LdL – Capítulo 1

A Queda

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Abri meus olhos e me vi na minha cama, o som do meu grito de desespero ainda ecoava pelas paredes do quarto. O calor das lágrimas que desciam pela minha bochecha me faziam recordar do que sonhei, por algum motivo, sempre que isso acontecia, eu acordava chorando e com o peito dolorido pela agonia que senti durante o pesadelo.

Sentei na cama massageando o peito na tentativa de aliviar um pouco a dor que ainda sentia como consequência do pesadelo. Aos poucos voltei a normalizar minha respiração. Enxuguei meu rosto e me preparei para mais um dia amargo e vazio da minha vida.

Ao sair do quarto, me encontrei em meio a um silêncio familiar. Não havia ninguém no apartamento, apenas o gotejar de uma torneira quebrava aquela mudez infernal. Sempre vivi sozinho. Meus pais estavam sempre viajando a negócios e mesmo quando estavam em casa quase não tinham tempo para mim. Relembrando aquela época não sei dizer o que doía mais, ser abandonado ou ignorado por eles.

Ao passar pela sala, me deparei mais uma vez com as incontáveis premiações e diplomas que decoravam as paredes, suplementadas por inúmeros troféus. Em um grande mostruário repousavam dois prêmios Nobel, um de física e outro de química. Qualquer pessoa, mesmo que leiga, ficaria impressionada e intimidada ao ver a grande medalha de ouro junto ao diploma com o nome laureado, feitos especialmente para Laura e Ricardo Drumont, meus pais. 

Sim, eles eram gênios e não, não era legal. O fato deles serem tão brilhantes só tornava tudo mais difícil pra mim. Eu nunca seria tão bom quanto eles, e os olhares deles junto com a ausência deixam isso bem claro para mim. Eles sabiam que eu não era como eles. Na escola não era diferente. Os professores não tinham grandes expectativas sobre mim, além daqueles abutres que me tratavam apenas como uma ponte entre a instituição e meus pais, esses definitivamente eram os piores.

Eu apenas tomei café e saí para mais um dia. Naquela época eu tinha apenas dezessete anos. Para um adolescente de família normal, essa fase já é complicada por si só, mas para mim aquilo era um verdadeiro inferno. Por mais que eu tentasse, não conseguia ver uma forma de mudar ou… Não sei… 

Apenas mais um dia sem sentido, por que continuar com isso? Eu poderia ir embora desse lugar. Tudo sempre foi assim. Mesmo se eu sumisse agora, não faria falta para ninguém, muito menos para meus pais. Acho mesmo que eles sequer notariam que eu parti.

Ou, eu poderia dar um motivo para me notarem. Quebrar todos esses prêmios ridículos que servem apenas para inflar os egos podres deles. Não passam de símbolos da opressão e da falta de fé no filho patético que eles não querem. 

Dois lados da minha consciência começaram a discutir em minha mente.

Não! quando me formar poderei sair e me libertar de todos. Ninguém poderá me machucar de novo! só preciso aguentar mais um pouco… — pensei.

Sempre foi assim. Sentimentos mistos de angústia e uma falsa esperança lutando dentro de mim todos os dias. Como se dois lados diferentes lutassem para assumir o controle. Na maior parte do tempo minha mente me levava para lugares onde eu perdia o controle, jamais importando quantas vezes eu tentasse argumentar contra, afirmando e reafirmando que poderia ser diferente… Os argumentos nunca eram o bastante.

No caminho para a parada de ônibus, eu vi Jessica, uma antiga amiga de infância que já não me dava bola. Naquele momento, ela era a estrela da escola, boas notas, tida como prodígio pelos professores, bonita e muito popular com todos. No caso o total oposto de mim… retraído, isolado e ignorado por todos em volta, com exceção dos abutres.

Tomei meu ônibus e segui viagem. Muitos dos alunos da minha escola frequentavam aquele ônibus, muitos deles estavam mais animados que o normal, afinal aquele era o dia da feira de ciências, um evento muito esperado pelos alunos. Muitos deles tinham a chance de conseguir uma bela bolsa em alguma faculdade dependendo do desempenho.

