LDL – Capítulo 5

Melodia da Meia-Noite

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

A Duquesa se aproximou constrangida. Pegando minha mão, falou.

— James, eu realmente sinto muito que teve de passar por tudo isso.

— Tudo bem, Vossa Alteza… De certa forma, eu estou acostumado com esse tipo de tratamento e pessoa. — As mãos da Duquesa eram quentes e macias, elas passavam uma ótima sensação de conforto.

— Bem, apesar de termos ceado há pouco, toda essa situação me deixou com fome. Você não quer me acompanhar até a cozinha? Meu chefe está preparando guloseimas maravilhosas. — Ela me deu um pequeno sorriso travesso. 

Acompanhei-a.

No caminho para a cozinha, ela me contou um pouco sobre o reino, falou também, sobre a linhagem real, histórias e lendas. Tudo aquilo me fascinava muito. Contei um pouco sobre meu mundo, uma vez que não fazia sentido ocultar que não pertencia a esse. Não revelando quase nada sobre minha vida, afinal, não desejava partilhar daquelas experiências ruins com minha anfitriã.

Logo um cheiro delicioso invadiu meu nariz e fez minha boca salivar. Ao entrarmos, na cozinha um homem baixinho e barrigudo estava sobre um banquinho girando uma colher de pau em um caldeirão mediano. Ele tinha cabelos negros e curtos com os contornos grisalhos, devia medir por volta de um metro e quarenta. Usava um avental manchado e o chapéu clássico de chef.

A cozinha era muito bem equipada, com várias bancadas. Era bastante espaçosa e organizada. Poderia suportar uma grande equipe de cozinheiros e auxiliares sem problema nenhum. Uma grande mesa de madeira se encontrava no centro. Elizabeth sentou-se em um banco próximo e aguardou.

— Minha senhora — Falou o chefe — O cisab está quase pronto. Aqui, prove um pouco. — Ele mergulhou uma grande concha no caldeirão e despejou um líquido espesso dentro de duas tigelas e levou-as até nós.

— Obrigada, Otu — A duquesa levou a colher cheia da substância arroxeada à boca e, em seguida, deu um gritinho de satisfação — Aaaah, como sempre você é um gênio na cozinha, meu caro.

— Obrigado, Vossa Majestade, me alegra profundamente saber que está de seu agrado. — Otu encheu mais uma grande tigela e a deixou à nossa disposição na mesa se retirando logo em seguida.

— Vamos, James, prove, prove! Você vai amar…!

Afundei a colher na gosma roxa. A aparência não era tão convidativa, mas o cheiro estava ótimo. Ao comer, pude sentir que possuía uma textura gelatinosa e o sabor era uma mistura de amora com uva. Era geleia, ou ao menos era algo muito parecido com geleia.

— Realmente é uma iguaria deliciosa — Falei. Ela me olhou e deu um sorriso de canto de boca, ressaltando suas bochechas cheias — Aqui parece ser um bom lugar, tranquilo e pacífico, apesar dos últimos acontecimentos. — Ressaltei.

— Sim, atualmente vivemos em harmonia. — Elizabeth falou com um pequeno sorriso, enquanto enchia mais uma colher de cisab. — Há algumas décadas, um cavaleiro corrompido chamado Lakhan quase destruiu nossos vizinhos. Ele agia sob as ordens de uma entidade das trevas decaída que um dia jurou retornar… — Explicou a duquesa rapidamente. — Nosso antigo rei juntou forças com outros reinos e conseguiu expulsar o mal, graças ao sacrifício de um grande herói… — Ela baixou os olhos tristes, mas logo disfarçou com um sorriso e continuou — Não entrarei muito nos detalhes, vamos terminar de comer, logo mostrarei seus aposentos.

No fim da tarde, como prometido, ela me mostrou o quarto que eu poderia usar, e cá entre nós, que quarto. As paredes eram todas decoradas com belas pinturas e a cama era enorme, com travesseiros fofinhos e lençóis de seda. Mas, apesar de todo luxo, me restou apenas um pequeno problema: eu não tinha nenhuma roupa além das que me foram dadas. Meus antigos sapatos estavam surrados pra caramba, a camiseta com as mangas rasgadas e o jeans sujo e rasgado em uma das pernas. Se não tivesse recebido roupas novas, eu estaria parecendo alguém que acabou de sair de uma guerra.

— Não se preocupe com isso, James, amanhã farei uma visita a cidade de Meridiam, e poderei apresentá-lo para minha amiga Charlotte, ela é uma grande estilista e tecelã, com certeza conseguirá fazer uma ótima roupa para você. — Falou Elizabeth como se pudesse ler minha mente — Do jeito que eu a conheço, é capaz dela criar uma linha inteira só para você hahahaha! 

