MdG – Volume 1 – Capítulo 2 (Parte 1 de 3)

Ela teve um sonho familiar.

Ela sonhou com um dia de verão quando ainda era muito pequena. Oito anos talvez. Ela viera sozinha para a fazenda do seu tio para ajudar a dar à luz a um bezerro. Em sua tenra idade, ela não percebeu que era só uma desculpa para lhe deixar brincar.

Ela estava indo ajudar com um parto. Esse era um trabalho importante.

E melhor ainda, ela estava saindo da aldeia e indo para a cidade; tudo por conta própria!

Claro que, ela se gabou disso com ele. Ela se lembrou do olhar mal-humorado que surgiu em seu rosto. Ele era dois anos mais velho que ela, mas ele não sabia nada sobre a vida fora da aldeia. Ele mal conseguia imaginar uma cidade, muito menos a capital.

É verdade, ela era como ele nesse aspecto, mas ainda assim…

Ela já não conseguia lembrar o que começou.

Ele ficou zangado, eles brigaram e ambos acabaram em lágrimas. Olhando para trás, ela pensou que talvez tivesse ido longe demais, acreditando que podia dizer o que quisesse porque ele era um garoto.

Falando demais, o magoando suficiente para que ficasse realmente zangado. Ela não considerou que isso pudesse acontecer. Ela era jovem, afinal de contas.

Eventualmente, a irmã mais velha dele veio o buscar e levou para casa, o conduzindo pela mão.

A verdade era que queria o convidar para ir com ela.

Na carruagem para a próxima cidade, ela olhou de volta para sua aldeia pela cortina da janela.

Sua mãe e seu pai vieram se despedir dela. Ele não foi visto enquanto ela acenava se despedindo de seus pais.

Enquanto ela saía na carruagem retumbante, ela sentiu uma pontada de arrependimento. Ela não teve a oportunidade de pedir desculpa.

Quando voltasse, ela teria que se reconciliar com ele…

O dia de Vaqueira começou cedo.

Isso porque ele acordou cedo, mesmo antes do galo cantar ao amanhecer.

A primeira coisa que ele fez ao acordar foi dar uma volta na fazenda. Ele nunca negligenciava isso.

Quando ela lhe perguntou sobre isso uma vez, ele disse que estava procurando por pegadas. “Os goblins se movem a noite” dissera ele. “Eles voltam aos seus ninhos ao amanhecer, mas eles sempre fazem reconhecimento antes de um ataque”. Então, disse a ela que estava procurando por pegadas, para garantir que não perderia nenhum sinal dos goblins.

Quando ele terminou sua primeira inspeção, ele fez outra. Dessa vez, ele estava procurando por qualquer estrago na cerca. E se encontrasse algum, ele iria se encarregar de buscar algumas estacas e tábuas, e então consertar.

Vaqueira acordou com o som dos seus passos passando pela sua janela. O galo finalmente começou seu cacarejo matinal.

Ouvindo aquela caminhada casual autoconfiante, ela deslizou seu corpo nu para fora da cama de palha, deu uma boa espreguiçada e um bocejo. Depois colocou algumas roupas íntimas sobre sua forma voluptuosa antes de abrir a janela.

O vento fresco e revigorante da manhã soprava.

— Bom dia! Estou vendo que acordou cedo como sempre! — Vaqueira repousou seus seios vastos sobre a armação da janela e se inclinou para fora, falando com ele, que estava de costas enquanto olhava para a cerca.

— Sim — disse ele, se virando.

Ele usava uma armadura suja, placas de couro e um capacete de aço; um escudo estava preso em seu braço esquerdo e uma espada pendurada na cintura.

Assim como ele sempre estava. Apertando os olhos em direção ao sol, Vaqueira disse: — O tempo está bom hoje. O Sr. Sol está tão brilhante!

— Ele está.

— Tio já acordou?

— Não faço ideia.

— Hmm. Bem, tenho certeza de que vai acordar em breve.

— Acha mesmo?

— Você deve estar com fome. Vamos tomar o café da manhã. Vou preparar ele em um instante.

— Está bem.

Ele assentiu lentamente.

Ele ainda é um homem de poucas palavras, pensou Vaqueira com um sorriso.

Ele não era assim quando eram pequenos. Pelo menos, não devia ter sido.