Alguns alunos carregavam maquetes e aparelhos bem elaborados. Jessica carregava uma maquete com uma bola de vidro. Parecia nervosa para que ninguém encostasse no projeto dela.

— A competição é desnecessária, é claro que a Jess vai ganhar de lavada esse ano — Disse uma garota ruiva.

— Claro que vai ganhar, ninguém chega aos pés dessa belezinha. — disse um rapaz loiro e bem encorpado.

— Quietos vocês dois! — rosnou a garota — Não basta os solavancos dessa lata velha, cuidem para ficarem o mais longe possível do meu trabalho, principalmente você David.

— Afinal o que é que isso faz? —David perguntou, — você ficou o semestre inteiro trabalhando nisso.

 — Através dessa esfera posso mapear as memórias ruins fazendo com que as pessoas possam bloqueá-las — disse orgulhosa — Esqueça todas as cagadas que você já fez na vida com a esfera memorial. Isso dá um ótimo slogan.

Vendo aquela cena eu me perguntava como deveria ser legal ter amigos para compartilhar ideias e conversas. Eu me sentei no fundo do ônibus, longe de todos e de problemas. Frequentemente David zombava de mim e com isso todos sempre riam da minha cara.

Ao chegar no destino esperei todos saírem do ônibus para descer, levantei o capuz do meu moletom cinza e entrei na escola de cabeça baixa. Fui direto para a sala de aula me preparar para a apresentação da feira.

Após todos se posicionarem em seus acentos dois professores responsáveis pela turma entraram em sala.

— Muito bem turma, hoje é um dia muito especial para muitos de vocês. — Disse o professor Vanderlei, um homem na casa dos seus trinta anos que gostava de usar óculos de sol em sala, eu nunca entendi o porquê dele fazer isso. Ele era sem dúvida o professor mais divertido.

— As sementes para o futuro estão em suas mãos — ele continuou, — Se elas serão plantadas e regadas só depende de vocês.

— Esse ano teremos um olheiro do Instituto Biotécnico da América Latina, pioneira no estudo tecnológico de bio-robótica e combate ao câncer — Disse a professora Helena-Shang.

Ela era descendente de uma prestigiada família chinesa que se instalou no país. Na última década eles investiram pesado em tecnologias ambientais e ecológicas. A maior parte dos membros da família ocupam grandes cargos de prestígio na cidade.

— Agora, sem enrolação, sigam para os pátios e se preparem para as apresentações. Seus respectivos estandes se encontram lá.

Depois de uma caminhada tumultuada entre meus colegas agitados eu finalmente consegui chegar no meu stand, que devia medir cerca de um metro quadrado com uma mesa alta de madeira, onde coloquei minha mochila e desempacotei minhas coisas.

A barraca de Jessica tinha ficado no centro do pátio principal, uma grande multidão se aglomerava ao redor dela. Havia muitos gritos frenéticos e risadas vindo de lá atraindo curiosos e entusiastas. A delegação de professores havia acabado de sair de perto dela e eles pareciam bastante animados com o que viram.

Ao chegarem na minha solitária barraca, um senhor de sobrancelhas enormes que aparentava ter mais de sessenta anos se aproximou de mim e encarou minha mesa praticamente vazia, que continha apenas uma pequena caixinha cinza.

— E você meu rapaz, não trouxe nada ou seu projeto é sobre o gato de Schrödinger?

— Não senhor, bem, meu projeto é apenas uma pequena parte de um projeto maior, senhor — falei timidamente. Abri minha caixa e lá havia várias etiquetas adesivas brancas com códigos QR em cima — O senhor pode por favor me mostrar o seu braço?

O homem estendeu o braço e colei ali uma das etiquetas. Após um minuto de um silêncio constrangedor o adesivo mudou sua cor de branca para ambar. Nesse momento usei o leitor do meu celular para escanear o código na etiqueta.

— O senhor está muito bem de saúde posso dizer, só precisa pegar leve com o colesterol, — falei enquanto olhava para a tela do celular, ao levantar o rosto vi que todos estavam com expressões de confusão. Era de se esperar, já que eu não tinha explicado nada.

