LdL – Capítulo 10

Depois da Tempestade

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Os raios do amanhecer inundavam meu quarto aos poucos, até banharem meu rosto. Aconchegada em uma poltrona estava a bela duquesa do Vale do Luar, dormindo profundamente. Suas roupas estavam amassadas e seu cabelo bagunçado, provavelmente passou a noite toda comigo e acabou adormecendo ali mesmo.

Levantei-me com cuidado para não fazer barulho, vesti uma calça Jeans e uma camiseta roxa da coleção que Charlotte me preparou e fui até a varanda.

O que foi tudo aquilo afinal?

Olhando ao redor notei que nada parecia fora do normal. Será que aquilo que vi foi real? Os lobos, a visão, o fato da rainha ter tentado me matar. Era quase como se eu estivesse preso entre uma ilusão e a realidade.

Apesar de minhas dúvidas e preocupações, o dia seguia como se nada tivesse acontecido. Parecia uma manhã normal no palácio. O tempo estava ótimo, os pássaros cantando e os empregados andando de um lado para o outro nos jardins.

— Não! Foco, foco — bati levemente com as mãos nas bochechas — Tenho que me concentrar no problema atual, já é a segunda vez que tenho essas visões. Algo as está causando, tenho que focar nisso.

Comecei a caminhar de um lado ao outro enquanto refletia sobre os últimos acontecimentos.

— São sonhos ou talvez visões? Aquela com certeza era, a princesa junto àquele rapaz… Deve haver algum catalisador algo que inicie esses eventos. E os lobos… será que foi de fato real? Minha última lembrança foi na carruagem…

— Foi tudo real, posso te garantir — falou Elizabeth se espreguiçando na poltrona — Você resmunga muito alto.

A jovem duquesa cambaleou até a varanda esfregando os olhos.

— Você me deu um baita susto — continuou Liz enquanto se dirigia a uma cesta de frutas, um dos seus braços estava enfaixado — Mas, acredito que você ficará bem agora. 

— Me desculpe. — falei cabisbaixo — Isso foi por minha causa não foi?

A duquesa desviou o olhar em silêncio sem responder.

— Eu devo ser amaldiçoado ou coisa do tipo… Sempre acabo machucando as pessoas ao meu redor, direta ou indiretamente — continuei — Não quero ser um estorvo para ninguém, principalmente para você, que me acolheu sem pedir nada em troca, vou pegar minhas coisas e partirei em bre…

Uma dor aguda me atingiu nas costelas, Liz havia me dado um soco bem localizado me fazendo cair de joelhos, parecia até uma boxeadora profissional. 

— SEU IDIOTA!!! — Ela gritou, seu rosto expressava um misto de raiva e melancolia — Ninguém nunca disse que você é um estorvo ou um peso, não tire conclusões precipitadas. Sua dor também é minha dor, agora estamos ligados — seu rosto estava repleto de tristeza, com os olhos marejados ela continuou — Por favor não se menospreze, não deixe que esses sentimentos tomem conta de você.

— O que você quer dizer com… — de repente vi um fio dourado enlaçado em meu anelar direito, o mesmo seguia até o dedo anelar direito de Liz. — O que é iss…

De súbito uma enxurrada de emoções invadiu meu corpo seguida por inúmeras memórias embaralhadas. O amor de um parente muito querido e o inquietante pesar de sua perda, faziam um vazio infinito crescer em meu peito.

Os rostos contorcidos com repulsa dos familiares e amigos me julgando injustamente, pois não poderia amar quem realmente queria porque era errado e inapropriado para a alta sociedade, raiva e angústia percorriam meu corpo como eletricidade me deixando cada vez mais revoltado e irritado.

Dor e aflição por decisões que levaram muitos a perderem a vida de maneira banal, e o remorso corrosivo de ainda ter sido chamado de herói por tais feitos. 

Mas também havia a felicidade de estar nos braços da garota que me ama, sentir o cheiro de sua pele alva e tocar seus sedosos cabelos púrpuras, e beijar sua boca doce. Podia me sentir seguro de novo, longe de todo o veneno e malícia do mundo.

Fui puxado de volta para a realidade abruptamente, como se estivesse fazendo bungee jump.

— O que… O que foi isso? — Estava ofegante e suando frio.

— Relaxe, foram só flashes de memória — Disse Liz enquanto sentava ao meu lado. — É um efeito colateral do ritual que tive de fazer com você.

— Ritual? do que você está falando? — minha ansiedade estava a mil, não conseguia entender toda aquela enxurrada de emoções.

Liz agarrou minha cabeça e me levou ao seu peito me aconchegando entre seus braços, seu abraço caloroso e seu perfume de jacinto aos poucos foram me acalmando.

— Não precisa se preocupar — seus dedos se entrelaçaram em meus cabelos acariciando-os com delicadeza. — Sei que tudo parece estranho para você, e mesmo que tenha recebido uma nova chance de recomeçar, seus fantasmas o assombram. Mas não precisa se preocupar, não irei traí-lo nem o enganar, estou aqui ao seu lado para o que der e vier.

