DS – Capítulo 7

— Pequeno Rain, abra seus olhos. Nós estamos quase em casa. — Alsantset acordou o menino gentilmente. Ele iria querer ver a vila. Ele era um menino curioso, tão cheio de perguntas, mas parecia relutante em fazê-las. Ele parecia fascinado por Suret e quando ela explicava sobre roosequins, Rain escutava atentamente, com olhos cheios de interesse.

Ele acordou assustado, mas logo se acalmou. Ela sorriu. Em sua primeira manhã com eles, o menino acordou chutando e gritando porque ele estava preso nos lençóis. Esses dias de viagem foram difíceis para o menino, e ele carregava muitas feridas ocultas, mas ele já havia melhorado tanto. Ele virou a cabeça de um lado para o outro e se inclinou para fora com o intuito de ver a encosta da montanha.

— Roosequin andando na parede! Como isso é possível?

Alsantset aproveitava os momentos de deslumbre infantil dele.

— Esta é a terra deles. Não há montanha íngreme demais para um roosequin escalar. — Um quin correndo encosta acima era o bastante para alegrar o menino. Na maior parte do tempo, ele era quieto e reservado, na tentativa de esconder sua dor e lágrimas. Ela esperava que ele aprendesse a dividir com eles, saber que um fardo carregado por muitas pessoas se torna leve. Ele perdeu tanto, sabia tão pouco sobre seu povo e precisaria de alguém para guiá-lo no seu retorno. Ela pretendia fazer isso.

Alsantset continuou guiando Suret encosta acima e ao redor das saliências. Ela diminuiu o passo perto da vila, deste modo o pequeno Rain poderia apreciar toda a beleza do lugar. Começando pelo portão com muitos telhados da vila, ao longo da torre do tambor, até a magnífica parede curvada que separava cada distrito. Ela ficava maravilhada com a arquitetura de tudo a cada vez que as via. A folhagem verde vibrante, que contrastava apenas com o brilho das ruas de rocha branca. As casas de madeira e tijolo no lado da montanha dispostas em camadas crescentes. Havia muitas estátuas esculpidas de rochas espalhadas entre a cidade, o que acrescentava na estética da vila. Alsantset amava seu lar e esperava que um dia o pequeno Rain amaria o lugar tanto quanto ela. Dos arrozais ao lago, do palco de performances até as cavernas brilhantes, ela estava ansiosa para dividir tudo isso com ele.

Muitos aldeões se moveram na direção deles, família e amigos felizes de ver seus entes queridos retornarem. Mais iriam chegar, conforme a notícia se espalhasse. Baatar começou a organizar a distribuição e armazenamento dos ganhos deles. Sedas e algodão para os tecelões, sal e conservantes para os açougueiros, especiarias e produtos de luxo para os armazéns a fim de serem separados. Charok estava distribuindo doces para as crianças da vila, as quais aceitaram com alegria e insistiam para ele ficar e contar a elas histórias das aventuras deles. Alsantset sorriu taciturna para eles. Pequeno Rain tinha a mesma idade delas, todavia já sofreu tanto. Quanto tempo levaria até que ele fosse capaz de sorrir e brincar daquele jeito? A vida dele deveria ter sido aqui, entre eles.

Alguns dos aldeões estavam olhando para ele, educados demais para perguntar algo, mas curiosos demais para não observá-lo. A atenção deles deixou o pequeno Rain nervoso, seu rosto pressionado firmemente contra Suret, como se ele estivesse tentando se esconder dentro do pelo dela. Alsantset fez carinho na cabeça dele de maneira calmante. Ela direcionou Suret de volta para a casa onde ela vivia com seu amado.

— Haverá uma festa hoje à noite, com comida, jogos e celebração. Amado irá ajudar na organização. Você deveria dormir. Desse modo você vai estar bem descansado para as festividades. — Ela continuou a tranquilizá-lo. Ele estava tenso, oprimido até o ponto de quase entrar em pânico. Talvez eles deveriam ter atrasado a chegada deles para que ele pudesse retornar de maneira mais silenciosa. Não, pequeno Rain precisa ver mais amor e felicidade. Alsantset desamarrou ele e o apoiou enquanto eles andavam para dentro da sua casa. De todos eles agora.

