LAB – Capítulo 183

Plano de construção de Vila Fronteiriça

Olhando para a pedra preta brilhante sobre a mesa, Rouxinol perguntou:

— O que é isso?

— Obsidiana. — Roland falou de cabeça baixa, ocupado desenhando seu projeto.

— Ob… o quê?

— Nada, eu estava falando bobagem. — Ele suspirou.

Como ele poderia saber somente olhando para a forma e a cor desse mineral? Afinal de contas, Roland não era um especialista em geologia, e não conseguia distinguir um metal puro, quanto mais saber que tipo de mineral era. Roland só se lembrava que a maioria dos minérios eram formados de várias composições complexas e sua cor variava, conforme o tipo de impureza que possuíssem. Por exemplo, minérios de ferro podem ser dividido em hematita, pirita e siderita, e ambas eram bem diferentes umas das outras. Especialmente a pirita que, por vezes, possuía um brilho metálico amarelo, sendo muitas vezes confundida com ouro, o famoso “ouro de tolo”.[1]

Um composto pode ser distinguido como puro ou uma mistura, ao possuir uma temperatura de fusão e ebulição constantes. Se o mineral possui impurezas, essas temperaturas variam, por isso, era impossível distinguir entre todas as diferentes variedades usando diferentes temperaturas. Além disso, elementos metálicos não existiam somente com ligações metálicas, também existiam na forma de íons em ligações iônicas, de modo que derreter o metal seria inútil, se Roland não soubesse como purificá-lo.

— Então, também existem coisas que o senhor não sabe? — Rouxinol perguntou com surpresa.

— Muita coisa. — Roland deixou a pena descansar e tomou uma xícara de chá preto — Você quer um pouco?

— Não. — Rouxinol acenou com a mão — Além disso, carne seca não é tão gostoso quanto peixe seco. Seria melhor o senhor colocar mais peixe seco em suas gavetas.

Roland ficou em silêncio por um tempo, fingindo que ele não a ouviu. Ele decidiu dar o minério para Kyle Sichi, o Alquimista-chefe. Afinal, minerais eram mais ou menos radioativos, então colocá-los em seu escritório como decoração não seria uma boa escolha.

Agora, com a recente evolução fantástica de Soraya, Roland descobriu que havia um monte de coisas que ele poderia criar.

A primeira coisa era um sistema de água encanada, o que aumentaria muito o nível da qualidade de vida dos moradores. Pensando nisso, depois de um dia agitado, os moradores voltavam para casa suados e não podiam esperar para tomar um banho, só para descobrir que não tinham água. Eles precisavam caminhar muito para buscar um pouco de água para tomarem banho. Esse sentimento era terrível. E pior, Roland odiava usar a água do tanque para lavar o rosto ou as mãos. Ele sempre tinha a sensação de que havia parasitas crescendo na água depois de ter sido armazenada no tanque por vários dias. Para piorar as coisas, os tanques raramente eram limpos, nem mesmo uma vez por mês. Quando ele começou a olhar para isso com mais atenção, ele podia ver faixas de sedimentos no fundo do tanque, que tinham sido decantados após tantos usos sem limpeza.

Se eles usassem torres de água para abastecimento de água na vila, não haveria muitas dificuldades técnicas. Eles poderiam bombear a água do Rio Vermelho para uma torre de água usando um motor de vapor e, em seguida, usar o princípio do sifão para fazer a água fluir ao longo de tubos para todas as casas da vila. Com isso, Roland criaria um sistema de abastecimento de água automático. A razão pela qual Roland não tinha posto isto em prática até agora era… que ele não possuía material suficiente.

Eles teriam que usar tubos de ferro ou tubos de cobre. Se utilizassem tubos de ferro sem tratamento de antiferrugem, toda a tubulação seria danificada após alguns anos de uso. Os tubos de cobre seriam perfeitos, pois não são corrosivos, são resistentes à pressão, não são tóxicos e os íons de cobre possuem até mesmo propriedades antibacteriano. Mas como ele poderia usar a matéria-prima de moedas para fazer tubos? A produção de cobre da mina da encosta norte ainda estava longe de ser o suficiente para proporcionar tais produtos de luxo. Mesmo nos tempos modernos, tubulações de cobre só eram acessíveis em mansões.

