LdL – Capítulo 20

Ponto de Ebulição

[Esse capítulo também terá notas com músicas.
Não esqueçam de ouvi-las
para uma melhor imersão]

 

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Decidi caminhar um pouco para observar em primeira mão como tudo isso funcionava de fato, afinal, toda a experiência que eu tinha sobre esses eventos sociais vinha de filmes e blogs.

O baile seguia agitado ao som da orquestra. Diversos casais ocupavam completamente o salão enquanto dançavam às danças típicas da região.

Alguns cavalheiros tomavam coragem e convidavam as damas para uma dança. Enquanto alguns conseguiam comprir perfeitamente com a etiqueta, outros avançavam uma etapa ou outra, tornando o ritual de cortejo um completo desastre.

Perto do palco da orquestra, Elizabeth e Charlotte foram rodeadas pelos mais diversos tipos de homens que, um após outro, era recusado e afugentado pela Duquesa. Charlotte os recusava de forma mais educada, agradecendo os convites, porém dispensando os rapazes veementemente. Em determinado momento, um deles tentou tomar a mão da doce tecelã à força, e foi esbofeteado na mesma hora por Liz.

— Reconheça seu lugar! — A Duquesa desferiu outro tapa no jovem cavalheiro que saiu rodopiando pelo salão como uma beyblade.(ouçam só o comecinho ou todo hehe) 

Ao ver tal cena, eu quase gritei Vaaai Dragon… Mas, por alguma intervenção divina, consegui suprimir esse impulso. 

O rapaz se desculpou desajeitadamente e saiu correndo do salão, envergonhado.

Por um instante, pensei que todos iriam repreender a atitude de Liz, mas ninguém ousou defender o rapaz. Conhecendo Elizabeth, essa provavelmente não era a primeira vez que algo do tipo acontecia.

Caminhando pelo salão, notei que alguns Nobres mais pomposos estavam rodeando Luna. A maioria conversava de maneira casual, mas um em específico estava sendo bastante incisivo. Não precisava ser um gênio para perceber que ela estava incomodada com as investidas dele.

Ao me aproximar mais, escutei um deles dizer:

— Devo dizer que Vossa Alteza está deslumbrante essa noite. — Falou o rapaz que a incomodava. Ele era Laniano, muito bem vestido e pomposo. O sujeito usava uma máscara de coruja e tinha um queixo pontudo. — Não vejo razão para declinar tal convite, uma vez que nossas famílias são tão próximas.

Vendo a expressão de Luna eu pude perceber que ela estava se esforçando para manter as aparências.

— Não teste minha paciência, Gaster. — Luna avisou entre dentes enquanto fuzilava o Laniano com o olhar.

Gaster respondeu a desfeita com mais assédio. Ao que parece, para o homem, aquele tipo de resposta não era nada. Assim como diversos outros babacas, esse também parecia se achar o rei da cocada preta.

— Ora, vamos lá, quem sabe depois de uma dança você não sai dessa reclusão e finalmente aceita meu pedido? — Gaster se aproximou um pouco e continuou com um sorriso debochado — Sua irmã e meu pai ficariam muito contentes com isso… — Ele levantou a mão, fazendo menção de tocar o rosto da princesa.

Mas, antes dele sequer encostar em Luna, eu o segurei pelo pulso com firmeza.

O Laniano virou o rosto, atônito. Pela sua cara, o fato de outra pessoa tocá-lo de maneira tão brusca parecia ser incrivelmente anormal.

— O que!? Como ousa… Quem voc… — gaguejou o Laniano, ainda surpreso.

— Boa noite, meu nobre senhor — grunhi com um sorriso amargo —. Desculpe, mas a dama em questão está acompanhada. — Eu apertei ainda mais enquanto dava ênfase às minhas últimas palavras.