— Bem vindo ao lar, pequeno Rain.

Eu estava mais certo do que eu imaginava quando chamei eles de tribo de ninjas assassinos. Eles vivem literalmente em uma vila escondida no meio da montanha. Tudo é incrivelmente colorido. Eu pensei que todos os mundos com baixo desenvolvimento tecnológico seriam apenas vários tons de marrom e tristeza. Folhagem verde brilhante, flores de todas as cores, telhados com telhas de argila vermelha, água limpa e parede de rocha cinza brilhante, tudo é quase que colorido demais. Até as roupas dos aldeões foram tingidas, amarelo, rosa, azul, verde e vermelho em algumas das roupas que eu vejo. É um lugar pacífico e rústico. Entretanto, não há rostos esculpidos nas montanhas.

O lar de Charok e Alsantset é um casarão com pátio. O portão da frente se abre e revela a estrada principal. Após a porta, nós entramos em um jardim encantador, com uma pequena e borbulhante lagoa. Uma ponte no outro lado nos leva a uma torre com múltiplos níveis no centro da lagoa. Três construções de madeira cercam o jardim central, cada uma delas com um telhado côncavo ornamentado. Eles me deixam escolher um quarto e eu pego um no canto, entre os prédios do centro e o mais à direita. É perto da sala de jantar, o que é perfeito. O prédio à esquerda é o estábulo para Suret e Pafu. Tudo está surpreendentemente limpo, especialmente pelo fato de que eles estiveram longe pela maior parte do ano. Aparentemente as crianças do vilarejo mantém tudo limpo enquanto eles estão longe.

Um ano são 360 dias, organizados em doze meses. Cada mês tem trinta dias que são divididos em três dez dias, ou decana. É um calendário lunar em oposição ao calendário solar, com a lua nova começando no primeiro dia da primeira ‘decana’. Muito elegante e organizado. Eles não têm qualquer nomes específicos para os meses ou dias. Eles medem o tempo em segundos, minutos e horas e medem coisas em centímetro, metros e quilômetros.

Charok riu quando eu perguntei sobre essas coisas, mas eu acho que Alsantset estava chateada porque eu não sabia sobre essas coisas. Eu preciso fazer melhor que isso.

Há quatro estações, com o inverno se aproximando. Alsantset me conta que os invernos são suaves na vila, com pouca neve caindo. Fora da vila, entretanto, há muito mais neve e gelo, assim como temperaturas mais frias. Vila escondida é muito OP, tem até mesmo seu próprio clima. Porém, eles me contaram que não é devido a magia, apenas que nós somos protegidos pelas montanhas ao redor. É irritante o quão pouca tecnologia e magia esse mundo idiota tem, mas eu estou preso aqui, por sorte ou não. Pelo menos eles possuem papel. Poderia muito bem tentar tirar o melhor proveito disso. Mas primeiro, uma soneca. Viajar cansa e eu não tenho algo melhor para fazer.

Quando eu acordo da minha soneca, Alsantset corta meu cabelo. Ela só deixa tudo curto, o que eu acho que combina comigo. Eu não gosto muito do cabelo grande ou raspado que tantos aldeões possuem. Cabelo bem curto, como o do Baatar, combina comigo. Então ela me leva embora em Suret. Sem cordas dessa vez. Nós estamos indo a uma casa de banho. É um banho termal. Um banho termal misto! Há várias pessoas lá dentro, se limpando para o festival, mas ainda há muito espaço.

