LDL – Capítulo 6

Um novo dia

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Antes que percebêssemos, os primeiros raios da aurora já banhavam a varanda. A noite passou bem rápido, não pra menos, afinal, eu estava em ótima companhia. Quando Luna se deu conta que já era manhã, levantou-se rapidamente da almofada, se esticou e bocejou um pouco.

Só agora eu percebi que, assim como a irmã, ela também possuía um chifre. Fiquei louco pra perguntar o porquê de algumas pessoas os possuírem e outras não, mas não tive coragem, talvez fosse falta de educação perguntar, sobre os chifres das pessoas, afinal, não conhecia nada daquele mundo ainda.

— Foi uma ótima noite, James. Obrigada por me fazer companhia, espero que possamos repetir o momento mais vezes — Ela se espreguiçou e bocejou novamente — Vou descansar um pouco, sugiro que faça o mesmo, afinal, você terá um longo dia pela frente.

Ela deu uma risadinha e logo levantou voo rapidamente alcançando a varanda de uma torre ao Oeste, de onde acenou e fechou as cortinas. Tentei fazer o mesmo. Devo ter dormido pouco mais que trinta minutos antes de alguém bater à minha porta. 

— Sir James, por favor, levante-se. Sua alteza Elizabeth o aguarda para o desjejum. — Era uma voz masculina, provavelmente um dos mordomos do palácio.

Ao atender a porta, o sujeito levou um susto com meu estado, olheiras profundas, cabelo bagunçado, e mais cansado do que nunca. Posso dizer com toda a certeza do mundo que um cochilinho de meia hora te derruba mais do que uma virada de noite. 

— Bom dia senhor, me chamo Kírkart— continuou —. Devo levá-lo a Vossa Alteza Elizabeth, mas antes devemos dar um jeito nessa sua atual condição.

Kírkart era um sujeito alto e magrelo, tinha pouco cabelo no topo da cabeça e usava um bigodão estilo francês. Seu rosto era fino, de queixo alongado, com orelhas pontudas puxadas para trás, olhos negros e meio baixos, ele se vestia de modo elegante como um pinguim.

Kírkart bateu as mãos e logo meia dúzia de serviçais trouxeram uma grande banheira e algumas roupas, tiraram minhas roupas tão rápido que mal tive tempo de reclamar, antes que pudesse perceber, estava apenas com a samba canção. 

Dizer que foi apenas constrangedor não definia aquela situação de maneira nenhuma. Enquanto pra mim aquilo era extremamente vergonhoso e estranho, para aquelas pessoas parecia ser completamente normal.

Notei que ninguém ali tinha chifres. Na verdade, todos eram bastante normais, com exceção de um ou outro que tinham as orelhas iguais as de Kírkart. E ninguém me olhava diferente. 

Depois de ser torturado por esfregões, sai da banheira e peguei as mudas de roupas que me trouxeram.

— Obrigado, erh… pelos cuidados — Falei meio sem jeito — Mas eu garanto que posso me trocar sozinho.

— Como o senhor desejar — Disse Kírkart, ele deu uma mexidinha no nariz, fazendo seu bigode dançar, e tirou os criados do quarto, me dando um pouco de privacidade.

Procurei ter certeza de que todos saíram antes de me vestir. Me foram deixados uma camisa de linho muito confortável, calções bem trabalhados, com cordões costurados em seu forro e, por último, um gibão, era como um casaco grande, forrado por dentro com botões de madeira na ponta das mangas e no peito. Quando terminei de pôr tudo, me senti um pouco bobo, aquilo não fazia nem um pouco meu estilo, mas era melhor do que andar pelado por aí. Sem falar que os criados levaram minhas roupas rasgadas, então não tinha outra escolha.

Ao abrir a porta, Kírkart já estava à minha espera. Ele me conduziu pelos corredores, estes os quais eu me comprometi a observar melhor. As paredes estavam cheias de vitrais com uma infinidade de imagens, estas que deveriam contar muitas histórias.

Em uma delas, um homem vestindo uma armadura dourada e empunhando uma espada flamejante encurralava triunfante uma serpente negra gigantesca, em um penhasco com árvores mortas e retorcidas. A fera parecia sibilar de terror diante do destino cruel que a aguardava.

Outra mostrava três homens bem aparentados cumprimentando-se. Um deles tinha um chifre e vestia uma túnica bem elegante, com bordados dourados. Ele carregava um brasão de sol ardente em sua roupa. O outro era mais robusto e alto que os demais, vestia uma armadura prateada com contornos carmesim, carregava uma grande espada na cintura e um escudo nas costas. O último parecia o mais simples de todos, carregava um arco e flecha nas costas e algumas bugigangas presas aos cintos que se estendiam na vertical do seu peito até a cintura.

