DS – Capítulo 15

— Você não é um quin, menino, ande ereto e com os olhos para frente.

Eu me apresso para obedecer, sempre um pouco nervoso perto de Baatar. Ele não é só fisicamente intimidante, mas também muito intenso. Faz tudo ao máximo. Nós não interagimos muito desde o festival. Eu nem ao menos sabia que ele era o pai de Alsantset até que ele veio se despedir antes de ir embora na primavera. Ele caminha rapidamente, mas não como se estivesse com pressa. É só como ele anda. Ele não diz mais nada, e eu estou quase correndo para acompanhá-lo. Eu queria que tivéssemos trazido Suret ou Pafu. Eu estou recebendo lições de montaria, o que talvez esteja me deixando um pouco preguiçoso.

Nós paramos fora da vila propriamente dita, na casa do Taduk. Ele vive em um pequeno chalé estranho com Mei Lin. A arquitetura é diferente da arquitetura asiática da vila. O chalé de Taduk é feito de madeira, terra e rochas, construído direto na montanha. Como uma toca de coelho. Há um pequeno estábulo ao lado, construído de forma semelhante. Um cercado de estacas de madeira rodeia uma pequena área perto da “casa”, onde uma variedade de plantas e ervas crescem. Há até mesmo plantas e ervas crescendo no “telhado” de sua casa. Ele me disse que gostava da solitude e precisava de condições específicas para o seu jardim.

Baatar me traz até a porta e bate. Um pequeno tempo depois, Mei Lin abre a porta, vestida em uma camisola, esfregando o sono para fora de seus olhos. Quando ela nos vê, ela grita e fecha a porta. Parece que eu não sou o único que Baatar intimida.

Taduk abre a porta depois de um momento de luta.

— Capitão, como vai você? Algum problema de saúde em que eu possa ajudar?

— Nada do tipo. Eu vim para treinar o menino. Eu vou precisar da sua ajuda.

Taduk olha para mim. Por que eu vejo pena nos olhos dele?

— Entendo, entendo. Você acha que isso é… sábio? Rain é… —   Eu acho que ele não quer ferir meus sentimentos me chamando de fracassado na minha cara.

— Não há necessidade para preocupação. Ele ficará bem. Como eu disse, entretanto, eu vou precisar da sua ajuda. Posso contar com você?

Taduk e Baatar se olham por um longo tempo. Quem diria. O bobo do Taduk consegue empatar com o olhar penetrante do “Olhos de Gelo” Baatar. Entretanto, Taduk cede primeiro, e suspira.

— Rain sempre tem minha ajuda.

Baatar só acena e vai para fora do cercado. Eu me viro para seguir, mas Taduk segura meu ombro.

— Rain. Você realmente quer seguir o Caminho Marcial? Você não precisa. Você é um garoto muito esperto. Uma vez que você atinja o Estado de Equilíbrio, eu acredito que vão ser poucos anos até que você seja capaz de curar as feridas dos outros. Mesmo sem isso, você será capaz de prescrever e administrar tratamentos de ervas, arrumar ossos, aliviar doenças. Você não precisa se tornar um guerreiro, você tem outros caminhos disponíveis para você.

Eu olho para o meu professor. Ele está genuinamente preocupado. Eu deveria fazer como ele diz? Me tornar um doutor é algo muito bom. Curar os doentes é uma profissão nobre e eu poderia viver minha vida na vila, protegido. Seguro. Valorizado.

Mas eu não seria forte. Eu só seria mais um escravo no fim. Eu preciso saber lutar e Baatar é a pessoa mais forte que eu conheço. Eu não posso desperdiçar essa oportunidade.

— Obrigado pela preocupação, professor. Seu estudante tolo, Rain, ainda gostaria de tentar. — Um pensamento me ocorre. — Espera, você vai parar de me ensinar se eu for com o Baatar? Porque eu não irei se esse for o caso. — Taduk tem sido muito bom para mim. Eu não posso abandonar ele. Eu posso simplesmente aprender a lutar sozinho.

— Não, meu estudante tolo, eu sou seu professor. Você é meu estudante. Ele é seu Mentor. Você é seu discípulo. Eu te ensino uma profissão, para que você possa se sustentar sozinho. Ele vai te aconselhar em um estilo de vida, a vida de um Guerreiro Marcial. Eu vou continuar a te ensinar pelo tempo que você me permitir. — Taduk me dá um grande abraço. É legal, quente. Seu manto é macio e espesso, e tem cheiro de canela e especiarias. — Pare de chorar, você chora demais. Não deixe que Linlin o veja, mulheres gostam que seus homens sejam fortes.—  Ele me vira. Eu ouço algo mais sugestivo na voz dele.

Taduk é uma pessoa incrível.

Eu vou embora atrás de Baatar, que está atento com as costas viradas para porta, dando tempo para eu me acalmar. Quando eu acabo de eliminar todas as evidências, eu me movo e fico na frente dele.

Costas retas. Queixo para cima. Olhos para frente.

Eu vou ser um Guerreiro Marcial.

— Sagrada Mãe de Todos, isso dói!

O menino precisa de mais imaginação nos seus xingamentos. Baatar precisou lavar a boca de Alsantset com sabão uma dezena de vezes pelo menos, mais uma coisa em comum com a mãe dela. Baatar sorriu com o pensamento. O menino estava murmurando agora, naquela língua desconhecida. Entretanto, o significado era claro. Ninguém perguntou a ele que língua era aquela ou onde ele aprendeu ela. O menino merecia ter seus próprios segredos, e isso não era importante.

— Se dói, então bloqueie ou desvie do golpe, menino. De novo, do início.

