LdL – Capítulo 18

A Sinfonia do Luar

[Esse capítulo em especial contem duas notas contendo 
músicas, aconselho a lerem ouvindo os áudio para uma 
melhor imersão.]

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

— Baile? — perguntei.

— Sim, um baile… Agora me passa logo mais um pedaço dessa delícia, vamos vamos, não tenho o dia todo. — A Duquesa exigiu levantando o prato como uma criança querendo mais doce.

Sobre a mesa havia uma bela travessa de vidro, com metade de uma lasanha que eu havia preparado junto à Otto, eu sinceramente achei o resultado mediano, uma vez que tive de usar ingredientes secundários, mas para pessoas que nunca experimentaram tal iguaria, isso era como um manjar dos deuses.

Eu cortei mais uma fatia e a coloquei no prato de Liz. Um grande fio de queijo derretido acompanhou a fatia até o prato da Duquesa que já salivava com a iguaria.

— Você vai acabar engordando… — murmurei.

Liz me lançou um olhar mortal. Você ousa desafiar sua professora? Você deseja morrer Drumont? Experimente falar mais bobagens e sofrerá as consequências. Era o que diziam aqueles olhos.

O que eu poderia fazer? Essa já era a terceira noite seguida que Otto e eu fazíamos lasanha. Comer tanta massa assim certamente traria consequências mais tarde.

 Ela perfurou sua nova fatia impiedosamente e a levou à boca. Depois de soltar um grunhidinho de satisfação, a duquesa disse:

— Já é quase noite de Andraris, a deusa da lua, é uma tradição para nós do vale do luar fazermos um baile de máscaras, quero aproveitar a oportunidade e lançar a nova linha de roupas da Char.

— hum… E quando vai ser? — perguntei enquanto mordiscava o restante da minha fatia. 

— Daqui há 3 dias — Luna respondeu.

— Três dias? cof cof — rapidamente dei algumas batidas no peito na tentativa de desengasgar e continuei — P-porque que vocês não me falaram antes? Eu não sei dançar, vou passar vergonha.

A primeira coisa que me veio em mente, foi minha performance desengonçada no dia da queda, mas por mais estranha e boba que minha dança pode ter sido, eu ainda podia dizer que era uma nova dança eletrônica ou coisa do tipo.

— Oras, eu posso te ensinar — Luna remexia em seu prato tentando demonstrar indiferença, mas era claro em seu sorriso que ela estava ansiosa pela ideia.

Liz semicerrou os olhos e deu uma risadinha.

— Hum… hehehe, James, a princesa é uma excelente dançarina — ela me olhou travessa e deu uma cutucadinha em Charlotte — tenho certeza de que você vai aprender bastante, hehe.

— Ah sim, aproveite bem as suas lições, hihi — Charlotte enfatizou dando uma risadinha — você pode tirar uma folga durante esses três dias, apenas pratique sua tecelagem.

Luna se afundou um pouco na cadeira tentando esconder a vergonha enquanto fuzilava Liz com o olhar, eu só podia baixar a cabeça para esconder meu rosto vermelho.

— he he, erh… Isso James, pode tirar esses dias de folga — Liz falou nervosamente tentando ignorar o olhar fulminante da princesa. — Após o baile voltaremos com os estudos sobre as tecelagens de ataque, defesa e suporte.

— Tudo bem. — peguei mais uma fatia de lasanha e coloquei no prato da Duquesa — Por que você não come mais um pedaço?

—Aaah… — Os olhos de Elizabeth brilharam enquanto observavam sua nova vítima, ela me deu um sorriso de gratidão e logo começou a devorar a pobre fatia.

Posso não conseguir te vencer no braço, mas com certeza te venci pelo estômago, coma porquinha, coma, hahahaha. Pensei comigo enquanto devolvia o sorriso amigavelmente.

Liz parou o garfo abruptamente e começou a me encarar semi-cerrando os olhos desconfiada com as bochechas inchadas como um esquilo.

 Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, Charlotte delicadamente retirou o prato da frente da Duquesa como se estivesse retirando a presa de um leão.

— Acho que você já teve o suficiente por essa noite não é, querida?

A pobre Duquesa abria e fechava a boca tentando encontrar palavras para retrucar, mas, por fim assentiu tristonha enquanto baixava seus talheres. Essa era uma batalha que ela sabia que não teria chances de ganhar.

