DS – Capítulo 22

Mila assistia enquanto Rain golpeava a tora de madeira. Ele estava nisso desde que chegou, quase duas horas atrás. O sol se pôs a muito tempo, e ele ainda golpeava, iluminado pela luz das tochas, com uma determinação feroz de destruir quantas toras ele conseguisse. Que idiota.

Sua melhor amiga adorava este cara estranho, odiador-de-toras, lobo solitário maníaco por treinamento. Lin iria sempre falar sem parar de seu ”Irmão mais velho Rainzinho”. Mila apenas não entendia o que Lin via nele. Ele gastava todo seu tempo treinando. Uma estátua viva entediante.

Toda vez que Mila vinha para uma prática extra, ele estaria aqui, fazendo alguma prática sem sentido. Uma vez, ela viu ele socar uma tábua de ferro por uma hora. Era impossível se concentrar, com o constante e maçante bang bang. Quando ela pensou que ele tinha acabado, ele só trocou para socar com a outra mão. Ela quase queria arrancar sua própria cauda. Uma noite de treinamento, arruinada por distração. Foi enlouquecedor.

Hoje era mais do mesmo. Repetição sem significado de uma ação sem sentido. Chok. Pausa. Chok. Pausa. Aquele olhar estúpido no rosto dele. E para quê? Nada. Não havia qualquer razão inimaginável para ele fazer isso.

Ela precisa saber. Ele sempre fazia o treinamento mais estranho. Ele tinha que ter uma razão, além de deixar ela maluca. Ela arrumou seu cabelo ruivo curto com as mãos, fazendo com que ficasse apresentável. Uma vez pronta, ela andou até ele e perguntou secamente:

— O que você está fazendo?

Ele se virou para ela e piscou. Depois de uma pausa, ele respondeu:

— Treinando?

Ela suspirou internamente. Por que isso foi uma pergunta? Ela tentou novamente.

— Por que você está apenas golpeando uma tora de madeira? Você está fazendo isso por um longo tempo.

Ele piscou de novo, falando mais devagar dessa vez.

— Eu estou praticando com minha arma.

Mila rangeu seus dentes. Ele deve ser um idiota. Ela inspirou. — O que você está praticando? Como fazer gravetos?

Ele abriu sua boca, se tocando. Ele segurou sua espada com as duas mãos, mostrando ela, e disse:

— Essa é uma arma espiritual. Isso quer dizer que você pode infundir Energia Interna nela. É isso que eu estou praticando. Ele deu um meio sorriso de superioridade.

Mila fechou seus olhos, e contou até a dez. Ele deve estar fazendo isso de propósito. Ninguém pode ser tão retardado. Ela contou até dez mais uma vez, e então abriu seus olhos. Rain se virou de volta, se preparando para cortar a tora de novo.

— Pare. Pare. Apenas pare. Eu entendo que você está praticando. Eu sei que você tem uma arma espiritual. Meu pai fez ela. Eu enrolei a empunhadura e a bainha. Eu também tenho minha própria arma espiritual. Eu estou bem ciente de como infundir ela com chi.  Frustração ameaçava esmagar ela. — O que eu quero saber é, o que exatamente você está tentando conseguir com isso?

— Ah, éee, tendi. Então, eu estou praticando para controlar meu chi, para espalhá-lo igualmente pela arma. Quando feito propriamente, deveria cortar uma tora ao meio com um único golpe. Você disse que seu pai fez isso? — Seus olhos brilharam de interesse.

Mila pôs a mão na testa. Depois de um longo momento, ela suspirou, e disse:

— Você é um idiota. Simplesmente infundir chi na arma não vai deixar ela mais afiada. Tudo que ela fará é fortalecer o corpo, o mesmo quando você traz Energia Celestial para dentro do seu corpo. Ele esteve lascando toras a noite inteira por nada. Ela se envolveu com um idiota.

— Ah? AHHHH, tendi, isso faz sentido. Mas eu vi Baatar cortar uma barra de metal ao meio com sua espada, essa manhã. Como eu faço isso? — O idiota estava agora pedindo conselhos a ela. Perfeito. Ela deveria ter ficado longe. Ela amaldiçoou sua própria curiosidade.

