MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 1 de 7)

A luta brutal terminou, ele pisou com sua bota no cadáver do goblin morto.

Ele estava manchado com o sangue carmesim do monstro, do seu elmo de aço sujo e armadura de couro, até a malha feita de anéis metálicos encadeados que cobriam todo o seu corpo.

Um pequeno escudo surrado estava fixado em seu braço esquerdo, e em sua mão, ele segurava uma tocha ardente.

Com seu calcanhar contra o cadáver da criatura, ele abaixou sua mão livre e retirou casualmente a espada de seu crânio. Era uma lâmina de aparência barata, com um comprimento mal concebido, e agora estava encharcada de cérebro de goblin.

Deitada no chão com uma flecha no ombro, o corpo magro de uma menina tremia de medo. Seu clássico rosto adorável e doce, emoldurado pelos longos e quase translúcidos cabelos cor de ouro, estava franzido com uma junção de lagrimas e suor.

Seus braços magros, seus pés; todo seu corpo deslumbrante estava com as vestimentas de uma sacerdotisa. O som do cajado de monge que ela agarrou ressoou, com seus anéis pendurados batendo uns contra os outros com suas mãos trêmulas.

Quem era esse homem diante dela?

Tão estranha era sua aparência, a aura que o ocultava, que ela imaginava que ele pudesse ser mesmo um goblin; ou talvez algo muito pior, algo que ela ainda não tinha conhecimento.

— Que-quem é você…? — perguntou ela, suprimindo seu terror e dor.

Após uma pausa, o homem respondeu: — Matador de Goblins.

Um assassino. Não de dragões ou de vampiros, mas o mais simples dos monstros: goblins.

Normalmente, o nome poderia parecer comicamente simples. Mas para Sacerdotisa, naquele momento, era tudo, menos engraçado.

Você já ouviu esta história antes.

O dia em que um órfão criado no templo faz quinze anos, ele se torna um adulto e deve escolher o seu caminho: ele permanecerá no templo como um servo da deusa, ou partirá e tentará ganhar a vida mundo afora?

Sacerdotisa escolhera o último, e uma visita à Guilda dos Aventureiros era o que escolheu fazer.

A Guilda dos Aventureiros — criada para apoiar aquelas corajosas almas desbravadoras — foi inicialmente formada, assim dizendo, por um punhado de pessoas que se conheceram em um bar. Ao contrário de outras associações de trabalhadores, a Guilda dos Aventureiros era mais uma agência de empregos do que um sindicato. Na guerra atual entre monstros e “aqueles que possuem língua”, os aventureiros eram como mercenários. Ninguém toleraria a existência de pessoas armadas se não fossem administradas cuidadosamente.

Sacerdotisa parou seu trajeto quando a vasta sucursal que estava diretamente dentro dos portões da cidade tirou seu folego. Quando ela entrou na recepção, ficou surpresa ao encontrá-la agitada de aventureiros, embora ainda fosse de manhã.

Esses edifícios ostentavam grandes pousadas e tavernas — geralmente juntas — bem como um escritório, tudo em um. Realmente, esse tipo de clamor era o resultado natural por possuir esses três serviços no mesmo lugar.

Para cada humano comum com armadura de placas, havia um mago elfo com manto e cajado. Aqui havia um anão barbudo empunhando um machado; e ali, havia um dos pequenos indivíduos moradores dos prados, conhecidos como rheas. Sacerdotisa abriu caminho através da multidão, passando por homens e mulheres de todas as raças e idades que se poderia imaginar e carregando todos os tipos de armas, indo em direção a Garota da Guilda. A fila serpenteava sem parar, cheia de pessoas que vieram pegar, registrar uma missão ou apresentar um relatório.

Um aventureiro empunhando uma lança estava conversando com alguém coberto por uma armadura pesada.

— Então? Como foi com o manticora no desfiladeiro?

— Não era grande coisa. Se quiser um grandão, acho que seria melhor tentar as ruínas ou algo desse tipo.

— É justo, mas você nunca vai colocar comida na mesa desse jeito.

— Ei, ouvi dizer que tem um espírito maligno causando problemas perto da capital. Quem quer que for para lá pode conseguir uma boa recompensa, hein?

— Talvez eu conseguisse lidar com ele, se for só um demônio de nível baixo…

Sacerdotisa se surpreendeu não menos que três vezes ouvindo a conversa casual, e cada vez, ela trouxe seu cajado de monge mais perto para fortalecer sua determinação.

— …Em breve também irei…!

Ela não possuía a ilusão de que a vida de um aventureiro era simples. Sacerdotisa vira em primeira mão os feridos que retornaram da masmorra, vindos ao templo, implorando por um milagre de cura. E curar tais pessoas era precisamente o credo da Mãe Terra.

Como ela poderia se afastar então, de se pôr em perigo para fazer o que lhe fora ensinada? Ela era uma órfã, e o templo a salvou. E agora era sua vez de reembolsar essa dívida…

— Pois não, o que te traz aqui hoje?

A fila havia avançado progressivamente quando Sacerdotisa permaneceu perdida em pensamentos, e agora era sua vez.