— Sim Char… 

Caminhar pelo palácio havia se tornado um hábito nas últimas semanas. Por mais que o cenário a minha volta tenha mudado drasticamente comparado ao meu antigo mundo, posso afirmar que me sinto mais em casa aqui do que lá.

Os corredores que antes me eram tão estranhos, agora pareciam simples e aconchegantes. E pensar que já se passaram mais de três meses desde que cheguei aqui. Nesse curto espaço de tempo muita coisa aconteceu e eu claramente posso ver que evolui

Vez por outra parava para comprimentar e conversar um pouco com os empregados. Depois de muito esforço consegui deixar a maioria deles mais confortáveis ao ponto de deixarem os honoríficos de lado.

Acho que muitos já até me consideravam mais um amigo do que um “convidado ilustre” e eu preferia assim. Nunca gostei desse tipo de tratamento onde a pessoa “menos favorecida” deve abaixar a cabeça para o “mais nobre” ou se preferir o mais rico.

Para mim esse tipo de coisa só reforçava estereótipos ruins de ambos os lados. Certa vez durante uma das intermináveis reuniões da “alta sociedade” que meus pais participavam eu ouvi a conversa entre dois homens de “alto escalão”.

Nela eles falavam sobre como era divertido ver seus funcionários se degladiarem pelo favor do CEO e que inúmeras vezes eles já haviam feito apostas para saber quem trairia quem para conseguir subir um mísero degrau.

Esse era o tipo de “pessoa”, sim, entre aspas, pois eu sinceramente não os considero humanos, mas sim lixo. Esses eram o tipo que eu mais odiava, bem mais do que os abutres.

Depois de caminhar pelos corredores, finalmente cheguei a uma pequena sala isolada do restante do palácio. Sua iluminação era precária, dependendo apenas de uma grande janela francesa, para minha sorte, hoje era noite de lua cheia. Ao abrir a janela às cortinas dançaram com a brisa fresca.

Esse era o meu jardim secreto.

A luz do luar iluminava a madeira negra de um velho, porém belíssimo piano vertical, que, estava meio coberto por um fino lençol branco. Puxei o pano que o cobria sutilmente, admirando cada novo pedaço que se revelava.

Era de fato uma peça única. Devo confessar, pianos eram uma das poucas coisas que me fascinavam completamente, acho que o mais correto seria dizer que às mais variadas sinfonias eram o que realmente me prendiam.

O poder de cada nota conjurada, a euforia e a melancolia das mais variadas melodias tocadas pelos grandes gênios eram quase divinas. O misto de sentimentos que essas reles teclas brancas e pretas eram capazes de criar me fascinavam.

Uma fina camada de poeira cobria um lado da madeira negra como ébano como se fosse um véu. Deslizando meus dedos sobre ela movi meus lábios e sussurrei:

Purificação de La Duve…

Imediatamente a superfície da madeira escura ficou incrivelmente lisa e polida, essa era uma tecelagem simples usada para purificar certos materiais. Mas descobri que com ela eu poderia retirar certos elementos deixando algumas superfícies incrivelmente polidas.

Isso se devia a característica única da magia de retirar certas condições consideradas impuras, mas o que a maioria parecia não notar era que essa condição dependia do que o usuário considerava impuro.

Nas mãos certas isso poderia se tornar verdadeiramente útil, no fim a base seria apenas a sua imaginação.

Após a breve limpeza notei que o banquinho de couro ainda estava da mesma maneira que eu havia deixado. Me sentei e apreciei cada detalhe daquela salinha, os lençóis brancos que cobriam o restante dos móveis dançavam com a brisa da janela, a parede esverdeada e o silêncio traziam consigo uma calma e uma angústia em meu coração pois me recordava tempos dolorosos de solidão.

Uma vez li que por vezes a dor encontra uma maneira de se externar através da música e que as maiores angústias compunham as mais belas melodias. Meus dedos se moviam sozinhos, como se ouvissem a voz do meu coração dedilhando tecla após tecla. 

Antes que pudesse notar estava tocando uma das minhas melodias preferidas, Nocturne Op 9 n°2 de Chopin[1]. A música foi tomando conta de mim como nunca fizera antes, de alguma forma, dessa vez era diferente de quando eu estava sozinho em casa.

A cada tecla pressionada, cada novo movimento, a cada nota eu ficava mais imerso e fervoroso na música. A melodia crescia ao meu redor ficando cada vez mais alta e bela.