Como se tivesse saído de seu estado de surpresa devido a dor, ele puxou o pulso com um tranco. Logo depois, começou a massagear a região. Pelo visto devo ter deixado uma marca. O homem me olhou de cima a baixo, com os dentes cerrados.

— Quem você pensa que é? Sabe quem…

— Com licença — ignorando os latidos do nobre, peguei Luna pela mão e saímos de lá.

— O que!? Seu insolente! Com quem você pensa que…

As palavras do jovem nobre se perderam em meio a música do grande salão. A medida que nos afastamos, a princesa levou a mão aos lábios para esconder o riso.

— Ora ora, o que seria de mim sem meu nobre herói? — Luna brincou enquanto ria.

Durante todo o percurso, eu estava me segurando para não reclamar na frente das pessoas que nos rodeavam, mas logo que nos afastamos mais eu não pude me segurar.

— Afinal, quem era aquele idiota? — resmunguei — Minha vontade era de socar o nariz dele, mas devido ao lugar e como não queria trazer mais problemas para você eu me segurei, mas… Argh, eu simplesmente odeio esse tipo de pessoa. Quem ele pensa que é… Eu, eu deveria ter socado ele mesmo, ah se devia e ainda… Ai!

Luna me deu um leve beliscão no braço.

— Calma, calma — a princesa olhou em volta e falou — aqui, venha comigo. — Dessa vez, foi ela quem conduziu. 

Luna me levou por um caminho mais calmo dentre aquele mar de pessoas e rapidamente chegamos ao final do salão.

Ela nos levou a sacada que ficava do lado de fora do salão. A música diminuiu ao ponto de podermos ouvir os grilos cantando debaixo do véu da noite.

O lugar estava bastante calmo, não havendo quase ninguém por lá, apenas um ou outro casal envergonhado, aproveitando o romantismo provocado pela luz do luar.

Os olhos da princesa brilhavam como duas jóias âmbar. Instintivamente, passei a mão em sua cintura e me aproximei, mas logo me contive. Olhei ao redor para me certificar se não havia curiosos de plantão.

Percebendo meu cuidado exagerado, Luna me puxou para junto de seu corpo, me beijando apaixonadamente.

— Está mais calmo agora? — perguntou a princesa.

— Sim… Mas, aquele sujeito. A maneira como ele… argh. Eu não poderia ficar parado vendo aquilo.

— Eu sei, meu querido, mas esses tipos de coisa é de certa forma comum… Especialmente em relação a Gaster. Sendo o filho do primeiro ministro de minha irmã, eles tentam a bastante tempo um casamento forçado.

— Mas eles não podem te obrigar, não é? — falei enquanto segurava as mãos de Luna — Mesmo que te obriguem eu faria de tudo…

Ela levou um dos dedos aos meus lábios me fazendo calar.

— Já falei para não se preocupar com coisas triviais, minha irmã não tem poder para tal. Então vamos esquecer todas essas bobagens e apenas aproveitar a noite — Luna disse enquanto acariciava meu rosto.

Ela me deu um beijo longo e apaixonado. Respondi à investida da princesa a agarrando com paixão. Luna se afastou e me olhou com aqueles grandes olhos amarelos quase hipnotizantes.

Todo meu stress sumiu. Meu corpo transbordava de uma felicidade sem limites. Eu me sentia tão leve, que poderia sair voando a qualquer momento. Ver aquele sorriso meigo no rosto dela era o bastante para me fazer esquecer dos problemas.

Enquanto eu contemplava aquele rostinho meigo que sorria feliz de volta pra mim, eu percebi que seria capaz de enfrentar qualquer tipo de desafio ou batalha que surgisse na minha frente.

Apenas para proteger esse sorriso.

Eu a entrelacei em meus braços e dei um beijinho em seu nariz.

— Ok, eu prometo que não me deixarei mais levar por isso. — Reparti sua franja com os dedos e a beijei na testa com ternura. Luna me retribuiu com um sorriso e um selinho.

