MdG – Volume 1 – Capítulo 4 (Parte 2 de 2)

— GUI…

Vigiar a aldeia não interessava. Ter um guarda contra invasores inimigos era mesmo necessário? Essa fortaleza fora construída há muito tempo pelos elfos (não que os goblins se importassem). Quando partiram, ela ficou esquecida e deserta até que os goblins se mudaram. Tudo o que os goblins querem de um ninho é que ele seja robusto, seguro e ofereça uma boa caçada. Então eles tomaram a fortaleza, com todas as armadilhas, estratagemas e muros que seus construtores abandonaram.

Com tudo isso, essa fortaleza não precisaria de um guarda. O goblin preso no dever de guarda estava profundamente descontente.

Então, quando ele notou, ele ficou realmente eufórico.

— GRRRRR?

Aventureiros. Dois deles.

Um deles era um guerreiro com uma armadura suja de couro e um capacete de aço, não tentando se esconder enquanto caminhava calmamente entre as árvores. Um escudo pequeno estava preso em seu braço. No seu ombro havia uma aljava, em sua mão um arco e no quadril uma espada.

Ele parecia um fracote. Por que eles deveriam se preocupar com ele? O goblin de guarda estava concentrado na pessoa caminhando ao lado do guerreiro. Era uma linda garota com vestimentas de sacerdotisa que estava sem jeito, segurando seu cajado e parecendo nitidamente pouco à vontade.

O guarda lambeu os lábios. Nenhum deles era muito carnudo, mas pelo menos aquela presa podia servir para algo.

Ele fez o rosto mais desagradável e, com saliva pendurada em sua boca, voltou para dentro para alertar os outros. Isso era conforme a ordem, mas ele nunca deveria ter tirado os olhos dos aventureiros.

O guerreiro ajustou uma flecha no arco e puxou a corda tanto quanto pôde. Um pano embebido com óleo de Medeia estava enrolado na ponta da flecha. A sacerdotisa friccionou uma pederneira nela.

— GAAU!

— GOURR!

Os goblins que o guarda convocou foram se ralando até os muros e começaram a clamar e apontar para os aventureiros. Mas era tarde demais.

— Uma plateia e tanto — murmurou Matador de Goblins de seu capacete, enquanto soltava a flecha.

A flecha se alojou nas paredes de madeira, e as chamas avançaram em direção aos goblins, que começaram a gritar.

Uma segunda flecha ardente veio voando. Em um piscar de olhos, havia fogo por todo o lado.

— GAUAUAAAA?!

Uma criatura em pânico tentando escapar perdeu o equilíbrio e escorregou, levando junto dois de seus companheiros a cair da muralha até o chão muito abaixo. O guarda estava entre eles, mas Matador de Goblins não sabia e nem se importava.

— Três.

Ele contou calmamente e atirou outra flecha.

Fogo, é claro, era o grande inimigo dos elfos. Se o povo da floresta ainda estivesse naquela fortaleza, nunca teria sido tão fácil atacar com um simples pano flamejante.

Mas os elfos, que teriam oferecido súplicas aos espíritos para extinguir todas as chamas, já não estavam mais lá. Qualquer proteção que eles pudessem ter erguido contra a conflagração, se foi há muito tempo.

A fortaleza na frente dos aventureiros era grande e sólida, mesmo assim, era apenas de madeira.

— Já chega de flechas de fogo. Se prepare.

— Ah, c-certo!

Enquanto Matador de Goblins puxava o arco mais uma vez, Sacerdotisa ficou com o cajado de monge a postos, preparada para iniciar a oração consome-alma à deusa.

A cobrindo, Matador de Goblins acertou uma flecha entre os olhos de um goblin tentando fugir pelo desfiladeiro. O monstro tombou para trás na fortaleza queimando da qual ele estava tão desesperado para escapar.

— Idiota. Esse é o quarto.

No instante seguinte, houve um tum enfadonho quando uma pedra ricocheteou no seu capacete.

— Ah, não! Você está bem?! — exclamou Sacerdotisa.

— Não entre em pânico — respondeu ele balançando a cabeça, irritado por ela ter quebrado sua concentração ao gritar.

Ele estalou a língua, então viu um goblin no desfiladeiro segurando uma corda.

Uma funda poderia ser uma arma poderosa. Podia ser apenas um pedaço de corda que lançava a pedra, mas o projétil poderia viajar com uma velocidade e força mortal. E era quase impossível ficar sem munição, uma característica que Matador de Goblins gostava muito.

