você mesma pode sentir isso.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

  1. Por um segundo duvidei da mc 😐
    Ela não entrou em desespero e nem fez idiotice aplaudo isso 😌
    É sempre mais difícil enfrentar o problema do q evita-lo

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