Nós nos abraçamos e continuamos a aproveitar a bela vista do jardim banhado pela pálida luz do luar.

Felizmente, a maioria das pessoas não pareceu notar nossa longa ausência. Ou pelo menos fingiam não terem notado.

Observando o grande salão, pude notar que aparentemente não houve muitas mudanças, com exceção do número de cavalheiros que tentavam flertar com as anfitriãs.

Mesmo após incontáveis rejeições, de vez em quando algum cavalheiro se aventurava e convidava uma das garotas para uma dança.

Liz, que já estava claramente cansada de chutar traseiros, se sentou junto à Charlotte na mesa do anfitrião. Notei que a tecelã estava um pouco cabisbaixa.

Aurora estava dançando com o homem elegante que a acompanhava antes. A orquestra terminou sua última música antes de fazerem uma pausa. Aproveitei minha chance e segui até o piano.

Caminhei com Luna até o palco. Os músicos aproveitaram o breve intervalo para ajustar os instrumentos e beber um pouco de água.

Eu me virei para a princesa e falei:

— Irei tocar uma música para as garotas, logo logo eu volto, minha querida princesa — me aproximei e sussurrei em seu ouvido — acredito que você vai adorar a minha nova performance — dei um beijo em sua mão como nos filmes e sai.

Quando fiz menção de subir ao palco o maestro me deteve.

— Perdão meu senhor, apenas membros… — o senhor bigodudo falou forçadamente tentando manter a educação.

— Algum membro vai usar aquilo? — perguntei apontando para o piano.

O senhor bigodudo me olhou, intrigado.

— Não meu senhor, sendo sincero não entendi o porquê de trazerem tal instrumento para meu palco — o maestro falou sacudindo as mãos em desaprovação. Por um instante, imaginei uma cena cômica de desenho animado, onde o coelho sacudia a mão e a orquestra tocava descontroladamente por engano. Por pouco não consegui conter o riso — ele não faz parte do nosso grande show.

— Bem, deixe-me mostrar-lhe o motivo dele estar aqui, se me der licença.

O maestro se colocou à minha frente na tentativa de me impedir.

— Meu nobre senhor, por favor pare de brincadeiras — O maestro resmungou entre dentes, ele estava visivelmente perdendo a paciência — logo logo começaremos a nossa performance final então por favor espere mais um pouco — ele insistiu, tentando ser educado. Possivelmente achando que eu era um nobre, o maestro tentou me parar da maneira menos grossa possível.

— Façamos assim, me dê apenas uma pequena estrofe, se não gostar, o senhor poderá me parar imediatamente. — falei confiante.

— O senhor não desiste mesmo, não é mesmo? — o maestro bigodudo suspirou impaciente — Tudo bem vá em frente… 

malditos nobres… —grunhiu o bigodudo, mas não baixo os suficiente para que eu não ouvisse. 

Passei pelo maestro e, antes de tomar posição, aproveitei a oportunidade para anunciar.

— Duquesa Elizabeth, eu dedico essa música a você e a nossa querida Charlotte. Não tenho palavras suficientes para agradecer todo o suporte e carinho que vocês duas me deram. — após tomar posição disse — Dedico essa melodia às duas melhores professoras de toda Solaris.

De súbito, comecei a dedilhar as teclas com maestria em um instante o som de “Für Elise” de Beethoven[2] inundou o salão.

O maestro ficou extasiado e os demais convidados, fascinados com a melodia. Charlotte tomou Liz pela mão e atravessou a parede de cavaleiros que às importunavam antes com extrema facilidade. As duas caminharam para o centro do salão de mãos dadas.

— Não devemos desperdiçar o presente do nosso adorável pupilo, não é? — Charlotte falou com um belo sorriso, sem nenhum traço da tensão que antes a assolava.

— Com toda certeza minha querida, com toda certeza. — Liz passou umas das mãos na cintura da tecelã e começou a guiar.