Apenas os detalhes do tempo mudavam, eles tinham a mesma conversa toda as manhãs.

Mas, ele era um aventureiro, e ir em aventuras era um negócio arriscado. Se ela estava falando com ele de manhã, isso significava que ele sobreviveu mais um dia, então ela não se oporia, não importando quão poucas palavras partilhassem.

Ainda sorrindo, Vaqueira se espremeu na sua roupa de trabalho e foi tranquilamente para a cozinha.

Eles deveriam revezar na preparação das refeições, mas era Vaqueira quem fazia efetivamente a refeição. Em todos os anos em que viveram juntos, ele raramente cozinhara.

Duas vezes, três vezes talvez? Quando tive aquele resfriado, tenho certeza…

Ela não dissera a ele que a sopa que ele fez era rala e aquosa, com medo que ficasse chateado.

Ela pensava que às vezes, já que ele se levantava cedo de qualquer forma, talvez pudesse fazer o café da manhã de vez em quando. Mas, aventureiros levam vidas imprevisíveis. Não existia nada que ele pudesse fazer, então ela não o importunava sobre isso.

— Bom dia, Tio! O café da manhã sairá em breve, está bom?

— Sim, bom dia. O cheiro está bom hoje. Meu estômago está roncando. — Seu tio, o dono da fazenda, acordou assim que ele veio da sua inspeção.

— Bom dia, senhor.

— Mm-hm… bom dia. — Seu tio respondeu com uma palavra curta e um aceno brusco ao seu cumprimento atencioso.

Na mesa havia queijo, pão e uma sopa cremosa, todos produzido ali mesmo na fazenda.

Ele levou a comida a abertura de sua viseira. Vaqueira o observava encantada.

— Aqui está por esse mês — disse ele, como se recordando repentinamente de algo. Ele pegou um saco de couro de sua bolsa no quadril e colocou na mesa. O saco fez um som intenso quando caiu, e através da abertura, peças de ouro brilhavam.

— …

O tio dela olhou para ele em silêncio, como se relutante em aceitar.

Ninguém poderia o culpar. O homem armadurado não precisava alugar espaço nos estábulos de alguma fazenda fora-de-mão. Ele poderia ter ficado em uma suíte real em algum lugar.

Por fim, seu tio deu um pequeno suspiro de rendição e puxou o saco para si.

— É terrivelmente lucrativo ser um aventureiro.

— Os negócios têm sido bons ultimamente.

— É mesmo? Diga, você… você está…? — Seu tio era normalmente tão bom em lidar com as pessoas, mas em torno desse homem, sempre ficava com a língua presa. Vaqueira simplesmente não conseguia entender…

Com uma mistura de medo e resignação, seu tio finalmente continuou:

— …Você está indo hoje de novo?

— Sim, senhor — respondeu calmamente ele. Sempre com o mesmo aceno lento com a cabeça. — Eu irei à guilda. Muito trabalho para se fazer.

— Entendi. — Seu tio fez uma pausa. — Sendo assim, não exagere.

— Não, senhor.

O tio dela parecia perplexo com a voz uniforme do homem, enquanto ele tomava um gole de leite quente de seu copo.

Suas conversas matinais sempre terminavam assim. Vaqueira tentou aliviar o clima dizendo, com uma alegria forçada: — Bem, tenho que fazer algumas entregas, então podemos ir juntos!

— Está bem. — Ele assentiu, mas com isso, a expressão do tio dela se tornou ainda mais tensa.

— …Quero dizer, nesse caso, posso levar a carroça — mudou rapidamente o aventureiro.

— Ah, Tio é apenas uma mãe-coruja — disse Vaqueira. — Eu vou ficar bem. Eu sou muito mais forte do que pareço, você sabe! — Ela enrolou a manga e flexionou o bíceps para mostrá-lo.

É verdade, seus braços eram maiores que as das garotas de mesma idade da cidade, mas não era o que você poderia chamar de musculosa.

— Tudo bem. — Isso foi tudo o que ele disse quando terminou o café da manhã. Ele deixou a mesa sem nem agradecer a refeição.

— E-ei, espere um minuto, mais devagar! — disse ela. — Tenho que me preparar também! Espere!

Mas isso, também, era como as coisas sempre foram. Vaqueira comeu o resto do seu café da manhã de uma forma muito imprópria.

