DS – Capítulo 18

— Por que você busca força, pequeno Rain? — Charok me pergunta, interrompendo minha viagem na maionese.

— Para ser forte. Para lutar contra os Corrompidos. Para proteger a vila. —  Eu respondo sem pensar. Tudo isso é parte dos preceitos da vila, os quais eu nunca me importei o bastante para guardar. Tudo bem padrão do tipo ‘seja bom, não seja um cuzão’. Eu faria aquilo de qualquer jeito.

— Essas são as palavras que você acha que eu quero ouvir. Por que você procura força?

Mais conselhos de biscoito da sorte. Puta que pariu. Por que eu procuro força?

— Para esmagar meus inimigos, vê-los de joelhos perante a mim, e ouvir as lamúrias das mulheres. — Eu rio com desdém.

Charok sorri por um segundo, mas que desaparece quando ele lembra que está sendo rígido.

— Vá refletir sobre a minha questão. Retorne com uma resposta séria.

— Mas—

— Apenas vá, pequeno Rain. Por meia hora pelo menos. Pense sobre isso. — Eu estou sendo dispensado. Ele está me me mandando embora.

Eu ando por aí.

Eu só preciso ser forte. Por que eu quero ser forte? Todo mundo não quer força? Ninguém que estar no fundo da pirâmide alimentar, sendo o pau mandado de todo mundo. Uma resposta séria. Eu não sei o que ele quer.

Suret e Pafu estão me seguindo por aí. Eles estão engordando de inatividade. Eu prometo a mim mesmo levar eles para correr com mais frequência, e os deixar nadar quando nós voltarmos. Às vezes, eles fogem para perseguir alguma coisa. Eu não vejo o que eles estão comendo, mas eles voltando mastigando algo, felizes como galinho no lixo. Espera… isso não faz sentido algum. Como é que um galinho fica feliz?

Depois que eu senti que tempo o bastante passou, eu volto para Charok. Ele estava talhando. Pequenas figuras de madeira, intrincadas e detalhadas. Ele fez várias delas no tempo em que eu estive fora. E acho que ele ficou sentado lá esse tempo todo.

— Eu não sabia que você era tão bom talhando. — Ele tem uma peça talhada ao seu lado e eu pego ela para observar. É um urso sobre as pernas de trás. Um pouco rústico, mas o trabalho com a faca é intrincado. Impressionante. Charok apenas dá de ombros, e continua talhando. Eu fico de pé, vou até aonde ele está sentado e me agacho para falar com ele. — Então, o que estamos fazendo aqui. Além de curtir um belo de um almoço.

— Por que você procura força? — Charok pergunta a mesma coisa de novo.

— Isso de novo não. — Eu reviro os olhos. Mais baboseira. — Por que você quer saber?

— Eu já sei a resposta da minha pergunta, pequeno Rain. Eu quero saber se você também sabe. — Charok olha para mim silenciosamente. Eu penso sobre isso. Ele é família. Eu posso contar para ele. Ele irá entender.

— Eu quero ser forte, para que se alguém tentar me machucar de novo, eu possa lutar de volta. Dessa forma, eu posso me defender, — eu digo a ele. Ele olha para mim por um momento antes de falar.

— Se esse é o seu motivo, então é desnecessário. Nós podemos ir para casa imediatamente. Você pode continuar aprendendo com Taduk, e se tornar um herbalista. É uma profissão que combina contigo. Você é bom em tomar conta dos outros.

Espera, o quê?

— Eu não entendo. Por que você não vai me ajudar?

Charok me olha como se eu fosse um idiota.

— Eu estou ajudando você. Você não precisa buscar força para estar a salvo. Ninguém vai te machucar na vila, Rain. Ninguém fará de você um escravo de novo. A vila é um lugar seguro. Nós te protegeremos. Vá ser um herbalista, Rain. — Ele não se levanta. Ele está só sentado lá, me observando.

— Mas eu preciso ser forte! — Eu deixo escapar.

Charok sorri gentilmente para mim.

— Finalmente. Você admite.

Eu estou… confuso.

— Você precisa ser forte. Você é motivado por isso. É por isso que você se esforça tanto. É por isso que você busca força. Por que isso? — Charok me olha com expectativas, esperando minha resposta.

— … Porque eu estou com medo. — Pronto. Ele sabe que eu sou um covarde.