— Me desculpe, — eu continuei. — Esses adesivos funcionam como sensores que absorvem enzimas da pele. Com isso eu posso ter um detalhamento prévio de como está a sua saúde. Minha ideia é usá-lo em conjunto com os demais aparelhos para agilizar diagnósticos e melhorar o tempo hábil dos profissionais da saúde.

Todos ficaram pasmos por um momento até que o senhor quebrou o silêncio.

— Como você disse que se chama rapaz?

— Desculpe, eu não me apresentei, meu nome é James Drumont.

— Drumont? — falou um homem bigodudo — O mesmo Drumont de Ricardo e Laura Drumont?

— Sim —respondi baixinho.

— Ele é filho deles — disse a professora Helena-Shang. 

— Aí está! — gritou entusiasmado o senhor sobrancelhudo — Isso só poderia vir da genialidade que apenas os Drumont possuem! Meu rapaz, não é necessário mais nenhuma avaliação. Você com certeza já pode se considerar o vencedor desta feira.

Muitos aplausos estouraram no pátio enquanto recebia alguns elogios com palmadinhas nas costas. Mesmo sabendo que aquilo não era verdadeiro acabei me deixando levar devido minha teimosa ingenuidade.

Há há, olha como suas máscaras são postas. Apenas há alguns instantes eles estavam me dando as costas e agora estão me dando tapinhas nos ombros!

Não, eles são apenas ignorantes seguidores das massas. Eu não preciso me incomodar com eles! — Mais uma vez meus pensamentos ansiosos me envolviam.

É! dessa vez tudo vai ser diferente, tem que ser! — Eu disse para mim mesmo, tentando me convencer.

Tomei as rédeas das minhas emoções e acompanhei a delegação para receber meu prêmio.

Houveram muitas fotos, aplausos, elogios e afins. Mas eu podia sentir que nada daquilo era verdadeiro. Eu quase podia ver uma aura ruim sobre aquelas pessoas, como se esperassem algo a mais, algo que poderia ser alcançado facilmente através de mim.

Após toda a cerimônia eu finalmente consegui voltar para a sala com uma medalha e um certificado de prestígio em mãos. David estava sentado na minha mesa me encarando com uma expressão terrível.

— Você trapaceou, Drumont — o gigante se aproximou de mim e me cutucou no peito — Você se aproveitou da fama de seus pais, Jess deu um duro danado todo esse semestre, seu merda, eu deveria… 

— Espera, David, eu juro…

Antes que pudesse me explicar, David me jogou contra as cadeiras e ergueu o punho para me bater. Sem reação, eu fechei meus olhos para receber o golpe.

— Já chega, David! — gritou Jessica — Deixe o James em paz.

— Mas Jess, ele…

— Não quero saber! Saia daqui antes que eu chame os professores.

— Então é assim? — David se aproximou de Jessica bufando — Eu tento te defender e você fica do lado desse covarde? Pois que seja, espero que você se ferre junto com ele.

David saiu da sala com passos pesados e, antes de passar pela porta, deu vários socos em uma das carteiras até ela amassar.

— Venha, James, — Jessica chamou, me ajudando a levantar. — Não ligue para as provocações dele. Você ganhou de maneira justa e isso merece uma comemoração. 

— Comemoração? Ah… Tudo bem, eu acho. — eu disse um pouco sem jeito.

— Seus pais não estão em casa, não é? Que tal se eu e as meninas organizássemos uma festinha lá?

— Bem eu não sei… Talvez não sej…

A garota levou o dedo aos meus lábios, fazendo me calar

— Não vou aceitar um não como resposta — ela disse baixinho, bem próxima do meu rosto, me fazendo corar no mesmo instante.

— C-Claro — gaguejei — a noite então?

— Estaremos lá.

Quando eu cheguei em casa me vi novamente naquele apartamento vazio. Olhei para a medalha e o certificado da feira em minhas mãos e comecei a refletir se de fato eu merecia aquilo.

Claro que não mereço, bastou eles ouvirem que eu era um Drumont para ganhar o prêmio. Eu não sou nada além do filho dos gênios.