Fechei meus olhos e me entreguei completamente àquele momento. Logo tudo ao meu redor se resumia apenas à melodia, eu me sentia um com ela. 

Sinceramente, descrever exatamente como me sentia naquele momento é bem difícil, mas seria como o mesmo sentimento que tive ao acordar no alto da colina. A sensação de maciez da pele de Lunafreya sob minha cabeça, seu doce cheiro, o delicado vento da primavera que fazia a grama acariciar meus braços, tudo isso me passava essa mesma sensação.

Minhas mãos foram detidas quando errei uma nota com o midinho direito e uma voz doce falou do lado de fora da janela:

Acredito que Chopin, Beethoven ou qualquer mestre da música clássica criaria uma obra prima apenas ao vê-la com aquele vestido negro e olhos cor de mel.

— Imaginei que fosse você o autor das belas melodias que venho escutado nessas últimas semanas. —Luna pousou ao lado da grande janela, seu pés tocaram a grama suavemente — Não cesse agora, continue.

Essa é minha chance… Me acomodei para o lado no banquinho e falei:

— Você vai ficar aí fora no frio? Sente-se comigo — convidei.

O banquinho de couro era largo e podia acomodar duas pessoas facilmente. A Princesa sentou-se e jogou os longos cabelos por cima do ombro esquerdo e me fitou.

— Então? O que tocará? — Seus dedos suaves viajaram por meus ombros e pararam em minha bochecha.

Eu corei e virei o rosto para o piano, Lunas sorriu em resposta. Reuni coragem e voltei a encarar aqueles lindos olhos amarelos.

— Luz do luar… — sussurrei. Meus dedos aos poucos começaram a se mover enquanto eu a encarava. A melodia de Clair de Lune, de Debussy[2], foi quebrando o silêncio da noite.

De alguma forma Luna parecia mais bela que o normal, a música realçava algo nela, algo irresistível. 

A cada nova nota, mais apaixonado e imerso eu ficava. Em determinado momento eu nem precisava olhar às teclas do piano, apenas me concentrava em olhar para a mulher ao meu lado.

A princesa me encarava e eu a encarava de volta, o luar iluminava sua pele castanha e realçava aqueles lindos olhos dourados. Já que eu simplesmente não conseguia mais fugir, decidi me entregar por completo.

Uma onda calorosa invadia meu peito e percorria meus braços. Fios dourados surgiam por trás do piano o envolvendo completamente. Eles traçaram diversas formas acima do instrumento. Em determinado momento eles tomavam a forma da lua, depois a de um lindo campo florido, uma árvore solitária no topo de uma colina, um anel feito de lã e por fim os fios traçaram a forma dourada de uma bela jovem.

Luna olhava aquilo com profunda surpresa e admiração. Seus olhos se voltaram aos meus, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa meus lábios foram de encontro aos dela.

A princesa primeiramente surpresa respondeu ao beijo com fervor, sua mão se enroscou em minha nuca me puxando com afinco em um beijo apaixonado. O piano continuou a tocar sozinho junto a bela melodia do luar.

Luna me levou pela janela até o jardim. Ela se virou e me agarrou colocando minhas mãos em sua cintura e passando seus braços pelo meu pescoço.

— Siga os meus passos. — A princesa me guiava enquanto dançávamos ao ritmo da melodia.

Fios violetas escaparam de seus pés e se entrelaçaram aos fios dourados que nos rodeavam.

Logo, ambos os fios iniciaram uma valsa juntos pelo jardim a nossa volta, tomando uma miríade de belas formas, misturando-se em suas cores.

Os lábios da princesa tocaram os meus mais uma vez e ambos nos entregamos àquele momento com tudo. No fim nenhum de nós queria que aquela noite terminasse.


 

[1] Nocturne Op 9 n°2 de Chopin

[2]Clair de Lune

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

18 Comentários

  1. Meu cap preferido ^w^ aproveitem, se vc gosta de uma zoeira leia ouvindo ode a alegria apartir do momento do piano

    1. cê poderia ter pausado e colocado a outra pra tocar no momento que chegou na nota [2]. É só clicar em cima do número que ele te leva direto pra nota.

  2. Detalhes importantes apresentados:
    James consegue renderizar imagens com os fios (ele teceu aquele sonho dele de antes);
    Também consegue controlar objetos através dos fios

  3. Gostei… virou uma história multi-mídia. Quero ver fazer isso quando tiver uma chuva torrencial em uma floresta enquanto são perseguidos por um ser gigante!

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