DCC – Capítulo 157

Planeta Maskin

 

Alésia Latrell:


— Me treinar? Como você poderia me treinar? Eu até mesmo já chamei um professor da academia que está a par da minha situação pra me orientar enquanto eu estou nesse exílio… — eu perguntei chocada com as palavras dele.

— Se você vai querer deliberadamente colocar sua vida em risco quando situações emergenciais aparecerem, que respeito você teria pelo esforço de Siever em te reconhecer? Além do mais, você não pode subestimar as habilidades de um dos espiões mais bem-sucedidos do império humano atualmente. Um professor da academia é com certeza uma boa ajuda, mas estamos falando de valores práticos e experiência, e não de conceitos e teorias apresentadas de forma didática. Você não pode considerar uma dessas coisas em detrimento da outra.

— E em que especificamente você pode me ajudar? — eu perguntei enquanto ponderava sobre as palavras dele.

— Eu já tomei a liberdade de fazer alguma pesquisa sobre a sua vida e andei dando uma olhada. Pelo menos no que é possível descobrir. Até pouco tempo, você simplesmente “não existia”. E mesmo se compararmos relativamente a longevidade de um Jomon qualquer com a sua idade, seria como se você tivesse nascido ano passado pensando na perspectiva Brard. Dessa forma, é óbvio que todos que entrarem em contato com você vão suspeitar diretamente de algo errado. Não é que seja incomum Brards desenvolverem habilidades como artistas mágicos, mas quando eles conseguem, eles já se encontram em idade avançada. E você, mesmo entre os da sua própria raça, ainda é jovem demais para conseguir os feitos que conseguiu. Acredito que tenha sido por esse motivo que Emil Siever tenha escolhido você como base para o plano de ataque dele ao irmão. Falando no mínimo, você é muito suspeita.

— E o que eu poderia fazer pra contornar isso? Eu já tenho a minha história pra vender sobre minha origem, para esconder minha ascendência de Brard.

— Sim… eu dei uma olhada nos dados públicos a seu respeito. Órfã da guerra. Mas até aí, tudo o que o seu registro declara é que você é 100% Brard. Qualquer um que tiver poder suficiente para pesquisar sua idade real, vai suspeitar de você de alguma forma. Eu não sei quem foi que cuidou desse assunto pra você, mas a pessoa que fez isso não pensou muito nessa parte.

— Você não acha que poderia ter sido Henry? — Eu perguntei enquanto relembrava da reunião no palácio durante meu primeiro ano novo em Keret. Teve uma pequena pauta onde discutiram sobre como minha “origem” seria apresentada caso houvesse necessidade.

— É claro que não! Siever não deixaria um furo desses passar. Ele teve a delicadeza de inclusive apagar os traços de DNA do seu sangue para que sua base genética não pudesse ser localizada!

— Quando foi que você testou meu DNA? — eu fiquei impressionada.

— No momento em que te vi em Keret. Rastreei os seus movimentos daquele dia, e descobri que tinha estado em um spa. Só o que precisei foi de um pouco de habilidade para tomar posse de uma amostra de cabelo antes que fossem incineradas. Você era a única Brard que foi atendida naquele estabelecimento. Então, a única amostra Brard que teria por lá seria a sua. Mesmo que outras Brards tivessem sido atendidas, isso no máximo aumentaria a minha margem de pesquisa, e eu teria que eliminar as alternativas. Mesmo assim, uma amostra genética sem DNA rastreável é muito óbvia.

— Uau… — Eu não sabia se estava mais impressionada ou assustada com a forma como ele se gabava de perseguir informações.

— Chegamos… — Ele comentou enquanto assobiava. Ele estava realmente impressionado com a capacidade da nave. — Essa Primeiro Adler é realmente uma grande inovação. Imagino por que Siever nunca a colocou no centro de patentes e iniciou uma linha de produção…

— Onde estamos? — perguntei, reparando nas coordenadas. Não era nenhum lugar em que eu já tivesse estado. Por um momento senti um frio diferente descer minha espinha imaginando que Mikal pudesse ter segundas intenções.

— Esse planeta não faz parte do império. Eu venho para cá quando preciso de ajuda médica ou com equipamentos. Mas aqui não tem suprimentos necessários para sustentar a vida humana e boa parte do território tem uma atmosfera nociva. Então não se afaste de mim.

Eu rapidamente chequei as coordenadas fornecidas pela nave para descobrir que lugar era aquele. As informações chegaram ao mesmo tempo em que Mikal abria a porta para aquela paisagem.

Era diferente de tudo o que eu já tinha visto até aquele dia. Os prédios, construções, naves… eram naves?

O local era inteiramente e completamente tecnológico. Não eram adaptações feitas por alguma espécie para levar uma vida mais confortável com design e ergonomia, e sim tecnologia por tecnologia. Nas “ruas”, não se via uma única vida orgânica. Droides andavam de um lado para o outro, e entravam em estabelecimentos sem nenhuma indicação ou nome. Não haviam lojas até onde eu poderia perceber.

— Planeta Maskin… Exotitã Athena! — Eu exclamei em voz alta olhando para a “vida” que fluía por todo lado.

Mikal ergueu uma sobrancelha, intrigado quanto a como eu já tinha essa informação, mas não fez perguntas. O Exotitã Athena era uma gigantesca estrutura construída ao redor de um planeta inteiro onde apenas seres inorgânicos viviam.

