DCC – Capítulo 146

Chamado

 

Mikal Stanislav:


A menina olhava alarmada para o horizonte ao leste com uma expressão preocupada. Eu podia sentir o receio crescendo dentro dela, mas…

— Eu não sinto a presença de ninguém… — comentei lentamente enquanto ampliei meus sentidos. Normalmente seria irrelevante tentar detectar algum artista em um planeta Jomon, já que o fluxo de pessoas com essas habilidades não era incomum. Mas em um planeta completamente Brard, um artista, qualquer que fosse o tipo, seria facilmente percebido por outro.

— Está realmente longe… mas esse tipo de presença. Isso é muito estranho, — ela comentou.

De repente, ela saiu correndo pela praça e entrou na própria nave. Em poucos segundos, ela já estava partindo sem se preocupar com as leis de tráfego aéreo. Ela realmente era muito selvagem. Com um pensamento, eu abri um rasgo no espaço onde eu estava e diretamente apareci dentro da nave dela. Isso era algo que eu tinha que observar. Afinal, eu ainda não tinha entendido por que Henry Siever iria se atrelar a alguém como ela.

— Por que você veio junto? — ela perguntou sem se distrair do painel da nave.

— Sério, me explique como consegue saber onde eu estou? — eu perguntei de volta. Era chocante ver que ela sabia da minha presença, além de que eu também podia sentir que ela só estava me tolerando porque não tinha sentido nenhuma intenção ruim da minha parte. Porém ela ainda esperava uma resposta. — Eu imaginei, que já que Henry Siever tem consideração por você, e o imperador lhe deu um brasão dourado, não há nada de errado em lhe oferecer meus serviços. Fora que é uma atitude muito estúpida da sua parte correr do nada em direção a uma presença que só você sentiu sem se preparar primeiro.

— O que quer dizer com isso? — A expressão dela suavizou um pouco enquanto parava para pensar. Essa situação realmente parecia estressante para ela.

— Um artista mágico é facilmente discernível por outro artista. Principalmente num planeta onde não há mais nenhum. Foi assim que eu facilmente localizei o endereço que você estava. Longe de mim querer me comparar a alguém como Henry, mas também, eu não sou qualquer um. Se eu não percebi a presença mágica ao mesmo tempo que você, isso só pode ser uma convocação.

— Convocação? — ela perguntou enquanto os olhos se moviam rapidamente de um lado para o outro. Parecia que ela estava consultando furiosamente uma quantidade enorme de informações em seu Link pessoal.

— Alguém deliberadamente escondeu a própria presença, mas enviou um rastro mental que pudesse ser percebido apenas por você. Há algum onisciente que possa querer entrar em contato com você aqui nesse planeta?

Depois que terminei de falar, ela parou a nave bruscamente. Por sorte eu tinha acabado de me sentar confortavelmente com as travas de segurança fixas.

— Poderia ser uma armadilha… — ela comentou, cogitando seriamente essa possibilidade. Com a nave ainda parada no meio do ar, ela se virou para mim e me olhou profundamente, estendendo a mão em minha direção. — Eu posso confiar em você?

Quando eu vi a mão estendida, é claro que eu percebi que ela não estava querendo selar uma parceria ou fazer um mero cumprimento. Ela tinha algum dom para onisciência, então obviamente ela queria me inspecionar. Eu sorri sem jeito. Era uma atitude meio inútil. Eu era um espião profissional, então mesmo que eu não fosse um Siever, eu tinha masterizado meu domínio em onisciência ao meu máximo. A não ser que a outra parte fosse ainda mais poderosa que eu, não havia como alguém conseguir informações sobre mim, ainda por cima sendo uma Brard tão jovem.

Sem receio algum, eu estendi minha mão e agarrei a dela. Era impressionantemente fria, e logo começou a me dar calafrios. Talvez aquela mão não fosse mais orgânica, e sim uma prótese sem vida, mas não prestei muita atenção nisso. O que me chocou foi que eu simplesmente não consegui atravessar a mente dela. A proteção mental que ela tinha era ainda mais poderosa do que a minha capacidade de ver os pensamentos.

— O que é você afinal? — eu deixei escapar chocado.

— Essa pergunta já perdeu a graça faz tempo… — ela respondeu distraidamente enquanto se focava em mim, até que ela finalmente suspirou aliviada e deixou minha mão ir. — Eu posso precisar da sua ajuda agora. Mesmo que seja uma armadilha, eu não posso deixar de conferir quem é que veio até esse planeta e deliberadamente me enviou uma convocação. Minha presença aqui não pode ser conhecida por mais ninguém. Ninguém, entendeu?

Eu só pude confirmar com a cabeça em choque. O pouco tempo que eu observei essa coisinha, ela já tinha me surpreendido absurdamente. Talvez eu precisasse me atualizar sobre as capacidades dos Brards.

Alésia Latrell:


Enquanto eu pilotava a nave, eu obviamente já tinha baixado todo o histórico da vida de Mikal e armazenado num dos consoles Sophia que eu carregava comigo. Enquanto o primeiro estava nas mãos de Amelie, o segundo eu tinha posto nas mãos das meninas que ficaram na academia, enquanto os últimos dois, eu pretendia deixar um aqui em Sátie, e o outro já estava perfeitamente camuflado em meu braço embaixo do casaco.

Eu rapidamente processei todos os dados de Mikal. Ele realmente era um excelente espião leal ao império. Enquanto ele vivia publicamente como um herdeiro mimado e pouco capaz dos Stanislav, que chamava pouca atenção e vivia gastando o dinheiro da família com viagens e gandaia, na verdade, ele era um excelente artista que dominava as três grandes artes mágicas, principalmente a Onipresença, que era a marca registrada da família.

O jeito que ele me olhava e falava comigo, como se eu fosse algum tipo de boneca de brinquedo, me irritava um pouco, mas pelo menos, diferente dos Siever quando nos conhecemos, ele não pensava em mim como inferior, mas como algo diferente e desconhecido. Acho que isso estava ligado à experiência de trabalho dele de não subestimar as pessoas ao redor.

Depois de passar o pente fino em toda a vida dele pela Sabedoria, e não encontrar nada de errado, eu só precisava ter certeza que ele não tinha nenhum pensamento ruim. E mais uma vez eu emprestei o poder da Sabedoria para amplificar minhas capacidades. Não tinha como eu olhar a mente dele com o meu nível atual sem nenhuma ajuda.

Esse “chamado” que eu estava sentindo estava realmente me deixando muito nervosa. Quem poderia querer entrar em contato comigo dessa forma? E ainda por cima, por que nesse lugar?

Eu olhei para o chão pela janela da nave. Uma extensão enorme de floresta virgem se estendia até onde a visão alcançava. E era justamente no meio desse lugar que eu podia sentir uma enorme presença mágica me “chamando”.

— Você ainda não consegue sentir a presença de outro artista? — eu perguntei para Mikal, que me olhava com um ar impressionável.

— Nenhum traço sequer, — ele respondeu tentando arrumar um pouco a compostura enquanto ampliava os sentidos para tentar perceber algo.

Nenhum traço… Isso era absolutamente perturbador. Era definitivamente alguém muito poderoso. O mais perturbador é que, quanto mais eu olhava para baixo, mais eu sentia que algo me olhava de volta. Alguém definitivamente estava me observando lá daquela floresta.


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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