Era quase como assistir uma peça romântica. Os sorrisos genuínos de duas pessoas que se amavam, dançando juntas uma valsa perfeita. Era quase como uma cena de filme.

Mesmo de longe, pude perceber o olhar amável e grato de Elizabeth para mim. Nada precisava ser dito, o sorriso em seu rosto já me falava o suficiente.

Aos poucos, outros casais se juntaram à valsa, logo todos já estavam totalmente imersos no sentimento da melodia. Ao ver as duas dançando tão apaixonadamente, logo me empolguei.

O maestro que antes me olhava com desdém agora estava boquiaberto, ele se aproximou lentamente e começou a gaguejar.

— M-meu jovem… m-mas como… como? O-onde, v-você — Sua expressão era uma mistura de confusão e admiração pela melodia.

— Senhor — gesticulei com a cabeça para que ele se aproximasse. — O senhor consegue reconhecer as notas que estou usando aqui?

Seus olhos não perdiam meus dedos de vista, como um amante da música, eu conseguia notar o extremo entusiasmo estampado no rosto do bigodudo.

— Sim, meu filho, eu consigo! — seu tom já havia se tornado energético e vigoroso — Onde você aprendeu isso? Depois do baile eu preciso que você me mostre essas partituras… 

— Tudo bem Maestro, tudo bem… Apenas me diga… a sua orquestra conseguiria reproduzir algo assim? — Eu falava pausadamente, pois minhas mãos não saiam das teclas, não queria cortar a melodia no meio, principalmente vendo a animação de todos no salão.

— Bem, certamente… O que você…

— Ótimo… chegue mais perto…. vou te repassar algumas notas chaves… e a partir delas você me acompanha junto com os demais, tudo bem?

— Sim, sim — seus olhos brilharam quando ele se aproximou para ouvir as instruções, era como se sua mente já projetasse os sons com antecedência. 

— Aliás, eu não sou um nobre, sou apenas uma pessoa comum… — afirmei com um sorriso.

Ele me olhou incrédulo por alguns minutos e sorriu.

— Pois bem meu rapaz, você é uma achado e tanto, quando acabarmos aqui venha falar comigo, esse seu talento deve ser dividido com o mundo. — O maestro falou empolgado. 

Logo o maestro bigodudo voltou para sua posição. Ele olhou firme para sua equipe, quase dava para ver a chama do entusiasmo queimando em seus olhos. Aos poucos, comecei a mudar o ritmo, entrando na melodia de “The second Waltz” de Shostakovich[3], uma típica música que sempre estava presente nos grandes bailes em filmes de época.

Após a primeira estrofe a orquestra se juntou. Com isso, os convidados que antes dançavam empolgados ficaram ainda mais animados, os demais que observavam não conseguiram se conter e se juntaram à dança.

Vários casais dançavam no grande salão. Vestidos giravam e balançavam de acordo com a valsa animada. Minha empolgação estava a mil. Antes que me desse conta, as linhas douradas brotaram das teclas, fazendo a melodia se encher de felicidade e excitação.

— Acredito que, com isso, você possa me dar o prazer dessa dança, não é mesmo? — Luna disse ao meu lado, ela agarrou minha mão e me puxou de meu assento. 

As teclas continuaram a tocar mesmo sem ninguém lá, mas apesar disso, o Maestro e a orquestra não pareceram notar minha falta. Eles estavam tão absorvidos em suas funções se deleitando com a música que nem notaram.

Lunafreya me levou pelo mar de dançarinos até o centro do salão, onde estavam Liz e Charlotte. As duas dançavam alegremente em meio a uma troca de sorrisos e deliciosas gargalhadas.

Luna pegou uma de minhas mãos e as levou a sua cintura.

— Agora você guia, faça como ensaiamos — Ela falou em meu ouvido para em seguida me dar um beijinho na bochecha.

