DCC – Capítulo 148

Confiança

 

Enquanto eu estava sentada na sala de estar da casa de Daril, eu olhava para a programação da TV sem realmente prestar muita atenção no que estava vendo. “Parar para ver TV” era uma coisa que eu não fazia há tanto tempo que parecia estranho agora. Daril tinha insistido em preparar uma refeição para nós.

Mas mesmo assim, eu não conseguia acalmar meus pensamentos. Depois da visita que eu fiz à arte elementar na reserva natural de Sátie alguns dias atrás, vários pensamentos iam e vinham à minha mente.

O alerta que aquela arte elemental passou para mim era extremamente preocupante. Eu tinha meus próprios planos de derrubar o império ou coisa assim, mas isso era apenas por causa das minhas desavenças com Marco. No fim, eu só queria o fim dele, e não do sistema. Mas Dhar queria a aniquilação total não só do império, mas de todas as pessoas que viviam sob a tutela dele.

Só me lembrava de uma fala em um filme qualquer que eu tinha visto há alguns anos enquanto ainda levava uma vida despreocupada ali em Sátie: não dá pra deixar a galáxia ser destruída, por que eu sou uma das idiotas que mora nela.

E Daril, Briane, Isabel, Márcia e Michelly… Amelie… Não era apenas Henry que eu amava. Não era apenas ele que eu queria ver feliz. E saber que tinha uma guerra batendo às minhas portas não era algo muito animador. Mikal tinha me prometido não enviar nenhum relatório confirmando a nossa localização, mas ele tinha saído para pensar desde aquele dia e ainda não tinha retornado.

Ele também tinha que considerar as opções dele no fim das contas. Ele era esperto. Tinha conseguido deduzir depois do que ouviu da arte elementar que tinha alguma coisa “errada” comigo. Mas ele não fez perguntas sobre o que era. Ele sabia que se ele não tinha tido acesso a essa informação antes, então é porque não era pra ser.

Mesmo assim, ele ainda não tinha partido de Sátie. O que será que ele estava pensando?

— Você ainda gosta de comida picante? — Daril perguntou da cozinha enquanto remexia animadamente nas panelas, me despertando do meu devaneio.

Eu olhei para ele, pensando no futuro que sobraria para Sátie caso o império ruísse. Sátie ainda não tinha todo o aparato tecnológico disponível. Como era um planeta natural e não um terraformado, muita coisa ainda precisava ser feita para nivelar o nível de tecnologia daqui com o dos outros planetas que já estavam há milênios usufruindo do sistema comercial do império.

O que seria do futuro desse planeta recém aceito no conglomerado se o império entrasse em mais uma guerra? Definitivamente um planetinha sem o mínimo de segurança compatível com os outros planetas mais centrais sofreria. Com certeza meu pai sofreria.

Eu suspirei enquanto lembrava do que a arte elementar disse enquanto se comunicava comigo… ela me disse que não tinha ambições de se aliar a Dhar em uma guerra que ela acreditava ser sem sentido. Os humanos podiam não ter apego pela terra em que viviam, mas também tinham aprendido a respeitar um pouco da natureza depois que muitas artes se revoltaram e mostraram sua fúria nos tempos antigos.

Mas limpar todo esse domínio dos mortais? Que graça teria existir sem nada para observar? Enquanto os mortais olhavam para a grandeza do universo, o universo olhava de volta para a resiliência dos mortais. Enquanto meus pensamentos corriam soltos, uma figura apareceu de repente na minha frente.

— Ah! — eu exclamei de susto com a aparição repentina de Mikal.

— Algum problema querida? — Daril perguntou com a cabeça aparecendo pela entrada da cozinha. Ele não estava vendo Mikal… esse patife tinha invadido na cara limpa enquanto se colocava invisível para os outros.

— Não é nada pai… apenas vi algo aqui na frente da tv… — eu respondi vagamente para Daril. — O que quer? — eu perguntei de volta para Mikal virando meu olhar para ele.

— Seja um pouco mais cortês! Esse seu jeito bruto de falar não combina com essa sua carinha fofa… — Ele reclamou com uma expressão irritada, mas eu sabia que ele estava fingindo. Eu revirei os olhos para ele. Do ponto de vista de Mikal, eu era uma criancinha fofa. Combinada com a minha estatura proporcionalmente bem mais baixa comparada a Jomons como ele, ele me via como uma bonequinha. O que era extremamente irritante. — Eu estive pensando… você acha que o que ela disse vai mesmo acontecer?

