DCC – Capítulo 137

O descontrole de Marco

 

Ele disse isso, como se fosse algo tão repulsivo que imediatamente eu fiquei ofendida.

— Eu que deveria dizer isso! Quem em sã consciência se apaixonaria por você? Eu posso não ter nenhuma das minhas memórias de vidas passadas além de algumas que pertenciam a Nádia, então tenho certeza que eu nunca corresponderia alguém como você, nem que você renascesse mais mil vezes.

— Você não sabe do que está falando, — ele disse raivoso, com uma expressão de profundo desdém.

— Como não saber? Você mesmo não disse que somos a mesma alma? Eu te repudio, e Nádia não deve ter sido diferente.

— Humpf. — Marco disse virando a cara: — Você mesma me disse isso. Não pense que o destino será feliz com você e seu amor por Henry. Eu tentei ajudar uma vez, separando Nádia de Henry, mas além de ganhar a inimizade eterna dele. Nádia preferiu morrer do que tentar me corresponder. Tão fraca e repulsiva… — ele exalava uma raiva que parecia estar reprimindo há anos em minha direção. — Eu não a amava quando a roubei de Henry. Fiz apenas o que o destino mandou que fizéssemos. Eu contei a ela a mesma história que estou contando a você. E nem mesmo pelo filho dela… ela preferiu morrer do que tentar.

— Isso só prova o quão repulsivo você é! — eu o acusei de volta. Mesmo sabendo pela primeira vez da motivação de Marco para separar Henry de Nádia, a forma como ele falou só me deixou com mais raiva. — Eu preferiria seguir a opção número um e me suicidar a ter que ficar ao seu lado.

— Eu não esperaria mais de você, — Marco disse com desdém e um olhar sombrio. — Eu também nunca a corresponderia, mesmo que você viesse se rastejando até mim pedindo por misericórdia. Eu escolheria ver você morrer na minha frente.

— Veja só você tentando ser o superior… — eu disse exasperada. — Não é à toa que a morte é uma opção melhor do que você! Nádia nunca seria capaz de te tolerar… É por isso que ela te odiava tanto!

*PAM*

Um forte impacto caiu sobre mim, me arremessando contra a parede do outro lado da sala, que atingi a parede com um estrondo. Eu cruzei meus braços na minha frente em posição defensiva. Marco tinha me atacado. A expressão dele era de puro ódio. Que merda!

— Você não sabe do que está falando. Você não entende nada de tolerância! — ele colocou as palavras para fora entre os dentes cerrados como se estivesse prestes a cometer uma loucura. De alguma forma eu tinha finalmente atingido algum ponto fraco dele.

Eu tateei ao meu redor e agarrei a primeira coisa que consegui. Era um atiçador de lareira. Esse mimadinho tinha até lareiras para queimar lenha de madeira de verdade no palácio! Qual era o tamanho do desperdício pra isso? Apenas sentindo a raiva e por puro reflexo por conta do ataque dele, eu atirei o atiçador contra Marco, que atravessou pesadamente a cabeça do autômato bem dentro do olho direito.

Droga. Eu estava ficando sem prática. Eu devia ter atingido no meio da testa para interromper completamente todas as funções do autômato. O sistema de projeção holográfica começou a piscar e falhar, até que apenas um autômato frio ficou visível, mostrando um buraco quebrado onde o atiçador tinha atravessado e de onde saía a estática que escapava dos circuitos internos.

— Qual é o seu problema? Será que não dá pra viver sem ser um cretino? — eu reclamei me colocando de pé e tentando ajeitar minha roupa amarrotada. Vários dos cristais coloridos que flutuavam ao redor do meu vestido pareciam ter se desordenado.

Outra pancada surda, e eu senti meu fôlego escapar de vez. Foi tão rápido que eu nem senti a dor de imediato. Que tipo de burrice era essa a minha de eu ter baixado a minha guarda pra conversar com um adversário? O autômato quebrado de Marco tinha cravado o atiçador no meu colo, abaixo das costelas, atravessado pelo outro lado ao ponto de me deixar estacada na parede. Sangue jorrava como uma cascata.

Muito sangue.

Mesmo após ter me atingido, o autômato quebrado de Marco urrou de raiva e frustração, como se estivesse expressando todo o descontentamento que ele não poderia expressar com o corpo real. Ele invocou mais outro atiçador de lareira e o segurou com as mãos trêmulas como se fosse cravar em mim de novo. Mas a mão dele hesitou duas vezes antes dele dar a volta e começar a descarregar a raiva na poltrona que estava, até começar a falhar e desconjuntar, ao ponto de cair com os movimentos falhando no chão… e o atiçador ainda tremendo entre os dedos, enquanto eu sabia que ele me olhava de uma forma perturbadora atrás daquele monte de lata e da poltrona destruída.

— Não se preocupe tentando decidir o que fazer. Todos são burros demais para ver a verdade. Então eu decidirei por todos, — Marco disse quase cuspindo as palavras em mim de tanta raiva depois de ter perdido completamente a compostura.