Subitamente fui invadido por um sentimento de conforto e segurança que nunca havia experimentado antes, as lágrimas desciam sem controle e a cada nova gota que brotava todo aquele pesar e angústia se extinguiam ainda mais.

Devo ter ficado chorando nos braços de liz por uns bons vinte minutos. 

— Está mais calmo? — Ela falou baixinho enquanto me fazia cafuné

— Sim — Respondi um pouco envergonhado. — Desculpe por isso. Eu…

— Não se desculpe — a gentil duquesa me interrompeu — E nem termine essas palavras, não precisa mais se maltratar e se rebaixar a um mero estorvo, venha coma comigo, tenho muito o que lhe dizer.

A duquesa bateu palmas e em poucos instantes vários criados entraram no quarto e prepararam uma mesa de café da manhã, ela aguardou se retirarem ficando apenas Kírkart.

— Do que você realmente lembra da noite passada? — Falou a Duquesa enquanto me servia um pouco de café e afogava uma pobre torrada em geleia.

— Bem, minha última lembrança nítida foi na carruagem. Depois disso, nada parece real. Era como um sonho lúcido.

Falei sobre tudo o que tinha visto, incluindo a visão e os lobos, Elizabeth me olhava pálida como se eu houvesse visto um fantasma.

— Me fale mais sobre a visão, como era o rosto do rapaz que você viu? Ele falou algo sobre alguma guerra ou batalha?

— Não tenho certeza, mas algo não parecia certo e todos eram de alguma forma muito familiares, mas tenho quase certeza de que a moça que vi era… — de súbito às lembranças da batalha entre a rainha e a princesa ascenderam em minha mente — O que houve com a princesa!? E a rainha? Ela realmente tentou me matar? Liz o que realmente aconteceu? Pare de fazer mistério.

— Calma, tudo está resolvido — A pesar de parecer calma conseguia sentir que algo ainda parecia incomodá-la. — De alguma forma os espíritos conseguiram conectar sua soma aos fios do Tear fazendo ela sair de controle, para ser sincera eu não esperava que você conseguisse absorver tanta força somática de uma vez só, sendo que você nem é deste mundo.

— Espera aí, o que exatamente é essa soma que você diz.

— Lembra-se da história das três raças que lhe contei cujas foram abençoadas com mente, corpo e espíritos excepcionais? Pois bem, a soma é a junção dessas três características, é através dela que conseguimos nos conectar com o Tear e praticar nossas técnicas.

— Continuando, sua soma saiu do controle após você desmaiar, tentei te estabilizar de várias formas, mas não tive sucesso — falou cabisbaixa — A única forma de te salvar foi através de um ritual de conexão espiritual chamado de pacto de Androgeu. Agora estamos conectados por um elo espiritual. Através dele dividimos sentimentos e fardos. Esses flashes de memória que você sofreu são frutos de experiências do meu passado.

— Então, você passou por tudo aquilo… Eu sinto muito. Que dizer que você e a… 

— Sim, nós duas enfrentamos dificuldades a muito tempo devido nosso amor, mas nada que nós duas não possamos lidar.

— Então se eu sei do seu passado você também…

— Sim meu querido, sei pelo o que passou. E vou garantir que não passe mais por isso. — Ela passou a mão na minha cabeça fazendo carinho como uma irmã mais velha mimando seu irmãozinho. Devo confessar que estava começando a gostar disso.

— Sobre o pacto… — levantei meu anelar direito e o fio dourado surgiu, uma linha quase imperceptível seguia até o dedinho de Liz se amarrando nele. Era como o conto japonês das almas gêmeas. Tentei tocar o barbante dourado, mas minha mão o atravessou como se fosse pura luz.

— Ele é inquebrável e intangível, esse elo pode ser criado através da magia ou através e uma jura de amor verdadeiro. A cor dourada mostra que nossa jura é mágica, não é tão poderosa como a amorosa, mas serve para o propósito de monitorar a quantidade de magicula que sua soma pode absorver.

A duquesa sorria alegremente enquanto me explicava.

— Liz… Por que ir tão longe por alguém que você mal conhece? Isso tem em intrigado. Longe de mim reclamar, mas… 

— Eu sei que é difícil de acreditar, especialmente para você que já passou por tanta coisa — Elizabeth brincou com a comida distraída, — Sendo bem sincera, Charlotte me perguntou a mesma coisa… Mas, eu simplesmente senti que deveria cuidar de você.

A duquesa me encarou com seus belos e sinceros olhos. Era fato que eu já havia passado por coisas assim, e muitas vezes fui enganado, mas essas experiências me ensinaram a reconhecer aqueles que se aproveitavam. 

— De fato é algo difícil de acreditar, mas eu apenas senti que você era de alguma forma especial.

Eu baixei minha cabeça tentando esconder meu leve rubor.