Não! Eu criei tudo sozinho, e minha ideia é muito mais viável e acessível para qualquer hospital ou unidade de saúde, em que até países mais pobres podem ser beneficiados com isso.

— Não sou uma sombra dos meus pais — protestei, dando um leve tapinha em minhas bochechas — sou mais que isso. Não vou mais me deixar ser manipulado e usado por aqueles que só querem se aproveitar do meu nome.

Ao olhar para o relógio percebi quanto tempo eu havia perdido nas minhas divagações. Peguei minha carteira e corri para o mercadinho.

Não tive muito tempo de preparar lanches nem de comprar mais tipos de bebidas para os convidados, mas de toda forma isso não importava muito pois a minha noção de festa era completamente diferente da de Jessica.

As garotas chegaram cedo trazendo várias pessoas consigo, e com elas muitas bebidas, um jogo de luz, e até uma pequena mesa portátil de DJ. Em pouco tempo, todos montaram o cenário e a música começou a tocar. Algumas das garotas me puxaram para o meio da sala, e eu tentei acompanhá-las da melhor maneira possível me movendo de maneira desengonçada igual a uma minhoca.

Jessica começou a relembrar de várias coisas ridículas que aprontamos quando crianças, dos problemas que nos metemos e das vergonhas que passamos. A noite estava bem divertida…. Até o David chegar na festa.

— Jess, precisamos resolver isso agora — ele parecia estar um pouco bêbado. — Você realmente vai me deixar por esse bostinha?

Aquilo me pegou de surpresa, como assim deixar ele por mim?

— David aqui não é hora, nem lugar, — Jessica tentava acalmá-lo da melhor maneira possível, mas o grandão se debatia e gritava chamando a atenção de todos na festa.

— Por que não conversam sobre isso no meu quarto? Lá é mais fácil e particular — falei.

— Obrigada James — disse Jessica. — Vamos David, vamos conversar lá. 

Meu quarto ficava no final do corredor. Lá estava mais escuro e um pouco mais silencioso. Eu abri a porta do quarto e ambos entraram antes que eu os acompanhasse Jessica falou.

— Espere aqui James, pode deixar que eu converso com ele primeiro.

Eu concordei. Por mais que eu quisesse ir junto eles, eles eram um casal e deveriam se resolver sozinhos. Fiquei em pé de frente para a porta pronto para agir caso o clima lá dentro se ficasse além do normal.

As luzes multicoloridas do globo de luz dançava nas paredes, refletidas pelos espelhos espalhados na sala e no corredor, a música frenética e agitada foi ficando lenta e muda. Todas aquelas pessoas balançando seus corpos pareciam estar em câmera lenta.

O que você realmente acha que está acontecendo? Essas pessoas nunca gostaram de você, olhe para todas essas máscaras e esses sorrisos falsos!

Dessa vez, apenas um pensamento apareceu, não houve uma segunda resposta. 

Está tudo muito quieto, você tem que ver isso por si mesmo…

A angústia e ansiedade cresciam dentro de mim conforme minha mão se aproximava da maçaneta… já fazia um tempo que ambos entraram lá.

A cena que vi depois de abrir a porta me deixou paralisado por um momento. Jessica estava seminua sobre minha cama e David por cima dela, a única iluminação do quarto vinha dos reflexos do globo de luz vermelho tornando a cena digna dos filmes mais macabros.

Apesar da luz fraca, as marcas de agulha nos braço de Jessica eram visíveis, além da seringa vazia jogada ao pé da cama. David a lambia e a despia freneticamente com um olhar lascivo.

Meu instinto foi imediato, corri para cima de David e o joguei ao chão. Jessica parecia estar anestesiada me olhando de maneira vaga, e de súbito como se saísse de um transe ela arregalou os olhos e começou a gritar.

Uma dor aguda me atingiu nas costelas, fui ao chão de joelhos no mesmo instante. E antes mesmo de entender a situação, o palco já tinha sido formado. Várias pessoas entraram no quarto olhando para aquela cena horrorizadas.