Elizabeth era curiosa a respeito do meu mundo, pude ver em seus olhos um olhar que ansiava novos conhecimentos, mas ela não me pressionou nenhuma vez por respostas, me deixando bem à vontade. 

— Amanhã conversaremos melhor. Por enquanto, descanse. — A duquesa se despediu com um aceno e seguiu pelos intermináveis corredores de seu palácio.

Enfim, fiquei a sós com meus pensamentos. Caminhei um pouco pelo quarto, gravando os detalhes do mesmo em minha mente. As paredes vermelhas e seus rodapés eram brancos, com pequenas pinturas de ondas que me lembravam os filmes medievais que eu tanto via sozinho.

Também havia lamparinas nas paredes e um grande candelabro branco com contornos dourados preso no teto acima da grande cama. Os móveis eram todos talhados na madeira e bem acabados. Era como viajar no tempo e parar na era vitoriana.

Apenas algumas coisas pareciam estar fora de nexo naquele cenário atemporal: havia interruptores perto da porta do quarto e da sacada. Ao apertá-los, as lamparinas e o candelabro acenderam-se iluminando completamente o local.

Eletricidade? Não, não é possível! Tudo ao meu redor refletia uma época passada. Ao me aproximar das lamparinas, notei que pequenos globos dançantes projetavam a luz. Eram como vagalumes presos em um pote, só que bem mais potentes.

Depois da mini exploração em meu quarto, tentei dormir um pouco. Algo que se mostrou impossível. Minha cabeça estava a mil. O sono simplesmente não vinha. Senti minha ansiedade me atacando novamente, resolvi então, caminhar até a varanda e apreciar a vista na tentativa de me acalmar um pouco. Posso dizer que essa foi uma ótima ideia, a visão era sinceramente linda.

O quarto dava para os fundos do palácio, que era cercado por um belo jardim rodeado por cercas vivas e flores brancas banhadas pela luz do luar. Várias estátuas de mármore pareciam vivas em suas poses, elas rodeavam o jardim como se estivessem aproveitando um divertido piquenique. No centro, havia uma fonte circular grande o suficiente para se banhar nela, e, no meio, um grande chafariz com vários anéis que jorravam veios de água para o céu brilhante.

Ao longe, uma grande pradaria se estendia até uma densa floresta que, por sua vez, terminava na base de uma montanha distante.

Havia neve no topo das montanhas, uma cidade brilhava alegre ao seu sopé e o céu estava estrelado e limpo como nunca vira antes. Tudo era lindo e pacífico. E a noite dava um ar mais sereno a tudo. 

Como se estivessem sendo puxados por magnetismo, meus olhos correram pelo jardim até encontrá-la. Uma bela moça caminhava sozinha entre as flores e estátuas solitárias. Seus cabelos balançavam ao vento como se fossem um manto feito do próprio espaço, as estrelas dançavam e brilhavam em sua pele castanha. Usava um belo vestido negro, semi transparente como a noite. Ela caminhou até a fonte e se sentou na beirada.

Tocou a superfície da água com pesar. O vento frio da noite soprou trazendo consigo um canto doce e melancólico.

Cavaleiro dourado… tu és meu amado. 

Promessa eterna que acabou em desastre 

Criatura sombria. que arrancou minha vida.

Agora vivo sem luz…

Aquela melodia me hipnotizava e entorpecia, trazendo sentimentos de conforto e tristeza. Logo a bela dama estava envolta em uma aura azul escura. Seus olhos estavam fechados como para concentrar-se. Seus lindos cabelos mexiam como se estivessem submersos na água. Subitamente, ela alçou voo aos céus. 

As pessoas podem voar aqui?!—Pensei surpreso.

Mas eu estava tão encantado com a elegância em que ela se movia nos céus que a ideia de como aquilo me parecia anormal foi apagada da minha mente. Seus movimentos eram como uma dança, oscilando e balançando na noite como se a lua e as estrelas cantassem uma balada só para aquele momento. 

Seu sorriso e expressão de liberdade como se nada a pudesse tocar me fez sentir uma melancolia romântica vista apenas nos mais belos contos de gênios da poesia.

 Eu estava tão encantado com sua dança aérea que só percebi que ela já havia me visto e vinha em minha direção quando já estava bem perto.

Mal me dei conta da cara de pateta que devia estar fazendo quando ela flutuou até a beira da varanda ficando pertinho de mim, levou sua mão ao meu queixo fechando-o e dando uma risadinha.

