DCC – Capítulo 135

Deuses Caídos

 

Alésia Latrell:


Ótimo. Agora eu tinha que ficar aqui escutando Marco dizer que o conto de fadas dele era real. Será que ele também tinha algum distúrbio megalomaníaco que nem esse tal Dhar? Apesar de Henry dizer que não, eu sempre tive essa sensação de que esses dois tinham alguma relação.

— Nesse momento, eu não preciso que você acredite ou não. A essa altura do campeonato, pouco me importa, na verdade… — Marco falou. Ele parecia estar à beira de desmaiar de sono a qualquer momento, como se estivesse fazendo força para se concentrar.

— Então, pra que me contar? — eu perguntei agoniada.

— Por que é a verdade… Era minha função te contar a verdade. — Ele continuou explicando: — As Relíquias não são crisálidas supremas. Elas nada mais são do que os poderes ancientes vivos desses seres divinos, que se separaram de suas almas originais quando elas encarnaram no mundo dos vivos.

— Certo… então as Relíquias pertencem aos deuses que criaram esse universo. O que você vai dizer agora? Que precisamos encontrar as almas desses deuses também? — essa história era muito bizarra. E ele realmente estava falando sério.

— Não… Eu já encontrei as almas… — Marco disse cansadamente.

— Então? Temos que devolver as Relíquias para as almas desses deuses ou o que?

— Também não. Você não estava prestando atenção? Cada Relíquia já está em posse de seu legítimo proprietário. Eu disse no final do conto, não reparou? — ele disse com aquele tom de voz irritante como se tivesse me tratando como criança, então repetiu o final da historinha — “E assim, Brah, Shi, Vix e Dhar foram enviados aos mundos mortais, onde viveram vida após vida, até que pela primeira vez os quatro se encontram vivos ao mesmo tempo, no mesmo lugar.”

— O… o que? — eu perguntei um pouco confusa com as palavras dele.

— Você, Alésia Latrell, guardiã da Relíquia da Criação, é uma encarnação humana de Brah, entidade suprema da Criação de todo o universo, — Marco disse, acenando a mão como se estivesse jogando uma informação qualquer.

— Por que está dizendo isso?

Mas ele ignorou minha pergunta e continuou:

— Henry Siever, guardião da Relíquia da Transformação, é uma encarnação humana de Shi, o deus que transforma tudo em todo o universo.

— Espere, isso que você está dizendo…

Mas Marco ignorou minha interrupção e continuou:

— Eu, Marco, sou a encarnação humana de Vix, deus supremo da Sabedoria. E eu presumo que Henry já deva ter te falado uma ou duas coisas a respeito de Dhar, mesmo que ele não saiba exatamente quem Dhar é…

Tudo o que Marco estava falando parecia um monte de absurdos. Porém, alguma coisa dentro de mim chacoalhou ao ouvir o que ele contava. Uma das coisas que Henry mesmo nunca havia duvidado em Marco, por mais que o detestasse, era que Marco, apesar de ser extremamente sacana, era sempre “honesto”. Afinal, ele tinha virado o imperador. Ele não iria querer me vender uma historinha como verdadeira, pondo em risco todo o poder que ele tinha apenas para brincar com a gente, ou iria?

E ainda por cima Dhar. Um ser capaz de manipular boa parte da galáxia para fazer com que os humanos lutassem entre si e causar a Grande Guerra Xenofóbica.

— Você está dizendo sandices… — foi a única coisa que eu pude responder.

Marco se levantou, com um olhar repentinamente alarmado. Parecia que alguma coisa tinha acontecido e agora estava com pressa para terminar a nossa conversa. Eu estava me saindo muito bem nas aulas de onisciência, mas não ao ponto de levar para a prática e me dar bem contra uma pessoa experiente, ainda por cima contra Marco, que era dito o mais forte de todos os oniscientes. Ele ergueu a mão em minha direção e uma impressionante aura controladora foi posta sobre mim. Eu claramente vi como se a mão dele entrasse em minha mente, em minhas memórias em direção uma em específico que eu havia intencionalmente trancado. Era a mesma arte que ele tinha usado nas meninas. Ele estava fazendo o mesmo em mim!

— Não pense que um obliterante pode se esconder de mim, estando no meu palácio. — Ele disse: — Obliquação é a minha antítese divina natural. Como eu não a reconheceria? Foi o erro daqueles patéticos infelizes de Kanis. Se entregaram de bandeja para mim. Então era óbvio que você tinha esse poder desde o início…

— Arrrr… o que você está fazendo? — a pressão que ele estava impondo sobre mim era tão forte que perdi o controle dos meus membros e de repente estava sentindo meu corpo se contorcer descontroladamente.

