LAB – Capítulo 242

Construções

Roland estava extremamente exausto, pois fora o orador e o anfitrião da primeira Cerimônia de Honra e Recompensas que durou até o meio-dia. Felizmente, a cerimônia finalmente terminou com o badalar dos sinos e salva de armas. Ele voltou para o castelo suando, mas quando chegou ao terceiro andar, viu Anna encostada na porta do escritório, sorrindo.

— Algum problema?

— Entre e você saberá! — Anna piscou seus belos olhos azuis.

Espero que não seja uma pegadinha. — Roland pensou, enquanto empurrava a porta.

Assim que ele abriu a porta, ele ficou surpreso ao ver que todas as doze bruxas estavam lá de pé, formando duas filas, com Wendy e Pergaminho na frente de cada uma delas, respectivamente. Quando viram o príncipe entrar, todas elas seguraram seus vestidos, ajoelharam-se e curvaram-se com respeito.

— Hum, o que vocês estão…

— Vossa Alteza, suas ações provaram tudo o que o senhor nos disse. — Pergaminho foi a primeira a falar — Nós, irmãs, somos extremamente gratas por isso. Não há palavras para descrever nosso apreço e gratidão, então, por favor, permita-nos continuar a servi-lo no futuro.

— Entendi. — Roland suspirou aliviado — Eu pensei que vocês vieram se despedir.

— Puff! — Wendy começou a rir — De jeito nenhum, Vossa Alteza, a vila é a Montanha Sagrada que as bruxas têm procurado. Se o senhor não nos mandar embora, vamos ficar aqui para sempre.

— Este também é meu desejo. — Roland parou por um momento e disse — Na verdade, vocês não precisam agir assim, pois quando eu ajudo vocês, eu também estou me ajudando. Ah, e não precisam ser tão formais também, eu gosto mais de vocês quando estão à vontade.

— Há! Eu avisei. — Lily vangloriou-se — Tá vendo? Eu disse que isso tudo era desnecessário.

— E quando foi que você disse isso? Você concordou em vir imediatamente e não disse nada. — Lunna sussurrou — Traidora!

— Tudo bem, vamos comer, Vossa Alteza ainda precisa trocar de roupa. — Pergaminho disse impotente — Oh, certo, eu ouvi da senhorita Anna que o senhor ficou acordado até tarde durante muitos dias. Por favor, o senhor tem que se cuidar melhor, pois precisa ficar firme e forte para alcançar nosso objetivo.

— Não se preocupe. — Roland sorriu — Eu estou ótimo.

As bruxas saíram, uma a uma, deixando apenas Anna e ele no escritório.

— E então, você também quer expressar sua gratidão? — Roland brincou.

— Sim… eu quero dizer a mesma coisa. — Anna deu um sorriso de canto de boca — Nenhuma palavra pode descrever minha gratidão.

— E… você quer morar em Vila Fronteiriça para sempre?

— Não tenho certeza.

— Por quê? — Roland perguntou, assustado.

— Porque você não vai ficar aqui para sempre. — Anna inclinou a cabeça — Não importa para onde você for, eu sempre seguirei você.

O coração de Roland ficou acelerado e seu corpo inteiro se encheu de ternura. Desde o dia em que ele a conheceu, Anna nunca mudou de ideia. Não importa se fosse o convite da Associação Cooperativa das Bruxas ou os perigos que eles tiveram que enfrentar com as bestas demoníacas, ela sempre escolheu ficar ao seu lado.

Naquele momento, Anna de repente se aproximou e o abraçou gentilmente.

— Espere, eu estou todo suado. — Roland a lembrou.

Anna não o respondeu, mas, ao invés disso, colocou a cabeça em seu peito e respirou fundo como se quisesse sentir o cheiro dele. No final, ele desistiu de tentar afastá-la e colocou os braços em volta do pescoço branco dela. Eles ficaram assim por muito tempo.

