DS – Capítulo 2

Eu acordo com o grito dos guardas. Um dia como todos os outros. Entretanto, foi outra pessoa que acordou com um chute. O que é um bom começo, pelo menos para mim. Eu olho para o chão ao meu redor e, enquanto como, reviso as coisas que eu sabia. O que equivale a quase nada. Sujeira e pedras por todo lugar, mesmo fora da senzala. Alguns arbustos, mas nenhuma árvore. A parede atrás de nós é a base da montanha, rocha sólida. Três merdas de barracas feitas com sujeira e madeira, socadas contra a rocha, para que os escravos possam ter um teto sob suas cabeças quando forem dormir. Três cercas de madeira pontiagudas de talvez uns 3.5 metros de altura rodeiam meu novo lar com os portões localizados na parte esquerda da frente. Elas são bem firmes, ao contrários das barracas. Eu me pergunto de onde eles conseguiram a madeira?

Há um espaço considerável entre a cerca e as barracas, de modo que eu não consigo usar o telhado para pular a cerca. Além disso,  a cerca é pontiaguda o bastante para desencorajar a tentativa. Sem brechas entre a cerca e o lado montanhoso para que eu tente passar, mesmo que com dificuldade. Nenhuma tábua solta que eu tenha notado também. Sigo em frente.

Fora do portão estão seis cabanas que destoam das barracas, que é onde os guardas vivem. Elas parecem bem construídas, sendo feitas de madeira e tijolo. E elas até têm quatro paredes, ao contrário da porra das barracas. Acho que os escravos não valem o tijolo ou o esforço. Há muito espaço aberto nas áreas de convivência dos guardas, mas nenhum esconderijo óbvio. Há uma curva ao redor da montanha, mas fica a pelo menos 100 metros de distância, e sempre há alguns guardas por perto, nos vigiando.

Os escravos também não me serviriam de ajuda alguma. Eles são um bando deplorável, todos sossegados e quebrados, sem qualquer espírito de luta dentro deles. Pelo menos, não quando se trata dos guardas. Escravos são fáceis de lidar. Eles venderiam uns aos outros por uma tigela a mais de sopa se pudessem. Alguns são humanos, mas a maioria são homens-besta, assim como os guardas.  Na maior parte, eles parecem humanos, mas com algumas partes animais, tipo chifres, orelhas, olhos e rabos. Algumas vacas, ratos, coelhos e cabras. Nenhum porco como escravo. Malditos racistas. Ou seria especista?

Alguns dos escravos tem orelhas que eu não consigo identificar. Quero dizer, quantos animais têm orelhas triangulares? Ou arredondadas? Qual a diferença entre as orelhas de uma raposa e as de um gato? Ou as orelhas de um urso e as de um guaxinim? Eu não tenho idéia. Eu preciso de nomes flutuantes em uma tela ou algo assim. Eu tentei dizer em poucas palavras, em toda língua que eu soubesse, desesperado para ver se eu conseguiria abrir uma tela de status ou algo assim. Não rolou.

E se alguém fosse meio-macaco? Eles possuiriam um par extra de orelhas de macaco? Elas apenas ficariam atrás das orelhas humanas? O que seria muito bizarro. Ou um par de orelhas invalidaria o outro? Ou talvez elas iriam se combinar em um super par de orelhas gigantes híbridas de humanos/símios. Não que eu realmente me importe. Não há macacos escravos. Todos aqui também são machos, o que de algum jeito torna tudo pior. Porra de festa da salsicha. As idades variam, de talvez 10 até quem sabe uns 30 anos de idade. As crianças não duram muito, entretanto. Claro que eu pretendo ser a exceção.

Os guardas nos contam enquanto nos posicionamos em fila para o nosso passeio em direção às minas. Uma caminhada curta de 5 minutos, cercada por guardas armados, vinte e sete no total. Eu acho. Eu tenho certos problemas distinguindo um porco do outro. Apenas os guardas muito feios como o Gortan se destacam. O resto é apenas um tipo genérico de feio.