David ao lado de Jessica a cobrindo, a garota chorando nos braços dele. Eu de joelhos ao pé da cama ao lado das drogas espalhadas pelo meu quarto.

— Você é um lixo Drumont! Sempre foi e sempre será um miserável covarde.

Antes de ter a chance de protestar recebi um pontapé no queixo, o mundo girou e o sangue invadiu minha boca, a garota me olhava aterrorizada, mas por trás daquele terror, surgiu um pequeno sorriso sádico.

Foi então que eu entendi, era inadmissível para Jess que alguém como eu conseguisse superá-la em qualquer coisa. Apenas para me prejudicar, ela não mediria esforços. O objetivo era me afundar tanto que eu nunca mais conseguiria retornar para a superfície.

Eu sempre achei que você um dia iria cruzar essa linha!Disse alguém na multidão.

— Com certeza, ele é um lixo!Murmurou outro.

— Seu verme desprezível, gritou uma garota enquanto me dava um pontapé, em seguida veio mais um, e outro… e outro.

Me encolhi protegendo a cabeça enquanto era pisoteado e agredido. Em meio aos vultos das pessoas me agredindo pude ver Jessica me olhando de cima, o olhar dela era de êxtase. Eu quase podia ouvir os pensamentos dela. 

“É isso o que acontece por você querer sair do buraco onde te jogamos!”

Com muito esforço, eu consegui empurrar a perna de um dos agressores, que cambaleou e caiu, Isso me deu a chance de fugir para a sacada. Agarrei uma cadeira de plástico e a brandi para o alto.

— Por favor, me escutem! Eu não fiz nada, eu estava apenas….

— Seu monstro! Você ainda tem coragem de mentir depois de eu te pegar no flagra. Olhem o estado da Jess! — David apontou para a garota aos prantos, — ainda existe alguma dúvida sobre a sua culpa? Não, claro que não!

Eu estava encurralado. Todas aquelas pessoas me encarando enquanto eu, como um animal assustado, procurava uma saída para aquele inferno em que me meteram. 

David abriu caminho entre os agressores e desferiu um soco em meu estômago. Ao me curvar de dor, ele se aproximou e falou baixinho em meu ouvido.

— Gostou de sentir o falso sabor da esperança, Drumont? Fique sabendo que nunca vamos deixar você em paz, você é o nosso brinquedinho.

Nesse momento a fúria explodiu dentro de mim, bati com a cabeça direto no nariz de David e o agarrei correndo em direção ao corrimão da varanda fazendo-o bater com as costas. Aproveitei o momento para desferir uma série de socos no rosto dele.

Isso! Isso! — Um prazer percorria minha mente a cada golpe dado. Minha mão doía como se eu estivesse batendo em tijolos, mas a sensação de prazer era maior.

— Despeje todo seu ódio! Ele merece, todos merecem! 

— Ou você pode quebrar o ciclo, ser diferente! Contorne as coisas como você sempre faz, seja melhor.

Toda a raiva sumiu e minha mão parou repentinamente, meus dedos doíam muito e meus olhos lacrimejavam. O Gigante aproveitou o momento para me agarrar e trocar de lugar comigo. Me desferiu mais socos bem no estômago e no queixo o que acabou me empurrando contra a grade de contenção da varanda. Não sei se foi proposital ou se ele usou força demais, mas foi o suficiente para me fazer virar e cair. Ainda pude ouvir vários gritos de terror. Por pouco consegui me segurar na beirada com uma das mãos.

Você não vai conseguir, apenas aceite seu destino!

Não sei se foi por culpa do momento, mas parecia que as vozes que brigavam em minha consciência até tinham vontade própria.

Não! Não se deixe levar pelo desespero, — disse outra voz em minha cabeça.
Mesmo que tudo pareça estar perdido, ainda existem caminhos para sair das piores situações, não se renda! 

Um turbilhão de sentimentos girava em minha mente. Algumas pessoas gritavam enquanto tentavam pegar coisas para me puxar de volta, mas antes que conseguissem chegar até mim eu caí.