Mas, de qualquer forma, mesmo que os goblins tivessem conseguido o contato com uma funda…

— Poderia importar se fosse em uma caverna. Mas não à essa distância.

Fora dos combates corpo a corpo em lugares confinados, a força física dos goblins se tornavam irrelevantes. Faltavam-lhes coordenação para ataques à distância. A pedra que ricocheteou em seu capacete há pouco, foi provavelmente um golpe de sorte.

Ainda assim, as coisas podiam ter sido diferentes se os dois fossem iniciantes presunçosos. Mas Matador de Goblins não era nada senão minucioso.

Ele disparou uma flecha na direção do atirador, perfurando sua garganta. Contra as chamas brilhantes, a falta de visão noturna não fazia diferença.

— Cinco… Eles virão em breve.

Tal como ele previra, uma multidão de goblins apareceu na entrada, tentando correr da fortaleza em chamas. Eles carregavam seu vinho, suas presas, seus espólios e eles se empurravam nos seus esforços para sair pela porta.

Enquanto corriam pelas suas vidas através da fortaleza, na qual eles gostavam bastante de viver, parecia que seus terrores se transformaram em raiva. Suas faces horríveis cintilavam com a intenção de matar Matador de Goblins e Sacerdotisa. Muitos planos malignos percorriam suas cabeças. Quando saíssem do edifício, eles matariam os dois aventureiros? Os violariam?

Cada goblin possuía uma arma em mãos, e todos estavam visando Sacerdotisa parada bem nos arredores da entrada…

— Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra, conceda segurança para nós que somos fracos.

E de repente, os goblins se viram batendo suas cabeças contra uma parede invisível e cambaleando para trás de volta à fortaleza. Uma parede de poder sagrado bloqueou a entrada e evitou os goblins de escapar. A Mãe Terra, abundante em misericórdia, protegeu sua devota seguidora com o milagre de proteção.

— GORRR?!

— GARRR?!

Os goblins ficaram cada vez mais em pânico quando perceberam que ficaram presos. Eles gritavam e choravam enquanto batiam suas clavas e seus punhos contra a barreira invisível e perceberam que nada poderia a quebrar. Fumaça e chamas lentamente obscureceram os goblins, até que desapareceram da visão.

— Eu ouvi dizer que você havia recebido um milagre novo — disse Matador de Goblins, disparando casualmente uma flecha em um goblin tentando escapar da área. — Seis. Isso tornou nosso trabalho muito mais fácil.

— Mas… para usar Proteção assim… — disse Sacerdotisa. Sua voz estava rouca, e não era por respirar a fumaça que surgia dos goblins que outrora viveram.

Ela esteve no templo nesses últimos dias para aprender novos milagres. Proteção era um dos dois que lhe foram concedidos.

Dependendo de sua força e status, os clérigos que saíram para o mundo poderiam receber novos milagres, bem como oráculos. Parecia que sua fé era mais forte do que ela mesma percebera. Isso a incomodava cada vez que a Madre Superiora elogiava os frutos de sua aventura…

…Mas se isso significasse ganhar um novo milagre, ela suportaria o treinamento com a convicção de que isso iria a ajudar apoiar Matador de Goblins.

E isso foi o que havia acontecido.

Por que a Mãe Terra me concedeu esse milagre…?

Ela soltou um suspiro longo e infeliz.

— Pode existir uma porta traseira ou um túnel de fuga. Fique alerta.

— Como você pensa nessas coisas?

— A imaginação também é uma arma. — Com essas palavras, Matador de Goblins preparou outra flecha. — Aqueles sem ela são os primeiros a morrer.

— …Você quer dizer, como as primeiras pessoas que vieram aqui antes?

— Isso mesmo.

A fortaleza da montanha ardeu.

Com isso, a aldeia abaixo foi salva da ameaça dos goblins. As almas de cada uma daquelas aventureiras falecidas poderiam ir para os braços de qualquer deus em que acreditassem.

Os corpos dos goblins queimavam. Os corpos das aventureiras queimavam. E o corpo da garota raptada queimava enquanto a fumaça flutuava em direção ao céu.

— Nós precisaremos controlar o incêndio. Quando estiver esgotado, precisaremos procurar por sobreviventes e lidar com eles — disse Matador de Goblins, olhando para a fumaça, sem um traço de emoção em sua voz. Houve uma pausa. — …Agir como meu ranque pode ser… difícil.

Sacerdotisa o observava como se estivesse vendo algo desolador. Não havia como saber sua expressão debaixo daquele capacete. Ou não deveria ter havido.

Quase inconscientemente, ela juntou as mãos, se ajoelhou e rezou.