Depois do almoço, Roland tomou um banho frio e continuou seu trabalho. Ele chamou Karl van Bate até o seu escritório e, já na mesa, abriu um mapa detalhado de Vila Fronteiriça e apontou para o Rio Vermelho.

— Eu quero construir uma ponte aqui.

— Não seria melhor uma ponte flutuante?[1] — Karl perguntou depois de pensar por um tempo — Com todo o respeito, Vossa Alteza, como o Rio Vermelho tem quase cem metros de largura neste local, é quase impossível construir uma ponte de pedra. Mesmo se considerássemos a construção de uma ponte em arco, ainda assim seria impossível, pois teríamos que construir os pilares no meio do rio e, devido a forte correnteza, eles seriam levados embora, e com isso, nem conseguiríamos cobrir um terço do caminho total. Mesmo que os pilares sejam tão espessos quanto o corpo de um homem forte e resistentes como uma pedra, ainda assim não daria certo. Além da ponte flutuante e das balsas, não vejo outro jeito de atravessar o rio.

— Não é uma ponte de pedra, mas uma ponte de aço. — Roland explicou — A ponte terá um total de três seções, e o píer central será construído pelas bruxas. Você só precisa construir e montar o restante dela. Certifique-se de construir um declive em ambas as extremidades da ponte, assim ela ficará elevada em relação ao solo e será suficientemente alta para que não atrapalhe o tráfego no rio, pois os navios passarão por baixo e não haverá colisões devido à sua altura.

— O senhor quer construir uma ponte no céu? — Karl perguntou surpreso.

— Vai ser apenas vinte a vinte e três pés (6 a 7 metros) acima do solo. — Roland rapidamente desenhou um esboço para a ponte de ferro de três seções — Para desenvolver a margem sul no futuro e também construir o estaleiro, o rio deve ter uma ponte que não afete o tráfego de navios. Uma ponte flutuante pode ser simples, mas cobrirá todo o rio, obstruindo meus planos de desenvolvimento futuro.

A expedição do Primeiro Exército na Cidade Real de Castelo Cinza inspirou Roland. Ele percebeu que dentro do reino fluíam inúmeros rios, e a maioria das grandes cidades era construída principalmente ao lado de um deles. No caso de ele querer começar uma guerra no futuro, ter várias canhoneiras[2] seria muito benéfico para o confronto, tanto para apoiar suas tropas quanto para sitiar e conquistar cidades, afinal de contas, o poderio de uma artilharia naval excederia de longe o de uma artilharia terrestre.

— Mas eu não tenho experiência em construir pontes deste… — Karl estava claramente hesitante.

— Nem eu. — Roland deu de ombros — Como é a primeira vez, você pode ir devagar com o projeto. Se você quiser, primeiro faça uma ponte teste na margem do rio, depois disso, se tudo estiver certo, mova-a para o Rio Vermelho com o auxílio das bruxas. — Roland também apresentou para Karl o conceito de pré-fabricação geral e o conceito de construção de peças descartáveis — Assim como foi a construção do castelo d’água, que usamos aqui na vila, desde que utilizemos a habilidade de Beija-Flor para diminuir o peso da ponte e a ajuda da sua aluna Anna para fazer a montagem e a soldagem, não será muito difícil em geral.

— Como… o senhor desejar, Vossa Alteza. — Ele assentiu.

— Além disso, existe outro projeto de construção importante que vou confiar a você. — O 4º Príncipe moveu o dedo para a área do castelo — Eu pretendo expandir o tamanho do jardim dos fundos, de modo que abranja todos os terrenos altos circundantes, e ao mesmo tempo quero construir uma casa de três andares aqui.

Se tudo corresse bem, as cinco bruxas de Tilly chegariam a Vila Fronteiriça no próximo mês. No entanto, não havia mais quartos de hóspedes extras no castelo. Embora ele pudesse convertê-los em quartos para três pessoas temporariamente, o número de bruxas só aumentaria com o tempo, então ele tinha que encontrar uma solução permanente. Oferecer um ambiente de vida superior, com todo o tipo de conforto, era parte de seu plano para convencer as bruxas a permanecerem na vila. Não importa em que lugar ou qual era você esteja, ninguém consegue resistir a um estilo de vida extravagante e a todos os confortos que estavam inclusos. Uma boa vida seria sempre atraente para as pessoas.