Eu preciso me focar. Estou planejando uma fuga aqui. Há muito espaço aberto entre a estrada e qualquer cobertura, talvez uns 150 metros de sujeira e grama. Alguns dos guardas carregam arcos, e outras armas de aparência sórdida, e eu não quero descobrir de primeira o quão bem eles usam essas coisas.
Honestamente, se todos os escravos daqui fizessem uma fuga coordenada e se espalhassem, os guardas não poderiam pegar a todos. Há pelo menos quatro escravos para cada guarda. Entretanto, essa não é uma grande idéia. Eu não tenho garantia alguma de que eu conseguiria fugir, que os outros escravos iam ao menos cooperar, nem que os guardas não iriam simplesmente chacinar todo mundo. Eu preciso de um plano melhor do que ‘todo mundo corre’.

Na mina também não há muita esperança. É apenas um buraco aberto no chão. Uma plataforma de escadas dentro e fora do buraco. Os guardas se dividem, com a maioria ao redor das escadas. Os outros se dirigem para dentro do buraco com os escravos. Eu pego uma cesta, trago ela para um lado e começo a encher ela com pedras. Trabalho, trabalho. Eu trago minha cesta para a área de descarregamento e assisto o vagão ser levado por um elevador de madeira. Tudo é feito à boa moda antiga do trabalho braçal. Apenas uma polia, alguma corda e a força muscular dos escravos. Os maiores e mais fortes escravos mineram e levantam as pedras, enquanto o resto enche os vagões. Eu não sei o que acontece com os vagões  no topo, mas eles sempre voltam vazios a todo instante.

Um soco de um dos guardas me deixa desnorteado. Aparentemente eu vadiei por tempo demais. Melhor voltar ao trabalho.

Ao final do dia, os guardas fazem uma segunda revista e contam nossos números enquanto estamos saindo. Acho que eles precisam ter certeza de que não estamos roubando suas pedras. Porque se tem alguma coisa de que precisamos, é de mais pedras nas barracas. Nunca se pode ter pedras demais para usar como travesseiro, seria muito mimo para os escravos. Está na hora de todos nós começarmos a marchar de volta para a senzala. Eu estou cansado pra caralho. Não há nenhuma chance de fugir na caminhada de volta. Eu estou cansado demais, e não tem jeito de vadiar durante o dia para poupar minha forças.

Eu reviso tudo que eu sei enquanto como a janta. Eu não consigo pensar em nenhuma rota de fuga óbvia. Eu não sei para qual direção fugir. Para longe daqui, pelo menos. Eu nem ao menos sei onde ‘aqui’ fica. Caralho. Eu não sei muita coisa. Tem de haver um jeito de escapar daqui. Eu vou procurar amanhã de novo. Talvez eu esteja me esquecendo de algo. Melhor manter meus ouvidos atentos. Se ao menos aqueles porcos malditos não tivessem uma língua própria. Eu deito na sujeira e caio no sono imediatamente.

Uma bota dura nas costelas me acorda. Eu vou te tostar e te comer vivo seu porco imundo. Não, não, eu não posso mostrar minha raiva. Esconda. Aceite isso. Não posso fazer nada quanto a isso. Eu podia tentar dormir mais ao fundo da barraca, pena que eu aprendi bem cedo que nem sempre há comida suficiente para todos. Eu levanto e saio do lugar, mas alguma coisa está errada. Todos os escravos estão aqui fazendo nada. Não há comida, e todos os guardas estão dentro da senzala.

— Precisamo tê uma cunversa cum cês. — Parece que Gortan quer dar um discurso para nós. — Alguns d’cês não estão mui feliz di tá aqui. Agora, pur que isso?

Ninguém respondeu. Na verdade, eu não acho que o porco esperava que alguém realmente respondesse, mas quem sabe. Eu mantenho meus olhos no chão. Apenas não responda aquilo. Mantenha sua boca calada. Ninguém gosta de um sabe tudo.

— Cês tem um teiado sob a cabeça, e comida na barriga e um trabai digno pra fazê. E ainda algun’ de cês não tão feliz. Cuspin na nossa generosa hospitalidadi. — Gortan ficou na nossa frente. Eu vi as botas dele parando bem na minha frente. Merda. Será porque eu estava olhando para os lados? Eu estava sendo muito óbvio com a minha busca por uma rota de fuga?
— Cês tudo foi comprado e pago pelo Grupo Comercial Caston. Isso faz cês tudo nossas propiedade. Eles me puseram a carga di todo mundo. Eu tomo conta do cês. Eu alimento cês. Eu ten certeza que cês tenha lugar pa durmi. E é Assim. Que. Cês. Me. Pagam. De volta!?

Eu fico parado lá. Cabeça ainda apontada para baixo. Eu escuto movimento. Prendo minha respiração. Eu levanto minha cabeça. E solto o fôlego que eu estava prendendo.

