LdL – Capítulo 9

Conflito

[Autor: JS Dantas] [Revisor/Editor: Mini/Lyn]

Novamente me vi fora de meu corpo. A imagem de Liz segurando minha cabeça com as mãos envoltas por uma luz dourada surgiu em frente aos meus olhos.

Eu me debatia um pouco e minhas mãos e olhos brilhavam em dourado e negro, como se cada uma das minhas metades fossem dominadas por essas cores.

Logo em seguida, tudo ao meu redor escureceu de repente, como se um manto de escuridão houvesse se lançado sobre mim. Mas eu não sentia o medo e o desespero que costumava sentir, dessa vez eu sentia apenas um alívio no peito.

Uma sensação de conforto me banhava, logo pude sentir uma pequena mão acariciando meus cabelos. Sentia o frescor do vento e a gostosa sensação da grama acariciando meus braços, uma confortável paz preenchia meu coração.

— Querido, sei que você está acordado — disse uma doce voz em meu ouvido. Podia sentir seus cabelos sedosos tocarem meu rosto e seu delicioso perfume de lavanda — Um grande guerreiro deixando a guarda baixa assim… poderia facilmente ser atacado — falou baixinho.

E o ataque veio. Ela me deu um longo beijo e depois um pequeno, como uma doce assinatura. Abri os olhos e me encontrei com os dela. Lindos olhos amarelos como duas grandes jóias. Sua pele castanha era sedosa e gostosa de tocar, seus cabelos negros eram como um manto da própria noite e seu sorriso era como o brilho alegre e gentil do luar.

— Meu luar — respondi baixinho, meus lábios pareciam se mexer sozinhos e formar as palavras por conta própria — Logo poderemos passar o resto de nossos dias assim, juntos, vivendo a vida que quisermos onde desejarmos.

A garota sorriu calorosamente, seus olhos brilhavam de alegria. Deu-me mais um leve beijo e levantou a cabeça para observar a vista. Estávamos sobre a sombra de uma árvore solitária no topo de uma colina, ao nosso redor uma planície florida se estendia até um rio próximo. Uma garotinha cortava o campo correndo em nossa direção.

Ela chegou ofegante até nós, e fez uma carinha de birra.

— Você prometeu que me ensinaria a cavalgar e lutar com espadas hoje! — bateu o pé no chão irritada. A doce moça riu alegremente. A garotinha tinha cabelo lilás ondulado, com pequenas mechas azuis escura. Seus olhos eram como duas grandes safiras brilhantes, seu rostinho fino e bochechas rosadas davam-lhe um tom fofo.

Me levantei do colo da linda moça e fui correndo abraçar e apertar as bochechas da pequena.

— Me desculpe, meu amor. Como eu pude esquecer do pedido da minha pequena e zangada tulipa? — eu a apertava e abraçava, enquanto ela se debatia e gargalhava.

O olhar da doce donzela estava fixo no rio. Logo ela fitou o chão com tristeza e disse.

— Parece que nossa paz será interrompida mais uma vez, meu amor — Ela estava claramente angustiada.

Uma comitiva de cavaleiros se aproximava, pisoteando as flores em seu caminho e destruindo nosso pequeno jardim secreto.

Liderando, estava um homem que aparentava estar na casa dos cinquenta, trajava uma armadura dourada com uma bela capa vermelha de veludo. A seu lado, uma bela jovem de olhos lilás, com uma feição severa, pele alva e cabelos sedosos que lembravam as cores dos primeiros raios da aurora. Os cavaleiros restantes usavam armaduras bem adornadas e elmos que escondiam seus rostos.

Já estava tão profundamente imerso no momento que não percebi a mudança na visão. Dessa vez eu voltei a ser eu mesmo. Estava em pé atrás de um jovem na casa dos vinte anos, com longos cabelos dourados enrolados em uma trança que chegava até seus ombros. Ele vestia roupas simples de algodão e botas de couro, suas costas eram largas e exalavam uma confiança inabalável. 

— Eu voltarei logo — disse o rapaz a doce dama — E você, minha pequena tulipa, obedeça a sua irmãzona, viu? —A garotinha assentiu e correu, atravessando meu fantasma indo em direção ao colo da linda jovem se enroscando e seus braços.

O jovem rapaz caminhou em direção à comitiva, logo a paisagem foi ficando cada vez mais clara, até que a luz começou a me cegar. Quando a claridade foi voltando ao normal eu estava em um lugar que lembrava a sala de estar da casa de meus pais. Mas mais da metade da sala estava tomada por um manto de trevas que se contorcia como uma ameba, o pequeno espaço restante era completamente branco.

