DS – Capítulo 1

— Fique de pé, sua escória inútil. Está na hora de comer, o que já é mais do que vocês merecem.

Lutando para me levantar do chão, semiconsciente, consigo evitar o pontapé do Gortan por puro reflexo. Ao ser chutado tantas vezes, acabei tendo que me adequar a essa vida. Não olhar para ele. Manter os olhos para baixo, pés se movendo, há segurança na assimilação. Eu ignoro a dor de todos os meus machucados parcialmente curados e contusões. A fila se move rapidamente, e quando é minha vez, eu pego uma tigela da sopa marrom sem gosto e alguns biscoitos duros, e fujo de lá. Logo encontro um lugar para beber minha sopa e quebrar meus dentes em paz. Essa é minha vida agora. Ou é o que tem sido nas últimas duas decanas.

Meu nome é Rayne, e eu sou um escravo. Eu não fui sempre um escravo. Acordei de repente duas decanas atrás com a pior ressaca que eu já tive, escutando alguém realçando meus bons traços. Eu costumava trabalhar em um call center. Eu vivia em um pequeno apartamento, tinha família, amigos e um cachorro. Eu consigo lembrar esse tanto. E mesmo assim, eu não lembro como qualquer um deles parecia, ou qualquer coisa que fizemos juntos. Mas eu lembro de ter eles. Eu lembro da existência deles. É como acordar de um ótimo sonho. Você lembra do sonho, e sabe que você gostou dele, mas você tenta pensar sobre algo específico, e não há nada lá. Quanto mais você tenta lembrar, mais isso escorre pelos seus dedos, até que tudo que resta é uma sensação de perda, e a memória de uma memória.

O que, neste caso, fica ainda pior pelo fato da minha realidade ser uma merda completa.

A realidade é a seguinte: eu sou um escravo de doze anos de idade. Eu era mais velho antes, mas aqui, nesse corpo, eu tenho doze anos. Ou pelo menos é o que o traficante de escravos que me vendeu disse. Eu só lembro até aí. ‘Sem nome, doze anos, saúde boa, todos os dentes presentes, olhos marrom-claro, cabelo negro’. A soma total das minhas qualidades como mercadoria. Eu sinto como se ele pudesse ter esticado um pouco a verdade. Não há outras memórias, pelo menos não desse corpo. Tudo que eu consigo lembrar é de ser vendido, e, então, uma viagem curta para a senzala, onde eu moro agora. O novo eu nem ao menos tinha um nome. Folha em branco.

Lentamente, eu estou esquecendo a maior parte da minha primeira vida também. Isso iria me chatear mais se eu soubesse o que eu estava esquecendo. Eu ainda posso ler e escrever em Português, mas eu não posso ler a Escrita Comum (a língua dominante nessa região, a qual eu posso falar, graças às novas memórias). A escrita parece mais como runas lunares para mim. Há outra língua que eu posso falar também, mas eu não tenho um nome para ela. Eu penso apenas no que eu quero dizer e a língua em que eu quero dizer, e as palavras saem da minha boca. Se eu não pensar em uma específica, o Português sai como padrão. Eu posso fazer cálculos matemáticos, mas isso não é muito útil. Quando eu tentei dizer isso aos guardas, fui ignorado. Então, fui espancado enquanto eu tentava. Cuzões.

Eu não tenho nenhum cheat, ou pelo menos, não encontrei o que é ainda. Eu já tentei de tudo. Eu não tenho nenhuma skill, magia, nem truques da mente Jedi. Nenhum companheiro animal, ou o Todo Poderoso ‘Avaliar’. Nenhum espírito para me guiar, nem deuses para responder minhas orações. Eu nem ao menos tenho uma tela de status. E para jogar sal na ferida, EU SEI que a magia existe. Os guardas usam isso quando eles me batem. Alguns grunhidos e um toque dos seus bastões podem deixar minha pele queimando em agonia por horas. Eles têm outro truque que me congela no lugar, imóvel e paralisado, mas ainda conseguindo sentir tudo. Os guardas gostam de competir quem consegue deixar o escravo na posição mais estúpida possível. Eles algumas vezes “esquecem” de te descongelar antes de ir dormir, te deixando trancado no seu corpo, enquanto seus músculos lutam para aguentar o seu peso, seus olhos queimando, desesperados para você piscar. Pior. Reencarnação. De. Todas.

Então, aqui estou eu. Apenas um escravo. E um escravo humano ainda por cima. Quero dizer, por que eu não podia ser algo legal. Tipo um meio-dragão, ou um homem-tigre, ou a porra-de-um-homem-livre. Pelo menos, eu não sou um homem-porco, como Gortan e seus guardas.