— Suas memórias estão em uma região muito profunda. Se você não resistir, vai doer menos, afinal você não tem poder para me enfrentar nessa forma, mesmo que eu esteja te encarando com apenas um autômato, — Marco disse passivamente. — Mas resista! Ainda quero ver um pouco da sua cara de sofrimento por toda raiva que você me fez passar.

Eu sentia as garras de Marco entrando em minhas memórias e rasgando as paredes que eu tinha construído com a obliquação como se fossem papel. Ele estava indo atrás de uma memória em específico. Eu fiquei aterrorizada.

— Pare! Eu não posso… eu não devo ver essa memória! — eu gritei para ele, mas ele sequer se importou. Eu sequer sabia se minha voz estava saindo da minha boca ou era a minha mente gritando. Ele escavou mais e mais fundo em minha mente, até abrir o selo que eu mesma havia criado quando a verdade tinha caído sobre mim.

Eu era a Criação. A memória inundou meu corpo como uma iluminação e um poder impressionante e aterrorizante ao mesmo tempo.

A memória que ele havia libertado era a memória de quando o corpo de Henry havia morrido em meus braços e eu havia lidado com Louie e Emil. Eu era mesmo a Criação. Literalmente. Eu não estava apenas guardando a Relíquia. Ela me pertencia por direito. Ela era minha. Eu era uma só com ela.

Mas esse conhecimento abria um sentimento de poder e grandeza. Era tão absoluto que eu não poderia conter, como se eu fosse implodir a qualquer momento.

— Pare! Eu… ainda não é a hora! Eu ainda não sou capaz de suportar esse poder com esse corpo! — Eu gritei enquanto me contorcia com aquela energia nova que fluia em mim como se quisesse me engolir.

Marco retirou as garras das minhas memórias e travou novamente aquele sentimento de divindade me libertando da pressão esmagadora que caía sobre mim. Mas, de alguma forma, apenas os poderes e os sentimentos foram travados. As memórias e o conhecimento que veio com elas permaneceu. Era como ele tinha feito com Briane. Ele libertou a memória, mas de alguma forma trancou as consequências traumáticas delas.

Lágrimas escorriam dos meus olhos. Eu já estava caída no chão, ainda me contorcendo com a repercussão do despertar da Relíquia da Criação dentro de mim. Eu simplesmente era incapaz de suportar aquela quantidade de poder. Mas agora eu entendia. Eu era a encarnação de Brah, deusa da Criação. Ou pelo menos uma sombra do que Brah já tinha sido.

— Henry sabe? — foi a primeira coisa que me ocorreu em perguntar.

— Não. E ele nem pode saber. Ao contrário de você, o corpo dele é mais resistente. Se ele se recordar da identidade de Shi, e despertar a totalidade do poder dele… em um momento de fúria qualquer, ele poderia se transformar no advento da Destruição. E nada nesse universo poderia ser poupado. Além do que, Henry é extremamente passional. Ele não escutaria nem mesmo você se ele tiver um acesso de fúria.

Eu respirei fundo várias vezes, tentando me reequilibrar, e voltar a ficar de pé. Quando finalmente a dor e as lágrimas cessaram, eu comecei a pensar em tudo o que tinha sido dito.

— Então realmente não são apenas três Relíquias… são quatro…

— De certa forma, são três mesmo. — Marco explicou: — Apesar de suas almas terem se ligado às suas respectivas relíquias, vocês ainda não se incorporaram como um só. A prova disso é que você não tem capacidade suficiente para lidar com o próprio poder. Mas Dhar já está completamente fundido com o dele. Ele é verdadeiramente um deus agora.

— E qual é o plano de Dhar? — eu perguntei com um calafrio.

Marco respondeu como se fosse óbvio:

— O advento da Destruição.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

4 Comentários

  1. Esconda. Minta. Seja desonesto. Traia aqueles q ama pelo “bem” deles. 😒 E sempre da certo 😧
    Vixi a alesia vai acabar na onda do marco 😫
    De acreditar q os outros são burros demais para cuidar da própria vida 😬

  2. Agora eu me imaginei como-se fosse o Henry final disso tudo, todo mundo sabendo um segredo sobre mim menos eu.
    Valeu pelo capítulo Nega Fulor.

  3. Por que eu sinto que a alésia passou de uma figura dominante e com segredos para uma figura traumatizada e forçada a esconder a verdade pelo “bem” de quem ela ama
    Tipo uma princesa escondendo a verdade chocante do herói dela.

  4. Ai, deu uma confusão, ela falou que amaria o imperador mas é apaixonada de verdade pelo Henry e como ela disse que amaria o imperador deu merda? Em miudos é isso?

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