DCC – Capítulo 155

Bronca

 

Mikal me colocou cuidadosamente sobre o banco da Primeiro Adler, dando a desculpa de que seria melhor partirmos com ela que era bem mais rápida que a dele, mas eu podia sentir a empolgação dele em pilotar uma nave projetada diretamente por Henry.

— Para onde estamos indo exatamente?

A expressão animada e ansiosa de Mikal logo foi substituída por uma séria.

— Vamos colocar algumas cartas na mesa, para começar. Eu preciso esclarecer algumas coisas e perguntar outras, se eu vou mesmo decidir acobertar você.

— Há certas coisas que eu não posso deixar você saber, — eu respondi logo. Ele parecia bem mais uma pessoa normal, e não aquela caricatura exagerada que ele fingia ser na frente das outras pessoas. Ainda sim não parecia estar com paciência para perder tempo com papo furado, apesar do bom humor por pilotar a nave.

— Eu já percebi isso. Não precisa me responder o que não puder. — Ele respirou fundo, se concentrou alguns minutos em estabilizar a nave no curso, e então voltou a atenção completamente para mim.

— O que diabos é você? — ele perguntou.

— Figurativamente, metaforicamente ou literalmente? — eu revirei os olhos. Já tinha perdido a conta de quantos Jomons tinham me feito essa pergunta.

— A coisa que está dentro de você… o que é? — ele perguntou mais especificamente. Ele realmente era bem esperto. Depois desses poucos dias, ele já tinha percebido algumas coisas.

— Eu não posso contar.

— Seu corpo parece ser incompatível, e todas as modificações físicas que você passou parecem ter sido motivadas apenas para dar suporte a essa “coisa”… Por que passar por todo esse sofrimento? Por que Siever simplesmente não removeu isso diretamente?

— Minha vida, minha alma… minha existência como um todo está atrelada a essa situação. Apesar do risco constante de eu acabar morrendo por conta dos efeitos colaterais, eu vou morrer com certeza se essa… coisa… for removida. Henry não quis me sacrificar apenas para remover, ele quis me dar uma chance de tentar. E eu quis tentar… então aqui estamos.

— Certo. Eu imaginei algo assim. Eu não conseguiria imaginar que Siever tivesse deliberadamente forçado uma situação mortal a você, mesmo você sendo apenas uma Brard. — Mikal parou para pensar profundamente. Ele estava refletindo sobre o que eu tinha dito e as coisas que ele mesmo tinha adivinhado. — Então… por que foi que você se lançou naquela explosão?

Por um momento eu me senti acuada com essa última pergunta, que mais parecia uma acusação pela forma como ele perguntou. Bom, ele não sabia que eu era praticamente imune ao fogo e altas temperaturas, e se eu conseguisse manter um escudo ao meu redor para parar os estilhaços e resíduos, especificamente eu seria a pessoa em maior segurança naquele lugar.

— Eu não consegui evitar… Eu sabia que ainda não tinha acabado, que não seria só aquilo, e tive medo de que as pessoas que estavam fugindo fossem atingidas.

— Eu não vou mais perguntar por quê, como, quando ou o que aconteceu com você. O que quer que você guarde no corpo aparentemente é valioso o suficiente para valer um brasão dourado, então eu nem vou tentar especular mais além disso para não infringir nenhum limite que arrisque a proteção desse sei lá o que. Assim, já que você foi reconhecida por Siever e pelo imperador, eu também irei lhe reconhecer e te ajudar. Caramba… Henry Siever em pessoa dedicou o esforço dele depois de quase uma década de exílio para salvar sua vida e torná-la mais resistente. Vocês até mesmo são nominalmente casados — Mikal achava que era inconcebível que eu e Henry fôssemos realmente casados por amor — Então, você está me dizendo que pôs em risco a integridade de provavelmente o que pode ser o tesouro mais valioso do império por apenas algumas vidas?

As palavras dele foram duras e por algum motivo fizeram eu me sentir profundamente ofendida.

— Você faz parecer que o que eu fiz foi errado, — eu reclamei irritada.

— E não foi? — ele perguntou ainda com aquela cara de quem estava dando uma bronca. — Seja lá o que você esteja guardando, não haveria muito mais mortes, mais do que as que salvou hoje, se você morresse e essa coisa caísse em mãos erradas? Qualquer coisa capaz de parar um fenômeno natural daquela escala usando apenas o corpo de uma Brard, com certeza seria uma arma letal na mão dos inimigos do império. Você foi absolutamente irresponsável.

— Por que mesmo você está me dando um sermão? Nada de irreversivelmente grave aconteceu comigo, — eu disse indignada.

Mikal continuou mesmo assim:

— Você está ciente que você acabou de confiar sua vida nas mãos de um cara que é praticamente estranho a você, que nesse momento é capaz de te sobrepor graças ao estado em que se colocou? Além disso, o que teria acontecido a você se eu não estivesse lá para te nocautear? E se eu decidisse simplesmente te atacar agora e tomar isso de você, já que você é fraca demais para proteger a si mesma?