Assim que eles chegaram a uma pequena distância do cercado de Taduk,  Baatar mandou o menino demonstrar as Formas, e ele precisava admitir, o menino era bom nelas, muito mais do que o esperado. Ele era ainda melhor do que a maioria das pessoas da idade dele, o que era louvável. Não era surpresa que Alsantset estava tão orgulhosa.

Quando o menino parecia perder o foco em seus arredores, Baatar jogava uma pedra nele. Não muito forte. Ele mirou no ombro do garoto, o que resultou em um pequeno hematoma sem consequências. Os outros andavam cheios de cuidado perto do menino se precavendo para não machucá-lo. Ele é forte. O menino só resmungou um pouco e continuou com as Formas de novo quando foi ordenado, vigiando Baatar com cautela. As Formas sofreram pela falta de atenção.

— Menino, você está fazendo isso errado. Faça como antes. Não se preocupe comigo jogando pedras.

Depois de pouco tempo, o menino novamente dedicou sua atenção completa às Formas. Então, Baatar jogou outra pedra, dessa vez no seu estômago. O brilho da traição no seu olhar era desanimador, mas inconsequente no fim. Ele pode lidar com isso. O padrão se repetia, até que o menino tinha meia dúzia de hematomas, e estava encarando Baatar com sangue nos olhos. Aí esta, a raiva, a apenas uma pedra de distância. Baatar riu.

— O que é tão engraçado? — O menino perdeu sua máscara de menino educado.

— Você é, menino. O que está fazendo. Se perdendo nas Formas.

— Porque você ficava me dizendo para fazer isso. E então você joga pedras. — Frustração, evidente no tom da voz, se não em seu rosto.

— Não, eu quero que você demonstre as Formas. Você entende?

O garoto parou para pensar. Raiva e frustração retornaram.

— Não.

Baatar suspirou. Taduk disse para ele que o menino era esperto. Ele mentiu?

— O propósito da demonstração das Formas tem duas razões. Primeiro, desenvolver o corpo para aguentar a infusão da Energia dos Céus. Quanto mais forte o corpo, mais Energia dos Céus ele pode absorver. Quanto mais Energia do Céus o corpo absorve, mais poderoso é o guerreiro. Entendeu? —  O menino acenou depois de um momento.

— Isso é [acumulativo]? — O menino perguntou.

Baatar fez careta. O menino disse uma palavra que ele não entendeu.

— Explique.

— Eu faço as Formas e fortaleço meu corpo, para absorver mais Energia dos Céus, o que fortalece meu corpo. Fortalecer meu corpo usando a Energia dos Céus, permite que meu corpo absorva mais Energia dos Céus?

O menino precisou desenhar na areia para Baatar entender. Um diagrama circular simples. Parece que Taduk não mentiu, o menino era esperto.

— Ah. Você está perguntando se o processo é cumulativo. Não. Há um limite, baseado no nível do seu corpo natural.

— Não foi isso que eu perguntei desde o começo? O limite é diferente para meio-humanos?

O menino estava ficando mais irreverente. Mas ele merecia. Baatar jogou pedras nele a manhã inteira.

— Meio-humanos tem um limite maior na quantidade que seus corpos podem absorver, mas um limite menor em quanta Energia dos Céus eles podem converter em Energia Interna. Os Céus são justos com todas as criaturas.

— Então, qual o segundo propósito?

Baatar sorriu para sua sede de conhecimento. Um jeito melhor de guiá-lo. Mais orientação mental. Ele tomou nota disso.

— O segundo propósito é de te ensinar como lutar. As Formas escondem dentro delas todo o conhecimento necessário para lutar. A isso dá-se o nome de Discernimento nas Formas. Você só precisa permitir que seu corpo se mova como ele quer. Você guia seu corpo e isso te impede de atingir Iluminação. Ao invés disso, você deveria deixar seu corpo te guiar, liberte sua mente. Demonstre as Formas, menino. Não se perca nelas.

O menino ficou parado, quieto, enquanto contemplava por algum tempo. Baatar era paciente. Meia hora se passou, os dois parados no mesmo lugar. Então, o menino estapeou o próprio rosto duas vezes e disse.

— Beleza. Vamos fazer isso.

Ele começou sua performance. Baatar assistiu cuidadosamente por algum tempo. Ele não está se perdendo, ainda está alerta do que está a volta. Bom, bom. Bom. Baatar rezou para a Mãe de Todos. Ele andava em uma corda bamba. Uma falha aqui poderia fazê-lo cair. A sorte favorece os ousados. Ele esperou o menino se virar, sem visão dele, e jogou uma pedra, desta vez visando a cabeça do menino.

O menino percebeu aquilo chegando e reagiu, com o braço se virando para pegar a pedra, a poucos centímetros de o acertar. Ele olhou para pedra em sua mão, com um sorriso aparecendo em seu rosto.

Baatar soltou o fôlego que ele estava prendendo. Obrigado, Mãe.

— Parabéns garoto. Você atingiu o Estado de Iluminação.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

14 Comentários

  1. Achei que ele fosse apanhar até não conseguir levantar ou ter uns ossos quebrados, foi rápido
    Pena que agora vai ser 2 por semana

  2. Obrigado pelo capítulo. Vai começar a usar o colchetes para evidência as falas em outra língua agora, Worst?

    1. Então só tem duas línguas de destaque na novel, então não acho que precise dos colchetes.
      Lingua das Pessoas -> itálico
      Lingua Comum -> normal

        1. Na verdade, o colchete ali foi só para indicar que ele usou uma palavra na língua original dele, que não é a das Pessoas, nem a Comum. O inglês, seria.

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