Gortan. O porco chefe. De pé ao lado do portão, bastão na mão, nos vigiando com seus pequenos e lustrosos olhos negros de porco. Ele parece humano na maior parte, ainda que um bem feio, com um nariz protuberante, orelhas gigantes e uma cara marcada. Ele também tem duas orelhas de porco no topo da cabeça, e um moicano. Todos os guardas tem orelhas de porco e moicanos. Talvez seja uma coisa tribal? Eles tem sua própria linguagem também, a qual eu não consigo entender, então eu nem ao menos tenho um cheat de línguas. Adicione isso à lista. Todos eles estão pairando sobre nós, procurando uma desculpa para surrar alguém. É o passatempo favorito deles. Meu primeiro dia foi difícil. Acordar em um lugar estranho, em um corpo estranho, e com uma terrível enxaqueca já foi ruim o suficiente. Descobrir que eu era um escravo não ajudou em nada. Gortan e seus guardas tornaram isso pior. Muito pior.

Eu terminei meu café da manhã e fui correr para o barril de água. Sim, um barril de água. Um barril de água para todo mundo. Merda de baixa tecnologia. Nem ao menos pude reencarnar em algum lugar com mágica útil. Eu preciso ser rápido, ou então a água pode ficar bem nojenta, ou ainda pior, o barril ficar vazio.  Eu mergulho minha tigela dentro e bebo rapidamente, antes de eu conseguir pegar uma segunda tigela. Eu apanho as costas de uma mão com a minha cara.

— Água é para trabalhadores, moleque. — Um escravo musculoso com chifres me chuta longe para ele pegar água. Ninguém nem ao menos chega perto da água até que a Almôndega Chifruda acabe de beber. Direto do barril ainda por cima. Eu levanto, ignorando a ardência nas palmas das minhas mãos. Até mesmos escravos tem uma hierarquia, e eu estou perto do fundo. Ninguém quer ficar no fundo. Se eu não sou o escravo mais novo aqui, definitivamente eu sou o mais magricela. Eu levo uma surra de crianças dentuças com orelhas de rato. Os malditos meio-animais são muito fortes. Eu definitivamente não posso lutar contra a Almôndega Chifruda. Não venceria e ainda levaria uma surra de graça. Então, eu provavelmente levaria uma surra dos guardas. Duas vezes seguidas. Tudo que eu posso fazer é me mover junto com os socos. Até então, eu preciso dizer, não sou muito bom nisso.

Eu passeio até o portão e me sento. O trabalho vai começar logo. Trabalho nas minas. Eu sou um mineiro menor de idade. Eu riria, mas não é engraçado. Encher uma cesta com pedras. Esvaziar a cesta numa caçamba. Repetir. Fazer isso o dia inteiro. Então jantar, que é mais sopa marrom e pão, e ir domir. Acordar de madrugada e tudo começa de novo. Salpique algumas surras por diversas razões, e foi assim que minhas últimas duas decanas foram.

Eu deito minha cabeça no chão frio da senzala. Outro dia exaustivo se foi. Outra surra, desta vez por não sair do caminho dos guardas rápido o suficiente. Eu não tenho mais todos os meus dentes. Eu não acho que consigo viver mais assim. Eu preciso escapar. Preciso ser livre. Fugir. Ou talvez me matar. Reencarnar. Jogar os dados de novo. É assim que funciona, não é? Eu fiz isso uma vez. Talvez dessa vez, conhecer Deus e começar a nova vida com um cheat. Ou pelo menos com um trabalho melhor do que escravo. Talvez um príncipe, ou filho de um nobre. Um aventureiro, viajando por aí como um guerreiro ou um mago. Porra, eu ficaria feliz em ser só um plebeu.

Eu limpo meu rosto, com as lágrimas fazendo os cortes nas minhas mãos arderem. Chorar não vai ajudar. Desistir também não. Eu vou superar isso. Eu irei. Eu preciso. Eu posso fazer isso. Eu vou escapar enquanto todos estão trabalhando nas minas. Ou pelo menos acordar mais cedo e tentar fugir. Eles não nos mantém acorrentados e a cerca é de madeira. Quão difícil seria soltar algumas tábuas? Eu posso fazer isso. Posso bolar um plano. Todos acham que eu tenho doze anos. Eu tenho o benefício da experiência. Eu posso escapar. Eu reencarnei. Então, eu vou matar todos os guardas e subir de nível. Pegar minha skill lendária. Fazer eles se arrependerem do dia em que nasceram.

Eu repito tudo que eu sei sobre mim mesmo. Eu costumava viver em um apartamento. Eu tinha uma família. Eu tinha um cachorro. Eu não pertenço a este lugar. Eu repito isso para mim mesmo, como se fosse um mantra, tentando me apegar a quem eu era.

 

Meu nome é Rayne. E eu não serei um escravo para sempre.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

26 Comentários

  1. Legal, uma pessoa extremamente fodida, isso me faz refletir no que eu me tornaria se, por acaso, reincarnasse. Provavelmente eu seria uma Mosca… #SoSad

  2. Gostei muito do fato do prota não ter um cheat e ser muito lascado, mas me supreendir com a marativa da historia, ela é bem mais leve do que eu esperava. Obrigado pelo capítulo

  3. Parece bom. Mas tem umas coisas que não entendo, ele reencarnou aí há duas décadas, mas tem 12 anos? E se a segurança é tão frágil como parece (cerca de madeira e sem correntes), por que os escravos mais fortes não fugiram? Vai ser legal acompanhar essa jornada!

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