Deduzi que devia se tratar de algum pacto entre povos.

Passamos por uma grande câmara, que aparentava ser o salão de festas. Havia uma grande mesa na horizontal em uma parte mais elevada. Kírkart me explicou que essa era a mesa principal onde ficava a realeza e os convidados mais distintos, ele me contou uma curiosidade sobre aquela mesa, em cada cadeira havia um entalhe com o brasão de cada grande família nobre.

No meio, quatro grandes mesas na vertical se estendiam de uma ponta a outra do salão. As paredes continham grandes pinturas e estandartes variados. Atrás da grande mesa reservada aos nobres, um estandarte com duas imponentes cabras se enfrentando ocupava uma grande parcela da parede, dançando com a brisa que corria pelo grande salão.

Kírkart continuou a me conduzir até chegarmos em uma sala mais comum com uma pequena mesa quadrada, Elizabeth estava sentada desfrutando um chá e observando a paisagem da janela próxima.

Ele deu uma leve tossida para anunciar minha presença.

— Sir James está aqui, Vossa Alteza — falou formalmente.

— Obrigada, Kírkart, você pode esperar na outra sala, por favor. Caso precise de algo, te chamarei — disse com ternura.

Uma das empregadas puxou a cadeira para que eu me sentasse.

— Por favor, pode deixar que eu me viro — falei completamente sem jeito, a pobre garota se afastou, preocupada que tivesse levado um sermão.

— Me perdoe, meu senhor — falou enquanto se afastava.

— Não, não, por favor erh… Bem, eu gosto de fazer as minhas próprias coisas, não se preocupe. Você não fez nada errado, me desculpe — disse todo atrapalhado. Elizabeth ria da minha infeliz situação e a jovem empregada ficava cada vez mais envergonhada e sem jeito. Quanto mais eu tentava explicar, pior ficava, até que desisti e sentei logo na cadeira encarando de cara feia a duquesa que já gargalhava com minha trapalhada.

— Me perdoe hehe, uffa! — A duquesa suspirou enquanto enxugava as lágrimas — Fazia muito tempo que não ria tanto, obrigada.

A mesa estava coberta com uma toalha branca macia. No centro, havia um pequeno e fino jarro com algumas flores. Ao redor, pequenos arranjos com doces, pães e torradas. Outra serva, também bem jovem e bonita, me trouxe uma xícara com um líquido preto, o aroma me parecia familiar e ao provar um pouco notei que se tratava de café, ou algo muito semelhante.

— Pode se servir, meu querido. — Elizabeth me deu uma torrada com geleia e começou a comer outra enquanto falava comigo — Eu analisei o espelho e aparentemente não há nada de errado com ele. Mas por alguma razão você foi rejeitado.

— Erh, bem, Duquesa. Se não for causar problemas, eu gostaria de ficar nesse mundo. — falei baixinho — Eu não tenho nada a ganhar voltando ao meu, minha família não me quer, não tenho amigos, não tenho quem se importe comigo — Uma grande determinação crescia dentro de mim, Elizabeth me encarava surpresa voltando toda sua atenção a minhas palavras — Não peço que me deixe no conforto do palácio, não quero ser um peso para você, que já fez tanto por mim, peço apenas que me permita viver nesse mundo. — Falei com convicção — Quero conhecê-lo, descobrir sua história e viver entre vocês e acima de tudo quero ter mais conversas com a Luna. — Disse um pouco envergonhado.

Elizabeth me analisou séria por um tempo e abriu um grande sorriso logo em seguida.

— Ótimo, isso facilita ainda mais as coisas.

— Sério? — Não esperava que ela aceitasse tão facilmente, afinal, sou um forasteiro em suas terras, alguém desconhecido do qual não se sabe as intenções.

— Sim, veja, meu querido, eu ia justamente lhe oferecer estadia, uma vez que o seu retorno é algo impossível no momento. Saber que não tem nada que lhe prenda ao outro mundo facilita bastante as coisas, não acha? — Ela tomou um pouco de café e mordiscou a torrada com geleia. 

— Mas assim tão fácil? Não me entenda mal, aprecio muito a sua benevolência, Vossa Alteza, mas eu sou um forasteiro, um estranho, por que me aceitar tão facilmente? — Poderia parecer contraditório, mas aquilo não fazia sentido para mim e a vida me ensinou que nada vem fácil.