— Gostou do espetáculo? — Ela pousou suavemente ao meu lado e me fitou. Apesar de toda a beleza que carregava, eu podia perceber que havia tristeza em seus olhos. — Me chamo Lunafreya, sei que as coisas podem ser estranhas para você agora, mas logo logo vai se acostumar, não se preocupe.

— Linda — Estava tão hipnotizado por sua beleza, que nem percebi que estava pensando alto, quando me dei conta, fiquei vermelho feito um pimentão.

Ela corou, pega de surpresa e logo deu um sorrisinho.

Cara, eu estava muito envergonhado, fiquei com vontade de me jogar da torre, naquele momento. Não sabia para onde olhar, nunca fui bom com garotas. Bem, na verdade, nunca fui bom com ninguém, o contato humano era algo muito difícil pra mim. E o fato dela não parar de me olhar nos olhos não ajudava, eu tava travadão!

— Bem, não são muitos os que sabem apreciar os encantos da noite. — Ela respondeu com um sorriso caloroso — Se quiser, posso lhe falar das maravilhosas noites no Vale do Luar.

— Seria maravilhoso. — falei.

—Você tem um belo sorriso, James, deveria sorrir mais vezes — Ela falou com ternura.

Mais uma vez, fui pego desprevenido, me fazendo corar.

— A vida nunca me proporcionou nada para que eu pudesse sorrir senhorita Lunafreya, desde sempre fui motivo de brigas, decepção e vergonha. Todos que se aproximavam de mim queriam algo, geralmente algo de meus pais, nunca tive nada verdadeiro. — Minha voz já não estava mais angustiada pelas lembranças que aquelas palavras me traziam.

— Eu sei como é se sentir assim, James, a escuridão já tomou conta de mim uma vez, não me orgulho das decisões que tomei e, por mais que minha irmã tente me reconfortar de sua maneira, ainda não posso…— seus grandes olhos dourados me fitavam cheios de melancolia, mas aquele olhar não era para mim, ele estava perdido em lembranças distantes de um passado longínquo. Lunafreya também já deve ter sofrido tanto quanto eu. Conhecia muito bem esse olhar. Um olhar de culpa e impotência, de alguém que já luta consigo mesmo por muito tempo.

— Ah, você pode me chamar de Luna. — disse com um sorriso caloroso.

Erh, tudo bem — Corei um pouco. Meu coração palpitava num ritmo acelerado. 

— Aliás, bela canção — falei —. Eu realmente fiquei emocionado.

— Você conseguiu me ouvir? — ela enrubesceu levemente — Nossa… obrigada. E-eu não cantava há décadas, mas, por alguma razão hoje eu senti que poderia fazer isso. — notei um leve puxãozinho em meu dedo mindinho direito, como se estivesse sendo puxado por um barbante amarrado nele, mas ao olhar não havia nada.

Décadas? Ela não parecia ter nem vinte direito. Não quis cortar o ritmo da conversa perguntando sobre a idade dela, sem falar que pegaria muito mal. Resolvi guardar as perguntas para Elizabeth.

—Bem, parece que dei sorte então. Logo no meu primeiro dia fui agraciado por uma ótima companhia e uma bela música. 

Passamos a noite inteira conversando e rindo, foi uma das mais divertidas da minha vida. E, pela primeira vez, eu tive uma noite verdadeiramente feliz. Depois do que aconteceu com Jéssica, nunca pensei que poderia me conectar novamente a alguém dessa forma.

Recordo daquela noite por várias razões, mas a mais importante delas foi que, naquele momento mágico, eu finalmente me encontrei. Não existia mais nada para mim em meu antigo mundo. Queria fazer uma nova vida, eu iria conhecer todos os lugares, aprender tudo e conhecer a todos no Vale do Luar. Esse desejo se tornou meu sonho.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

30 Comentários

    1. Dela eu n desconfio mt, minha real preocupação e essa Elizabeth, por mais curiosa e fofa q pareça.. e bondade d+ ajudar um estranho q vc nem sabe se vai te dar as informações q vc quer ou q nem vai contar tudo q sabe

  1. Tá felizinho tá james, espera só, cê vai vê da ultima vez que tu ficou feliz só levou 10 parágrafos pra vc cair da sacada.

  2. O puxãozinho do fio vermelho do mindinho direito já entregou boa parte da obra
    (ou vai ver acontece uma reviravolta imensa e o fio é cortado)

  3. Não sei pq mas pensei nessa música com o ritmo daquela do enrolados a ” trás de volta oq era meu “

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