Usando uma expressão doce, Garota da Guilda atendendo-a ainda era jovem, embora mais velha que Sacerdotisa. Sua roupa imaculada estava impecavelmente bem cuidada, com seu cabelo castanho-claro entrelaçado em tranças. Um rápido olhar à volta do local não deixava dúvidas que a recepção da guilda seria um local de trabalho exigente. Essa recepcionista não mostrava nenhuma atitude tensa, muito comum entre as jovens profissionais, sendo, talvez, um sinal do quão bem ela conhecia o seu trabalho.

Sacerdotisa sentiu um pouco do seu nervosismo diminuir. Ela engoliu em seco e falou:

— Hum, eu… eu quero ser uma… uma aventureira.

— Tem… certeza? — questionou Garota da Guilda, sua expressão doce desapareceu momentaneamente quando ela hesitou brevemente, aparentemente sem palavras. Sacerdotisa sentiu os olhos da recepcionista se moverem do seu rosto para seu corpo, e estranhamente envergonhada, assentiu.

A sensação desapareceu quando Garota da Guilda retomou um sorriso e disse: — Entendo. Você sabe ler e escrever?

— Uhm, sim, um pouco. Eu aprendi no templo…

— Então preencha isso, por favor. Se tiver alguma coisa que não entender, é só perguntar.

Era uma ficha de aventura. Letras douradas se destacavam através do velino marrom claro.

Nome, sexo, idade, classe, cor dos cabelos, cor dos olhos, tipo de corpo, habilidades, magias, milagres… Informações tão simples. Tão simples que quase não parecia certo.

— Ah — interrompeu Garota da Guilda — pode deixar os espaços “capacidades” e “história do aventureiro” em branco. A guilda vai preencher eles mais tarde.

— S-sim, senhora. — Sacerdotisa assentiu, e então, com a mão trêmula, pegou uma pena, mergulhou ela em um tinteiro e começou a escrever com letras precisas.

Ela entregou a folha terminada para Garota da Guilda, que olhou para o papel com um aceno, depois pegou um estilete prateado e esculpiu uma série de letras cursivas em uma insígnia branca de porcelana. Ela entregou a insígnia para Sacerdotisa, que percebeu que possuía as mesmas informações que a sua ficha de aventura, mas agora com letras bem distribuídas.

— Isso vai servir como sua identificação. Nós chamamos isso de “status”. Embora — acrescentou ela, provocadoramente — ele não diga nada que não conseguimos descobrir olhando para você. — Então ela disse calmamente para Sacerdotisa que pestanejava: — Ele será usado para confirmar a sua identidade se alguma coisa acontecer com você, por isso tente não perder.

Se algo acontecer?

Por um segundo, Sacerdotisa foi pega de surpresa pelo tom sério de Garota da Guilda, mas não demorou muito para ela ligar os pontos. A única vez que precisariam “confirmar sua identidade”, era quando alguém fora assassinado tão horrendamente, que ninguém poderia dizer quem era.

— Sim, senhora — disse Sacerdotisa, enquanto desejava que sua voz parasse de tremular. — Mas é realmente assim tão fácil se tornar uma aventureira…?

— Se tornar uma, sim.

A expressão de Garota da Guilda estava ilegível. Ela estava preocupada ou resignada? Sacerdotisa não podia dizer.

— É mais difícil progredir nos ranques. Os quais são baseados em assassinatos, quanto bem você tem feito e os testes de personalidade.

— Testes de personalidade?

— Às vezes você encontra os tipos eu-sou-forte-o-suficiente-para-fazer-tudo-sozinho.

Então, ela acrescentou baixinho: — Mas existem muitos tipos de excêntricos por aí. — E quando ela disse isso, por um instante seu comportamento mudou. Se suavizando com um sorriso saudoso e caloroso.

Oh, pensou Sacerdotisa, não sabia que ela podia sorrir assim.

Garota da Guilda notou que Sacerdotisa a observava e rapidamente limpou a garganta. — As missões são fixadas lá. — Ela indicou um quadro de cortiça que cobria quase uma parede inteira. — Escolha aquelas que são adequadas ao seu nível, é claro.

As opções eram pequenas, já que a multidão enorme de aventureiros passava pelo quadro toda manhã. Mas a guilda não possuiria um quadro daquele tamanho se não precisasse.

— Pessoalmente — disse a recepcionista — eu recomendo a você ficar com os pés molhados por limpar os esgotos. Sem brincadeira.

— Limpar os esgotos? Mas aventureiros não lutam contra monstros…?

— Existe honra em caçar ratos gigantes também. E você vai fazer um bem verdadeiro ao mundo. — Ela acrescentou em voz baixa: — Recém-chegados com um pouco de experiência podem avançar para os goblins, eu acho — e outra vez havia aquele olhar sem expressão.

— Bem, isso é tudo por aqui no registro. Boa caçada!

— Ah, o-obrigada. — Sacerdotisa baixou a cabeça em gratidão e deixou a recepção. Ela pendurou a insígnia de porcelana no pescoço e soltou um suspiro que esteve segurando. Ela era uma aventureira registrada. Foi simples assim.

Mas, o que devo fazer agora?

Sacerdotisa levava apenas seu cajado (o símbolo do seu ofício), um saco com uma muda de roupas e algumas moedas.

Ela ouvira que o segundo andar do edifício da guilda era destinado aos aventureiros de níveis baixos. Talvez ela devesse começar reservando um quarto, depois ver que tipos de missões estavam disponíveis…

— Ei, quer ir se aventurar com a gente?

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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