— É, garoto, não importa onde esteja, você sempre será um estorvo… — sussurrou uma voz masculina, fria e estranhamente familiar do lado escuro da sala. Cada palavra fazia minha tensão aumentar como se eu estivesse preste a ter um ataque de pânico — uma grande e desagradável pedra no sapato.

— A única pedra no sapato aqui é você, sempre tentando sabotar tudo! — contestou uma segunda voz, mais suave e feminina vinda do lado luminoso da sala. — James, aproveite as novas oportunidades que o destino lhe propôs, lembre-se de seu novo objetivo, ou já desistiu da nova oportunidade que lhe foi dada?

—N-não… Eu não desisti — falei baixinho. Aos poucos a tensão que me consumia foi acabando e pude finalmente tomar algumas ações — Quem são vocês? E por que eu sinto que os conheço?

— Eu sou o impulso que te leva a fazer o mal, o caminho mais fácil, a insanidade e a loucura… — a escuridão falou. O tom em sua voz foi aumentando a cada palavra e, do breu, um par de olhos carmesins se formou e veio em minha direção — Sou as trevas que consomem a felicidade e a compaixão. Sou aquele que lhe leva a fazer os mais diversos atos de impiedade ao seu próximo sem nem pestanejar. EU SOU AQUELE QUE TRAZ A INSANIDADE AO HOMEM! — disse em um tom louco e ensurdecedor.

Como se fosse parte da própria escuridão, um grande lobo negro surgiu. Seus olhos eram vermelhos como fogo, sua mandíbula era enorme, seus caninos eram brancos como marfim. O desespero tomou conta de mim, minhas pernas tremiam e eu não podia me mover. 

A criatura pulou em minha direção e, com o susto, acabei caindo de costas no lado claro da sala.

Esse é meu fim — pensei, mas, antes que seus dentes afiados pudessem me empalar, o lobo bateu o focinho em uma espécie de parede invisível, fazendo-o recuar desorientado.

— Não se preocupe, ele não pode passar — disse uma voz suave às minhas costas. Ao olhar em sua direção, pude ver dois lindos olhos azuis materializando-se em meio à luz do lado branco da sala. Aos poucos, ela foi tomando a forma de uma loba — Tu não és fraco nem covarde, mas sim forte. Um rapaz que está tendo a chance de redescobrir a vida.

A loba era completamente branca com olhos azuis claros. Sentou-se ao meu lado e me observou. Sua luz inundava o local, clareando e revelando melhor o grande lobo negro que estava a poucos metros de mim. Devia medir mais de três metros, sua pelagem era arrepiada e suas garras pontiagudas como lanças. Ele me fitava andando de um lado para o outro, como um predador que espera por sua presa.

Me afastei da loba branca até o canto da sala onde podia ver ambos. Ela era serena e ele impaciente.

— Sou aquela que deseja lhe guiar — sua boca não mexia, mas suas palavras chegavam a mim, assim como as do lobo negro — Você não precisa me temer, jovem mestre.

— Quem são vocês afinal? Ou melhor o que diabos é tudo isso? Por que eu sempre passo por essas coisas? Que droga! Me deixem em paz! — Minha angústia crescia e as lágrimas do medo e da incerteza escorriam por minhas bochechas.

— Patético — disse o lobo negro — deveria ter jogado aquele idiota da varanda quando teve a chance, mas não, quis bancar a droga do herói.

— Quando tive a chance? — com um estalo, todas as peças começaram a se encaixar em minha mente, como um imenso quebra cabeças — As vozes em minha cabeça… os sussurros bons e ruins que latejavam constantemente… eles… eram vocês… mas como? — de repente tudo parecia fazer sentido.

— Meu querido, todos os humanos têm um lado bom e um ruim — A loba se aproximou levando sua cabeça ao meu colo. Seus grandes olhos azuis me encaravam pedindo por um cafuné — Mas você em especial tem algo a mais, você carregou um forte estigma sozinho. Mesmo sofrendo não se deixou levar a enganar ou machucar os outros, mesmo que isso lhe beneficiasse. Você é especial, James, lembre-se disso.

— Há! Como sempre, você o ilude. Você é patético, garoto, nunca vai conquistar nada.

— Não! — me ergui irritado — Você não irá mais me menosprezar, não permitirei! — A luz no lugar foi crescendo engolindo um pouco mais a escuridão — Não voltarei a ser o fraco de antes, não serei manipulado e abusado nem por você, nem por ninguém!

O grande lobo recuou para a escuridão observando-me de cima.

— Muito bem. Veremos do que você será capaz, garoto. Tentei ser piedoso acabando rapidamente com essa sua vida patética, mas pelo visto você adora fazer aqueles próximos a você sofrerem.

O lobo apontou com o focinho para um espelho e nele pude ver Liz. Sua aparência estava péssima. Seus olhos estavam baixos e sua respiração pesada, parecia estar muito fatigada.