Antes que meu nervosismo crescesse, decidi dar o primeiro passo e depois outro e outro. Assim, fui guiando minha doce Luna em uma divertida valsa em meio àquela multidão animada. Quatros meses atrás isso seria impossível para mim, mas de alguma forma que eu não conseguia explicar, essas meninas faziam eu me sentir diferente, como se toda a solidão e amargura que me envolviam no passado não passassem de uma casca que escondia o meu verdadeiro eu.

Era quase como se meu verdadeiro lugar sempre tivesse sido aqui, junto com elas.

Depois de alguns minutos a orquestra trocou de melodia, muitos já estavam cansados, mas ainda animados com as músicas.

— Acho que deveriamos fazer uma pausa também — Charlotte sugeriu, apontando para uma das mesas vazias.

Todos concordamos em meio ao suor e a fadiga com um joinha ofegante.

Elizabeth segurou uma de minha mãos com firmeza e falou com um sorriso:

— Obrigada, meu querido. Foi um presente maravilhoso… E deveras animado, hehehe… — Liz ainda respirava com um pouco de dificuldade. Afinal, ela e Charlotte foram as que mais dançaram.

— Aquilo foi o mínimo que eu poderia fazer, afinal vocês três me presentearam com algo muito mais valioso e eu nunca vou conseguir agradecer o suficiente por isso. — As garotas me olharam com ternura, me deixando envergonhado.

Liz deu uma risadinha e, antes que ela tivesse a chance de tirar sarro de mim, me levantei.

— É uma pergunta meio idiota, mas vocês querem algo para beber? — As três garotas visivelmente cansadas se entreolharam e acenaram positivamente.

— Diga para pegarem a melhor garrafa de espumante que tiverem na adega… — A duquesa falou sem tirar o sorriso maroto do rosto. — e muuuita água.

— Para mim apenas água por enquanto, querido. — Apesar de também estar exausta, Charlotte conseguia manter a aparência de dama educada. 

— Se possível, eu gostaria um pouco de vinho — Luna falou, dando uma piscadinha.

Algumas poucas pessoas ainda dançavam no salão sob o ritmo animado da Orquestra do Sol. De fato, eles eram muito bons, rapidamente entenderam quais notas tocar e o maestro os conduziu perfeitamente.

Esse tipo de harmonia era bem raro, mesmo no meu mundo. Apenas os verdadeiros amantes da música conseguiam alcançar esse nível. Eu imagino como eles não ficariam animados se eu conseguisse algumas partituras de Beethoven, Chopin e Mozart, certamente o maestro ficaria maluco diante de tantas obras primas.

O caminho para a cozinha estava no mínimo tumultuado. Muitos serviçais entravam e saiam de lá com diversos petiscos e bebidas servidas em bandejas prateadas. 

Muita vezes, os pobres empregados quase se batiam devido a grande demanda. Infelizmente, a tarefa de servir a todos no baile foi incubida apenas ao pessoal do palácio, e, como esperado, os poucos serviçais não estavam conseguindo dar conta da alta demanda.

Um som de risadas esnobes me chamaram a atenção, principalmente por que uma delas me era irritantemente familiar.

Um grupo de nobres mascarados estava cercando um dos serviçais encarregado de servir as bebidas. De súbito, eu procurei me aproximar, pois sabia muito bem o que estava prestes a acontecer.

— Vamos, seu camponês, me sirva devidamente! — esnobou um homem bem vestido que usava uma máscara de coruja.

— Sim, meu senhor. Por favor, escolha a bebida que mais lhe agradar — Heitor, o jovem ajudante de cozinha, essa noite estava ajudando os demais criados devida a óbvia falta de gente.

 Ele ofereceu a bandeja de prata contendo diversos tipos de bebidas. 

— Escolha a bebida? Por acaso você está me dando ordens? — O homem mascarado pegou um dos copos e derramou sobre a cabeça de Heitor.

— Me agradeça, escória. Só assim um reles plebeu como você pode experimentar uma boa bebida como essa hahahahaha.

