LdL – Capítulo 16

O segredo do Tear

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Passei o início da manhã polvilhando a massa para o preparo. Depois de umas três tentativas eu finalmente havia conseguido atingir o ponto certo.

O doce aroma que vinha da massa quentinha penetrava os narizes de todos fazendo qualquer um salivar.

Preparei quatro porções pequenas que cabiam perfeitamente no centro dos pratos e outra grande para que o pessoal da cozinha pudesse comer.

— Aqui pessoal, esse é o meu agradecimento por toda a ajuda que vocês me deram nessas últimas semanas, podem se servir à vontade. Podem deixar que hoje eu servirei o café da manhã.

— Senhor, não posso permitir que você se rebaixe a tal tarefa — Jorge, um dos criados que cuidava especialmente disso se opôs com veemência.

— Calma Jorge — Eu gentilmente fui empurrando o mordomo para a mesa no meio da cozinha e o fiz sentar em um dos bancos — Fique aqui e aproveite o café da manhã, relaxar de vez em quando faz bem meu amigo. — finalizei dando dois tapinhas em seu ombro com um sorriso.

— Oh senhor, Obrigado! — ele beijou minha mão me deixando sem jeito — Pessoas como o senhor são raras.

— Hehe não tem de que. — Me afastei da mesa antes que mais alguém tentasse me impedir, mas pela cara de felicidade de todos isso seria impossível de acontecer. Até mesmo Otto estava se maravilhando com o novo prato.

Aproveitei a chance e empurrei o carrinho de café da manhã até a porta que dava acesso à sala de jantar, olhando pelas frestas da porta pude ver que as garotas já estavam na mesa aguardando o café da manhã.

Todas pareciam estar de ótimo humor, jogando conversa fora e dando risadas das piadas bobas de Liz.

— Bom dia minhas queridas donzelas — Falei enquanto empurrava o carrinho até às garotas que me olhavam surpresas. 

— Bom dia? Eu acho… — Elizabeth falou me olhando desconfiada, geralmente, eu sempre era o último a chegar na sala, mas nunca trazendo o café da manhã.

— Bom dia querido — Charlotte me comprimentou com a voz doce e aconchegante de sempre — Hum… Vejo que hoje será você quem servirá o café da manhã para nós.

— Será que isso é alguma tentativa de amolar suas professoras? — Elizabeth Debochou.

— Sim, hoje irei servi-las e não, não estou amolando ninguém. — falei animado — Aqui, eu mesmo preparei esse prato, não comam ainda. — Posicionei os pratos sobre a mesa, junto haviam pedaços de queijo e ovos fritos. Por último coloquei o prato de Luna — o café está servido minha Princesa — falei baixinho enquanto a olhava nos olhos na tentativa de devolver o flerte da noite passada. Apesar de tentar parecer confiante eu ainda estava bastante nervoso.

— Obrigada meu cavalheiro — Respondeu Luna, ela me deu um leve peteleco no nariz fazendo uma carinha travessa. Imediatamente eu corei e tentei disfarçar e com esse simples ato a princesa conseguiu fazer com que o meu xaveco fosse por água abaixo. Liz e Charlotte começaram a rir do meu galanteio desajeitado.

— É James, você ainda tem um longo caminho a percorrer, hihihi — Liz enxugou às lágrimas e falou — E então o que é isso? Pensei que hoje teríamos mingau.

— Isso minha querida professora é um prato delicioso chamado cuscuz. Flocos de milho cozidos no vapor de água. Sugiro comer acompanhado de um ovo frito ou queijo, ou ambos, hehe. Também não esqueçam do café. — Segui até às xícaras de cada uma e despejei um pouco do líquido escuro.

— Se você está falando né — Charlotte foi a primeira a se aventurar, ela cortou a massa macia do milho com a colher e levou à boca — huummm…. Muito bom, a textura é macia e tem um gostinho doce no final. O único problema é que ele é meio seco.

— Experimente tomar um pouco de café, ajuda a descer, sem falar do contraste do sabor.

Após a dica Charlotte se serviu de mais uma colher, dessa vez acompanhada de um pedaço de ovo frito. Ela tomou o café e disse:

— Pela deusa, o que é isso? Flocos de milho, onde vocês estiveram todo esse tempo? — ela falou para o prato enquanto dava um gritinho de satisfação. Liz e Luna se entre olharam incrédulas e engoliram um pouco de saliva glup. — Não posso acreditar que isso seja apenas milho.

— Mas não é — falei orgulhoso — Na mistura da farinha eu adicionei um pouco de açúcar, caso não queira nada doce pode usar sal. Depois é só umedecer com água, aí você deixa descansar por um tempo e após isso é só levar ao fogo.

Liz e Luna ignoraram minha explicação, toda sua atenção está focada no novo prato.

Ambas adoraram.

— Caso você fracasse como meu discípulo eu te farei meu cozinheiro — Liz brincou com as bochechas cheias — aaaaah! Dessa vez você acertou. 

— Negativo ele será o meu cozinheiro particular — Luna rebateu me dando uma piscadinha.

— Podem continuar sonhando acordadas ele será o meu cozinheiro. — Charlotte declarou orgulhosa.

— Ha-ha-ha, como vocês são hilárias. — falei revirando os olhos — Já que é assim eu não vou preparar um prato delicioso que imaginei para o jantar.

— Epa… Como é? — Liz bateu na mesa fazendo uma colher voar — depois de me maravilhar com um prato simples como esse você vem e me fala que ta preparando algo melhor para o jantar?