— James, sinceramente? Eu não faria isso por qualquer um. — ela levou os cotovelos à mesa e entrelaçou os dedos em frente ao rosto em uma posição de reflexão — Serei direta com você. No momento que eu lhe encontrei ferido e quase morto, algo dentro de mim gritava, me dizendo que eu deveria te ajudar. Sempre confiei em meus instintos e posso dizer com convicção que sua chegada deve ter um significado. E, além do mais, você está tendo uma segunda chance para viver, não deixe que detalhes fúteis tirem isso de você. Ah! Por favor querido, me chame apenas de Elizabeth, ou Liz, odeio formalidades.

Enrubesci e desviei meu olhar para a mesa. Como eu poderia ser tão idiota e rude com uma pessoa como ela? Não podia trazer comigo aquele âmago negro e desconfiado que tomou conta de mim por tanto tempo. Precisava mudar. 

— Luna?! — Falou, por fim, logo depois fazendo uma cara travessa — hum, então você teve uma “conversa” com a princesa Lunafreya hein? hehehe.

Só agora percebi a besteira que fiz. Um cara como eu chamando a princesa de maneira tão íntima dá realmente algo para se pensar.

— Bem, por essa eu não esperava, devo admitir — continuou — Em relação a estadia, quero que fique em meu palácio, onde eu possa ficar de olho em você — Com os cotovelos na mesa e segurando o queixo com as mãos, Elizabeth fez uma carinha travessa e completou — E pelo visto a princesa “Luna” também ficará, hehehe. 

Fiquei bem constrangido com seja lá que malícias ela pensou na hora, não conseguia mais olhar pra ela de tanta vergonha.

—Vamos lá, é hora de você me falar um pouco sobre o seu antigo mundo — Disse Liz enquanto voltava sua atenção para as torradas.

— Humm… você fala sobre como era a vida e as pessoas?

— Sim!! — Seu lado entusiasmado se mostrou novamente — Como vocês vivem? Quantos reinos tem em seu mundo? Quais raças? Como funciona a realeza lá? Como vocês interagem com o Tear?

—Ei!— Tive de interrompê-la, a garota era bem incisiva quando queria — Calma, vamos por partes. Vou te contar tudo que sei, está bem ?

Tomei um pouco do café e dei uma mordida nas torradas, que inclusive estavam ótimas.

— Primeiro, as pessoas não usam mais tear no meu mundo, na verdade poucas usam, existem máquinas e linhas de produção que substituíram a maior parte do trabalho manual.

— Hum. Isso é um pouco triste. O Tear é algo que nos une com a natureza de uma maneira única — Liz parecia um pouco decepcionada. 

Bem, inicialmente não entendi como um tear poderia unir a pessoa com a natureza, mas, para não perder o fio da meada, continuei.

— Segundo, não existem reinos, nem tribos nem nada do tipo, existem nações com formas de governo distintas, meu país é uma república, onde o povo elege seus representantes. Existem vários modelos de políticas mas se eu for falar de todos vamos ficar aqui por muito tempo.

A duquesa me fitava atentamente enquanto tomava seu café, era até um pouco cômico de se ver.

— A vida pode ser bem dura para muitos e extremamente cruel para outros. Uma pequena parcela de fato vive, o restante apenas tenta sobreviver da melhor maneira possível. E é nessa parte que tudo dá errado, o homem é capaz das maiores perversidades pela sua sobrevivência ou por sua ganância. — Falei cabisbaixo e irritado, pois sabia em primeira mão como as pessoas podem ser podres e capazes de fazer qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

— Aqui também existe o mal, James — Elizabeth parecia distante enquanto mexia a pequena colher dentro do líquido negro da xícara — Esse mundo já sofreu muito com a guerra, com preconceito e com a ganância. Foi preciso um mal maior surgir para que todos deixassem suas diferenças de lado e unissem forças. E mesmo após esse mal sucumbir, muitas pessoas continuaram com seu legado por um longo tempo. 

Elizabeth parecia perdida em pensamentos, memórias enterradas em sua mente puxavam sua atenção como âncoras.

—Vamos lá, temos um grande dia pela frente! — Falou com um entusiasmo repentino, quebrando aquele momento tenso — Eu prometi que lhe levaria para conhecer Charlotte, a melhor estilista que conheço e minha grande amiga.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

13 Comentários

  1. “Bem, inicialmente não entendi como um tear poderia unir a pessoa com a natureza, mas para não perder o fio da meada, continuei.”
    Ah, não! Você não fez essa piada!

  2. Agora houve a menção explícita (e bem direta) a um Mal Maior.
    E será pela mudança de roupas que o novo destino do nosso James será tecido?
    Sim, também faço piadas previsíveis.

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