Até agora, Vila Fronteiriça não era capaz de exportar minérios, ao contrário, a vila tinha que importar lingotes. Portanto, seja utilizar ferro ou cobre, Roland estava relutante em usá-los apenas para criar uma fonte de água que era puramente para satisfazer seus desejos, ao invés de fazer qualquer lucro.

Mas agora era diferente. Com a magia de revestimento de Soraya, ele poderia fazer tubos sem metal. Por exemplo, ele pode ter um tubo de ferro como um molde, envolvê-lo em papel e em seguida cobrir o tubo com o revestimento de Soraya. Então ele só tinha que tirar o molde e teria o tubo que precisava. Embora estes tipos de tubos não eram resistentes à pressão, eles estariam em condições próprias para uso, desde que fossem colocados em valas cobertas.

A segunda coisa que ele queria criar era um sistema de fornecimento de energia. Ele estava com medo de que era impossível colocar luz elétrica em toda a vila, mas Roland tinha sonhado por um longo tempo em deixar seu castelo iluminado. Afinal, ler à parca luz de velas era muito doloroso, e causa um dano severo aos olhos com o passar do tempo. Além disso, o verão estava chegando em breve, e as noites sempre eram um pouco sufocantes. Se ele tivesse que ficar em um quarto com tochas e velas, quão terrível seria!

Agora que ele possuía geradores e fios que conduziam bem a eletricidade, fazer o seu castelo entrar na “era da eletricidade” bem à frente de seu tempo atual, não era um sonho distante. Quanto aos filamentos das lâmpadas incandescentes… Roland vagamente se lembrava que no início se utilizava filamentos de bambu carbonizados, antes de conseguirem criar os filamentos de tungstênio. Bambus não eram raros, e existiam aos montes na floresta ao sul do Rio Vermelho.

No entanto, Vila Fronteiriça necessitava mais agora de fábricas de fundição. Sua produção de ferro estava diretamente relacionada com a escala de produção de peças mecânicas e na manufatura de armas, o que era essencial para a sobrevivência da vila.

— O senhor está desenhando… uma torre? — Rouxinol sentou-se à mesa e perguntou curiosamente.

— É semelhante à uma torre, sim. — Roland assentiu com a cabeça — Mas é vazia por dentro, por isso pode ser preenchida com combustível e minérios. Tem funções semelhantes, como fornos de cuba que podem ser usados para fundir o minério de ferro em ferro-gusa.

Este era um alto-forno de verdade, uma versão atualizada do antigo forno de cuba. Roland tinha visitado o local de construção e tinha dado uma olhada no forno de cuba desenhado por Lesya. Para ser honesto, a sua estrutura era muito próxima a de um alto-forno, mas sua capacidade era menor e a temperatura que poderia atingir também era menor. Se a capacidade de Soraya não tivesse evoluído, dando à vila a possibilidade de produzir tijolos refratários, ele tinha a intenção de construir uma dúzia de tais fornos de cuba.

Mas agora, com tijolos refratários, ele poderia considerar a construção de um alto-forno que pudesse atingir temperaturas mais elevadas e com uma produção maior de minério derretido.

A altura do design desse novo alto-forno era quase de oito metros, cerca de quatro vezes a do forno de cuba. O forno seria construído em forma de torre, e sua maior parte era de três metros de largura. A fim de evitar que ele entrasse em colapso, Roland instalaria alguns suportes na base do alto-forno. A parede da fornalha era mais fina na parte superior e mais espessa na parte inferior. As paredes do forno eram relativamente finas, com uma espessura de meio metro e a camada mais interna seria feita de tijolos refratários resistentes ao calor, todos feitos pelo poder mágico de Soraya. Ao mesmo tempo, também tinha um orifício de ventilação, através do qual um motor a vapor forneceria continuamente ar fresco.