— É uma forma avançada de manipulação de chi. Você deveria apenas perguntar ao seu mentor. — Ela precisava se separar dele. Sua estupidez poderia ser contagiosa. A pobre coisa estava louca de solidão.

Ah, obrigado. Eu farei isso amanhã. Ele realmente se curvou levemente em agradecimento, alguns centímetros, mas se curvou ainda assim. Me desculpe, mas eu não sei seu nome.

Ela parou por um instante. Eles estiveram nas mesmas turmas por três anos agora. Claro, ele faltava às aulas quando seu mentor retornava, mas isso davam apenas quatro meses no ano. Como ele não sabia os nomes de todo mundo? Ele era realmente um idiota.

— Meu nome é Sumila, — Mila disse seu nome a ele secamente, não se importando com etiqueta. Ele não se esforçou para aprender os nomes das pessoas em sua própria turma, então não merecia uma introdução de um membro da tribo.

Ele se curvou mais uma vez. Era vergonhoso, sempre abaixando a cabeça.

— Obrigado por explicar meu erro, Sumila. Eu pus a carroça na frente dos bois. — Este idiota nem ao menos percebeu que estava sendo insultado. — Você disse que você que enrolou isso? Ficou muito bonito.

Ela ficou um pouco mais ereta depois do elogio. A maioria não apreciava o quão bem ela fazia os enrolamentos. Ela se certificava de fazê-los funcionais, mas ainda bonitos. O pai dela sempre evitava designs e padrões em sua forja, dizendo que estética era inútil para uma arma, mas que jovem guerreiro quer comprar uma arma simples? Contanto que não afetasse sua funcionalidade, ela não via razão para uma arma não ter uma aparência legal. Uma empunhadura bonita, algumas gravuras no pomo, um design na bainha, tudo proveria forma, sem interferir na funcionalidade. Talvez ela estivesse errada sobre ele.

Não faria mal dar a ele alguns conselhos. Ela se virou para estudar as marcas na tora, irregular como se tivesse sido partido ao invés de cortado.

— Você está forçando seu chi na arma rápido demais. — Ela fez a mesma coisa a princípio. — Você só precisa se conectar com a arma, e o chi irá fluir naturalmente.

Ele inclinou sua cabeça para ela, parecendo confuso.

— Mas eu não preciso forçar o chi em torno do meu corpo? Caso contrário, ele só permanece perto do meu estômago. — Ele afagou a barriga. Mila se segurou para não rir. Que explicação infantil de chi. Ele se reúne no seu Dantian, “não fica perto do estômago”. Porém, ela não desprezou ele por isso. Suas palavras e ações de agora o fizeram parecer mais genuíno do que quando ele estava se curvando e cumprimentando.

Ela pensou por um momento na melhor forma de explicar.

— É assim que você cura? Forçando o chi? Não, você simplesmente direciona ele. Seu chi é um presente dos Céus. Ele possui o conhecimento do que fazer. Você só precisa permitir que ele faça. Chi não tem uma forma física, ainda assim ele pode ser encontrado em cada parte de você. Tudo que você precisa é se tornar um com sua arma, e o chi irá naturalmente saber o caminho. — Ela apontou para a arma e continuou, — A arma foi feita com maestria, para distribuir o chi por conta própria de maneira apropriada. Você a está desbalanceando quando exerce sua influência sobre ela de maneira forçada. Você deve harmonizar com sua arma, e o problema estará em grande parte resolvido. Isso levará tempo. Você deve ter essa espada não faz nem um dia.

Ele fez careta, digerindo as palavras dela.

— Essa palavra, “harmonizar”, o que ela quer dizer?

Mila coçou a cabeça. Ele era mais idiota do que ela tinha pensado. Isso iria ser difícil. Ela olhou para baixo para pensar em um jeito simples de explicar. Então, ela franziu a testa, confusa.

— Por que seu peito está sangrando?

Akanai se moveu através das Formas, e as décadas de repetição concederam a ela a força e a atitude para fazer isso sem esforço. Ela decidiu focar nas Formas do Touro. Raivoso, poderoso, e imprevisível, a força desta Forma refletia seu humor nesta noite. Mila suplicou para não fazer suas tarefas, fugindo para treinar com um de seus colegas estudantes. Era tarde, e ela ainda não havia retornado. Ela não iria treinar por tanto tempo. Akanai conhecia sua filha. Para não apenas evitar suas tarefas, mas seu treinamento também?

