ldl – capítulo 29

Batismo de fogo

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Exaustivos… Se eu pudesse escolher uma palavra para definir os últimos dias, essa com certeza seria ela.

Um longo apito ressoava pela cadeia de montanhas que passavam rapidamente pela janela da minha cabine.

Devo dizer que fiquei extremamente surpreso ao saber que existiam trens nesse mundo.

Não querendo dizer que eles seriam atrasados demais para já terem descoberto o motor a vapor, mas sabem como é, né? Quando se está em um mundo de magia e espadas, onde as pessoas são divididas em raças e enfrentam monstros você não pensa:

“Nossa, não vejo a hora de andar de trem e descobrir as maravilhas da era moderna” Então não me julguem por isso.

Finalmente estávamos a caminho da cidade de Atmós, onde ficava a academia do reino. A viagem durava dois dias e finalmente estávamos no último dia de viagem. Andar de trem é bem legal, mas minha bunda já estava ficando quadrada naquela cabine.

Os últimos sete dias, foram de fato, muito corridos, após a minha inadequada intromissão, Liz me deu um belo de um cascudo, e logo depois, um forte abraço cheio de lágrimas. Ela dizia que tinha ficado preocupada em como eu reagiria a repentina partida de Luna, e que eu nunca mais confiaria nela e etc.

Depois de alguns minutos e muitas xícaras de chá, Elizabeth me falou um pouco mais sobre a academia e de como as coisas seriam de agora em diante. Mesmo tentando não transparecer preocupação, eu sabia perfeitamente o que ela estava sentindo naquele momento.

Não sei se era devido a nossa ligação ou pelo convívio, mas de certa forma, Liz parecia bem mais transparente e aberta comigo, ela sorria, brincava e tirava sarro como antes.

Apesar disso tudo, no fundo, eu podia ver que algo obscuro se remexia dentro dela. Uma força provinda da raiva se debatia como uma fera presa por correntes, que ao se libertar, causaria estragos imensuráveis.

Eu tentei perguntar sobre esse sentimento, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela me puxou para fora dizendo que era a hora de um treinamento intensivo. 

Elizabeth e Charlotte revisaram tudo comigo, apesar de ter sido um grande intensivão, consegui passar por tudo com certa maestria. Era quase como se eu não tivesse tido nenhuma dificuldade inicial, todos os processos de tecelagem e as técnicas de manejo de espada fluíam com facilidade.

E apesar delas estarem pegando pesado, o sentimento de realização era revitalizador.

De repente, a porta da minha cabine se abriu abruptamente. Era Liz, que vinha com um saco cheio de guloseimas e pães doces. Ela jogou seu corpo pesadamente ao meu lado, e já foi enfiando um pão na minha boca.

— Olha só essas maravilhas que eu consegui no vagão restaurante. — Ela me jogou a sacola, e nela haviam diversos tipos de pães doces, algo que lembrava rosquinhas e carne seca.

A duquesa mastigava sua comida freneticamente como um esquilo.

— Se continuar comendo assim vai acabar engasgando. — disse enquanto repartia um pão e o comia calmamente.

— Caha a hoca — falou com bochechas inchadas.

Após quase se engasgar e fazer um esforço para engolir, ela continuou.

— James, James, você tem de deixar de ser tão chato. Vamos lá, solte-se um pouco mais, você tem estado muito sério ultimamente. Apenas focar nos estudos e no treinamento não faz bem sabia— Ela lambia os dedos enquanto procurava pela próxima vítima na sacola.

Então, depois de achar uma rosquinha indefesa, ela continuou.

— Tente se divertir um pouco… Ah! Já sei. — Um sorriso travesso surgiu em seu rosto — Sabe, acabei de lembrar que ainda não te passei nenhuma prova para testar tudo o que você aprendeu até agora.

— Sério? Uma prova logo agora? — Falei desanimado e levemente desconfiado do que ela poderia estar planejando.

— Claro, agora é o momento perfeito, e não é uma simples prova… he he he.

Elizabeth entrelaçou os dedos e me fitou, um calafrio percorreu minha espinha, pois eu sabia muito bem que de alguma forma eu iria me ferrar.

— Sabe, quando estava voltando do vagão lanchonete, percebi que alguns homens embarcaram ilegalmente no trem — Liz falava de maneira casual como se isso fosse só mais uma terça-feira — e provavelmente nesse momento, eles devem estar assaltando os vagões dos fundos. E isso é uma ótima oportunidade.

— Que! — Me levantei abruptamente — Cê viu bandidos invadindo o trem e não fez nada pra impedir? Eles são fortes por acaso?

— Não — falou balançando a mão com desdém — São só uns fracotes, hehehe. — Ela riu enquanto procurava por alguma coisa dentro de uma mochila de viagem ao seu lado.

— Então… por que você não deu conta deles?

— Oras, porque será você quem vai fazer isso, meu precioso pupilo. — Liz deu uma leve risada e me jogou uma espada curta.

Peguei a espada no ar com facilidade e a avaliei por um instante. Até que me dei conta do que ela tinha acabado de falar.

— Espera ai… EU!? Sozinho?

Liz se reclinou na poltrona com as mãos atrás da cabeça bem relaxada.

— Essa vai ser a sua prova de fogo, depois disso você está mais do que apto para enfrentar qualquer problema sem mim, pelo menos os menores, hehe — disse com um sorriso debochado.

Vendo a minha notável preocupação ela completou:

— Não se preocupe, tenho total confiança de que você consegue. — Liz se levantou de sua confortável posição e começou a me empurrar para fora da cabine — Agora vai lá pegar eles, e pegue todos vivos, quem sabe você não ganhe uma recompensa.