A carruagem chegou a toda no palácio, Lunafreya e uma equipe médica nos esperavam nas escadarias, rapidamente me puseram em uma maca e me levaram para o quarto.

Liz não saiu de meu lado nem por um segundo.

— Vossa Alteza, por favor você precisa descansar — disse Kírkart, o mordomo com roupa de pinguim, com aparente preocupação por sua mestra.

— Não me atrapalhe agora, Kírkart, se eu me distrair por um minuto ele pode perecer e levar todos aqui junto.

A energia em meu corpo oscilava entre dourado e um roxo escuro, e a todo momento parecia querer se libertar. Liz lutava para manter a energia controlada. Suas mãos tremiam levemente e seu rosto estava muito suado. Sua expressão era de extrema tensão.

— Preparem o salão na torre norte, tragam minha equipe de cirurgiões mágicos e todas as minhas reservas de magículas. Luna, precisarei da sua ajuda aqui.

— Nem precisava pedir querida. — Luna amarrou seu cabelo em um rabo de cavalo e correu junto com a equipe médica para a câmara da torre.

O grande salão foi transformado rapidamente em um laboratório mágico. Várias máquinas um tanto rudimentares estavam em minha volta tirando medidas e status da minha condição, vários médicos e enfermeiras corriam de um lado para o outro.

Elizabeth já estava além de seu limite físico quando Luna tomou seu lugar. Diferente de Liz, a energia emitida por Lunafreya era mais serena e reconfortante. Por alguns instantes, senti meu corpo ficar leve, a imagem no espelho sumiu e o cenário ao meu redor mudou.

A sala dividida em preto e branco deu lugar a uma grande colina verdejante com um grande cedro no topo. Um imenso véu de estrelas cintilavam nos céus com a lua tomando seu lugar junto a elas.

Os lobos pareciam tão surpresos quanto eu, tanto que o lobo gigante nem percebeu a nova oportunidade que tinha de me devorar.

— Interessante… — sussurrou o lobo negro.

Ao sopé da colina, um grande espelho d’água refletia o céu noturno de tal maneira que era quase impossível deduzir qual dos dois era um reflexo.

O lobo negro sussurrou algumas palavras em direção ao lago e uma nova imagem se formou, revelando o que se passava na sala. 

Dessa vez, apenas Liz e Luna se concentravam no meu tratamento. Minha condição parecia estar mais estável. A princesa ainda cuidava de mim, enquanto Elizabeth lia alguns papéis e riscava gravuras ao redor da cama.

As portas do salão abriram subitamente com um estrondo, revelando Aurora que adentrou observando todo o acontecimento com um olhar que alternava entre frio, ao observar minha situação, e angústia, ao ver a irmã a beira da exaustão.

— As leituras de magículas vindas dele são insanas, afinal o que aconteceu, Liz? — Disse Lunafreya enquanto olhava uma tela de um aparelho estranho.

— Fomos atacados por espectros umbrais — respondeu a duquesa enquanto rabiscava gravuras estranhas no chão — Por algum motivo, eles forçaram uma conexão prematura entre James e o Tear. A reserva de energia dele não está suportando essa carga.

— Se isso continuar, ele não irá resistir por muito tempo — falou Luna um pouco ofegante, seu rosto suado e abatido deixava claro o esforço que vinha fazendo.

 — Então devemos amenizar sua absorção — respondeu Liz sem perder o foco de sua tarefa atual — Precisamos de um meio de transferir esse excesso de energia para outra pessoa e posteriormente a um objeto, mas como?

Lunafreya e Elizabeth se entreolharam, ambas sabiam a resposta para aquela pergunta.

— Elizabeth prepare as runas eu irei fazer o pact…

— NÃO! — Vociferou Aurora amedrontando toda a equipe no quarto, com exceção de Liz e Luna — Isso está fora de questão, não permitirei que cometa tal loucura novamente. Quase lhe perdi uma vez e não será dessa vez q…

— Você quase me perdeu? Você já me perdeu há muito tempo, irmã! — Seus olhos dourados ficaram mais intensos e raivosos — Não preciso discutir ou justificar nada, aquela garotinha dependente não existe mais, eu tomo minhas decisões e não será você quem irá me impedir.

— Você se importa tanto com essa coisa — disse apontando para meu corpo — ao ponto de tamanha insolência contra mim? Pois bem, o último empecilho não caiu diante de minha espada, mas esse cairá.

O chifre de Aurora brilhou momentaneamente, seu corpo ficou envolto em uma grande energia alaranjada e uma bela espada materializou-se em sua mão. Uma aura lilás escura e ameaçadora se expandiu do corpo de Luna como uma ameba cobrindo todo o cômodo. Ela tirou as mãos da minha cabeça e tomou posição, ficando entre mim e a rainha.