Akanai se moveu através de “Erguer a Sequoia”, “Atravessar a Montanha”, “Pisar no Lobo”. Ela continuou se movendo através das Formas. Estrondos afiados de vento seguiam seus movimentos, com sulcos na grama deixados por seus pés. Um tinido de sons enquanto seu punho assolava a placa de socar feita de ferro. Ela parou, respiração ofegante, mão presa na placa.

— Ei, dona esposa, seu temperamento está aparecendo. Nosso quintal está destruído. Como vamos receber visitas assim? Onde a gente iria botar a cara, mostrando um cenário como esse, — Husolt saiu do quarto deles levado pelo barulho, comentando sarcasticamente quando viu o quintal deles.

O marido dela não ligava realmente para o jardim deles. Suas palavras foram apenas uma repetição das próprias palavras dela, de quando ele ficou bêbado e arrancou o pessegueiro. Um verdadeiro homem-urso, ríspido e ousado, seu único olho sorrindo para ela. Akanai fungou em descontentamento. Esse não era a hora para frivolidades.

— Sua filha fugiu para só a Mãe sabe onde, com só a Mãe sabe quem. Essa filha, sem um pingo de elegância e tato. Ela é parecida demais com você. — Ela não podia repreender Mila, então ela repreenderia ele. — Incapaz de aprender nada além dos seus maus hábitos. Contando piadas atrevidas, pregando peças idiotas, bebendo na noite. Quem casaria com uma garota como aquela? Como vamos encontrar um marido para a pequena Mila?

Husolt levantou as mãos, em posição de rendição zombeteira. Ainda assim o homem fazia gracinhas. O futuro da filha deles estava em perigo. Ela desistiu de encará-lo, já que não faria bem algum. Ela olhou ao redor para o caos feito em sua fúria. O jardim de pedras foi derrubado. A ameixeira substituta estava sem algumas cascas. Duas lajotas precisariam ser substituídas. Algumas flores precisariam ser plantadas para esconder as cicatrizes na grama. Talvez peônias. — Essa filha enfurecedora irá me fazer morrer de frustração.

— Desculpe meu atraso, Mamãe — Sumila chegou através da porta, mas o cenário congelou sua língua. Ela imediatamente se virou e fugiu.

— Pare neste instante, mocinha. — Akanai correu através do jardim, levantando sua pequena filha pelo cangote. — Você tem alguma noção de tempo? Onde você esteve, e com quem? Vai ver se eu não vou ter uma conversa com as mães deles. Você deveria estar treinando.

— Mas Mamãe, eu estava. Eu estava treinando. Eu fiquei a noite toda no pátio, você pode perguntar ao Tumen, ele estava de serviço lá. — Sumila estava queixosa, indignada. Sem vergonha ou raiva. Suas orelhas redondas de urso, tão parecidas com as de Husolt, ficaram imóveis. Akanai virou Mila, pernas balançando no ar. Sua longa cauda espessa vermelha-amarronzada se contraia incessantemente. Sua filha não estava mentindo.

— Se você estava treinando, então por que ficou fora tanto tempo? Você estava meditando em algum discernimento? — Ela pôs Mila no chão e se agachou para falar com ela, olho no olho, alisando seu colarinho. A filha deles estava finalmente mostrando maturidade?

Mila mordeu seu lábio e murmurou uma resposta. Quando pressionada, ela disse.

— Eu estava falando com Rain. — Akanai suspirou. Conversando com um garoto. Ela ficou feliz. Um garoto. Pequena Mila está mostrando interesse? Akanai fez careta. Um menino.

— Quem é esse Rain? O nome parece familiar, mas não consigo me lembrar. — Husolt caminhou, guiando Mila para a sala de estar. Akanai se permitiu ser guiada também.

— Ele é o discípulo de Baatar, o menino que vive com Alsantset. Nós estávamos falando sobre a espada que você fez a ele, Papai. — Sumila estava bancando a filha doce, esperando trazer seu pai para o lado dela. O grande imbecil caia cada vez.

— E por isso você está uma hora atrasada? O que você fez, explicou o processo inteiro de forja? — Akanai bufou. Ela precisava controlar a conversa, antes que Husolt ficasse de coração mole.