Os demais rapazes gargalharam enquanto o meu pobre amigo estava molhado e humilhado, sem poder reagir. Outro nobre, que usava uma máscara de raposa, pegou mais um copo com a intenção de repetir a ação do colega.

Antes que ele pudesse virar a bebida, eu agarrei o copo ainda em sua mão. O cheiro da bebida era forte no rapaz, logo percebi que a raposa estava visivelmente bêbada.

— Seria melhor se você não desperdiçasse uma bebida tão cara — falei o encarando atráves de minha máscara.

— Me solte — a raposa puxou a mão na tentativa de se desvencilhar de minha pegada — Como você ousa…

 Eu agarrei um dos braços do Heitor e o trouxe para junto de mim, antes de soltar a mão da raposa vulgar. Ele cambaleou para trás, derramando a bebida do copo sobre si.

— AH, seu desgraçado… — falou o jovem bêbado com a cara molhada totalmente atordoado.

O jovem Heitor me olhou, assustado.

— Por favor, senhor, não precisa me proteger, eu apenas lhe causarei problemas — Heitor sussurrou baixinho ao meu lado, sua voz estava trêmula e abalada.

— Não se preocupe meu amigo — sussurrei de volta com um sorriso — Agora, se nos dão licença, deixaremos que aproveitem o restante do baile. — falei secamente.

— Espere aí, seu merdinha — falou o nobre com máscara de coruja — Quem você pensa que é? Molhou meu amigo, causou toda essa comoção e pensa que vai sair impune? Não pense que esqueci de mais cedo.

Ele se aproximou de mim e pude sentir um leve cheiro de álcool.

— Afinal quem é você? — Coruja bravejou nervoso, — dedica músicas a essa aberração de duquesa, rouba minha princesa e ainda atrapalha minha diversão?

— Aberração? Sua princesa? — Meu sangue ferveu. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Heitor me agarrou pelo braço notando minha perda de controle.

— Vamos, senhor, vamos sair daqui, isso não trará nada de bom para ninguém — Aos poucos, ele conseguiu me puxar para longe em direção a cozinha.

— Isso mesmo, saia daqui com seu animalzinho de estimação, hehehe — debochou coruja.

Quando já estávamos próximos das portas da cozinha eu escutei ele acrescentar.

— Como se já não bastasse a gente ter que fazer vista grossa para duas beldades daquelas se esfregando, ainda temos que aguentar esse tipinho de gente — ele falou de maneira que eu pudesse ouvir bem. Segurando a genitália de forma repulsiva, o nobre ainda acrescentou em tom de deboche — Uma vez que elas sentirem o que é um Laniano sangue puro de verdade essas duas tomam jeito. — Ele balançava os quadris fazendo gestos repugnantes enquanto gargalhava para os amigos.

Vump

Blam

Um som abafado ecoou. Uma bandeja prateada girou no chão, dançando sobre o sangue que descia por entre as mãos do Laniano com máscara de coruja.


[2]

Fur Elise (by Beethoven) by Beethoven Creative Commons — Attribution 3.0 Unported— CC BY 3.0 https://creativecommons.org/licenses/… Music provided by FreeMusic109 https://youtube.com/FreeMusic109

[3]

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

29 Comentários

          1. Ouvi tbm kk aliás não sei se foi por direitos autorais oq acho difícil mas o nome é dragoon com dois ós 🤣🤣🤣

        1. Entenda meu amigo, função de figurante é apanhar até aprender duas coisas, vc não mexe com o protagonista, vc não mexe com o protagonista

  1. Caraca que capítulo, LdL cada vez mais vem se mostrando uma novel fantástica, já é uma de minhas favoritas, continue assim

  2. “minha irmão não tem poder para tal” – errinho leve
    Se alguém ainda não tinha percebido a relação entre a Liz e a Charlotte, mais claro do que está agora é impossível

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