Os guardas estão segurando três escravos. Eu não os reconheço, mas nem suas próprias mães conseguiriam também. Seus rostos são uma massa de calombos roxa e vermelha. Um tinha chifres, mas eles foram quebrados. Os outros dois estão tão ensanguentados que eu não consigo distinguir se eles tem ou não um par de orelhas extras.

— Sas propiedade qui tentaram escapar. Eles conseguiram solta umas tábua da cerca e tentaram fugí. — Gortan se vira para um dos fugitivos. — Agora quando uma propiedade somi, alguem precisa sê responsável. Esse seria eu. — Ele soca o primeiro escravo na virilha, o que causou calafrios em todos nós. O fugitivo tentou fazer algum som, mas nenhum som saiu. Ele teria desabado se não estivesse sendo segurado. — Trocando em miudos, cês fugindo, é igual a Roubar.  Do meu. Bolso. — Cada palavra sendo pontuada por um golpe. — Dá mais trabaí pra mim e meus garotos. Então, nóis vai ensiná uma lição para cês tudo. — O porco bastardo quase parece feliz.

Eu tento parar de olhar.  Parar de ouvir. Viajar na maionese. Mas eu não consigo. Eu assisto enquanto os fugitivos são escorraçados, um de cada vez. Eu assisto o punho do Gortan afundando nas entranhas deles. Eu escuto eles gemendo, suas tentativas de implorar perdão, seus ossos quebrando e seus gritos de dor. Ele se diverte espancando eles, enquanto os guardas riem e instigam-no mais ainda, dando armas para ele, gritando obscenidades, enquanto todos nós assistimos em silêncio e aterrorizados. E durante todo o processo, tudo que eu consigo pensar é ‘graças a Deus que não sou eu’.

Eles nos mandaram para o trabalho sem café da manhã. E mesmo se eles não tivessem, eu não acho que conseguiria comer sem vomitar tudo depois. Apenas encha a cesta, e descarregue a cesta. Encha a cesta, e descarregue a cesta. Isso é tudo que eu vou fazer. É tudo que eu posso fazer. Não se destaque. Não seja pego.

O dia passa devagar. Os guardas fizeram da missão deles nos aterrorizar ainda mais. Não faltou surras para ninguém. No nosso caminho de volta para a senzala fomos cumprimentados pelos cadáveres dos três fugitivos, enforcados no portão. Bom, a maior parte dos seus corpos, pelo menos. Algumas partes pareciam estar faltando. Eu tiro meus olhos daquela cena. Um aviso, eu acho, não que precisássemos de outro. Nós comemos nossa comida, todo mundo se amontoando o mais longe possível dos cadáveres.

Eu deito no chão outra vez. Mais um dia, um pesadelo, só que real. Preciso colocar o plano de fuga na geladeira por um tempo. Eu não posso arriscar. Se eu tentar, o próximo cadáver enforcado no portão será eu. Eles são uns malditos psicopatas. Eu posso aguentar ser um escravo por mais um tempo. Eu tenho comida e um abrigo. Talvez alguém mais esperto tentará fugir e eu posso demonstrar meu valor. Receber uma promoção, como se fosse possível. Eu só preciso fazer meu trabalho, ficar de cabeça baixa e sobreviver. Eu posso fazer isso. Eu vou demonstrar meu valor.

 

Meu nome é Rayne. Eu sou um escravo. Eu apanho pedras.

 

Eu fecho meus olhos e tento me forçar a dormir.

 

O que não é fácil.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

13 Comentários

  1. “— Precisamo tê uma cunversa cum cês. — Parece que Gortan quer dar um discurso para nós. — Alguns d’cês não estão mui feliz di tá aqui. Agora, pur que isso?” KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK… Lembrei de uma pessoa aqui!!! Não liguem pra mim!

  2. Eu acho que fazer o caos pra aumentar as chances de escapar vai ser a melhor opção, tipo tacar fogo nas barracas, mas, talvez seria melhor matar alguns outros escravos pra sobrar mais comida e fazer ele ficar mais forte (deixar de ser um saco de osso) e conseguir correr para caralho dps que escapar.

    1. eu comeria os escravos mais velhos para ficar mais forte e conseguir matar um guarda tiro a pele dele visto e fico numa distancia segura para os guardas não verem direito e saio numa boa pela porta da frente

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