Naquele momento me dei conta: Eu não tinha amigos, minha família me menosprezava, e o pouco da vida social que eu ainda tinha foi destruída em um golpe covarde. Então eu aceitei.

Minha queda foi silenciosa e extremamente lenta. Uma das últimas coisas que vi foi os rostos das pessoas que encaravam minha queda. Alguns surpresos, outros, que antes me olhavam com desprezo pareciam estar aterrorizados. Não os culpo completamente, afinal muitas pessoas tomam decisões estúpidas e se deixam ser manipuladas pelo lado podre do mundo.

Os ventos da noite acariciavam meu rosto, como em uma despedida. Minha ansiedade, que antes se agitava como uma fera presa numa jaula minúscula simplesmente sumiu. Minha respiração foi ficando mais lenta, junto com o mundo. Um frio terrível invadiu meu corpo e uma dor aguda me acertou nas costas. No mesmo instante, tudo escureceu e eu apaguei.

Então a próxima coisa da qual me dei conta é que voltei ao lugar dos meus sonhos. Onde os raios solares banhavam as colinas trazendo consigo um calor aconchegante, que me fazia lembrar da sensação de lar. Apesar de nunca ter estado lá. Sentia falta de algo que nunca tive. 

Mais uma vez eu vi a bela moça no topo da colina apoiando-se no Carvalho solitário. Ao me aproximar pude ver seus cabelos longos e negros dançando junto ao vento, a luz alaranjada do amanhecer refletia contra seu rosto pálido e me impedia de ver seus traços com clareza. 

Mas eu podia sentir seu olhar fixo em mim como se me convidasse. Suas roupas sedosas balançavam e sua mão se estendia em minha direção.

— Está tudo bem agora — sua voz era doce e aconchegante — Eu sempre estarei te esperando.

Tentei andar na direção dela, mas minhas pernas estavam pesadas, e antes que me desse conta, eu estava afundando em uma areia negra, pouco a pouco sendo devorado por ela até tudo acabar em trevas.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

44 Comentários

  1. … e eu tinha achado que o MC tinha se dado mal no prólogo, aff!

    Certo JS, vc me fisgou. Pode mandar o próximo cap.

  2. Desde o prologo to com a noia de que essa mina que ele vê não e real, apenas uma imagem do ele queria que o primeiro amor dele fosse, o início desse cap contribuiu pra isso, mais como disse antes… e só noia mesmo kk. Sobre esse final posso dormir tranquilo já que acho difícil que esse assunto seja acorbertado, só a grade quebrada forçadamente+as várias lesões no corpo tiram da reta a opção de suicídio mostrando q foi tiro pela culatra o plano dessa Puta, já que algum momento vão perceber q as drogas provavelmente vieram dela pois acho difícil os remédios serem os ilícitos e talz, resumão: um puta início 👌

  3. O bom de criar um mundo de fantasia é poder colocar elementos que não tem no mundo real, como escolas da América Latina incentivando a ciência.
    Ótimo começo de história, gostei muito.

      1. Mas incentivada por uma escola da América Latina, acho que só na época do império (quando nem existiam escolas direito)

  4. É interessante q o MC tenha vindo de um mundo q parece um pouco mais desenvolvido doq o nosso….
    Agora me pergunto se é um duplo isekai, será q o MC já passou uma vida no outro mundo, ou será q os sonhos são um mau presságio.
    De qualquer forma foi um capítulo interessante.

  5. Top Top, a parte da dança da minhoca kkk muito boa, que virada, achei que ia rolar um momento feliz ali na festa, mas não vida do MC sempre tem que ser angustiante.
    E quem é essa mulher de cabelo preto, será que ele sempre morre antes de encontrar com ela?
    pq ele não se lembra dela só dá sensação.

    Parabéns tá show o desenvolvimento

  6. Que protagonista azarado da peste, não bastava sua vida passada ou sonho, o cara sofre d+
    Adorei o desfecho e ver que tudo não saiu como planejado por parte dos agressores, espero que fique alternando entre o MC e o outro mundo, particularmente gosto muito de ver o desenvolvimento de personagens secundários nas obras.
    Obrigado pelo capitulo!

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