DS – Capítulo 20

Eu fico na frente do meu adversário, meu nemesis, meu inimigo.

Ele tem que morrer.

Meu peito sobe e desce lentamente conforme estabilizo minha respiração. Só tenho uma única chance. Preciso colocar tudo neste único golpe.

Para destruí-lo.

Eu olho para minha nova espada e a estudo. O pomo sem adornos, o cabo enrolado belamente, um padrão complexo composto de linhas vermelhas como base e pretas enroladas por cima. A bainha é retangular e feita de madeira, com uma ponta chata de metal. Mais linha preta é enrolada ao redor da parte superior dela, com uma fivela de cinto feita de um metal simples presa dentro dela.

A lâmina desliza para fora lentamente. Sem um som ressonante, apenas o raspar de metal contra madeira. Minhas mãos descansam confortavelmente no cabo levantado da empunhadura, sentindo o padrão dos Xs. Não há guarda para mão, apenas um pequena porção retangular aumentada, separando a lâmina e a empunhadura. A lâmina é reta e com dois gumes, 35 cm de comprimento e 4 cm de largura de metal espelhado polido. Dois sulcos correm ao longo da lâmina, e quando a luz bate nela, causa um reflexo no formato de um padrão de diamantes ondulantes devido aos sulcos.

É uma arma forjada maravilhosamente, bela em sua simplicidade. É minha. É uma parte de mim, em corpo e alma. Eu vou usá-la para cortar meu inimigo. Eu inspiro, e expiro fechando meus olhos.

Eu alcanço o Equilíbrio. A Energia dos Céus vem até mim, como ondas batendo contra um penhasco, gradualmente desacelerando até ficarem calmas como a superfície de um espelho. A energia estática é direcionada para minha espada. Controlar ela é fácil como respirar.

Lentamente, eu balanço minha espada na direção do meu nemesis. Ela acerta, encontrando resistência, um lento caminho irregular, abrindo um corte.

Meus olhos se abrem, e o Equilíbrio se perde. Eu estudo meu trabalho diante de mim. A tora de madeira tem um pequeno pedaço faltando, quase do tamanho de um dedo.

— Medíocre. — Baatar é o mesmo de sempre, direto e sincero. — O corte é muito superficial, o caminho instável. Você não está projetando chi o bastante na lâmina, nem de maneira uniforme. Novamente.

Três anos de treinamento podem ser resumidos nesta única palavra: novamente. Falhe, e tente novamente. Tenha êxito, e o faça novamente. Isso foi gravado na minha mente por cada um dos meus professores. Novamente.

Minha segunda tentativa é igual à primeira. De maneira semelhante é a terceira e a quarta. Uma hora de tentativas depois e a tora foi reduzida a gravetos. Minha energia está exaurida, suor escorrendo do meu corpo, cabeça doendo de tanto esforço, respiração ofegante.

Baatar bufa, anda até aqui e coloca uma barra de metal de 30 cm de diâmetro no suporte. Ele pega minha espada e casualmente faz um corte backhand. O metal range e, de repente, está cortado em dois.

Isso é apenas inumano. É ridículo.

— Eu fico te dizendo, menino: construa suas fundações. Você continua me enchendo para te ensinar mais métodos de se usar o chi, mas você nem ao menos compreende o aspecto mais simples sem fechar seus olhos. Leva tempo e esforço para fazer isso. Você precisa praticar mais seu controle. Você precisa crescer. É nisso que você deveria estar se focando. Um passo de cada vez, menino. Limpe isso aqui. Nós terminamos por hoje. — Baatar se vira e vai embora. Sua cauda está abanando, então eu sei que ele não está bravo. Então, novamente, é hora do almoço.

Está na hora de começar a limpar os restos do meu nemesis. Descanse em Paz, Sr. Madeiroso. Ele se vinga com uma farpa no meu dedo, apesar de eu ter rezado para ele, mas isso é karma. Eu retalhei ele em pedaços de qualquer forma. Eu levei um ano para dar o primeiro passo. Dois anos depois… aqui eu estou, ainda preso nesse primeiro passo. Eles são realmente grandes passos.