— SIM! Foi tão frustrante. Ele continuava fazendo perguntas, sobre como nós fizemos a espada, os materiais e o processamento dos metais. Ele não me deixava ir embora! — Pequena Mila parecia estar quase chorando. Como o pequeno marmanjo ousa fazer a filha dela chorar!

— Oh? Ele estava interessado em tais coisas? — Husolt coçou sua barba por fazer. — Talvez deveríamos convidá-lo à forja. Ele é o estudante de Taduk, não é? Com ele fora, o menino tem tempo. Eu não me importaria de mostrar umas coisas para ele. É sempre bom conhecer algumas coisas sobre ferraria.

Mila encarou seu pai e cuspiu um comentário venenoso:

— Não! Ele vai ficar lá para sempre, perguntando sobre todas as suas dúvidas estúpidas. Ele não sabe algumas das coisas mais básicas. Então enquanto você explica, ele te interrompe e te faz explicar todas as palavras que não conhece. Ele é tão estúpido! Nunca será capaz de se tornar um herbalista. Eu tenho pena da Lin, tendo que ajudar ele a toda hora.

Akanai olhou para a sua filha normalmente calma.

— O menino parece ter deixado uma bela impressão em você.

Mila fez uma careta, como se estivesse chupando um limão.

— Ele é um idiota. Enlouquecedoramente. E um mentiroso. Ele disse que matou um Pássaro do Terror hoje. Com a espada dele. Por que mentir tão descaradamente? Um tolo. Eu nunca deveria ter falado com ele.

Akanai acalmou sua filha, e enxotou ela para cama. Ela nunca viu Mila tão brava com alguém antes. Uma garota rápida em se zangar, mas normalmente rápida em perdoar também. Ela permaneceu na sala de estar com seu marido. Ela se aconchegou em seus braços e decidiu buscar sua opinião.

— O que você acha que deveríamos fazer, marido? Ela mostra interesse nele. Amor e ódio andam lado a lado.

Ele apenas sorriu. Um sorriso folgado, cálido e amoroso. O adorável imbecil não tinha a menor preocupação com a situação.

Akanai sentou-se de volta e deu uma olhada para ele.

— Você não acha que deveríamos fazer nada? Não deveríamos nos encontrar com o menino pelo menos?

Husolt riu.

— Velha esposa, você já tomou sua decisão. Por que me perguntar? Faça como quiser. Só não assuste muito o menino. Eles são crianças. Então de novo, pelo que pequeno Taduk me conta, eu apostaria que o menino não se assusta fácil. — Ele riu um pouco antes de adicionar rapidamente, — Não tome isso como um desafio, querida.

Akanai sorriu docemente para seu marido e tornou a se aconchegar em seus braços de novo.

— Claro, meu querido marido. Eu irei me comportar de maneira apropriada. Eu vou simplesmente fazer uma visita ao filhote amanhã de manhã, antes que ele comece o treinamento dele.

Ela aguardava com expectativas para saber como o discípulo do pupilo astro dela seria.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

15 Comentários

  1. Herbalista, Guerreiro, Domador de Chocobos(vou continuar chamando de chocobos),mago, mago porradeiro e agora ferreiro…
    falta alqumista de importante e tambem um chocobo lendario…

    1. Herbalismo e alquimia são bem próximos, já que se ele tiver um bom conhecimento de ervas e misturas, por sua vez terá influência quando ele for aprender alquimia já que ele estará bem ágil

  2. Se esse mulher for metra do homem lobo faz sentido a filha dela saber tanto sobre espadas. Obrigado pelo capítulo

  3. Ódio e amor andam lado a lado… O único sentimento que os outros têm por mim é “Quem é ele?” ahuahuhauhauhua

    1. Não sei quanto aos sentimentos, mas sempre que estou por perto, recebo uma pergunta após vários minutos… “De onde você apareceu?”.

  4. Se tem uma coisa que notei após estes poucos capítulos e que não importa o quanto o MC se esforce (Treino), sempre aparece alguém e diz o quanto aquilo e inútil e fútil e que o certo e respirar, relaxar e um cuspe na cara do coitado. Serio?
    Vejo o MC treinando horas sem parar, suando e mantendo o foco, e aparentemente nada disso esta dando lucro ou um retorno(ate o momento), estou muito frustrado.

    Obrigado pelo capitulo!

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