DCC – Capítulo 139

 Amigas

 

Eu permaneci no chão por vários minutos, ainda sentindo a minha mente vazia. Eu tinha que tomar uma decisão. Henry estava certo. Se eu permanecesse, eu iria apenas ficar no caminho. Então, eu enxuguei minhas lágrimas e fiz o caminho de volta até o primeiro salão. Todas as minhas amigas ainda estavam lá esperando, enquanto todos os outros convidados já haviam ido embora. Dois guardas ladeavam a escadaria para o segundo salão, impedindo a entrada de pessoas não autorizadas.

Um olhar de alívio encheu os olhos delas quando me viram, mas logo foi substituído por um olhar de confusão.

— Há algum problema, Alésia? — Isabel perguntou ao ver minha expressão. Eu ignorei a pergunta dela.

— Amelie, preciso falar com você a sós um momento, — eu disse direto ao ponto, tomando a decisão ali na hora. Amelie se levantou confusa e me seguiu.

— O que está havendo? Eu sinto que sua aura está uma bagunça! — Amelie disse enquanto me seguia.

— Você conhece o meu segredo e o de Henry, não conhece? — eu perguntei, me virando para ela, enquanto ao mesmo tempo estabeleci uma barreira à prova de som ao nosso redor.

Amelie mostrou uma expressão surpresa. Ela com certeza não estava esperando por essa pergunta. Mas ela acenou com a cabeça, confirmando. Eu mesma tinha usado a Sabedoria para ensiná-la durante o tempo que passamos juntas. E ela era extremamente inteligente. Então, é claro que ela tinha entendido as entrelinhas.

— Eu sei que havíamos conversado mais cedo sobre continuarmos juntas, mas… Eu fui encurralada em uma posição em que eu não tenho escolha a não ser fugir. Henry vai permanecer preso a esse palácio maldito. Não há risco nenhum para você, por isso eu queria lhe pedir para ficar aqui e cuidar dele por mim, — eu disse sem pormenores.

— O-o-o que aconteceu? — Amelie perguntou assustada.

— Eu não posso dizer. Eu não vou te recriminar se não estiver disposta. Eu estou apenas lhe pedindo um favor como amiga, — eu continuei. Seria bom tê-la comigo apesar de tudo, mas me partia o coração deixar Henry para trás sozinho.

Amelie baixou a cabeça pensando um pouco. Depois, disse:

— Eu estou preocupada. É claro que eu farei o que me pede. É o mínimo que posso fazer, mas eu tenho uma condição, — ela disse, parecendo decidida.

— Qual?

— Lace minha alma, — ela disse simplesmente.

Amelie sempre tinha tido uma linha de pensamento muito simples. Como todo bom Jomon que se preze, ela tinha objetivos fixos na vida, para os quais ela trabalharia para fazer sua parte, sempre pensando no que era melhor para o grupo. Eu e Henry éramos o grupo dela.

— Não é necessário chegar a tal ponto… eu não quero controlar você ou decidir o que você tem que fazer, — eu disse um pouco constrangida.

— Eu não lhe disse na época que nos conhecemos? Não é questão de controle. É questão de proximidade. Se você laçar a minha alma, eu vou sempre saber que você está bem e o que precisar de mim, mesmo que não tenhamos como nos comunicar. E se a minha alma já estiver laçada, não haverá nenhuma chance de outra pessoa tentar me controlar.

— Você realmente está ok com isso? — eu perguntei de novo para ter certeza. Amelie apenas confirmou com a cabeça, enquanto ria orgulhosa de si mesma. — Certo. Então eu vou te entregar isso… — eu levantei a manga do meu braço esquerdo e removi o console Sofia, que estava enrolado. — Eu lhe concedi acesso, então apenas você poderá usar além de mim, mesmo que outras pessoas ponham a mão. Eu tenho outros, por isso, poderemos nos ver sempre em um espaço neutro e seguro. Guarde bem escondido e use através do seu Link pessoal.

Amelie recebeu o console, como se estivesse recebendo uma peça de arte muito delicada e cara — bom, realmente foi bem caro. Mas eu tinha feito especificações estritas sobre a qualidade da resistência. Eu precisaria apenas baixar as diretrizes que eu tinha instalado nesse dispositivo nos outros que eu tinha de reserva, e eu teria todo o acesso que precisasse sobre tudo e qualquer coisa.

— Agora o Laço da Alma… — eu disse me aproximando dela. Eu segurei seu rosto entre minhas mãos e toquei os lábios dela com os meus. Imediatamente a sensação familiar da energia da alma de alguém passando para o meu corpo me preencheu. E tudo o que era a Amelie agora também estava comigo, assim como Henry. — Você é livre para partir a qualquer hora que quiser, — eu acrescentei para tranquilizá-la. Talvez mais para mim do que para ela. Eu a amava muito para prendê-la a mim se essa não fosse mais a vontade dela.

— Não será necessário. Eu esperarei por você ao lado dele até o dia que volte, — Amelie disse com firmeza e me abraçou com força.

— Agora vá lá para cima. Está tendo uma reunião e depois eu vou querer saber todos os detalhes… — eu disse apontando para o console, que ela rapidamente guardou debaixo da roupa.

Amelie se afastou e foi em direção às escadas. Os dois guardas ainda balançaram de seus lugares como se fizessem menção de impedir o caminho dela, mas foram prudentes o suficiente para me observarem primeiro.

Eu fiquei vendo as costas de Amelie até o último momento em que ela atravessou a porta no alto das escadas, então dei meia volta e fui em direção às outras garotas que me esperavam completamente confusas.

— Onde está Amelie? — Michelly perguntou.

