DCC – Capítulo 141

Livro 2 – Destruição

Depois de se adaptar aos poucos a sua nova vida e todas as mudanças boas e ruins que aconteceram, Alésia vê tudo o que construiu ruir ao ter que ir embora de Keret sem Henry ao seu lado. Motivada apenas pelo desejo de se tornar mais forte para reaver o livre arbítrio do marido, ela parte em busca de uma forma de transformar a si mesma.

Mas nem sempre os planos sequem o caminho desejado e as vezes existem várias respostas para um único dilema. Depois de descobrir tudo sobre as relações entre as almas divinas, o que Alésia irá fazer? Lutar pelo direito de ser feliz com as próprias escolhas, ou sucumbir para um adversário ainda maior?

O livro 2 está dividido em 4  arcos.

Caso ainda não tenha acompanhado, esse é um ótimo momento para acessar os capítulos extras da história na página Cosmologia.

 

Arco 1 – Reboot


Você é um humano!

 

Marco Gionardi:


— Pai, o que está acontecendo? Está tudo bem? — Isaac perguntou preocupado do lado de fora da minha suíte.

Eu acordei sentindo minha cabeça revirar depois de ouvir o chamado. Eu tinha passado três dias de cama dessa vez. O esforço para reger o festival já era enorme por si só. Ainda mais depois do estresse de ter que lidar com Henry. Parecia que até mesmo o fato de existir doía.

Henry estava recolhido na antiga suíte dele, onde tinha passado os últimos anos trancado por vontade própria, mas dessa vez, meio que estava sendo obrigado. Ele estava tão exaltado que eu podia sentir a ira dele fluir pelas paredes e empestear todo o palácio. É claro que Isaac também conseguia sentir. E ele, mais do que qualquer um, estava morrendo de preocupação.

Eu me sentei com dificuldade na cama tentando movimentar um pouco os meus braços recém remendados depois de Henry tê-los torcido até os ossos partirem. Aquele casal idiota tinha realmente conseguido me enfurecer ao ponto de eu quase perder o controle. Se eu não tivesse agido contra Alésia naquela hora, Henry com certeza teria me matado.

Se bem que ela tinha merecido. Aquela peste tinha muita vontade de falar o que pensava, sem pensar nas consequências… tinha sido uma boa lição para ela. Porém, eu tinha que reavaliar se a decisão que eu tinha tomado naquele momento de raiva tinha sido mesmo correta. Em minhas mãos, eu segurava uma crisálida. Eu ainda não tinha certeza se deveria fazer isso ou não, mas do jeito que as coisas estavam, depois de como aquela conversa tinha progredido… não fazia sentido eu adiar mais.

Eu precisava tomar posse da Relíquia da Sabedoria. Com Henry irredutível, e eu sem poder fazer nada contra Alésia depois de ter feito mais um acordo com ele — de que ele não me matava, e eu não matava ela — ele ainda tinha exigido que eu a deixasse partir em paz.

O problema era que a volta de Dhar implicava muitas coisas além de um provável desequilíbrio na estrutura do império. Eu precisava de tempo para me adaptar à Relíquia e conseguir acessar o poder divino que ela me permitiria. E tempo parecia ser o que eu menos tinha nesse momento.

Mas eu também não era um tolo de simplesmente me conectar à Relíquia inteira. Isso com certeza acabaria sendo um tiro pela culatra. Por isso, eu havia decidido partir o poder ao meio. Metade eu devolvi para Alésia, fazendo com que Henry enterrasse dentro do corpo da garota. Assim ela poderia usar os poderes muito mais facilmente, e se ela não fizesse a besteira de deixar os outros descobrirem que ela a tinha. Ela nunca seria descoberta.

A outra metade ficaria comigo, o que me daria acesso aos poderes, sem me comprometer mais ainda com a teia do destino.

— Eu estou bem, filho! — respondi ainda da cama, para tranquilizar Isaac. Eu podia sentir a angústia dele querendo conversar e entender o que tinha acontecido. Ele queria entender por que Henry estava no palácio, longe de Alésia e em estado de completa fúria. — Me dê mais um tempo, que sairei para conversarmos.

Eu olhei para a crisálida na minha mão. Bom, eu já tinha chegado até aqui… não dava simplesmente para voltar atrás.

Eu abri a peça e uma pequena esfera de metal líquido saltou para fora, flutuando no mesmo lugar como se tivesse vontade própria. O metal platinado parecia ser extremamente familiar, como se eu estivesse sentindo falta dele. Eu estendi as pontas dos dedos, e finalmente toquei na coisa.

Diferente da Criação e da Transformação, que perseguiam as almas que governavam o poder, a Sabedoria era a governadora por si só. Ela nunca iria até uma pessoa… a pessoa que deveria ir até ela.

Com um solavanco forte, assim que fiz contato, algo parecia ter explodido em minha mente. Como um novo Big Bang. Minha consciência se espalhava cada vez mais forte e sólida, cada vez mais longe. Cada vez mais informações…  Isso… era muito…

Eu senti o metal líquido finalmente fluir para dentro do meu corpo e se espalhar por cada nervo e cada artéria. Diferente de Alésia, que tinha sido aceita como hospedeira, mas não como proprietária pela Relíquia, em mim, ela iria fazer parte do meu próprio corpo, vida e alma. Eu conseguia sentir cada pequena parte do meu corpo, até cada minúscula célula. Era como se meus sentidos tivessem sido ampliados de forma absurda.