O calor e a fumaça cobriram o céu com nuvens escuras, e por fim, uma chuva negra começou a cair. Ela rezou enquanto os pingos de chuva caiam sobre ela, enquanto suas vestimentas ficavam marcadas de cinza.

A única coisa que ela queria era salvação.

Salvação para quem e pelo que ela não sabia.

— O rei goblin perdeu a cabeça para um golpe crítico dos mais terríveis!

O bardo deu um dedilhar melodioso em seu alaúde.

— Um azul escaldante, o aço de Matador de Goblins cintila no fogo.

As notas ecoavam pela rua a noite. As pessoas paravam para ouvir, atraídas pela melodia poderosa e melancólica.

— Assim, o plano repugnante do rei chegava ao seu fim apropriado, e a adorável princesa alcançou seu salvador, seu amigo.

Jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres, pessoas de todas as posições sociais assistiam o bardo. Sua epopeia peculiar dependeria inteiramente de sua própria habilidade para o seu sucesso.

— Mas ele é Matador de Goblins! Em nenhum lugar ele permanece, mas jurou vagar, não deve ter outro ao seu lado.

Uma jovem na primeira fila deu um suspiro caloroso e triste. O bardo reteve o sorriso que trouxe aos seus lábios e continuou serenamente:

— Fora apenas o ar ao seu alcance que a grata donzela encontrou… o herói partira, sim, sem olhar para trás.

Blam, blam, blam.

— Obrigado! Essa noite é até onde eu levarei a história da queima da fortaleza da montanha do conto do Matador de Goblins, herói da fronteira.

A audiência que havia se reunido na rua da capital se dispersou em um murmúrio. O bardo deu uma reverência elegante de agradecimento enquanto as moedas retiniam em seu chapéu.

Um aventureiro ranque prata que nunca sofreu uma derrota enquanto expulsava todos os goblins ao longo da fronteira indomável. Para os aldeões assolados por esses monstros, ele poderia muito bem ser considerado ranque platina: um herói que apareceu como o vento e desaparece da mesma forma. A epopeia que o bardo moldou sobre essa figura de boatos que ele teve chance de ouvir parecia ser bem-aceito. Isso era o que contava.

— Senhor…?

Surpreendido pela voz repentina e clara, o bardo olhou para cima no meio do caminho para pegar algumas moedas do chão. O resto da plateia já havia ido embora, mas uma pessoa ficou ali, com o rosto escondido por um manto.

— Aquele aventureiro sobre o qual você cantava… ele realmente existe?

— Claro que sim. Absolutamente. — O bardo estufou o peito.

As pessoas acreditavam nos feitos relatados pelos poetas e menestréis. Ele dificilmente admitiria que havia inventado a canção com base em pedaços de bisbilhotagem ao acaso.

E de qualquer forma, esse assassino misterioso de goblins deu a ele uma boa quantidade de dinheiro. O mínimo que ele poderia fazer era cuidar da reputação do homem.

— Ele está em uma cidade há dois ou três dias de viagem na direção da fronteira oeste.

— É mesmo? — suspirou a figura, e com um aceno, o capuz do manto caiu para trás.

Seu corpo flexível estava vestido com um traje de caçador. Um arco enorme estava pendurado em suas costas. Ela era esbelta e linda.

O bardo não pôde deixar de a encarar, e não só pela sua beleza.

Ele ficou impressionado com suas orelhas longas em formas de folha.

— Orcbolg… — disse ela, com um som melodioso, mas estranho. Uma aventureira elfa.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

11 Comentários

    1. Pois é, a sua história se inicia com uma tragédia, será que ele terminará como começou ou conseguirá um novo fim, feliz? Só na esperança… 😢😢😢

      1. o desejo do coração humano é o mais forte dos poderes… Quem não sabe isso de fato acontece? Ele cria um harém com todas as garot que gosta dele e abre uma escola ‘ aprenda c mata goblin aqui ” e pronto

      2. Não acho que combine um final bobinho nessa estória.
        Talvez continuar em sua jornada, mas talvez com outros princípios e não apenas por vingança.
        Talvez até ter seu coração conquistado, mas não para se tornar um tolo apaixonado.
        Um aventureiro desses merece uma mulher tão forte quanto ao lado dele, só acho hahahha

        E não, por favor não, nada de harém. Coisa chata que esses asiáticos gostam tanto de harém
        (Revirando os olhos) kkk

    2. Espero que não mas do jeito que essa obra é pesada acho que ele acaba morrendo em algum ato heróico que provavelmente as pessoas não vão ficar sabendo

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