— Qual parte? — eu perguntei vagamente. A arte elementar tinha nos dado duas informações chocantes que estavam nos preocupando.

— As duas… Nós já tínhamos conseguido coletar algumas informações acerca do envolvimento do terrorista Dhar no tráfico de crisálidas obliterantes, mas essa é a primeira vez que ouço falar sobre ele estar formando um exército… Essa informação é muito importante, e se for realmente verdade, eu tenho que passar ela pra frente, mesmo que você não queira que eu informe sobre este lugar.

Eu comprimi os lábios ouvindo Mikal desabafar apenas sentindo a tensão do meu corpo aumentar.

— Então meu ponto é: podemos realmente confiar naquela arte elementar?

— Você não precisa da minha opinião para decidir o que pensar sobre isso… então por que está me perguntando? — eu retruquei intrigada.

— Eu sou um espião. A minha opinião não importa. O que importa são os fatos e o posicionamento das pessoas que eu sigo sobre eles. A sua resposta não é para me ajudar a decidir se devemos ou não confiar nela. Mas sim, para eu saber se devo ou não confiar em você.

Ele realmente era bem direto ao ponto.

— Eu pensei que você me visse como uma criança… Por que precisa confiar em mim? — Isso levando em consideração que eu que deveria estar decidindo se deveria confiar nele ou não.

— Como eu disse… minha opinião, o que eu acho de você não importa, mas sim os fatos. O que eu estou tentando descobrir é: a despeito de você ter ou não um brasão dourado, você é confiável? Eu sei que você guarda algum tipo de segredo absurdo para conseguir ter acesso a esse título de nobreza. Para os Brards desse planeta, isso é tão inimaginável quanto um bebê sair voando por si só.

— Eu… — eu comecei a falar, mas a voz de Daril veio subitamente da cozinha me distraindo.

— A comida está na mesa! — ele chamou animadamente.

— Eu falarei com você depois lá fora… — eu pedi para Mikal se retirar.

O motivo pelo qual eu tinha vindo a Sátie foi para reencontrar meu caminho, mas o motivo pelo qual eu ainda não tinha partido tinha sido por conta da segunda informação que a arte elementar tinha nos dado.

Depois de algumas horas de qualidade com o meu pai, eu peguei meu casaco e saí. Mikal aguardava no mesmo lugar que eu tinha o encontrado a primeira vez, invisível para todas as demais pessoas. Ocasionalmente ele seguia vários grupos de pessoas que caminhavam pelas ruas animadamente.

— Então? — Ele disse me olhando de cima a baixo enquanto contorcia o rosto para a minha roupa. Eu podia claramente ouvir os pensamentos retardados dele sobre como eu ficaria mais fofa de vestido.

— Escute Mikal… eu agradeço as suas boas intenções de ajudar Henry tentando vir informá-lo sobre as pistas do paradeiro de Emil, mas esse realmente não é um bom momento para você ainda estar aqui. Apesar de eu ter um brasão dourado, eu não estou em bons termos com o imperador… e por mim, ele bem que poderia se ferrar. Eu até mesmo estou pessoalmente motivada a fazer isso com minhas próprias mãos. Eu não gosto dele… e sequer acho que ele seja digno de ser gostado por qualquer um… Sobre Dhar… eu realmente não sei o que pensar. Eu não esperava que ele estivesse se preparando tão amplamente para uma guerra… principalmente convocando entidades tão poderosas como as artes elementares. Meu problema é contra o Marco e não com as pessoas que também sofrem com o controle dele. Quanto ao outro problema que ela citou… podemos apenas esperar para ver se é verdade ou não.

Mikal me olhava seriamente enquanto eu falava tudo de uma vez. Ele era leal ao império e estava diretamente a mando do Conselho Imperial. Acho que pouca gente teria a cara de confessar na frente de um espião de renome que não gostava de seu empregador.

— Entendo… — ele murmurou lentamente enquanto coçava o queixo imberbe e pensava profundamente no que eu tinha falado. — Nesse caso, eu irei apenas esperar para ver. Mas só posso esperar apenas mais alguns dias. Depois disso, eu tenho que repassar meu relatório informando o caso para o conselho.

— Bom, pelo que a arte falou, não deve demorar mais muito tempo… a tal tragédia natural que iria assolar um centro urbano aqui em Sátie…


Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

  1. Finalmente o capítulo saiu, foi um capítulo bem descontraído, gostei da hora em que a Alésia diz na cara dele o que ela pensava sobre o Marco.
    Valeu pelo capítulo Nega Fulor.

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