Porém, eu não estou muito chateado. O treinamento é só por diversão de qualquer forma. Não é como se eu fosse lutar até a morte com pessoas ou qualquer coisa do tipo. Herbalismo e cura toma a maior parte do meu tempo, e o Treinamento Marcial é mais um hobby. Mas é um hobby que pode salvar minha vida. Melhor do que jogar damas o dia todo.

Estes dois anos foram bons. Vivendo na vila, aprendendo e treinando. Assim que eu fui capaz de atingir o Estado de Equilíbrio, meu corpo passou por um surto de crescimento, e todos aqueles estágios estranhos da pré-adolescência. Aos 16 anos de idade, eu tenho quase 1,65 m de altura, o que é um pouco mais baixo do que a média na vila. Entretanto, ainda há mais alguns anos de crescimento por vir, então com sorte eu vou ficar mais alto. Minha voz está mais grave, mas ainda está na meio para alto na escala de alcance vocal. Exceto isso, não mudaram muitas coisas. Os gêmeos estão mais velhos, mas ainda adoráveis, Charok e Alsantset ainda estão loucamente apaixonados, e Taduk ainda é um Supremacista das Lebres. Tadinhos dos coelhinhos. Pobres, deliciosos e suculentos coelhinhos.

Nós estamos em uma onda de sorte, sem casualidades desde antes de eu chegar. Todo ano, é uma ocasião alegre quando Baatar volta com a Companhia. Eles amam seus festivais. A Companhia está de volta? Um festival. A Companhia está partindo? Outro festival. Ano Novo, Colheita, equinócios de verão e de inverno? Festivais para tudo. A vida na vila pode ser bem entediante, então eles encontram uma razão para celebrar quase tudo.

Essa manhã, Baatar me deu de presente minha nova espada. Por isso, a nova lição. Ela é provavelmente cara, já que a maioria das armas é de ferro negro, o que é extremamente diferente da minha nova espada brilhante. Uma arma espiritual, algo que eu posso infundir com meu chi. Ela foi feita na vila, então eu deveria ir descobrir como elas são feitas, e ver se eu posso conseguir uma lança também. A espada é um pouco curta para meu gosto, mas ela serve perfeitamente para o estilo que Baatar está me ensinando.

Baatar me ensina quando está por perto e, no resto do ano, é Alsantset que cumpre esse papel. Isso causou algumas competições amigáveis entre os dois, comigo no meio da coisa. As coisas ficam especialmente complicadas perto dos tempos de transição. Ambos possuem estilos diferentes para ensinar e tendem a me puxar cada um na sua direção. Baatar quer que eu seja agressivo, marchando para frente com lança curta e escudo, e agora a nova espada curta. Alsantset prefere usar uma arma mais longa, como uma lança normal, controlando o ritmo e mantendo sua distância. Eu não tive escolha além de me esforçar para aprender ambos. Era mais fácil do que tentar fazer os dois entrarem em paz, ou pior, escolher um em detrimento do outro. Ambos são teimosos e orgulhosos, e é difícil lembrar que eles não são parentes de sangue.

A espada é um grande presente, mas eu sinto que uma espada é puramente uma arma, o que não serve para mim. Quero dizer, eu posso usar uma lança e um arco para caçar. Uma espada curta? Melhor do que nada é o melhor que posso dizer. Eu não deveria ser ingrato. É uma arma esplêndida.

Eu lavo minhas mãos e vou embora, minha limpeza completa. Hora do almoço. Normalmente, seria hora de comer com Taduk e Mei Lin, mas eles saíram em uma longa viagem para a cidade. Taduk é proprietário de uma casa de campo lá, e costuma visitá-la por umas poucas decanas de vez em quando. Uma casa de campo. Eu aposto que lá tem todos os tipos de produtos de luxo. Eu mal posso esperar para ganhar uma bela grana como médico. Ou até mesmo visitar a cidade. Embora a vila seja um lugar lindo, algumas vezes você precisa de uma mudança de cenário.

