LDL – Capítulo 3

Visões

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Meu corpo estava leve como uma pluma. À minha volta só existia escuridão. Olhei minhas mãos e percebi algo estranho, eu estava brilhando, meu corpo estava quase translúcido. Era isso. Eu, com certeza, estava morto. 

Flashes dos últimos momentos antes da minha queda surgiam em minha mente como um rolo de filme.

O plano sujo daqueles dois para me culpar por algo tão nojento, a reação prematura e cega das pessoas ao verem uma cena que sequer pararam para entender e o motivo fútil que levou a tudo isso me enchiam de raiva.

Logo, as trevas ao meu redor começaram a se decompor, dando lugar para um cenário diferente.

Eu estava em meio a um grande campo de trigo, as espigas douradas balançavam umas contras as outras, juntas ao vento formando uma melodia ritmada. Ao longe, uma garotinha corria em minha direção alegremente, como se não me visse há muito tempo. 

De repente as imagens tremeram como um canal mal sintonizado. Aos poucos, uma nova cena foi clareando, revelando um grande emaranhado de linhas.

Uma gigantesca estrada de fios multicoloridos se estendia até a vastidão do horizonte. Diversos caminhos e interseções variadas se estendiam dela como uma miríade de galhos.

Apesar de ser constituída de fios, a estrada era firme como rocha. Vez por outra ventos de gelar os ossos me assolavam das mais variadas direções, os ventos traziam consigo diversos sussurros aleatórios.

Arcanianos? O que você quer dizer com isso?

Um coração cheio de amor foi corrompido pelo rancor.

Pode me chamar de Decius Agripa… O que eu era já não importa mais…

O sacrifício deve voltar e no lago da deusa se banhar. 

Meu irmão? Eu tenho um irmão!? 

Duas metades devem se entender para que a deusa possa enfim se conter. 

Dentro da tapeçaria todos os caminhos são os corretos… 

A imagem a minha frente mais uma vez tremeluziu, rachaduras deslizavam por todas as partes criando uma gigantesca teia que por fim se despedaçou me jogando mais uma vez na escuridão.

Uma sensação de queda livre percorreu todo meu corpo, logo um brilho intenso foi se aproximando pouco a pouco e uma nova imagem foi aos poucos tomando foco.

Me vi em uma mesa cirúrgica rústica, cercado por médicos de aparência estranha, um chifre se destacava entre a touca de um deles, o outro tinha orelhas pontudas com a pele um pouco alaranjada, ambos eram incrivelmente ágeis.

O médico chifrudo vez por outra murmurava algumas palavras e alguns objetos flutuavam até a mão dele, enquanto outros itens trabalhavam sozinhos para estabilizar meu corpo.

Do lado, uma linda garota acompanhava todo o procedimento apreensiva. Ela tinha o cabelo lilás, que descia até sua cintura, os olhos dela eram violeta e sua pele alva. Além disso, ela possuía uma grande mecha roxa na franja que era separada ao meio por um pequeno chifre de ponta arredondada.

De repente, vi o cenário ao redor começar a se dissipar aos poucos, para em seguida formar um novo local.

Naquele momento me vi em um lugar totalmente diferente de tudo que já tinha visto. O céu noturno estava banhado por uma cor alaranjada e uma fina linha de fumaça subia por trás de uma pequena colina a minha frente.

Ao me aproximar do cume, pude ouvir vozes aterrorizadas e o crepitar das chamas. Eu conseguia ver claramente uma pequenina cidade em meio às chamas, uma aura nefasta rodeava um exército estranho em marcha. Os soldados em armaduras completas portavam lanças, espadas e escudos.

Também havia muitos gritos e lamentos misturados ao som da marcha ecoando pelas ruas. 

No alto de outra colina, um ser se destacava em meio àquele caos. Um calafrio percorreu toda minha espinha me fazendo paralisar diante daquela presença aterrorizante.

O sujeito estava cercado por uma fumaça negra que ocultava todo seu corpo. Órbitas vermelhas como fogo e um grande chifre escarlate se projetavam entre o elmo da armadura. Ele gritava ordens de caos e destruição aos seus soldados que atacavam todos sem se importar se eram civis ou combatentes.

Uma sensação de terror me invadiu quando percebi seu olhar fixo em mim. Ele cortou a distância entre nós em poucos instantes como se viajasse pelas próprias sombras, o demônio aproximou-se de mim, me esmagando com sua aura fétida e opressiva, as trevas a sua volta se condensam aos poucos dando lugar a uma armadura negra.

Em um instante, o ser me agarrou com sua manopla escura como obsidiana de bordas carmesins, e me levantou pelo pescoço com extrema facilidade. 

Eu me debatia na tentativa inútil de me desvencilhar, logo meu corpo inteiro ficou paralisado, o olhar gélido do demônio me analisava friamente como se observasse minha alma. Ele se aproximou mais e me fitou nos olhos. Aquelas órbitas eram como duas jóias escarlates de puro terror.

— Seradin, finalmente viestes! — A voz era metálica e abissal, tão afiada que parecia me cortar a cada palavra — Com tua chegada poderei selar o acordo com minha senhora. Já obtive o amor do luar, resta apenas a inocência do amante.

 Senti uma ligeira brisa no pescoço e logo tudo girou como se eu tivesse sido jogado no ar. Enquanto tudo girava vi o ser amaldiçoado segurando meu corpo decapitado.

Acordei em um sobressalto levando as mãos ao pescoço. Felizmente minha cabeça ainda estava lá.

Tudo ao meu redor girava. Quando me acalmei, percebi que parecia estar em um leito de hospital. A cama era grande e confortável, com lençóis brancos e fofinhos. Cortinas alvas formavam um dossel ao meu redor. 

Lembrei da minha última noite e me perguntei como cheguei ali.

Que sonhos foram aqueles? Será que aquela operação foi real?

Várias perguntas surgiam em minha mente, como “eu ainda estou vivo?” Apalpei meu corpo onde fui espancado.

Como minhas feridas já estão boas? E o que foram aquelas coisas que vi em meu sonho?

Decidi chamar pela enfermeira e acabar logo com minha angústia, ficar parado e quietinho sem perturbar ninguém era tentador… me isolar no meu próprio mundo de aflição mais uma vez. 

Só que dessa vez me deixei levar pelo impulso e chamei por ajuda. De repente minhas cortinas foram abruptamente abertas.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

15 Comentários

  1. Terceiro capítulo e já tem umas 5 histórias diferentes. Parece uma coxa de retalhos.

    Rezo aos deuses que tudo se encaixe, pq é complicado!

  2. Esse capítulo… uau!
    Quanta coisa importante!
    Mesmo curto, deu à história um rumo que eu certamente não esperava…

  3. Agora vamos ver se ele um dia vai conseguir voltar e se vingar dos dois que o incriminaram. Sinto só ódio deles.
    Obrigado pelo capítulo

  4. Okay… ele deve fazer parte de uma profecia ou acordo.
    Se ele está ali pra cumprir ou impedir ainda temos que descobrir.

  5. Esse capítulo tem umas coisas beeem misteriosas, tô curioso pra ver como isso vai se encaixar hehehe :3

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