A porta bateu às minhas costas com força, logo eu estava sozinho com um grande abacaxi para descascar nas mãos.

— Ah cara… Por que eu não posso ter um simples dia de folga — resmunguei enquanto caminhava para os vagões traseiros.

Mas, antes de chegar ao fim do corredor, a porta que separava os vagões se abriu abruptamente e um sujeito usando um lenço cobrindo metade rosto e roupas surradas, no bom e velho estilo faroeste, saiu de lá.

Ao me ver, o sujeito puxou um pequeno punhal e o apontou para mim.

Meu coração acelerou, diferente da minha luta no baile, dessa vez era realmente pra valer. Armas reais, risco real.

— Ei moleque, largue essa espada e vai passando tudo o que você tiver aí. — vendo que eu estava armado, o bandido ficou em guarda e constantemente insinuava que iria me furar.

Seu sorriso amarelado, junto com a cara de maníaco, apenas ajudavam a tornar a cena mais medonha ainda.

— Vamo garoto, passa tudo agora! 

Minha garganta ficou seca, e minha mão suava. Percebendo que eu estava aparentemente nervoso e praticamente não oferecia ameaça, o bandido se aproximou descuidadamente empunhando sua adaga de maneira ameaçadora.

— Ora garoto, você está bem? Cê tá tão branco que parece que o sangue fugiu do seu rosto hehehe… Bem, já que você não vai baixar essa espada, eu vou te ajudar a largar ela, quando cortar esses seus dedinhos. Ráaa!

Vendo o bandido se jogar em minha direção algo inusitado aconteceu. Para mim, ele se movia quase que em câmera lenta, e antes que ele pudesse me acertar, desviei com extrema facilidade.

O bandido era meio bobão e seus golpes desleixados o deixavam cheio de aberturas. Nessa hora, toda a minha tensão caiu por terra.

Vendo que tinha errado o golpe, ele começou a passar a faca de uma mão para outra, na tentativa de me intimidar com suas “inexistentes” habilidades com o punhal, uma vez ou outra ele quase derrubou a adaga e isso me ajudou a me acalmar mais um pouco.

Eu estou enfrentando um idiota… Pensei. 

De repente, o bandido se atirou novamente tentando me espetar com sua adaga. Dei um passo para o lado e deixei meu pé esticado para que ele tropeçasse, e sendo bem sincero eu não esperava que funcionasse.

Mas o bandido tropeçou e foi de cara com a parede.

— Aaagh!! Seu pentelho miserável — o homem rodopiava no chão segurando seu nariz quebrado coberto de sangue.

Ele pegou sua adaga caída e se ergueu novamente, seus olhos lacrimejados ardiam em fúria.

— Você vai ver, eu vou fazer picadinho de você, moleque eu… — Falou com a voz esganiçada.

— Olha moço, eu já vi filmes demais, e esses discursinhos de bandidos meia boca são um saco. — falei desanimado. E não pensem que eu falei isso por está me achando o rei da cocada preta.

Lutar contra esse cara era como enfrentar uma criança do jardim de infância com um espeto de churrasco, sem exageros, a Liz era infinitamente mais assustadora e malvada, e eu não era do tipo valentão, bater em pessoas mais fracas não fazia meu estilo, mesmo sendo um bandido.

Dessa vez, eu avancei em direção ao meu adversário, rapidamente, lancei uma finta alta como se fosse socá-lo no rosto, imediatamente ele cruzou os braços para se proteger.

Aproveitando a chance, me agachei e dei uma rasteira derrubando ele de costas.

O baque foi tão forte que o ar se desprendeu de seus pulmões.

Mãe divina, me conceda a força para punir meus inimigos, prenda, obstrua e a corrente. Amarras de Faroel!

Cordas semi-transparentes rapidamente se formaram ao redor do bandido, o amarrando imediatamente.

— Mas que merda é essa!? — gritou o bandido enquanto se debatia — Seu moleque safado você vai ver assim que eu me livrar… 

Desferi um chute na cara do bandido fazendo-o apagar na hora, não fazia muito meu estilo, mas eu não podia arriscar que ele chamasse a atenção dos seus comparsas.

Isso foi fácil… Me reclinei na parede ao lado do meu novo amigo dorminhoco. Se todos forem tão fracos e burros como esse idiota, acho que vai correr tudo bem… 

— Impedir um assalto ao trem hein… ha ha ha — falei um tanto melancólico. — Mais uma reviravolta maluca… 

Soltei um longo suspiro e me levantei esticando os braços.

Joguei meu amigo inconsciente dentro de uma cabine vazia, afinal a última coisa que eu precisava agora era alertar os outros capangas.

— Beleza! — falei animado fechando a porta — Já chega de ficar todo jururu, tá na hora de descer uns bandidos na porrada.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

8 Comentários

    1. Né isso kkkkkkkkk, Ele ta me parecendo um pouco mais alegre, sei lá… Quem sabe ele não ta usando isso como uma barreira para toda a merda q aconteceu sei lá. Também percebi q ele mudou bastante desde o primeiro capítulo, é bem evidente o impacto da convivencia com as garotas nessa nova fase da vida dele.

  1. Um trem… Finalmente vamos ter um desenvolvimento de mundo mais amplo? Vimos bandidos, um trem e aparentemente a malha ferrea deve estar se estendendo sobre o país inteiro. E um cap mais leve depois daquela cena de tortura é um sopro de ar fresco.

  2. Querido autor, o bandido estava usando uma bandana ao estilo zorro ou um lenço cobrindo a boca, que dependendo qual for nós não poderiamos ver os dentes do ladrão, achei essa parte meio ambígua.

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