O que foi isso? Depois ele dizia que Henry que era passional? Isso por acaso era alguma medida desesperada?

Sem dizer mais nada, Marco simplesmente desligou remotamente o autômato, que ficou caído no chão imóvel, me deixando lá sozinha. Por algum motivo, eu não estava conseguindo arrancar o atiçador da parede, nem me soltar. Essa porcaria ia doer. Comecei a forçar o meu peso para frente. Se não dava para puxar o atiçador do meu corpo, eu puxaria meu corpo do atiçador.

Definitivamente, se eu ainda fosse uma Brard comum, isso seria muita burrice, já que o próprio atiçador impedia que a hemorragia fosse maior. Se eu removesse aquilo do ferimento sem assistência médica, eu acabaria sangrando até a morte. Mas esse não era o meu caso. Eu respirei profundamente e forcei meu corpo para fora da parede, e saí voando.

O sangue começou a jorrar mais ainda com a ferida aberta. Agora essa merda estava doendo pra caramba! Respirei fundo deixando um gemido leve escapar da minha boca, e coloquei a mão em cima. Pequenos raios saíam de mim deixando marcas de queimadura na mobília nobre ao meu redor, e aos poucos cauterizando o ferimento e estancando a hemorragia.

Eu respirei fundo mais uma vez, dessa vez para me acalmar. Eu tinha escolhido Henry. E era Henry que eu iria amar até o fim das nossas vidas. Se esse Dhar queria se aproveitar da nossa união pra destruir o universo, então eu destruiria Dhar primeiro. Que se dane a corrupção. O que de pior poderia acontecer? Eu querer me tornar uma ditadora soberana sobre todos os seres vivos e reforjar o universo de acordo com minha vontade egoísta? Que seja. Antes eu do que Marco ou Dhar.

Só que, naquele momento, mesmo respirar era imensamente doloroso. Fui até a porta, mas por algum motivo, não consegui abrir. Marco provavelmente havia feito algum feitiço para me selar naquele lugar. O melhor que eu poderia fazer por enquanto era tentar estancar o sangue. Eu estava acostumada com a dor, mas ainda era extremamente inconveniente.

Henry era o amor da minha vida, e eu iria lutar para continuar com ele, custe o que custar. Se Marco se atrevia a dizer que tudo o que estava acontecendo era culpa de Dhar, então ele provavelmente também tinha decidido o próprio caminho de alguma forma. Assim como a Grande Guerra Xenofóbica afetou a vida de Henry e Nádia. Toda essa movimentação de crisálidas obliterantes, esse Dhar estava fazendo isso para nos atingir. E ele provavelmente esperava que Henry fosse ceder a ele.

Droga.

Que Dor.

Eu tinha que sair dali! Por que Marco tinha me deixado presa alí? Eu podia sentir a magia dele ao meu redor me cobrindo e me prendendo completamente. Eu podia sentir que Henry havia percebido alguma coisa sobre a minha condição atual mas eu não conseguia mandar nenhuma mensagem para tranquilizá-lo. Tomara que ele não fizesse nenhuma besteira… Onde ele estava?

Parecia ter se passado uma eternidade quando o sol finalmente nasceu. Marco estava de volta, com uma expressão cansada completamente amassado, guiando Henry.

— Henry! — eu quase gritei com uma mistura de animação e preocupação.

Mas alguma coisa estava errada? A expressão de Henry… O que tinha acontecido?

— Seu precioso Henry não pode mais te atender. Ele está sob o meu controle agora.

— O que foi que você fez, seu cretino? — Minha voz saiu fraca e rasgada. — Henry! Fale comigo! Henry!!!

O que estava havendo? Parecia que Henry tinha se transformado em uma casca vazia. Não fosse pelo fato de que eu podia sentir a proximidade da Relíquia da Transformação, eu nem diria que aquele era Henry. Ele nunca olharia para mim daquela forma vazia.

— Certo, garota. Fique aí paradinha… não que você tenha escolha, — Marco disse com um ar carregado, como se estivesse se esforçando mais do que o normal para manter a pose. Como se estivesse sentindo dor, ele caminhou lentamente até a poltrona destruída e se sentou bem devagar nela ao ponto de ficar completamente pálido. Se não fosse uma situação tão extrema eu juraria que ele estava tentando tirar onda com a minha cara.

— Henry, escute. Você vai remover a Sabedoria do pulso dela e depois fazer como combinamos.

— O que você está falando? — eu perguntei para Marco, mas fui ignorada com sucesso.

Henry sacou o kit médico básico que sempre carregava consigo de dentro das roupas. depois tomou a minha mão, e começou a tentar puxar a pulseira, que é óbvio, não sairia.

— E Henry, para cada minuto que ela resistir, por favor, se auto mutile.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

8 Comentários

  1. Mano, agora eu tô mais do que torcendo para alésia se juntar com Dhar e destruir o universo, só para ver o Marco chorando e implorando pela vida !!!!!! Kkkkkkkkkk

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