— Três andares… casa de tijolos?

— Não é chamado de casa de tijolos, pois não são só tijolos. — Roland sorriu — O termo correto deve ser alvenaria[3]. O telhado e as colunas serão feitos de concreto armado, que é semelhante aos ossos humanos. Com este tipo de estrutura, podemos construir uma casa mais alta, aumentando o número de andares para quatro ou cinco depois, sem nenhum problema.

— Concreto armado? — Karl repetiu parecendo confuso.

— É uma mistura de cimento, areia e pedra, reforçada com barras de aço para melhorar a resistência à compressão. — Roland disse — É claro que muitos testes são necessários para determinar a porcentagem correta de cada material, mas uma vez que tenhamos sucesso, a estrutura vai ser ainda mais resistente do que a das casas de pedra.

Roland se lembrou de que em seu antigo mundo, o concreto possuía uma ampla gama de qualidade. O concreto feito pelos aldeões de uma vila era muito inferior ao comprado em unidades de misturas na cidade. Outro ponto a ser considerado era os vergalhões[4], pois as pessoas deste mundo, quando construíam suas casas, preferiam usar madeiras ou seixos, acarretando em uma baixa qualidade quando comparada aos vergalhões em conjunto com o concreto e alvenaria. Durante seu tempo no campo, Roland havia testemunhado o processo de construção destas vilas campestres.

Agora, ele pretendia fazer isso ele mesmo, afinal, seria apenas uma casa de três andares, e com todas as vantagens que ele dispunha, mesmo se houvesse algumas falhas, ainda seria muito difícil para a casa entrar em colapso.

Por outro lado, com a construção de uma residência para as bruxas, Roland esperava que Karl pudesse compreender o conceito por trás deste tipo de construção e deixá-lo desbravar suas variações, fazendo-o evoluir. Como parte da direção de desenvolvimento da indústria de construção, a importância do concreto seria bastante significativa. No entanto, ele não estava familiarizado com a arquitetura, e o pouco que ele sabia vinha do tempo em que ele viveu no campo. Portanto, expandir os horizontes do mestre de obras e guiá-lo para a direção correta, era a maneira correta de lidar com isso.

— Hum… o senhor quer que eu vá no meu ritmo nessa obra também? — Karl perguntou.

— Não. — Roland sorriu — Essa eu posso te ensinar.


[1] Você pode conferir novamente no capítulo 138 a ponte flutuante que Roland construiu.

[2] Canhoneira é um tipo de navio de guerra projetado para usar canhões. Não é o mesmo tipo de navio de pirata. Você pode conferir mais informações neste link.

[3] Alvenaria é a construção de estruturas e de paredes utilizando unidades unidas entre si ou não por argamassa. Estas unidades podem ser blocos de cerâmica, de vidro, de concreto, pedras, tijolos etc. Você também pode conferir mais informações neste link.

[4] Vergalhão é uma barra de aço de superfície lisa ou nervurada, de bitolas variáveis, utilizado em armaduras para concreto armado. Este link traz algumas informações a mais para você consultar.

JZanin
Professor de Química, mestre em Ensino de Ciências, jogador de RPG sem tempo e Deodoro Aliguieri nos tempos vagos que não existem mais. ~Strong alone, stronger together!~

9 Comentários

  1. Maaaanooooo… 242 capitulos e eu ainda fico empolgado com as construções que o Roland projeta. Não me canso dessa novel incrível

  2. Mano, essa é a única novel que eu conheço que me empolga com construções e me ensina melhor do que com um professor.
    Obrigado pelo capítulo Mestre JZanin

  3. Progresso é o segundo nome de Roland! 😁

    Muito obrigado pelo capítulo 🙇😁 Mestre JZanin 🙇😁

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