As portas familiares da minha casa estão escancaradas, e o cheiro de arroz cozinhado e temperos me cumprimenta. Se não fossem todos aqueles exercícios e caminhadas, eu seria gordo pra caralho agora. Os gêmeos estão sentados à mesa, já esperando pelo lanche. Alsantset está trazendo a comida em pequenos potes de bambu. Eu me sento perto de Tali e espero pacientemente. Não babe.

— Husolt mencionou que Papai te trouxe uma nova espada. Me mostre ela. — Aquele espírito competitivo transparecendo. Provavelmente, Alsantset vai criticar ela por ser muito curta. Eu estico meu braço para desenganchar a bainha e congelo. A nova espada ainda está no local de treinamento. Porra.

Eu ainda não estou muito acostumado em caçar animais, especialmente os fofos e peludos. Uma coisa que eu não esperava era o grito. Todos eles gritam enquanto morrem. Eu não sou bom o bastante com o arco para matar instantaneamente meu alvo todas as vezes. Me causa calafrios. Porém, não me tornou um vegetariano. O sabor da carne é bom demais para isso. Isso me fez apreciar mais a carne, vendo a quantidade de trabalho necessário. Nem vou comentar sobre fazer macarrão ou bolinhos. Então aqui estou eu, fazendo minha parte, abatendo deliciosos animais. Ou pelo menos tentando achar animais deliciosos para matar. Eu estou sendo útil.

Pafu e Suret estão comigo, carregando em seus braços seus três novos filhotes. Os filhotes saíram de seus ovos na primavera, o que levantou todo tipo de questões. Agora, com quase 6 meses de idade, as pequenas e adoráveis bolas de pelo ainda são muito fracas, e raramente saem da vista de seus pais. Leva dois anos para que eles cresçam totalmente, e durante este tempo os pais vão cuidar deles juntos. É legal ver bons pais animais. É reconfortante.

Após a vibração do meu arco e o silvo de uma flecha, um grito estridente soa. Pássaros voam para longe e a floresta fica em silêncio por um momento, antes de seus sons normais voltarem. Pafu deixa o filhote nas patas de Suret e corre para pegar minha presa. Ele volta com um grande coelho em suas patas e boca, me entregando com orgulho. Roosequins parecem ser o melhor amigo do homem por aqui, úteis para todo tipo de coisas. Eu começo a tirar seu sangue e a esfolá-lo, removendo os miúdos e jogando pequenos pedaços para os quins. Minhas capturas até agora são três pássaros d’água e dois coelhos gigantes. Mais um pássaro e eu posso ir para casa. Ter tardes livres ultimamente é muito bom. O coelho vai para dentro da cesta com seus parceiros na delícia, e nós voltamos para a caçada.

Pafu e Suret entram em alerta, notando alguma coisa que eu não percebi. Meus olhos se focam na mesma direção, e armo outra flecha. Aqui fora, você não é sempre o caçador. Eu atento minhas orelhas e olhos. Barulhos normais da floresta. Nenhum arbusto se mexendo, árvores balançando, nem sons de movimento. Apenas um alarme falso.

Um grito ensurdecedor faz meu cu trancar, e eu congelo por uma fração de segundo antes de fugir. Pafu e Suret reagem mais rápido do que eu, bem na frente e ganhando distância. Porra de traidores peludos. Eu deveria arranjar um cachorro. Correndo desvairado pela floresta, pulando toras e atravessando arbustos enquanto atrás de mim eu ouço a coisa atravessando toras e rasgando arbustos. Porra. Respire fundo, encontre Equilíbrio. Uma raiz apanha meu pé, e eu tropeço alguns passos, desperdiçando preciosos segundos. Minhas opções são limitadas, eu me viro e disparo uma flecha antes de mergulhar para o lado.

A coisa atravessa as árvores, incapaz de parar. Uma segunda flecha é preparada, mas eu não tenho visão plena do alvo. Um grito estridente e pulsante ressoa mais uma vez. O bicho anda para frente um passo lento de cada vez, revelando lentamente seu corpo de um metro de altura, me encarando com seus pequenos olhos amarelos, penas verdes malhadas e despenteadas, com minha flecha em seu ombro. A porra de um Pássaro Pavoroso. Ele ataca novamente.

