LAB – Capítulo 194

Lily

Depois que Roland entrou no escritório, não demorou muito para Pergaminho aparecer logo em seguida.

— Vossa Alteza, desculpe-me. Lily, essa criança… ela não falou isso de forma intencional.

— Tudo bem, eu realmente não me importo. — Roland sorriu — Ela é só uma menina.

— Só o senhor mesmo para ser tão tolerante conosco. — Pergaminho suspirou — Ela não era assim no início, mas ela acabou não confiando em mais ninguém depois de ter sido enganada.

— Foi antes de se juntar a Associação? — Roland perguntou — Eu me lembro de que ela se juntou a vocês há um ano.

— Na verdade, eu a encontrei na periferia de Cidade Carmesim. — Pergaminho disse — O senhor sabe que eu sou capaz de sentir a existência de poder mágico e quanto mais perto eu estiver à fonte, mais forte será o sentimento. Eu não posso ver a forma e a cor do poder mágico como Rouxinol, mas eu ainda posso senti-lo o suficiente para descobrir novas bruxas. Para poder usar minha habilidade da melhor forma, eu sempre me vestia como uma senhora nobre que estava buscando adotar uma criança, e eu gostava de caminhar pelos orfanatos e asilos das cidades, para tentar encontrar qualquer irmã que pudesse ter despertado. — Ela fez uma pausa — Naquela época, eu achei Lily confinada em um asilo remoto e fui rejeitada quando pedi para adotá-la. O senhor que dirigia o asilo me disse que eles só vendem mulheres depois de estarem totalmente crescidas.

— Por quê? — Roland perguntou confuso — Será que isso poderia estar relacionado ao fato de que o período que uma bruxa desperta é exatamente antes da idade adulta?

— Nós também achamos tudo isso muito suspeito, então, Rouxinol entrou no asilo sorrateiramente e olhou nos livros de contabilidade, registros e outras informações relacionadas. Felizmente, o asilo era longe da cidade, por isso fomos capazes de fazer tudo isso a tempo.

— E por que vocês não trouxeram Lily junto? Não teria sido difícil com a ajuda de Rouxinol.

— De fato, não teria sido difícil. — Pergaminho assentiu — Não havia Pedras da Retaliação Divina no asilo, com exceção de uma que o próprio senhor do local usava. Infelizmente, nós não nos sentimos capazes de fazer isso desde o incidente anterior.

— Qual incidente? — Príncipe Roland colocou um pouco de chá para Pergaminho.

— Obrigada. — Ela pegou a xícara — Sempre que encontrávamos uma bruxa nessas condições, nós tentávamos retirá-la a força, mas ocorreu um mal-entendido no Condado de Ventomar que acabou mudando o nosso método. Uma bruxa recém-desperta foi pega de surpresa e nos atacou, pensando que fôssemos inimigas. Ela foi levada até a Associação Cooperativa das Bruxas e se recusou a ouvir qualquer explicação. O problema só foi resolvido depois que ela acabou matando duas irmãs e Kara foi obrigada a usar sua serpente “Morte” para matá-la. Depois do ocorrido, nós sempre observaríamos cuidadosamente as bruxas para determinarmos a situação e somente após isso, agiríamos. Se a Igreja estivesse em nosso encalço… nós desistiríamos.

— Então quer dizer que o encontro entre Rouxinol e Wendy não foi um acidente?

— Não, não foi. — Pergaminho tomou um gole de chá e balançou a cabeça com um sorriso — Entre o momento em que nós a descobrimos e o encontro dela com Wendy, mais ou menos um mês havia passado. Durante esse tempo, nós recrutamos outras irmãs também, Rúbea e Áugure… — Os olhos de Pergaminho estavam solene ao se lembrar disso — Infelizmente, elas acabaram sendo enterradas na floresta. Como eu gostaria que elas tivessem aceitado prontamente o convite para vir até Vila Fronteiriça.[1]

Se aquelas quarenta e tantas bruxas tivessem vindo até a vila, todos nós já estaríamos vivendo uma vida na era moderna agora. — Roland pensou enquanto sentia pena das outras bruxas que morreram.

— Mas não vamos mais falar disso. — Pergaminho respirou profundamente e mudou de assunto — Vamos falar sobre Lily. Depois que rastreamos as informações do asilo, nós começamos a espionar o senhor do asilo e fizemos descobertas surpreendentes. Esta pequena casa de campo não foi criada para ser um asilo real ou para triagem de bruxas.

— Então foi criada para que?

