LdL – Capítulo 21

A voz que me chama.

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Vários nobres tentavam ajudar o laniano, incluindo seus colegas, mas isso só parecia deixá-lo mais irritado.

— AAARGH, MEU NARIZ, SEU DESGRAÇADO!!! AAARGH!!! — Ele  mantinha as mãos no rosto, eu podia ver sangue escorrendo por entre seus dedos, pelo visto a bandeja acabou quebrando o nariz do desgraçado.

Eu estava tão furioso que já nem me importava com as consequências. O jovem ajudante de cozinha, que antes me puxava para longe da confusão, agora estava completamente paralisado frente a tal situação. Seu rosto era um misto de descrença e admiração.

Logo, os gritos do laniano mascarado chamaram a atenção de todos no salão.

— Lucius? O que diabos está acontecendo aqui? Quem fez isso? — Um laniano de rosto afilado usando uma máscara prateada abriu caminho através da multidão.

O homem agarrou o rosto do jovem e o levantou analisando o estado do rapaz.

— Pare com tanto alarde, você só quebrou o nariz. — O Coruja virou o rosto se livrando da mão do homem. — Agora… Quem fez isso com meu querido filho? — Seus olhos varreram toda a multidão até finalmente pousarem em mim.

— Você! — Ele apontou para mim com seu indicador fino como um galho — O intruso, o indesejado… Sim, eu sei quem você é… — O velho se aproximou de mim e sussurrou — Mestiço estrangeiro…

 Meus nervos congelaram por um instante, senti um calafrio agonizante percorrer minha espinha.

— Ele sabe? Mas como?– Minha ansiedade foi  aos poucos se misturando com minha frustração, minha consciência começou a clarear e eu fui percebendo que minhas  ações foram muito precipitadas. 

Ele abriu um sorriso esnobe de orelha a orelha e continuou a sussurrar para mim:

— Não estava em meus planos me livrar de você tão cedo, mas, vendo que você está no caminho de meus planos, não terei outra opção, afinal, o caminho para o trono está logo ali – O homem de rosto fino disse com um sorriso malicioso enquanto apontava com seu nariz para Luna.

Caminho para o trono? Gaster só estava interessado no status da Luna, assim como os abutres que me rodeavam, ele só quer usar ela como degrau… Esse desgraçado…

Toda minha fúria e ódio se contorciam com cada palavra dita, sua expressão e fala esnobe deixavam claro como ele me menosprezava ao ponto de não fazer a mínima questão de esconder seus objetivos sujos.

Ele era exatamente como os lixos que viviam rodeando meus pais, que, por diversas vezes, me visavam na vaga esperança de conseguir me usar como ponte para seus objetivos mesquinhos e podres.

Ora ora ora… O que temos aqui? Mais um aproveitador… E então, vai deixar barato? Não tinha sido você quem jurou protegê-la? Não era você quem iria lutar por aquele sorriso? A voz sombria e metálica reverberou pela minha mente enquanto me enchia de coragem e ódio.

Vamos lá, garoto. Não tem problema acabar com esses malditos, afinal, eles merecem. Quem melhor para punir essa gente podre do que você, que já foi uma vítima deles? Não seria errado, seria a mais pura Justiça.

A voz do lobo me alcançava com facilidade e, aos poucos, deixava de ser um incômodo e se tornava uma agradável melodia.

Meus olhos mergulharam na escuridão até se tornarem sombrios e profundos. 

— O que te faz pensar que eu permitirei que um lixo como você faça as coisas como bem entender? – Me aproximei do nobre narigudo e o encarei nos olhos.

— Gente da sua laia não passa de parasitas inconvenientes, que, por descuido, conseguiram se alojar fundo demais em suas vítimas. — Minha expressão estava vazia e minha voz ficou cada vez mais profunda com cada sussurro. — Muitas pessoas simplesmente desistem e não dão importância em se livrar do problema por justamente serem um problema.

Dei mais um passo ficando ainda mais próximo do narigudo.

— Mas eu sou diferente, eu vou fundo… Beeem fundo, atrás da raiz de certos problemas. E você, meu caro senhor, é o tipo de carrapato que eu adoraria arrancar e espremer entre meus dedos… 

O narigudo engoliu em seco, logo seu rosto se encheu de fúria.

— SEU PLEBEU INSOLENTE!!! – Ele ergueu uma das mãos e tentou me golpear.

Interceptei o golpe quase que inconscientemente, agarrando fortemente o pulso do desgraçado.  

Mas, antes que eu pudesse dar um soco, fui acertado no braço pelo homem com máscara de coruja.

