MdG – Volume 1 – Capítulo 1 (Parte 6 de 7)

De alguma forma eles não encontraram nenhum goblin na curta caminhada ao túnel. Eles haviam, no entanto, encontrado pedaços horríveis de carne espalhados ao redor. Talvez tenham sido outrora de humanos. Não havia como saber. Havia sangue suficiente na pequena caverna para se engasgar, e o seu cheiro se misturava com o odor espesso das vísceras espalhadas.

— Err, eurrggh…

Sacerdotisa avistou o corpo de Guerreiro, caindo reflexivamente de joelhos e vomitando.

Parecia que sua última refeição de pão e vinho havia acontecido há anos. Aliás, parecia ter passado uma eternidade desde que Guerreiro a convidou para essa aventura.

— Nove… — acenou Matador de Goblins. Ele estava contando os corpos dos goblins, imperturbado com a cena à volta deles.

— A julgar pela dimensão do ninho, deve haver menos da metade sobrando.

Ele pegou a espada e a adaga do corpo de Guerreiro e as pendurou em seu próprio cinto. Ele verificou as outras vítimas dos goblins também, mas aparentemente não encontrou nada que o satisfizesse.

Sacerdotisa, limpando a boca, lhe deu um olhar reprovador, mas ele não parou.

— Quantos de vocês havia?

— O quê?

— Garota da Guilda só disse que alguns novatos tinham ido caçar goblins.

— Havia quatro de… Oh! — gritou ela acidentalmente, limpando furiosamente a boca com as duas mãos. — M-minha outra membro do grupo…! — Como ela pôde ter esquecido?

Ela não viu o corpo de Lutadora. Ela, que havia se sacrificado, sofrendo coisas indescritíveis para salvar os outros, não estava em lugar algum.

— Uma garota?

— Sim…

Matador de Goblins segurou a tocha mais perto e vasculhou cuidadosamente o chão da caverna. Havia pegadas frescas, sangue, um líquido sujo e uma trilha, como se algo tivesse sido arrastado pelo chão.

— Parece que a levaram mais para dentro. Não posso dizer se ela está viva ou não — disse ele, tocando vários fios longos de cabelo aos quais restos de peles continuavam agarrados.

Sacerdotisa se levantou debilmente. — Então temos de salvá-la…

Mas, Matador de Goblins não respondeu. Ele acendeu uma tocha nova, depois jogou a velha em um túnel lateral. — Goblins tem excelente visão noturna. Mantenha ela acesa. A escuridão é nossa inimiga… Ouça.

Ela obedeceu, esforçando seus ouvidos para qualquer som.

Da escuridão além da chama da tocha, havia passos, pá-pá-pá.

Um goblin! Vindo provavelmente para investigar a luz da tocha.

Matador de Goblins pegou uma das adagas do cinto e a lançou na escuridão.

Houve um som ríspido como algo sendo perfurado. O corpo de um goblin se lançou na luz fraca da tocha. Quando o viu, Matador de Goblins avançou e levou sua espada através do coração da criatura. O goblin morreu sem fazer um barulho, pois a adaga atravessara sua garganta. A coisa toda aconteceu quase que rápido demais para acompanhar.

— Dez.

Quando Matador de Goblins o adicionou a sua contagem, Sacerdotisa olhou para o túnel e perguntou timidamente: — Você também consegue ver no escuro?

— Quase nada.

Matador de Goblins não se importou em recuperar a lâmina empapada de gordura do cadáver. Em vez disso, ele pegou a espada que Guerreiro trouxera, estalando sua língua quando viu que era longa demais para os tuneis estreitos.

Depois ele pegou a lança do goblin que acabou de matar. Era feita grosseiramente de ossos de animais, mas uma lança para um goblin era apenas um pouco mais longa que uma faca para um homem adulto.

— É apenas prática. Eu sei exatamente onde os seus pescoços estão.

— Prática? Quanta prática…?

— Muita.

— Muita?

— Você está perguntando demais, não acha?

Sacerdotisa ficou calada. Ela abaixou a cabeça envergonhada.

— O que você consegue usar?

— Como? — Ela levantou apressadamente a cabeça novamente, não entendendo o que ele queria dizer.

Matador de Goblins nunca deixou sua atenção vacilar do túnel enquanto falava. — Quais milagres?

— Eu tenho Cura Menor e Luz Sagrada, senhor.

— Quantos usos?

— Três no total. Eu… eu tenho dois sobrando. — Não era nada extraordinário, mas Sacerdotisa era uma das iniciantes mais talentosas. Já era uma conquista o simples fato de conseguir rezar para a deusa, fazer um pedido e ser concedido um milagre. E depois, poucas pessoas conseguiam suportar unir sua alma com a deusa repetidamente. Isso exigia experiência.

— Isso é consideravelmente mais do que eu esperava — disse ele. Isso era um elogio, ela supôs, mas ela teve dificuldades em aceitar. Seu tom era ordeiro e frio, mal revelando qualquer emoção.

— Luz Sagrada, então. Cura Menor não nos ajudará nada aqui. Não desperdice seus milagres com ela.

— S-sim, senhor…

— Esse que matamos era um batedor. Estamos no túnel certo.