Elizabeth me apontou um garfo ameaçadoramente e completou:

— Não se atreva a me fazer de boba rapazinho. Lembre-se que ainda temos uma sessão de treinamento matinal — Seus olhos brilhavam em fúria, nunca pensei que ela levasse comida tão a sério.

— Ta bom, ta bom. Poxa eu só tava brincando… nossa. — falei gesticulando com as mãos em rendição.

Depois do café da manhã acompanhei Liz até o jardim para o treino corporal.

— Certo, agora que você finalizou o treinamento básico de combate e conseguiu completar sua primeira tecelagem com sucesso vamos partir para a próxima etapa. — Elizabeth se posicionou no meio da plataforma e estendeu sua mão direita para frente — Onda!

De súbito, um grande barulho ecoou da mão de Liz fazendo seus cabelos se remexerem, uma força invisível me acertou no peito e acabei voando para fora da plataforma.

— Ahrg! — me levantei segurando meu peito dolorido — Por que eu sou sempre a cobaia? Poderia ter empurrado um tronco ou qualquer coisa do tipo!

— Você aprenderá…

— Melhor com meu corpo, sei sei… — interrompi a duquesa fazendo uma careta de dor enquanto massageava o peito. — O que diabos foi isso afinal?

— Isso, meu caro aprendiz foi uma sentença. — Liz caminhou de um lado para o outro explicando devagar — Sentenças são a manifestação ofensiva de sua soma. Uma vez que você aprender poderá usar as mágiculas absorvidas pela sua soma como energia para lançar certos ataques ou para tecer encantamentos de defesa.. — No fim ela olhou para Charlotte como se buscasse confirmação, a tecelã acenou positivamente com a cabeça e fez um joinha.

Elizabeth levantou o queixo satisfeita com sua explicação.

— Não seria mais simples usar as mágiculas à minha volta para tecer?

Elizabeth se preparou para responder, mas foi cortada por Charlotte.

— James para você o que seria um tear? — Charlotte se levantou e caminhou até mim com um ar de professora séria.

— Tear? hum… De uma forma bem técnica não seria uma máquina por onde se passam fios para serem moldados em uma roupa? hehe — ri nervosamente com medo de ser castigado pela brincadeira.

— Você está certo, agora por que você acha que chamamos o processo de transformar a energia ao nosso redor de tecer? — vendo minha cara confusa ela se adiantou e deu a resposta. — Chamamos assim, meu querido, porque nós usamos as magículas, as linhas soltas da Tapeçaria da vida que a própria deusa mãe criou, e o Tear é nada mais nada menos do que o nosso núcleo somático, a nossa própria essência.

— Então as magículas se armazenam em nosso núcleo para que possamos usar essa energia através de nosso corpo para criar? Assim como linhas em um tear… — completei pensativo, quanto mais eu ponderava sobre mais incrível tudo aquilo se tornava, às possibilidades eram infinitas.

— Agora meu querido. Comece a tecer… Temos uma longa tarde pela frente e eu ainda estou ansiosa pelo jantar surpresa que você prometeu. — Charlotte se recostou em uma cadeira ao lado de Liz e me encorajou com o olhar.

— Ei! — Liz protestou — Ainda estamos no meio dos exercícios matinais, ele ainda me pertence!

— Oh meu amor, me desculpe. — Charlotte caminhou até a duquesa e deu um leve beliscão em uma de suas bochechas, Liz corou levemente deixando a cena fofa e hilária.

— Veja bem, se o nosso querido pupilo se cansar demais com o seu treino físico ele ficará muito cansado para fazer o tal prato especial mais tarde.

Elizabeth abriu a boca com o intuito de protestar, mas Charlotte a dobrou por completo, realmente o ponto fraco da duquesa era seu estômago.

Desde que Charlotte veio para o palácio Liz havia se tornado mais alegre e solta. Sempre que estavam juntas no jardim as duas trocavam carícias e sorrisos carregados de amor. Ver as duas juntas tendo, finalmente, um tempo de paz longe de olhares maldosos e da malícia da sociedade me trazia uma imensa felicidade.

Vez por outra Charlotte percebia meu sorriso bobo e tentava disfarçar a vergonha e Liz gargalhava com a cena.

Apesar das adversidades pela primeira vez eu tinha pessoas ao meu lado que me davam forças. E por essas pessoas eu poderia aguentar qualquer coisa. Liz me acolheu sem ter nada a ganhar, Charlotte me ajudou a trilhar um caminho desconhecido com calma e sabedoria e Luna… Bem Luna se tornou uma das principais razões para minha mudança. Dizem que quando se encontra a mulher certa deixamos o menino para trás e nos tornamos homens.

Mas não pensem que minha “evolução” é únicamente por amor, digamos que a única recompensa que você ganha depois do sofrimento é o amadurecimento, nada mais nada menos, afinal a vida não mima ninguém.

E eu já tive minha cota de sofrimento, isso me fez perceber que existem certas nuances que diferenciam as pessoas. Talvez você queira me chamar de iludido ou até mesmo imaturo, mas existem aqueles em quem vale a pena confiar. E estou certo que essas garotas valem muito mais que minha confiança.

E finalmente depois de mais algumas investidas de Charlotte, Liz falou:

— Tudo bem, tudo bem — Elizabeth finalmente cedeu — Mas eu espero que esse tal prato seja mesmo tão delicioso quanto você fala.

— Te garanto que será o melhor.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

7 Comentários

  1. Como escapar da educação física, de cuscuz para seu professor, prometa uma deliciosa refeição pra ele, fim do tutorial

  2. E quem não leva comida tão a sério, James?
    Ele realmente precisava fazer amigos, pois para não saber que comida boa é uma das bases de uma sociedade estável…

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