— Você já nos insultou demais, seu mesticinho de merda… – O coruja endireitou seu corpo e, em uma postura arrogante, gritou – Eu, Lucius Gaster Dracorius, desafio você para um duelo… 

— Um duelo pela honra de minha família! — completou Lucius.

— Vamos, vamos! Abram espaço… — Gritou Gaster para os demais convidados.

Os curiosos ao redor abriram espaço, logo um grande círculo foi formado, nos dando um espaço considerável. Lucius sorriu com escárnio quando cuspiu:

— Você vai se arrepender amargamente de ter se intrometido onde não deve, seu lixo mestiço… Leonard — ele fez sinal para um dos seus colegas — nos faça duas espadas de madeira, quero aproveitar isso ao máximo.

Grande mãe, conceda-me sua graça e me permita ser um com a terra. – Logo, o mármore sob nossos pés se rachou e um fino caule cresceu, aos poucos ele foi tomando a forma de uma espada de madeira muito semelhante às usadas nos treinos.

O nobre Laniano retirou a espada do chão e a analisou enquanto falava.

— Hoje é um dia sagrado, então não irei fazer você sangrar como um porco, mas isso não me impede de te ensinar uma lição que já passou da hora de você aprender! 

Lucius sacou a espada e disparou.

Nunca deixe o inimigo tomar a iniciativa…  As palavras de Liz ecoaram em minha mente. Saquei a espada do caule mágico e corri interceptando Lucius na metade do caminho.

Desferi um golpe em arco de baixo pra cima na diagonal. Antes do golpe conectar-se, ele deu uma cambalhota para o lado e me golpeou nas costas com o cabo da espada.

O golpe me fez cambalear e cair.

— Mestiços como você devem conhecer seu lugar, hunf — Lucius me sondou despreocupado — Você acha que é especial por ter sido acolhido por essas aberrações em forma de duquesa e tecelã?

Me levantei com um salto explosivo de raiva, estiquei minha mão com a palma aberta e recitei:

Grande mãe, conceda-me a graça sobre o ar, Sopro de Noto. — uma rajada de ar irrompeu em direção a Lucius.

O Laniano gesticulou com as mãos e sussurrou algo, fazendo o ar colidir em uma parede invisível e se dividir. Chapéus, vestidos e perucas foram todos castigados pelo vento.

— Ora, vejam só, ele sabe tecer… Que bonitinho… — desdenhou enquanto me circundava — adivinha só, mesticinho, eu também sei.

Lucius fez um rápido movimento com a mão e, antes que me desse conta, pude sentir uma dor ardente em meu abdômen, como se tivesse levado um soco. Logo depois, veio mais outra e outra.

— E aí, gostou do show ? Hehehe… — ele me deu as costas e se virou para o público que assistia o duelo – Senhoras e senhores, é assim que se coloca um mestiço em seu lugar Os nobres ao nosso redor gritavam de empolgação toda vez que eu era golpeado, algumas damas davam gritinhos e as senhoras não paravam de comentar.

— Incrível.

— Quem poderia imaginar que o jovem Lucius já fosse tão avançado assim?

— Esplêndido, meu jovem, esplêndido!

Lucius fazia reverências aos convidados como se fosse a estrela de uma peça de teatro. Mas o que mais me deixava perplexo era a maneira como ele tecia. 

O que me atingiu definitivamente foi algo advindo das mágiculas, não tenho dúvidas, mas como ele teceu sem recitar nenhuma oração? — Pensei comigo enquanto tentava recuperar meu fôlego.

Você ainda é fraco… Me deixe te ajudar garoto… libere todo o seu ódio e assim conseguirá a força necessária para vencê-lo — A voz mais uma vez me preencheu, minha dor foi sumindo aos poucos dando lugar a adrenalina do momento.

Não! Eu mesmo irei resolver… 

Disparei na direção de Gaster, desferindo uma série de golpes. Eu balançava a espada em golpes diagonais e estocadas, mas Lucius sempre conseguia desviar ou bloquear.

Eu estava usando tudo o que havia aprendido com Elizabeth nos últimos meses, mas, mesmo com meu oponente em desvantagem por estar um pouco bêbado, eu não conseguia acertá-lo, não importava o quanto eu tentava, os golpes nunca conectavam. O abismo entre nossas habilidade se tornou cada vez mais evidente.

Ele era habilidoso, isso era claro, e certamente deve ter se esforçado bastante pra chegar a esse nível. Então por quê? Por que esse tipo de gente se esforça para ser tão podre e arrogante com aqueles menos afortunados?  Quanto mais eu pensava nisso, mais raiva eu sentia. 