Com a ponta da lança, ele apontou mais a fundo para o buraco do qual o goblin viera. — Mas, seu batedor não vai voltar. Nem os que mataram seu grupo. Eu acabei com eles.

Sacerdotisa ficou calada.

— O que você faria?

— O quê?

— Se você fosse um goblin. O que faria?

Com a pergunta inesperada, Sacerdotisa tocou seu dedo esguio contra o queixo, pensando a pleno vapor. O que ela faria se fosse um goblin?

Sua mão, que uma vez ajudara com os serviços no templo, parecia muito branca para ser a de uma aventureira.

— …Armar uma emboscada?

— Exatamente — disse Matador de Goblins, com sua voz calma. — E vamos cair nela. Se prepare.

Sacerdotisa empalideceu, mas assentiu.

Matador de Goblins tirou um rolo de corda e algumas estacas de madeira e as colocou a seus pés.

— Eu tenho um mantra para você — disse ele, sem tirar os olhos do seu trabalho. — Se lembre. As palavras são entrada do túnel. Se as esquecer, você morre.

— S-sim, senhor! — Sacerdotisa agarrou seu cajado de monge com ambas as mãos.

Entrada do túnel, entrada do túnel, repetiu ela desesperadamente para si mesma.

A única coisa em que ela podia confiar era nesse homem misterioso que se chamava de Matador de Goblins. Se ele a abandonasse, então ela, Lutadora e as meninas raptadas da aldeia estariam perdidas.

Um momento depois, Matador de Goblins terminou seus preparativos. — Vamos.

Sacerdotisa o seguiu o mais rápido que pôde, passando pela corda e entrando no túnel.

O túnel era notadamente firme, não algo que parecia ter sido construído apenas para montar um ataque surpresa. A cada passo, terra caía das raízes das árvores que haviam transpassado pelo teto, mas não parecia haver nenhum risco de colapsar. Contudo, o declive gradual deixava Sacerdotisa desconfortável. Humanos não pertenciam a esse ambiente.

Ela devia ter percebido desde o início, e agora que se deu conta, era tarde demais: os goblins passam a vida inteira no subsolo. Verdade, eles não eram nada como os anões, mas, porque ela e os outros subestimaram os goblins tão mal só porque não eram fisicamente fortes?

Bem, é tarde demais para arrependimentos…

Sacerdotisa pisava cuidadosamente sob a luz tênue da tocha. Ela olhou para as costas de Matador de Goblins. Seus movimentos não mostravam nenhuma hesitação ou medo. Será que ele sabia o que estava adiante?

— Estamos quase lá. — Ele parou de repente, e Sacerdotisa quase se chocou nele. Ela se endireitou mais rápido do que ele conseguiria se virar com seus movimentos mecânicos.

— Agora, Luz Sagrada.

— S-sim, senhor. Estou pronta… quando você estiver.

Ela respirou fundo e expirou. Então ela segurou seu cajado, firmemente no lugar. Matador de Goblins também ajustou suas mãos na tocha e na lança.

— Faça.

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, conceda tua luz sagrada para nós que estamos perdidos na escuridão…

Matador de Goblins avançou enquanto Sacerdotisa levantava seu cajado em direção a escuridão. A ponta começou a resplandecer com uma luz que se tornou tão brilhante quanto o sol. Um milagre da Mãe Terra.

Com a luz em suas costas, Matador de Goblins entrou rapidamente no cômodo dos monstros.

Talvez eles só tivessem se apropriado da maior caverna nesse complexo de cavernas. Os goblins esperando na sala mal construída apareceram na vista.

— GAUI?

— GORRR?

Havia seis goblins lá, bem como um dos grandões e um sentado em uma cadeira, usando uma caveira na cabeça. Os monstros estreitaram os olhos contra a súbita luz pura, uivando em confusão.

Também lá, deitadas e imóveis, estavam várias moças.

Alguma coisa sombria, sem dúvida, estava acontecendo naquele lugar.

— Seis goblins, um hob e um xamã, oito no total. — Matador de Goblins contou seus oponentes sem mostrar qualquer tremor em sua voz.

É claro, nem todos os goblins estavam fechando os olhos e lamentando.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

11 Comentários

    1. Há algumas exceções, loucos que se tornam loucos devido ao medo da morte

      Estaria mais para psicopatas e os que não temem a morte, não?

          1. Não tarde em ler ele, mas aviso desde já, não goste de ninguém, e se prepare para reviravoltas muito loucas, e cenas… Perturbadoras, mas você ta tendo MdG então ta de boa

          2. Ah, depois de GoT, pro bem do meu coraçãozinho, aprendi a não gostar mais de personagens kkkkk

            Não se preocupe, já li a trilogia Mão Esquerda de Deus, aliás, se for pensar bem, já li coisa muito pior, inclusive baseados em fatos reais, então o que é ficção perto disso hahahah

          3. Eu não conhecia essa trilogia, mas acabei vê a Sinopse…. e meu Deus!! Que livro é esse?? Vou ate pausa as aventuras do caça feitiços pra ler essa trilogia

      1. Um jihad e um sadboy, ambos não tem medo da morte, qual dos dois vc não vai quere encontra dentro de um avião? Ou em qualquer outro ligar? Não é o medo da morte que é o problema, é oq o indivíduo é capaz de fazer por não temer a morte

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