Disparo novamente e mergulho para o lado de novo, mas ele está esperando por isso, pisando diagonalmente, pescoço longo esticado, bico mordendo a centímetros da minha perna. Graças a Mãe ele não cerca bem. Ou voa de alguma forma. Eu largo meu arco, e desembainho minha espada. Mais como uma faca. Se apenas Suret não tivesse fugido com a minha lança e escudo. Não que isso importe.

O pássaro fica cauteloso com minha arma brilhante. Nós encaramos um ao outro, ele me avaliando, eu tentando matar ele com os olhos. Talvez eu deveria ter continuado no arco um pouco mais. Um terceiro grito, bico aberto, esôfago dentado à mostra. Ele anda para frente, bicando na minha direção. Com minha espada empunhada em ambas as mãos, eu bato na sua cabeça para afastá-lo, desviando ao redor de árvores e rochas. Seu bico morde elas como se estivesse mastigando manteiga. Meus braços começam a parecer macarrões, sua cabeça como uma viga de aço, eu perco terreno perante ele, minha vida passando pelos meus olhos a cada mordida de seu bico.

Pafu corre atrás de mim, segurando a perna do pássaro e a puxa para trás. Ele se vira para morder Pafu e eu ataco, focando meu chi na espada. Se torne um com a arma. Balançando minha espada em direção ao seu pescoço grosso, musculoso, o aço o corta profundamente. Um grito manda calafrios na minha espinha.

Não. Fracasso. Tento de novo? Eu puxo a arma para fora e preparo para um segundo golpe.

O ar é espremido para fora dos meus pulmões, um grande pé com garras me chuta no peito. Meu corpo voa alguns metros para trás, aterrissando sobre meus joelhos, tentando respirar. Minha testa atinge a terra.

Eu preciso levantar. Eu posso sentir seus passos se aproximando. Passo. Passo. Batida.

Minha cabeça ainda está no chão, respiro com dificuldade, com uma dor aguda acompanhando cada respiração. Incapaz de ficar em pé até que elas parem, eu levanto minha cabeça para olhar minha morte iminente.

O Pássaro Pavoroso está no chão, uma poça do seu sangue vermelho se forma no chão, jorrando como uma fonte pulsante, cada pulso mais fraco que o último. Sua boca está aberta, gritos murmurados dignos de pena. Seu gritos de morte quase soam como se estivesse de coração partido. Eu me encolho e espero a dor no meu peito diminuir, enquanto assisto o pássaro morrer.

Eu não sei por quanto tempo eu desmaiei. Algo molhado e peludo encostando em mim faz com que eu acorde. Meus olhos se abrem, e vejo Pafu me cumprimentando, seu rosto coberto de sangue, gotejando de seus bigodes. Me esforçando para sentar, eu olho ao meu redor. O pequeno herói peludo estava comendo o Pássaro do Terror. Suret e seus filhotes ainda estão aqui, comendo o cadáver. Eu coço Pafu no pescoço e ele ronrona de felicidade.

— Quem é um bom quinzinho? Você é, sim, você é. Você salvou minha vida, não foi? É, cê salvou. — Meu rosto está enterrado em seu pelo agora. Se Pafu ou Suret algum dia se tornarem Bestas Ancestrais, eu espero que eles não contem a ninguém sobre a minha voz de “animal fofo”.

Minhas pernas estão cambaleantes enquanto eu fico de pé e procuro minhas estribeiras. O sol vai estar no céu por mais umas três horas, então eu não apaguei por muito tempo. Fazendo meu caminho lentamente até o pássaro morto, eu espanto os quins. Esta é minha presa. Pafu ajudou, então ele pode lanchar, mas os outros pequenos traidores peludos não merecem os melhores pedaços.

 

Eu espero que esse pássaro seja uma delícia. Seria embaraçoso morrer para um papagaio gigante.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

10 Comentários

  1. Tivemos um time-skip e a revelação de que os quins nascem de ovos.
    Quins -> carregam coisas, correm, escalam, nadam, tem garras e põem ovos. Só não voa pq ia ser muito roubado um bixo desses

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!