— Para satisfazer os desejos egoístas do lorde. — Pergaminho que sempre era bem-educada, se tornou um pouco sombria ao falar isso — O lorde visitava a periferia da Cidade Carmesim todas as semanas e recolhia as meninas de rua. Ele iria mentir para elas, fingindo ser uma espécie de nobre caridoso que abriu um asilo no subúrbio. Ele dizia para elas que se viessem junto com ele, algumas mulheres bem vestidas da nobreza viriam até o asilo e iriam adotá-las. Elas não precisariam se preocupar com comida ou roupas, caso fossem com ele. Mesmo que nem todas as garotas acreditassem nessa conversa fiada, ao longo das décadas, centenas de garotas caíram nesse conto do vigário.

— Tudo isso? — Roland franziu o cenho — Mas, você disse que o asilo não era muito grande.

— Centenas delas, hoje, são só nomes no registro, pois a maioria delas já estam… mortas. — Ela disse suavemente — Ele só tinha encontrado três bruxas nos últimos dez anos e elas foram todas vendidas para a Igreja. As meninas mais bonitas eram vestidas com os melhores vestidos e vendidas como prostitutas para homens ricos. Já as que não possuíam lar ou não eram desejadas por nenhum dos compradores, eram mortas na floresta atrás do asilo.

De repente, Roland sentiu seu coração palpitar e sua garganta apertada, ficando sem palavras, ao mesmo tempo em que sentiu uma mão delicadamente descansando em seu ombro, atrás dele.

— As chances de uma garota despertar não são altas. Com base nos registros no livro de contabilidade, durante todo esse tempo, ele só ganhou cerca de vinte peças de ouro, descontando as despesas do asilo. Cerca de trezentas meninas morreram por apenas vinte peças de ouro, deixando aquela quantidade de covas e corpos para trás. Kara perguntou por que ele tinha feito isso durante o seu interrogatório e ele respondeu que não era sobre dinheiro, mas sim para alimentar os seus desejos. Além disso, ele só venderia as mulheres já adultas, pois uma bruxa valeria muito mais do que uma mulher comum. Ele fez tudo isso para saborear o poder de um rei, o poder de decidir quem morre e quem vive, além de se aproveitar livremente de garotas sem-teto para satisfazer seus desejos. Ao ouvir isso, em um assalto de raiva, Kara o matou e nós libertamos as garotas. Em vez de gratidão, elas agiram como se tivéssemos arrancado a chance delas de se tornar um membro da aristocracia, uma nobre. Lily também se sentia como a maioria das garotas, até que Kara a levou para o bosque atrás do asilo. Lá ela viu suas amigas, as “garotas de sorte” que tinham sido adotadas por famílias nobres há um mês atrás. Ao presenciar tal cena e as miríades de covas, Lily sentiu uma enorme repulsa, chorando tanto que acabou desmaiando nos braços de Kara. Quando acordou, ela ficou tão aturdida que já não havia mais luz em seus olhos. Depois disso, ela lentamente se recuperou sob os cuidados de Wendy. Agora ela está cautelosa, vigilante e cheia de desconfiança em relação a qualquer nobre. No entanto, eu acredito que se há alguém que pode melhorar sua perspectiva, esse alguém é o senhor.

— Entendi.

Depois de experimentar um evento traumático, deve ser difícil para ela acreditar e animar-se novamente. — Roland, emocionalmente, pensou consigo mesmo.

Pergaminho pegou a chaleira para encher ambas as xícaras. Ela ficou em silêncio por um longo tempo antes de dizer.

— Vossa Alteza, eu tenho uma pergunta a fazer.

— Sim, qual pergunta? — Roland respondeu atordoado, notando o comportamento sério de Pergaminho.

— Rouxinol, você está aqui?

— Sim. — Rouxinol se revelou — Você quer que eu saia?

— Não… De qualquer maneira, você já sabe sobre isso. — Pergaminho balançou a cabeça — Apenas fique onde está e seja minha testemunha.

Depois disso, pergaminho olhou diretamente para Sua Alteza e disse:

— O senhor disse anteriormente que estaria disposto a se casar com uma bruxa, mas eu não tenho a certeza se o senhor sabe que as bruxas não podem ter filhos. — Pergaminho fez uma pausa, deixando a informação ser processada e perguntou de forma clara — Vossa Alteza, agora que o senhor sabe isso, o senhor mudará de ideia?


[1] Caso você não se lembre da fatídica batalha, relembre de volta Rúbea, Pimentinha, Áugure e Shino lá de volta no capítulo 75.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

14 Comentários

  1. Nessa hora Roland apenas pensa em Ana e responde instintivamente que sim hahaha
    Ainda acho que ele vai pensar em alguma forma de resolver esse problema de não ter filhos

    Agradeço pelo capítulo =D

    1. Expliquei isso uns capítulos atrás: acredito que elas não podiam ter filhos por causa do desuso de seus poderes o que danificava o corpo tornando impossível dar a luz a uma criança agora sem esse estresse a constituição delas ficou bem mais saudável e suponho que …. xD

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