Ela acompanhou a imensa refeição — que ela precisava devido todo o trabalho que fazia — com leite, e depois levou todos os pratos para a pia.

— Muito bem, Tio, estamos indo!

— Volte logo. E em segurança. Por favor.

— Vai ficar tudo bem, Tio. Estaremos juntos.

Ainda sentado à mesa, seu tio possuía um olhar desanimado, como se estivesse dizendo: É isso que me preocupa. O tio de Vaqueira era um fazendeiro amável e de bom coração, como ela mesma sabia bem. Ele só não parecia se dar bem com o aventureiro. Ou melhor… seu tio parecia ter medo dele. Apesar de não haver nada para ter medo…

…Ela estava bastante certa.

Quando ela foi para fora, ele já estava andando na estrada além da cerca. Ela foi para onde a carroça estava guardada atrás da casa, apressadamente, mas não correndo.

Ela havia preenchido a carroça com os produtos no dia anterior, então ela só tinha que pegar o guidão e empurrar. A medida em que as rodas rangiam, o produto e o vinho sacudia em cima da carroça.

Ele caminhava ao longo da estrada arborizada para a cidade, com Vaqueira seguindo atrás puxando a carroça. Cada vez que a carga sacudia passando sobre o cascalho, seu peito saltava junto.

Esse trabalho estava longe de ser difícil o suficiente para ser cansativo, mas à medida que avançavam, ela começou a suar um pouco e a respirar um pouco mais forte.

— ……

De repente, sem qualquer palavra, ele diminuiu o ritmo. Ele não parou, obviamente, mas desacelerou. Ao mesmo tempo, Vaqueira, com uma explosão de energia, acelerou até que estivesse andando ao seu lado.

— Obrigada.

— …Disponha. — Ele balançou a cabeça enquanto poupava suas poucas palavras. Talvez fosse o seu capacete que fez o gesto parecer bastante estranho.

— Trocar?

— Nem, estou bem.

— Entendi.

A Guilda dos Aventureiros também abrigava uma pousada e uma taverna, e era lá que Vaqueira entregaria o produto; esse era o seu trabalho. Era o lugar onde ele conseguiria a missão do dia; esse era o trabalho dele.

Vaqueira não podia ajudá-lo com seu trabalho, e por isso se sentia mal de alguma forma por ter a ajuda dele com o seu.

— Como tem ido as coisas? — perguntou ela, junto ao ruído da carroça, olhando de lado para ele.

Não que tivesse muito para ver. Ele usava seu capacete desde que se levantava todos os dias. Independentemente da expressão que ele usasse, ela não conseguiria ver.

— Mais goblins ultimamente.

Suas respostas eram sempre curtas. Curtas, e de alguma forma, suficientes. Vaqueira assentiu radiante.

— Sério?

— Mais do que o habitual.

— Então você está ocupado?

— Estou.

— É, você está fora o tempo todo esses dias.

— Estou.

— É um grande prazer ter muito trabalho, hein?

— Não — disse ele, balançando a cabeça calmamente. — Não é.

— Por que não? — perguntou ela, e ele respondeu:

— Eu preferiria que não houvesse goblins.

— Sim… — disse ela, assentindo.

As coisas seriam melhores sem nenhum goblin.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

7 Comentários

  1. Não sei porquê que esses caras que fazem as novel não colocam as ilustrações assim que a cena e descrita. Obrigado pelo capítulo

    1. Colocar a ilustração na hora ou depois é mais aleatório do que tudo. Tem alguns romances que colocam na hora, outros — como esse — colocam um pouco depois.

    1. É de se refletir não? Poucas pessoas estão dispostas a pegarem uma missão de goblins por não valerem os riscos… graças a tragédia, o rapaz virou um bitolado por goblins. E quando ele sai para fazer uma missão, é só de dedetização…
      Então eu concluo que a formação mental dele por si só é baseado pela tragédia que ele vivenciou, mas graças a isso — se é que pode ser dito graças a uma tragédia… — ele combate “tragédias” que podem ocorrer, mas ele é só um humano — então tragédias ainda ocorrem —, e não um herói como em epopeias de heroicos guerreiros que lutam ferozmente contra inimigos titânicos, mas para os necessitados e desgraçados pela vida ele é um herói, no sentido humilde do termo…

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