— Eu… eu sabia que você não faria nenhuma dessas coisas. — Eu tentei argumentar de volta.

— Sabia? Como pode ter certeza? — Dessa vez ele parecia alarmado, como se estivesse discutindo física quântica com um bebê recém nascido. — Você mesma estava lá no ano novo! Você arquitetou a derrocada da família real de Kanis. Eu li o relatório do caso! Eu fiz o relatório do caso! Só o que há por aí são pessoas comprando crisálidas obliterantes para alterar as memórias e acobertar os pensamentos para não terem suas verdadeiras intenções percebidas pelos artistas oniscientes! E se eu fosse uma dessas pessoas?

— Não é para tanto… — eu tentei contestar.

— Você prejudicou o seu corpo ao ponto de se colocar em uma situação em que não pode se socorrer sozinha, dependendo da sorte onde precisaria confiar em pessoas cuja confiança não é certa, para proteger um segredo que pode causar a morte de planetas inteiros. Você não pode andar por aí com esse tipo de pensamento egoísta e infantil. Você agora parece tão fraca e vulnerável que eu poderia matá-la apenas torcendo o seu pescoço, e você seria sequer capaz de revidar. Por que uma criança como você sequer está viajando sozinha?

— Eu não sou uma criança… — que merda. Até mesmo dizer isso nessa situação parecia infantil da minha parte. Eu suspirei aborrecida e tentei pensar claramente em como responder a ele. A pior parte é que tudo o que ele dizia estava certo. — Eu… eu nunca me considerei uma pessoa benevolente. Eu costumava pensar que se outra pessoa tivesse sido incriminada lá em Sátie como mentirosa  e não eu, eu estaria no mesmo lugar que aqueles idiotas que me importunaram na rua. Rindo da desgraça alheia. Eu costumava pensar que as pessoas só fazem as coisas certas por que estão sendo observadas. Que eventualmente todo mundo vai virar as costas e fazer alguma merda se tiver a oportunidade de não ser pêgo. Eu costumava pensar que quanto mais poder tivesse uma pessoa, mais ela iria tentar se impor contra os mais fracos. Que apenas a verdade dos vencedores era a real, e os perdedores não teriam vez nem voz. E, com tudo isso, eu sempre pensei que eu não era diferente. Afinal, todo mundo pensa dos outros o que conhece de si mesmo.

Eu desabafei. Eu precisava explicar isso para chegar ao ponto principal do meu argumento. Eu relembrei a dor que senti no peito naquela hora e continuei:

— E aí quando eu vi as imagens daquelas pessoas morrendo, quando eu senti o desespero daquelas vidas sendo perdidas… Essa coisa dentro de mim não conseguiu aceitar. Eu não consegui aceitar. Minha própria alma doeu ao ver algo tão divino, criado do nada, como a vida, sendo perdida daquela forma enquanto eu tinha poder para evitar.

Mikal escutou atentamente as minhas palavras e suspirou resignado.

— Então, está me dizendo que depois de hoje você chegou a conclusão de que provavelmente fará o mesmo sem arrependimentos, caso encontre uma situação semelhante, mesmo que isso signifique colocar sua vida em risco, é isso?

— Sim. É isso…

— Bom… se você tivesse me dito que estava disposta a sacrificar a própria vida em nome de algum ideal heróico e altruísta, acho que a primeira coisa que eu faria seria providenciar para que você fosse mantida sob custódia dos seus responsáveis diretos, e nunca mais sair desacompanhada para lugar nenhum. Mas pelo menos você tem uma visão de mundo bem realista sobre o lado sombrio das pessoas. Essa questão da sua alma doer… também não é irrelevante. Se essa coisa está atrelada a você a esse ponto, caso você não atenda a esses “chamados” quando presenciar algum deles, é capaz de sua alma ser devorada de dentro para fora, e isso seria bem pior do que qualquer trauma físico.

— Obrigada por entender.

— Eu ainda não terminei. Eu entendo que existe um abismo enorme dentro de cada um que separa o que se quer, o que se pode e o que se deve fazer. É sempre uma batalha para ver qual das três coisas leva a melhor. As pessoas sempre tem mais de uma verdade dentro de si mesmas… — Mikal suspirou profundamente antes de continuar. — Apesar das circunstâncias e de nenhuma tragédia maior ter acontecido, minha avaliação de que sua atitude foi irresponsável e infantil ainda não muda. Se você vai precisar se envolver nesse tipo de situação quando se deparar com elas, o mínimo que vai precisar é de experiência. Não dá para proteger os outros sem poder proteger a si mesma. Você vai apenas colocar as pessoas em um risco maior ainda do que elas já estejam correndo.

— O que mais eu poderia fazer?

— Vamos descobrir uma forma. Eu vou treiná-la.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

3 Comentários

    1. Ele pode conseguir mais informação assim, eu acho, e não tenho certeza de que ele tem confiança ainda que ela pode com o imperador, entao nao seria um problema ahauahhahah

  1. Por algum motivo, eu me senti assistindo Karatê kid, na parte em que o mestre decidi ensinar o menino a se defender.
    Obrigado pelo capítulo Nega Fulor

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