Isso, isso, isso! — a voz metálica ecoava em minha mente em êxtase —  entregue-se a sua fúria, me use como combustível e vamos queimar todos os porcos miseráveis deste mundo. A vibração das batidas corriam pelos meus braços, com cada golpe trocado um sentimento de poder e prazer crescia dentro de mim.

O choque das batidas ecoavam pelo salão.

O sorriso esnobe de Gaster sumiu de seu rosto quando eu quase o acertei. Ele tomou distância e me analisou.

— Pare com essa loucura… essa luta por sí só é injusta. — gritou uma voz familiar.

Luna estava junto a Aurora discutindo algo. Liz e Charlotte cercaram o velho de nariz pontudo e rosto fino. Elas pareciam discutir… Vendo que eu havia baixado a guarda Gaster cortou a distância entre nós rapidamente e me acertou na têmpora direita, eu imediatamente fui ao chão.

— Nunca desvie os olhos de um oponente durante uma batalha, seu mestiço de merda — O laniano se aproximou cantando vitória. Ele me virou com um chute para, em seguida, se apoiar em cima do meu peito com o pé.

Imediatamente eu coloquei as mãos no bloco de mármore que ele estava pisando e falei.

— E você nunca deve subestimar seu oponente, seu porco de merda…  Purificação de la Duve… 

O laniano me olhou confuso.

— O que diabos você está fazendo? Esse encantamento é completamente inútil. Seu plebeu de m…

Antes que terminasse a frase, eu consegui empurrar sua perna que ainda estava no chão. O mármore estava extremamente escorregadio a ponto de quase não ter nenhum atrito. 

O Laminado foi subitamente ao chão, batendo as costas com tanta força que o ar desprendeu de seus pulmões.

Aproveitei a oportunidade e me ajoelhei em cima do meu adversário, desferindo uma série de socos no indefeso Lucius.

A cada novo golpe o sentimento de êxtase percorria meu corpo e um sentimento de justiça me preenchia.

Isso! Isso, garoto, não tenha piedade, deleite-se com a dor de seu adversário, mate-o… MATE-O!!!— a voz metálica já não mais sussurrava, mas gritava — Entregue-se ao ódio, seja um comigo!!

O rosto de Gaster ficava cada vez mais inchado e desconfigurado a cada soco. De repente, um impulso me deteve e um sentimento sereno correu por meu corpo.

— Não, James! — uma segunda voz, serena e reconfortante, ecoou em minha mente. — Esse não é você, não deixe que o ódio te consuma, não se torne como aqueles que um dia se aproveitaram de sua gentileza e bondade. Lembre-se daquelas que te presentearam com uma segunda chance maravilhosa… Não jogue fora os sentimentos delas.

Os sentimentos delas?? Uma torrente de emoções me preencheu de uma vez. Eu conseguia sentir a apreensão de Luna, Liz e Charlotte. E mesmo que eu não as olhassem diretamente, de uma certa forma eu sabia que seus rostos deviam ser um misto de medo e preocupação.

 O laniano aproveitou minha clara hesitação e entrelaçou sua mão atrás da minha nuca, puxando meu rosto contra o chão. O som do baque ecoou em meus ouvidos e o mundo começou a girar.

Lucius rapidamente inverteu nossos papéis e agora puxava um dos meus braços enquanto se apoiava com o joelho dobrado sobre minhas costas, depositando todo o peso de seu corpo na tentativa de me paralisar. 

— Agora você me paga, seu verme. Senhor das tramas me conceda sua força, que teus servos matem meus inimigos e que sua vontade os desencoraje: terceiro estilo, amarras dos espíritos.

De repente amarras disformes e semitransparentes surgiram do chão e envolveram todo meu corpo me deixando completamente paralisado.

— Arg… 

Eu me debatia furioso lutando para levantar a cabeça.

— Já chega! — bradou Elizabeth. — Esse duelo já está decidido, solte ele Lucius.

— Minha senhora, veja como o estado que ele me deixou, não posso deixar isso barato… – Lucius rebateu com um sorriso esnobe. — Afinal, ele ainda não pediu por perdão.

— E nem irei seu abutr… Arg! – O Laniano forçou meu braço em retaliação.

— O duelo foi aceito, até que uma das partes desista e se disponha a vontade da outra ou morra, ele não deve ser interrompido. — Aurora falou em com um tom autoritário.

O laniano sorriu.

— Ótimo, assim poderei brincar mais um pouco com você.

— Lucius, chega disso solte ele, por favor. 