Especial?… Ponderei por um momento. Nesse mundo o nome Drumont não significa nada… 

Elizabeth me encarava sorridente. Eu desviei o olhar envergonhado e tentei retornar ao assunto anterior.

— E-então todo esse négocio de ritual apenas para me monitorar? O que houve noite passada foi tão grave assim?

A Duquesa balançou a cabeça e deu uma risadinha.

— Exato, isso é para o seu bem. Seu corpo ainda não está preparado para todo o poder que você pode absorver, isso serve como um limitador que garante que você não irá passar dos limites novamente.

Resumindo, por não conseguir controlar essa energia, mais uma vez meus fardos cairão sobre outras pessoas… 

— Então é isso!? — Levantei-me e caminhei até a varanda — Isso quer dizer que vou ficar totalmente dependente de você? Me desculpe Liz, você me disse que não sou nenhum peso, mas todo esse cuidado apenas reforça meu argumento.

— Entendo como se sente, mas de que outra forma posso te proteger? — Falou a duquesa enquanto se servia de mais algumas torradas e chá.

Me aproximei de Liz e a encarei com convicção enquanto me apoiava nos braços da cadeira dela.

— Me ensine. Diga como funciona esse mundo, seus altos e baixos, sua natureza, sua história, sua física e espaço. Me conte tudo. — Dobrei um dos joelhos e segurei sua mão como se fosse lhe pedir em casamento — Me torne seu discípulo.

A duquesa ficou sem palavras por alguns segundos, sua expressão era de pura surpresa e logo se transformou em risos. Ela gargalhou maravilhosamente enquanto eu ficava confuso sem entender nada.

— Ha! Ha! aí eu não aguento… hi hi. — Liz enxugou as lágrimas e me respondeu com um grande sorriso — Tudo bem irei te ensinar tudo o que sei, sinta-se honrado pois sou uma das melhores conjuradoras desse reino, sou muito requisitada e nunca aceito aprendizes — Ela arrebitou seu nariz com orgulho.

— Prepare-se para um treinamento infernal. — Seus olhos violetas queimavam de excitação, parece que eu seria seu novo experimento — Mas por enquanto descanse, começaremos quando estiver totalmente recuperado.

Naquele dia recebi uma visita do doutor. Ele fez um rápido check-up e me recomendou que eu descansasse. Os próximos dois dias foram muito monótonos fiquei a maior parte do tempo no quarto, Charlotte veio fazer uma visita e trouxe várias novas peças, mostrou também os desenhos da sua mais nova linha de roupas que segundo ela, eu ajudei a desenvolver, e ainda me fez de manequim por uma boa parte da tarde.

Apesar de tudo esses dois últimos dias foram sufocantes, me sentia angustiado, com uma dor no peito, me isolar nunca foi problema mas agora por algum motivo isso me incomodava.

À noite, eu ficava na varando observando o céu noturno na esperança de ver Lunafreya novamente. Eu me lembrava claramente da sensação da minha última visão, seus dedos acariciando meus cabelos, seus cochichos, seu perfume.

Eu me perguntava qual era meu problema afinal. Por que sou assombrado por visões de uma outra pessoa?

Ela devia amar muito ele, talvez nunca mais ame novamente. Eu queria ver mais uma vez aquele sorriso verdadeiramente feliz, era o tipo de sorriso que valeria a pena lutar e morrer apenas para poder vê-lo mais uma vez.

Minha respiração estava acelerada e podia sentir um calor em meu peito. Ao mesmo tempo sentia um buraco negro que me sugava, algo me faltava, talvez eu esteja mesmo apaixonado, mas que chances teria um cara como eu perto do homem que ela já amou? Um guerreiro de verdade, um homem que poderia protegê-la. Mas, será que não era isso? E se eu me tornasse um homem que pudesse protegê-la?

Me aninhei junto a uma das almofadas e me encolhi.

Talvez seja demais para mim, afinal eu não era nada em meu mundo…— pensei — Não! Não posso deixar esses pensamentos negativos me dominarem novamente, prometi a mim mesmo que iria mudar.

— Preciso me tornar um homem de verdade — falei com convicção — Decidi que esse seria meu novo mundo, e esse é o meu novo começo. Um homem deve ser forte para provar ser digno do amor de uma mulher.

Senti um leve puxão no mindinho esquerdo, como se alguém o puxasse com uma linha.

— Esse foi um discurso bem corajoso — falou uma doce e melancólica voz que eu conhecia muito bem.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

14 Comentários

  1. Cara a Liz e Luna são muito gentil kkk até demais se eu fosse o MC ficaria todo paranóico kkkk pq quando a esmola é demais já sabe kkkk Uma coisa que sabemos é são nobres = políticos, e não se pode confiar kkkk

    Bom talvez eu não confie nas pessoas facilmente confesso kkkk

  2. Tá igual bebedeira em Las Vegas, o cara não lembra de nada que fez e acordou casado.
    Obrigado pelo capítulo

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