Eu conseguia ouvir uma sinfonia de sons gerados pelas batidas do meu coração e o barulho de corredeiras do meu sangue circulando dentro de mim. Parecia que mesmo as sinapses nervosas que transmitiam cada pequeno comando do meu sistema nervoso também tinham um som, uma sensação, uma cor, e até mesmo um cheiro e um gosto.

Tudo tinha sempre estado lá, eu que nunca tive a capacidade de absorver aquilo tudo. E eu ainda não tinha. Trinquei os dentes com força tentando suprimir aquela zorra de sentidos. Mas que droga! Será que eu não iria conseguir dar conta?

Pare de pensar em si mesmo como um deus, enquanto ainda vive como um humano.

Uma voz feminina soou na minha mente. Eu abri os olhos aturdido. Meu quarto estava muito mais colorido e cheio de informações do que nunca. Eu conseguia ver até mesmo as partículas de ar dançando de um lado para o outro de acordo com o movimento da atmosfera.

— Aarg!!! — eu resmunguei, sentindo o incômodo daquelas sensações tremendamente intensas, e ainda por cima… — Quem disse isso?

Você não me conhece mais? — A voz soou de novo, dessa vez com um pequeno tom jocoso de que estava magoada.

— Talvez… eu algum dia conheci? — respondi de volta ainda piscando várias vezes tentando me acostumar. — Por que está aqui?

Não pode deixar a Sabedoria com a garota sem esperar que algum pedaço de nossa alma ficasse agregado à ela.

— Humpf… como se tivesse adiantado alguma coisa… — Que merda. Eu não estava conseguindo lidar com aquele poder todo, e ainda por cima, eu tinha que conversar com ela?

Como eu disse… você não pode pensar em si mesmo como um deus, enquanto ainda vive como um humano. Você é Marco, e não o deus Vix… — ela disse. Eu podia sentir as emoções naquela voz. Era tristeza. — Você também não é nenhuma das suas vidas passadas. Você nasceu com seus próprios sonhos, desejos e aspirações. Você tem a sua própria vontade e personalidade. Não limite a si mesmo pensando no que Vix deveria fazer, e faça o que Marco deveria fazer.

Como se tivesse realmente algum sentido continuar tentando… — eu disse, sentindo o peso da minha própria cabeça e dos meus próprios membros. — Não é como se no fim das contas alguma coisa tivesse dado certo. Agir como humano não adiantou de nada. Então não posso contar com mais ninguém. Se eu não tomar a frente e resolver esses problemas, então tudo será perdido.

Você não deveria simplesmente desistir da humanidade, apenas por que é difícil…

VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE DIZER ISSO PRA MIM! — eu ouvi a minha própria voz gritar. — Que droga… Que droga!!! Você se matou! Você desistiu! Você me transformou no vilão e vem falar para mim que eu não posso desistir?

De repente eu voltei a encarar uma coleção de sentimentos que eu tinha enterrado profundamente na minha alma me negando a encará-los de novo. Estavam todos dançando em mim como uma praga irritante e dolorosa. Medo. Ressentimento. Raiva… Solidão…

— Por que me abandonou, Nádia? — eu cedi à pressão. Pela primeira vez em anos… talvez pela primeira vez em vidas… eu cedi. — Por que abandonou Isaac?

… — A voz no fundo da minha mente suspirou tristemente. — Eu não poderia te dar o que era preciso… foi uma escolha egoísta, mas precisava ser feito.

— E você realmente espera que eu simplesmente te perdoe? Eu te contei a história das Relíquias, mas depois de tudo, eu queria que você fosse feliz, não importava com quem… Eu até mesmo te dei minha palavra de que te devolveria a Henry, quando descobriu que estava grávida dele. Mas foi você quem não quis voltar.

Por que eu sabia que não poderia… eu não conseguiria te corresponder, mas eu sabia que não poderia voltar para Henry nunca. Eu esperava que ele me odiasse, que ele me abandonasse, que ele quem não aceitasse minha futura encarnação, e não você.

Acho que você errou seus cálculos. Sou eu quem Henry odeia. Sou eu quem odeia você…

Então pare de agir como o vilão! — ela me repreendeu. A força no tom de voz dela me surpreendeu, me despertando momentaneamente do turbilhão em que eu estava. — Se não quer fazer parte desse círculo de ódio, não haja como se não tivesse outro caminho…

— Então, o que eu deveria fazer? — Que merda, nesse momento em que eu me sentia mais poderoso do que nunca, eu não conseguia deixar de mostrar minhas fraquezas.

— Faça o que quiser! Viva como um humano. Henry e Alésia são humanos e vão sempre pensar e sentir como humanos. Você não pode decidir o destino de todos como um deus e esperar que eles aceitem. Eu estive disposta a desistir da minha própria vida, do meu próprio filho! Tudo apenas para te dar uma chance… Uma chance ao Marco que você foi um dia, e não uma chance a Vix.

— Mas… eu sou a encarnação de Vix…

Não, você é Marco… Alésia é Alésia, Henry é Henry e eu sou eu. Não encare as almas como uma declaração absoluta que deve ser seguida à risca, mas como um ator que interpreta personagens diferentes em diferentes peças de teatro. Cada personagem é único, e mesmo interpretados pelo mesmo ator, eles não se tornam o ator, nem o ator se torna um deles. Não tente forçar a mão do destino para obedecer à sua vontade. Você não é o ator. Você não é um deus.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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