A fim de fazer pleno uso do poder do motor a vapor, Roland também tinha projetado um conjunto de equipamentos de alimentação automática para o alto-forno, que incluía um trilho de escalada e um carrinho de carga especial com uma porta móvel na sua parte inferior. Impulsionado pelo motor a vapor, o carrinho iria subir até o topo do forno. Em seguida, um gancho seria posto nas fivelas da parte de baixo do carrinho, abrindo a porta de carregamento para descarregar combustível ou minérios para dentro da fornalha. Este sistema poderia ser considerado como uma técnica superior nesta era.

Diferente dos fornos de cuba com aberturas largas e baixa temperatura, assim que começasse a trabalhar, o seu novo alto-forno não iria parar por um longo tempo. Enquanto combustíveis e minérios fossem constantemente descarregados, teria uma produção muito maior do que um forno de cuba. Se cinco ou seis altos-fornos fossem construídos na vila, Roland multiplicaria a produção de ferro-gusa em muitas vezes.

Depois de terminar todo o seu desenho, Roland esfregou os pulsos doloridos e, em seguida, tirou uma caixa de uma gaveta da mesa e pôs ela na frente de Rouxinol.

Rouxinol, surpreendida, disse:

— Isto é…

— Bem, eu tinha a intenção de dar a você mais cedo, mas me custou algum tempo para esculpir toda a decoração. Afinal de contas, eu não estou muito familiarizado com as máquinas na fábrica. — Roland sorriu e continuou — Vamos, abre e dê uma olhada.

Rouxinol abriu a caixa e não resistiu, dando um grito de emoção. Dentro da caixa havia dois revólveres. Diferente do protótipo usado por ela quando competiu com Carter, estes revólveres foram feitos de uma prata brilhante e eram tão polidos que ela podia ver seu próprio reflexo nele. Desenhos decorativos requintados estavam gravados na empunhadura e no corpo. Sobre o barril, Roland havia gravado o nome de Rouxinol: “Para Verônica”.

Roland tinha planejado esses revólveres por um longo tempo. Em comparação com as pistolas que eram inconvenientes de transportar e de carregar, os revólveres recentemente inventados possuíam uma melhoria significativa. Eles tinham um alto nível de segurança e uma excelente cadência de tiro. Que poder esta arma poderosa teria nas mãos de uma bruxa ágil, como Rouxinol? Roland queria testemunhar isso.

— Obrigada. — Rouxinol ao pegar os dois revólveres, saltou da mesa, e fez uma posição como se fosse atirar — O senhor vai me ensinar como usá-los?

— Claro. — Roland assentiu com a cabeça. Sua roupa branca de assassina e sorriso radiante e deslumbrante fez ele imediatamente entender o que significava ser linda de morrer — Não é difícil. Você só precisa chegar furtivamente até o alvo, puxar o gatilho e gritar “É hora de morrer!”.


[1] Só para constar, a hematita, Fe2O3, possui uma cor predominantemente vermelho-sangue, embora também possua outras cores. Já a pirita, FeS2, como o autor colocou, possui um brilho amarelado, semelhante ao ouro. Por fim, a siderita, FeCO3, possui uma cor entre o amarelo, cinza e marrom. Existem diversos outros tipos de minérios de ferros, com diversas aplicações, mas Roland não é um geólogo.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

30 Comentários

  1. Por um momento eu fiquei com pena da Soraya imagina o quanto ela vai ter que trabalhar e ficar sem fazer um quadro.
    Obrigado pelo capítulo.😁🖒

    1. Talvez ela goste, já que ficou bem claro (pelo menos pra mim) que ela se sente incomodada com o fato de não poder contribuir mais para a vila.

  2. Fiquei um tempão tentando encontrar essa imagem *-* e acho que combina muito com a Rouxinol (não sei se e uma fanart ou se é oficial)

  3. Ele vai pegar água do Rio Vermelho? No começo não tinha dito que muita gente cagava lá e tava uma podridão só?

  4. “Wake Up! Time to Die” Referencia a Blade Runner HOLY SHIT esse autor só não é mais louco que o de HTK com os jogador do Chelsea

  5. Todas as bruxas tem sua importância, a que talvez tenha menos, claro posso estar errado, é a que não deixa as coisas apodrecerem.

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