Levantei a cabeça com esforço e pude ver Luna. Seus olhos de mel estavam cheios de fúria, Elizabeth estava ao seu lado igualmente irritada mas impotente diante de Aurora que observava tudo.

— Olha só, o que temos aqui… — Lucius agarrou meus cabelos com a mão livre e levantou minha cabeça para que eu pudesse ver melhor enquanto sussurrava em meu ouvido.

— Veja só quem veio ao seu resgate, mestiço. — Lucius falou em tom de deboche. Ele alternava os lados de meus ouvido e sussurrava um pouco de cada vez, como um maluco psicopata. — Uma belezinha como ela não merece um lixo impuro como você, mas não se preocupe! Eu irei cuidar muito bem dela…

— E, como eu também sou um cavalheiro que se preocupa com o próximo, acho que também posso ensinar boas maneiras para o casal de aberrações.

Um sentimento misto de raiva e impotência se debatia dentro de mim, sentimentos que já tive em abundância no passado.

Vamos, garoto… Só mais um pouco, só mais um pouco e você poderá proteger elas, basta parar de resistir a mim. A voz do lobo agora já se tornava doce e feminina e, por alguma razão, um pouco sedutora.

— Sabe, os planos da Rainha são um casamento vantajoso e só, não existe ninguém mais adequado para Luna do que eu.

Ele apertou ainda mais às amarras.

— Arg.. Um porco ganancioso como você…  nunca conseguirá o coração dela… — gritei enquanto me debatia na fútil tentativa de me libertar.

— Amor? hahaha! Você é de fato um garoto ingênuo. Não existe amor na nobreza, apenas o poder e a conveniência. Mas sabe, mestiço… a vaga ideia de que durante todo o resto da sua vida você vai estar chorando sabendo que todas as noites ela estará me servindo é… gratificante….

Meus músculos queimavam com o esforço excessivo para me libertar, cada partícula do meu corpo lutava em vão contra aquelas amarras.

Matar… eu vou te matar! — todas as minhas energias estavam focadas nesse simples pensamento. Lixos como você não merecem esse mundo…

Eu podia sentir meu corpo enrijecer com a fúria e o ódio.

Se entregue a mim… Eu posso te ajudar nisso… Seja um comigo.  A voz feminina estava cada vez mais alta e sedutora.

Lucius abriu um sorriso lascivo e completou.

— Aaaah!, não vejo a hora de me servir daquela carne suculenta noite após noite…

— Vamos lá! Exercite sua mente pense nela se debatendo embaixo de mim, submissa derramando suas lágrimas enquanto você, o mestiço miserável que ousou desafiar um nobre se mazela pelo resto de sua vida miserável… Aaaah, é uma cena simplesmente magnífica.

Seu Maldito… Eu aceito… Eu aceito te matar… 

SIM! Seu desejo será atendido… Meu doce e querido guerreiro. A voz feminina finalizou com um sussurro.

De repente, todo o ódio, angústia, impotência e medo sumiram. O mundo a minha volta ficou mudo. Minha visão foi escurecendo aos poucos. A última coisa que vi, foram os passos apressados das pessoas ao redor, muitos corriam assustados de algo. Em seguida, tudo foi tomado pelas trevas.

E tudo o que aconteceu a seguir mudou meu novo mundo para sempre.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

14 Comentários

  1. O cap de hoje foi incrível!!! Meu coração até ficou apreensivo com a luta. Ansioso pelo cap de quarta!

  2. Rapaz se o que eu entendi estiver certo significa os dois lobos tavam fazendo papel de policial bom/policial mau quando na verdade os dois são má influência pra ele já q supostamente o lobo branco(o da paz) foi que influenciou ele a começar esse massacre!! (E aparentemente a minha teoria de que talvez o Black Knight q mato o Seradin fosse o James se acendeu um pouquinho, mais como eu disse antes eu boto muita pouca fé nela justamente pq n faz sentido e tbm n tem nem uma pista por mais pequena q seja de que indique isso; no final das contas e só uma leve noia da minha parte kk).

  3. Rapaz se o que eu entendi estiver certo significa os dois lobos tavam fazendo papel de policial bom/policial mau quando na verdade os dois são má influência pra ele já q supostamente o lobo branco(o da paz) foi que influenciou ele a começar esse massacre!! (E aparentemente a minha teoria de que talvez o Black Knight q mato o Seradin fosse o James se acendeu um pouquinho, mais como eu disse antes eu boto muita pouca fé nela justamente pq n faz sentido e tbm n tem nem uma pista por mais pequena q seja de que indique isso; no final das contas e só uma leve noia da minha parte kk).

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