Uma grande foice com o cabo cristalizado em um azul escuro e uma lâmina prateada se formou em suas mãos. E, antes que qualquer uma pudesse fazer qualquer coisa, a energia roxa em meu corpo perdeu o controle, ficando cada vez mais forte. 

O lugar onde estava de súbito mudou. O céu noturno na colina serena foi tomado por um vórtice negro e, em seu centro, um par de olhos roxos escuros fitava a mim e aos lobos que recuaram para minhas pernas.

O que diabos está acontecendo? — perguntei. Os lobos que acompanhavam os acontecimentos pelo espelho d’água pareciam tão confusos quanto eu, e, antes que pudessem dar uma explicação plausível, ambos caíram desacordados.

A energia roxa que emanava do meu corpo foi tomando forma aos poucos, dando lugar a um lobo negro que agora parecia medir cerca de cinco metros. Suas presas e garras tomaram proporções indescritíveis, a criatura parecia ter sido tomada pela mais pura ferocidade.

No espelho d’água, pude ver a criatura arrancar em direção a Aurora arregalando sua bocarra. A rainha, por sua vez, tomou postura analisando o alvo com um foco inabalável, nem mesmo aquela floresta de lanças marfim materializada a sua frente a fez se abalar. Ela achou uma pequena brecha por onde poderia ferir mortalmente a fera e preparou-se.

Antes que qualquer um pudesse fazer algo, o ataque do grande lobo foi interrompido por uma loba branca que se materializou ao lado do lobo negro, mordendo a jugular da fera.

Os dois lobos atracaram-se pelo salão batendo em paredes e destruindo vitrais. Uma linha de energia negra e dourada saia do meu corpo percorrendo o salão até a ponta dos rabos das feras. Ao ver aquilo Aurora partiu em minha direção com a espada reduzindo a distância em um instante.

Antes de sua lâmina me alcançar, ela foi detida pela foice de Luna. Um som metálico estrondoso percorreu o salão.

— Saia da minha frente, irmã, a solução para o problema está bem óbvia, você não vê? — Disse a rainha tentando forçar passagem pela a irmã que a detinha com imensa determinação.

— Não deixarei você conduzir as coisas de novo, Aurora, não mais! — vociferou a princesa.

A colina começou a escurecer, a luz das estrelas foi se apagando aos poucos e os lobos adormecidos foram sumindo. Uma última olhada no espelho d’água me mostrou Elizabeth segurando minha mão direita envolta por uma poderosa aura, os desenhos em volta da cama brilhavam de maneira intensa.

JS Dantas
Entusiasta de RPG, mestre sem coração, escritor nas horas vagas, compromissado com seus deveres e amante da boa leitura.

15 Comentários

  1. UAU! Isso foi intensidade!
    Ligação com o Tear, os lobos das capas, mais lobos, Aurora vs Lunafreya, invocações de armas, “floresta de lanças marfim”!

  2. https://uploads.disquscdn.com/images/816d61cc12488a355707e8aff64c857bbd1f27cd7993421376375558befd9e5a.jpg e papo, o que eu entendi foi ou em algum momento ele foi o Seradin q dps morreu e virou o James ou nunca foi o Serafim e só tava vendo a perspectiva dele, no final das contas a mulher que tava com ele talvez fosse a Aurora e a garotinha era a Luna, e novamente, não que eu queira q o James morra… mais seja lá o q esse pacto faça, tá mais do que óbvio q elas tão indo longem d+ por uma pessoa que elas conheceram a uns 2 dias e não sei se eu já disse isso mais eu tô com uma leve impressão que o James era o cavaleiro negro q mato o Seradin kk, sei q ñ faz sentido pois isso ñ bate com nd que os flashbacks mostram mais sla mano todos os caps q eu leio disso aq me dão essa impressão, fora que a ñ ser pela vez q ele teve a chance de jogar o mlk da sacada, ele em momento algum aparentava já ter tido o pensamento de se aproveitar dos outros(pelo pouco q foi mostrado pelo menos) então a forma q o lobo negro folou com ele é muito estranha… como se ele já tivesse tido essa chance de fazer isso, thks pelo cap to com o cérebro fritando agr

    1. Depois de ler tudo de novo pela segunda vez muita coisa começa a se encaixar. Fica bem na cara que ele parece ser mesmo algum tipo de reencarnação do Seradin, isso até explicaria a rápida conexão que ele teve com Luna e Liz, mas ainda temos que saber se ele é uma reencarnação ou se só herdou as memórias. E na emporia que ele teve agora tava bem claro que a mulher era a Luna, a garotinha parecia ser a Liz. Não lembro exatamente o capítulo, acho que era o 13 ou 14, mas a Luna chama a Liz de tulipa.

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