— Amelie está junto com Henry, — eu respondi.

— E onde está Henry? — Márcia perguntou.

— Henry vai ficar no palácio. Vamos, devemos ir antes que termine a primeira hora do dia, — eu disse indicando a saída.

— Está tudo bem? — Isabel perguntou de novo.

— Agora não, — eu respondi diretamente, seguindo com as garotas para o lado de fora. — Guarda! — eu chamei aleatoriamente. Instantaneamente, um dos funcionários do palácio apareceu na minha frente de joelho.

— Em que posso servi-la, senhorita? — ele disse bastante prestativo.

— Por favor, providencie uma daquelas plataformas de deslocamento até a minha nave.

— Imediatamente! — ele disse desaparecendo do lugar. Poucos segundos depois ele reapareceu trazendo uma plataforma inteira com ele. — Aqui está, senhorita. Por favor, faça uma ótima viagem.

Eu murmurei alguma coisa em agradecimento e subi na plataforma. As outras meninas me seguiram em silêncio. Elas conseguiam sentir que algo estava errado. A plataforma era realmente eficiente. Em poucos minutos já estávamos todas embarcando na nave de Henry. Bom, acho que eu poderia dizer que era minha nave agora.

— Pode nos dizer o que está acontecendo agora? — Briane perguntou, quebrando o gelo.

— Eu estou entrando em guerra contra o império, — eu disse como se fosse algo simples. — Vou devolver vocês para a academia, e iremos nos despedir lá.

— O quê? — Michelly perguntou quase gritando. — Como devemos interpretar o que está dizendo?

— Não há outra interpretação. Eu estou dizendo diretamente o que quero. A partir do momento em que eu devolver vocês para a academia, nós iremos cortar laços definitivamente.

— Isso… você recebeu alguma retaliação por ter me ajudado? — Briane disse nervosa.

— Não é nada que envolva você. A nossa batalha hoje contra Kanis foi uma vitória. Já é uma coisa que eu venho pensando tem um tempo… Eu apenas me dei conta que há uma porção de gente podre igual a eles por aí. E eu irei caçar eles todos.

— Mas o que isso tem a ver com cortar relações conosco? — Márcia insistiu.

Eu suspirei cansada. Era pelo mesmo motivo que Henry não me queria perto dele. Eu amava minhas amigas. Eu não poria elas em nenhuma posição em que elas pudessem ficar em perigo. Então, eu escolhi cuidadosamente as minhas palavras:

— Vocês ficariam no meu caminho. Nesse momento, eu não preciso de mais atrasos.

Briane se levantou do assento que estava e veio até mim. Sentou no banco do copiloto, respirou fundo, e sem mais nem menos, me atingiu com força no rosto. O barulho do tapa ficou ecoando em meus ouvidos por vários segundos e, um pouco aturdida, acabei deixando a nave balançar um pouco.

— Fale a verdade. — Briane reclamou. — Você sabe como foi complicado para mim sofrer calada? E você além disso quer se isolar achando que vai resolver alguma coisa?

— Você não entende… — eu disse entredentes, me forçando a continuar calma.

— É claro que não! Nunca vou entender se você não explicar. Mas também não me peça para aceitar calada que você vá sofrer sozinha. Você acha mesmo que nós somos um empecilho? Que iríamos ficar no seu caminho? Você nos considera tão pouco ao ponto de nos deixar pra trás?

— Não… não é isso! — eu tentei dizer alarmada.

— Às vezes você age como se fosse uma criança indefesa e ingênua, mas eu sei o quão forte e independente você é, — Isabel disse olhando para o lado de fora, enquanto a cidade passava rapidamente. — Se você realmente precisa se afastar de nós… eu não ficarei no seu caminho. Mas não fale como se fosse algo que você deseja. Mesmo sem usar qualquer poder onisciente, eu posso ver que você está sofrendo.

Eu olhei para as meninas, uma a uma. Todas elas pareciam decididas. Nenhuma delas tinha a intenção de me abandonar e deixar por isso mesmo. Sem perceber, eu estava com as pontas dos dedos segurando o meu rosto onde eu ainda sentia pele latejar pelo tapa de Briane.

Sem suportar mais, eu desabei.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

7 Comentários

  1. Eu só não entendi uma coisa a palavra”desabei” era tipo no sentido de desmaiar ou de chorar aos prantos?

    1. é no sentido de desabar emocionalmente, quando a pessoa simplesmente não tem mais estrutura de manter as aparências de forte…

      1. Obrigado Nega Fulor, eu tinha imaginado que ela tinha desmaiado devido ao estresse psicológico e tudo mais ou tivesse simplesmente chorado no ombro da briane para desabafar a tristeza e o peso na consciência pelo fato de não puder fazer nada com relação ao Henry e o Marco.

  2. Sendo sincera eu apoio o motivo de alesia de querer guerrear
    E entendo tbm é da natureza humana ter ressentimento e a verdade seja dita Marco abusa da capacidade da Alesia e Henry tolerarem ele
    Sendo cruelmente honesta é tudo culpa do egoismo da sabedoria… só porque um se apaixona por vc. Vc só pode se apaixonar por ele e o resto q se ferre?
    Guerra nele. Quero q o Marco ja a capacidade da “idiota” da Alesia de revida
    To comecando a achar que a ordem é o mocinho já 😐

    1. Bem, a maior vítima dessa bagunça foi a ordem, não fez nada e foi “rebaixado”: a sabedoria se sentiu traída pela criação ,a criação e a transformação acidentalmente se apaixonaram e por causa da promessa da criação foi criado todo esse problema, ou seja, todo mundo tem culpa, menos a ordem ahuauhauhauahuhauhauha. xD

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