— Não há vergonha no medo. É um companheiro constante de nossas vidas. — Charok põe sua faca e escultura semi-pronta no chão. — Você sofreu muito. No ano que passou, você parece ter se recuperado muito bem. — Ele olha para mim, me incitando a falar. Ele é paciente, enquanto eu junto meus pensamentos.

— Não estou… totalmente recuperado. — Eu murmuro. Charok só acena, e me espera continuar. — Eu ainda penso sobre meu tempo lá. Todos os dias. Quando eu estou sozinho, eu fecho meus olhos, e as memórias voltam. É como se eu estivesse indefeso de novo. — Eu olho para Charok, juntando minha resolução. — É por isso que eu preciso ser forte. Dessa forma, isso nunca vai acontecer de novo.

— Então me deixe te contar uma história sobre mim. Talvez vai te ajudar a encontrar seu equilíbrio. — Charok se deita, apoiando em Pafu. — Quando eu era pequeno, eu queria ser forte também. Eu não tinha talento algum nas Formas, em suas demonstrações ou discernimentos. Buscar equilíbrio foi mais fácil para mim, quase tão fácil quanto andar. Em relação à força no geral, eu estava na média entre a minha geração. Nada se sobressaia sobre mim, uma pessoa comum sem talento. Então eu trabalhei duro, muito mais do que qualquer um, enquanto escondia meus esforços, como se me diminuíssem. Por algum tipo de milagre, eu convenci Alsantset a se apaixonar por mim. Baatar… não ficou muito satisfeito. — Charok riu com isso. Eu simpatizava com ele. Baatar como sogro é intimidante.

— Eu sou o filho de um padeiro, sem comparação com a esplêndida filha do Estandarte de Ferro. Baatar não era o único que pensava assim. Muitos compartilhavam dessa visão e acreditavam que eles mesmos eram melhores para Alsantset. Mas eles não importavam para Alsantset, nós estávamos casados apesar de tudo. — Conhecendo Alsantset, ela provavelmente desceu a porrada nesses outros caras e ameaçou eles a fugirem, e então se casou com Charok de qualquer forma.

— Entretanto, o sonho de infância de Alsantset era se juntar ao Estandarte de Ferro, a companhia fundada por seu pai. Eu não podia me permitir ser um obstáculo no sonho dela. Então ela se foi na primavera, um pouco depois que nos casamos. Enquanto ela estava fora, eu trabalhei mais duro que nunca, para cultivar, para me tornar mais forte, o suficiente para lutar ao lado dela, para me juntar a ela em suas aventuras.

Charok parou de falar, perdido em alguma memória. Eu estava quieto. Essa era minha primeira vez ouvindo essas coisas. Eu pensei que eles se juntaram ao Estandarte na mesma época. Ultimamente, há uma séria falta de histórias na minha vida, e essa é digna de ouvir comendo pipoca.

— Eu descobri que, depois que ela se foi, eu não conseguia encontrar equilíbrio. Toda vez que eu o buscava, minha mente se enchia de imagens dela em perigo, pensamentos de que ela estaria machucada ou pior. Eu não consegui dormir devido ao medo. Eu queria sair para encontrá-la, embora eu não tivesse ideia alguma de onde ela deveria estar, e sem razão alguma para acreditar que ela precisaria da minha ajuda. Eu tentei me ocupar, me esgotar com trabalho e treinamento. Mesmo assim, os pensamentos não acabariam, e minha cultivação sofria. Do jeito que as coisas estavam, mesmo se ela retornasse para casa em segurança, eu não seria capaz de me juntar a ela no ano seguinte.

Charok olha para mim e gesticula para que o siga. Ele me traz para a borda do platô. Eu olho para baixo. Eu não consigo dizer a profundidade, mas sei que não sobreviveria à queda.

— Eu fugi até chegar aqui, a pé, convencido que ela estava ferida em algum algum lugar, precisando da minha ajuda. Eu estava certo disso, frenético. Até que eu vi esse cenário. Meu eu cansado, exausto, caí aqui e apenas observei. Eu vi esse cenário, a beleza, a majestade de tudo isso. E eu percebi a força inerente a ele. Eu fiquei aqui e organizei meus pensamentos. — Charok olhou para o além.

Depois de uma longa pausa, Charok se virou e sorriu para mim.

— Eu percebi que eu estava deixando o medo me guiar. Eu estava sendo controlado por ele, e meu medo estava afastando tudo de mim. Eu nunca contei a ninguém sobre meus problemas. Meus amigos, minha família, eles não tinham ideia dos meus pensamentos. Eu guardei meu medo lá no fundo, o deixei me consumir, até que eu estava meio maluco e correndo por aí no meio da noite seguindo sentimentos que não existiam.