— Temos que reportar nossa visita. Nós já estamos sendo observados. Provavelmente o planeta inteiro já sabe que estamos aqui. Eles partilham uma espécie de rede de conhecimento. Tudo o que um sabe, todos sabem. O ar aqui é infestado de litoângstroms. E a nanotecnologia deles é bem mais evoluída do que a que usamos no império, está em um nível completamente diferente, acima do que qualquer uma que conhecemos pode fazer. Qualquer vida orgânica que ameace a soberania deles pode muito bem ser implodida em um piscar de olhos. A pessoa nem teria tempo de reparar que estava morrendo antes da alma já estar no além.

— Nossa, que drástico…

— Também não é muito inteligente discriminar qualquer um deles. Se você por acaso achar que inteligência artificial é inferior à biológica, é bom guardar essa opinião para você mesma. Qualquer I.A. tem mais status do que o mais nobre dos humanos neste planeta.

— Bom, faz sentido… eles tem que cuidar de si mesmos. Seria difícil estabelecer uma soberania independente sem que o povo se unisse.

Mikal sorriu para mim e andou na frente até alcançar uma parede. Ele se comportou respeitosamente e cumprimentou a parede. Eu apenas observei ao lado, sem conseguir perceber nenhuma entrada ou saída de informações por onde a parede pudesse ver ou ouvir Mikal.

— Saudações. Eu sou o “Sujeito Orga 7-04839 G” solicitando uma audiência para tratamento médico para acompanhante orgânico modificado, ainda sem identificação.

Para a minha surpresa, a parede lisa e sólida se dissolveu completamente em uma substância pastosa e logo em seguida se transformou um relaxado jovem que parecia ter por volta de 30 anos. Agora eu entendia porque Mikal tinha dado tanta ênfase na nanotecnologia daqui. Eles eram capazes de simular um corpo humano perfeito! Isso era surpreendente. Até hoje, eu só conhecia quem era capaz de fazer isso no império por projeção e hologramas. Ele não parecia ser nem Jomon, nem Brard. Provavelmente era apenas uma interpretação visual do ser humano genérico que “ele” dispôs a mostrar.

— Mikal Stanislav. Já tem um tempo desde a sua última visita,  — o rapaz disse sem alterar a expressão facial, e depois virou o olhar para mim, mas dessa vez com uma expressão séria. — Se ele for o acompanhante orgânico modificado sem identificação a que se referiu, receio que talvez não possamos atendê-lo.

Mikal estranhou a resposta do cara-parede. Eu estranhei o fato de ter sido referida como “ele”. Eu pensava que minha aparência deixava claro que eu era mulher, mesmo entre as I.A., mas acho que eles não prestavam muita atenção nesses detalhes.

Mikal conhecia bem a dinâmica desse lugar, então ele não perguntou os motivos para o cara-parede ter me recusado. Em vez disso, ele foi direto ao ponto, tentando negociar.

— Há alguma coisa que possamos oferecer em contrapartida pelo atendimento, que valha a atenção para ela?

O cara olhou de volta para Mikal com a expressão vazia e respondeu:

— Podemos avaliar as opções. Se vocês estão dispostos a pagar o preço ou não será problema de vocês.

— Obrigado pela indulgência, — Mikal respondeu solenemente, e ficou parado na frente do cara-parede.

Depois daquelas palavras, eu pensei que alguma coisa iria acontecer, mas os dois ficaram apenas parados ali se encarando por vários minutos. Que diabos estava havendo ali? O cara que nos recepcionou não disse que iria checar por alguma opção de pagamento? Por falar em pagamento, que moedas eles usavam nesse lugar? Eu só tinha dinheiro imperial… será que valia alguma coisa aqui?

Depois de mais alguns minutos sem nenhuma ação dos dois, eu comecei a ficar realmente intrigada, até que eu me toquei que o cara era uma inteligência artificial e poderia muito bem se comunicar com as outras sem fazer nenhuma outra ação. Do ponto de vista humano, ele parecia estar apenas nos enrolando, mas ele provavelmente deveria estar fazendo o que disse que faria, senão Mikal não ficaria parado com cara de tacho esperando à toa.

A curiosidade me levou a tentar investigar. Se eles eram inteligências artificiais, estariam sujeitos ao poder da Sabedoria, como os humanos estavam sujeitos ao poder da onisciência. Eu procurei diretamente pelo algoritmo de pensamento do cara-parede até descobrir que ele realmente estava se comunicando com alguém. Mas, para meu desânimo, a forma de pensar, comunicar e expressar esses pensamentos era algo que eu nunca tinha visto antes. Antes que eu sequer fosse capaz de começar a traduzir qualquer coisa, dias já teriam se passado. A Sabedoria poderia me dar o conhecimento necessário para fazer isso, mas o ato de fazer ainda cabia inteiramente sobre mim.

Enquanto usando a onisciência, eu poderia entender o pensamento de outra pessoa que não falasse o mesmo idioma por conta da linguagem cognitiva do pensamento semelhante à minha. As pessoas amam, sofrem, sentem alegria e tristeza além dos sentidos como audição, tato… de uma forma que é interpretada relativamente igual pelo cérebro. Então, eu poderia descobrir o que outra pessoa pensava ao comparar essas sensações caso não pudéssemos nos comunicar verbalmente.

Agora essas I.A.… A forma como eles pensavam era inteiramente única deles. Não era algo que eu pudesse descobrir aleatoriamente apenas por que deu vontade.

— Eu trago uma resposta… — O cara-parede finalmente respondeu depois de um bom tempo. — Nosso conselho está interessado em discutir o preço pessoalmente com o convidado interessado no atendimento.

— O conselho? O que poderia ser tão importante ao ponto do conselho querer discutir o assunto pessoalmente? — Mikal perguntou abismado.

— Aparentemente, isso é algo que apenas alguém com a sabedoria pode lidar. — o cara-parede falou de volta.

Nega Fulor
Leitora compulsiva. Escritora obsessiva. Artista nas horas vagas.

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