Meu banho é atrapalhado um pouco pelo fato de Alsantset insistir em ajudar a me lavar, apesar das minhas objeções. Seria menos embaraçante se ela não fosse tão ridiculamente sexy e eu não tivesse o corpo de um menino de doze anos. Entretanto, ela tem a melhor das intenções e eu realmente não deveria ver ela desse jeito. Ela é minha salvadora. Além disso, ela é assustadoramente forte. Eu acho que ela supera o escravo mais forte lá das minas.

Além disso, as outras aldeãs aqui são todas muito bonitas, nem um… rosto… feio à vista. Todo mundo que eu vi na vila é bem atraente, homens e mulheres, humanos e homens-besta. É como um paraíso escondido. Com garotas-besta. Exceto pelas encaradas. Eu atraio muitos olhares. É um pouco desconfortável e dificulta eu comer com os olhos. Talvez seja porque eu sou feio. Eu não me encaixo na estética das pessoas da montanha? Pelo menos ninguém tenta falar comigo. Isso seria um pouco demais agora.

Após o banho, Alsantset me dá algumas roupas e botas. Eu estou encantado. Eu posso me vestir como uma pessoa de novo. Faz tanto tempo. Até nesses últimos dias, eu estava vestindo uma das menores camisas dos soldados como um vestido. São apenas algumas roupas usadas, uma camisa marrom simples e calças, com um cinto de pano. Algodão talvez? Ou linho?  Eu realmente não sei como é que deveria ser a textura dos tecidos. Não me dá comichões, isso é um ponto positivo. As botas são feitas de pano também, com couro no fundo, forrado com pelo macio e muito confortável. Tudo é um pouco grande para mim, mas eu vou crescer nelas. Só de usar a roupa inteira eu me sinto melhor, parece que eu estou mais forte ou mais protegido. Talvez elas sejam encantadas. Eu pergunto se há alguma magia assim nelas, mas Alsantset apenas sorri e balança a cabeça. Ela parece um pouco triste sobre vir para casa. Talvez ela sinta falta de ‘cavalgar’ por aí e se aventurar. Eu digo a Alsantset que ela está bonita nas roupas dela, uma camisa simples e calças como as minhas. Ela sorri para isso.

Quando estamos no lado fora, ela me coloca em cima de Suret e caminha ao meu lado, uma mão nas minhas costas para garantir que eu não caia. Eu não vou mentir, é bom se sentir cuidado. Eu pressiono minha bochecha no pelo macio da Suret. Eu espero que a pelagem da minha bota não seja de um roosequin. Isso seria triste. Contudo, se eles estão mortos, não vão sentir falta, e minhas botas estão muito confortáveis nos meus pés. Vamos torcer que eles tenham morrido de causas naturais.

Alsantset guia Suret em direção ao lago no lado mais longínquo da vila, onde a comemoração supostamente irá acontecer. Eu assimilo tudo, a vista, a pressa dos aldeões, a correria, crianças rindo, o cheiro delicioso de comida cozinhando e a voz calmante de Alsantset, enquanto ela aponta os pontos de referência e lugares interessantes. Eu poderia me acostumar com uma vida assim.

 

Eu cheguei há pouco tempo, mas eu amo esse lugar.

 

Eu espero que eles não me façam ir embora.

Worst
Worst, filho da Música, casado com os Livros, tradutor de DS, CdMD e ASdCZ, ?% Engenheiro, 1 dos 3

12 Comentários

  1. Esse capitulo foi de certa forma refrescante.
    Obrigado pelo capítulo Worst.
    Vc vai conseguir o seu diploma😤🖒 tenha fé.

  2. Muito obrigado pelo capítulo!! Amei e acompanharei…

    Mais tem alguma novel maravilinda com MUITOS capítulos para me recomendar???

  3. Me pergunto se é por eu ter lido muitas novels em que tudo dá viradas do nada, mas quando vai dar merda?

  4. muito interessante essa novel ainda esta no começo mas já estou ansioso pelo próximo capitulo,e muito boa a tradução feita pela equipe toda

  5. malditos ninjas cortadores de cebolas. Quando compararam a vida sofrida a de uma criança normal…suor hétero brota de meus olhos

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