— Eu não fui em qualquer missão doida, se é isso que você está sugerindo. — Eu não estava tão mal assim. Certo? Eu sinto como se eu estivesse com todos os parafusos no lugar.

Ele me dá um olhar. Ele sabe. Sobre a minha insônia. Por que eu me esforço até a exaustão. Por que eu sempre me mantenho ocupado com algo para fazer. Eu tenho o bom senso de parecer envergonhado.

— Você sabe o resto. É por isso que eu te trouxe aqui. Para te contar a minha história. Para te dizer que você não pode deixar o medo te controlar. — Ele me abraça. — Eu não estou comparando minha situação com a sua, ou sugerindo alguma falha da sua parte. Você ter chegado tão longe nesse curto espaço de tempo me surpreende. Eu te admiro por isso, sua força de vontade, sua força. — Ele me olha nos olhos. — Mas você não pode mais permitir que seu medo te controle. Não se você deseja se tornar forte.

— Então, o que eu faço? Esperar por uma epifania, que nem a sua? Como estar assustado me impede de atingir o equilíbrio? — É tão frustrante. Eu vim até aqui esperando por alguma técnica, algum discernimento, algum método para seguir. Como eu lido com isso?

— Medo não te impede de atingir o Estado de Equilíbrio. Ser controlado por seu medo está te impedindo. No seu medo, você está afastando todos que iriam te ajudar. Você se ocupa escondendo sua dor e dando falsos sorrisos. Os céus não irão te ajudar, não porque eles te rejeitam, mas porque, no seu medo, você rejeita os céus. Eu não posso te dizer como lidar com seu medo. Eu só posso te dizer que você tem pessoas que se importam, e estão dispostas a partilhar dos seus fardos. Você é amado, pequeno Rain. Lembre disso.

Charok tirá sua faca, estende seu braço, e corta profundamente seu antebraço.

— Eu faço um juramento para os Céus. Eu nunca irei permitir que meu irmão Rain seja levado das Pessoas. Caso alguém tente, nós iremos nos levantar como um, e extinguir sua existência. Isso eu juro a você, com os Céus como minha testemunha. — O sangue jorra para fora de seu braço, em pequenos jorros escarlates.

— Se apresse e cure essa ferida, Charok. Você irá desmaiar por perda de sangue! — Eu acho que ele cortou uma artéria.

— Isso não pode ser feito, pequeno Rain. Um juramento feito para os Céus requer sacrifício. Irá se curar naturalmente. Caso eu quebre meu juramento, isso me custará um preço. — Charok sorri fracamente para mim. Ele está perdendo muito sangue. Eu pego algum pó hemostático e bandagens da minha bolsa, e começo a trabalhar.

— Idiota. Como você vai supostamente manter seu juramento se você morrer por perda de sangue aqui. — Seria mais fácil trabalhar sem as lágrimas. Charok me afaga na cabeça com sua mão livre.

Não é medo do meu tempo como um escravo. Não mais. Eu sei. Charok irá me proteger. Eu acredito de todo meu coração. Eu sei que se algum dia eu for levado, ele irá matar todo mundo que me machucar. O único jeito de ele não fazer isso é se Baatar e Alsantset matar todos eles primeiro. Eu não tenho que me preocupar. Eu não preciso de força porque eles serão minha força. Esse fardo foi tirado de mim.

Entretanto, eu sei qual é o problema. O real problema é que eu sou um homem adulto reencarnado como uma criança. Eu sei agora, essa é a real razão que me impede de encontrar meu equilíbrio. O porquê da Energia dos Céus me rejeitar. É porque eu não pertenço a este lugar. Eu sabia todo esse tempo, bem como os Céus. Eu estou enganando todo mundo, minha nova família. Me aproveitando deles. Eu não sou realmente um deles. Eu tomei esse corpo de alguém de sua família. É ele que pertence neste lugar. Eu não mereço o cuidado deles. Eu não mereço o amor deles.

 

Eu não posso continuar enganando eles dessa forma. Eu não posso ficar com eles. Eu não mereço eles.

 

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

13 Comentários

  1. Parabéns, o MC acaba de concluir o tutorial, vamos começar a jornada finalmente modo Hard, S ou N?
    Obrigado pelo capitulo!

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!