MdG – Volume 1 – Capítulo 7 (Parte 2 de 2)

Os passos dos aventureiros ecoavam estranhamente pelo caminho pavimentado. Não havia sinais de goblins. Ainda.

— O subterrâneo e eu somos velhos amigos, mas não gosto daqui — disse o anão, limpando o suor da testa. Eles estiveram prosseguindo por um declive ligeiramente diagonal desde que entraram nas ruínas. O caminho parecia reto a olho nu, mas na verdade se curvava um pouquinho, formando um saca-rolhas. A curvatura e o declive causavam estragos no sentido de equilíbrio dos aventureiros.

— Parece quase como se estivéssemos em uma torre — disse Sacerdotisa, exalando.

— Algumas das antigas fortalezas foram de fato construídas em tal forma — disse o homem-lagarto. Na retaguarda do grupo, sua cauda balançava para lá e para cá.

— Eu queria que tivéssemos vindo aqui quando não estava infestado de goblins — sussurrou a elfa. — Eu teria gostado de dar uma olhada um pouco.

Algum tempo depois, o declive acabou e o caminho se bifurcou em esquerda e direita. Ambas as rotas pareciam idênticas.

— Esperem — disse a elfa bruscamente.

— O que foi?

— Não se mexa — disse ela a Matador de Goblins.

Ela se arrastou pelo chão. Seus dedos alcançaram o espaço entre as pedras de calçada bem à frente deles, procurando algo.

— Um alarme? — perguntou ele.

— Provavelmente. Eu o notei por ser novinho em folha, mas teria sido fácil não o notar. Todo mundo, tenha cuidado.

O lugar que a elfa indicou estava realmente um pouco levantado. Pise nele, e um barulho soaria em algum lugar, alertando os goblins sobre intrusos.

Sacerdotisa engoliu em seco. O longo e tortuoso declive jogara fora sua concentração e seus sentidos. Ela podia ver a armadilha agora que foi apontado para ela, mas sem o aviso da elfa, ela certamente nem perceberia.

— Goblins. Bestas insolentes — cuspiu o anão, afagando a barba.

Calado, Matador de Goblins iluminou o chão com a tocha, depois cada um dos corredores da esquerda e da direita, olhando atentamente para as paredes. Não havia nada nelas, exceto a fuligem da iluminação uma vez utilizada pelos residentes há muito desaparecidos da fortaleza.

— O que foi? — perguntou Sacerdotisa.

— Nenhum totem.

— Oh, tem razão… — Só Sacerdotisa entendeu a observação de Matador de Goblins. Os outros membros do grupo ouviram com perplexidade. Mas Matador de Goblins não disse mais nada.

Ele está pensando. Sacerdotisa olhou para o grupo e percebeu que restava a ela dar a explicação.

— Hum, em outras palavras, isso significa que não há, hum, goblins xamãs aqui.

— Nenhum conjurador? — disse a elfa aplaudindo de felicidade. — Sorte a nossa.

— Não.

O homem-lagarto soltou um suspiro sibilante. — Você está, então… perturbado com a ausência de conjuradores, meu senhor Matador de Goblins?

— Sim. — Ele assentiu, daí ele indicou o alarme com a ponta de sua espada. — Os goblins comuns jamais elaborariam algo assim.

— Orelhuda disse que era novinho em folha. Isso significa que ele não faz parte das defesas originais do forte.

— Pensei em pisar nisso para os atrair para fora — murmurou Matador de Goblins. — Mas acho que é melhor não.

— Meu senhor Matador de Goblins, você falou antes de sua experiência com tais ninhos extensos — disse o homem-lagarto, enquanto tomava cuidado para que sua cauda não passasse pelo alarme. — Como você lidou com eles?

— Eu trago os habitantes para fora e os aniquilo um de cada vez. Às vezes eu uso fogo. Às vezes eu direciono um rio para o ninho. Existem várias formas. — Perto dele, a elfa parecia horrorizada. — Mas não podemos as usar aqui. — Ele se virou para Alta-Elfa Arqueira. — Você consegue ver alguma pegada?

— Lamento. Em uma caverna, talvez, mas em pedras como essas…

— Deixe o anão dar uma olhada — disse Anão Xamã, se aproximando.

— Tudo bem, mas cuidado com o alarme.

— Eu sou corpulento, não estúpido. Terei cuidado.

A elfa abriu caminho educadamente. Ele se abaixou em frente ao grupo. Ele andou para frente e para trás por meio da interseção em forma de T. Ele chutou o chão de pedra, olhando para ele atentamente. Um momento depois, ele deu a sua barba um golpe confiante. — Entendi. Sua pequena toca fica à esquerda.

Sacerdotisa ficou confusa. — Como sabe?

— Pelo desgaste no chão. Eles vêm da esquerda e voltam pela direita, ou vêm da esquerda e se viram para sair.

— Tem certeza? — disse Matador de Goblins.

— Claro que tenho. Eu sou um anão — respondeu Anão Xamã, batendo na barriga.

— Entendo — murmurou Matador de Goblins, ficando em silêncio.

— Alguma coisa errada, meu senhor Matador de Goblins? — disse o homem-lagarto.

— Iremos por aqui — disse Matador de Goblins, e com sua espada, ele apontou… para a direita.

— Atarracado há pouco não disse que os goblins estão à esquerda? — a elfa disse.

— Sim. Mas se formos por esse caminho, chegaremos tarde demais.

— Tarde demais para quê?

— Você vai ver — disse ele acenando calmamente.

Pouco depois de iniciarem o caminho da direita, eles foram pegos por um fedor sufocante. O ar era carregado e enjoativo. Um gosto acre ficava em suas bocas com cada respiração.

— Tsc… — O anão apertou o nariz.

— Argh… — Os olhos do homem-lagarto reviraram bastante em seu rosto.

A elfa, também, tirou inconscientemente a mão de seu arco e cobriu a boca.

— O qu… o que é isso? É seguro respirar? — se queixou ela.

Os dentes de Sacerdotisa estavam batendo. Ela conhecia esse odor.

— Não resista. Respire pelo nariz. Você se acostumará com isso logo. — Matador de Goblins não olhou para trás, e apenas andou resolutamente mais adiante pela passagem.

O grupo se apressou em continuar. Mesmo Sacerdotisa de alguma forma conseguiu continuar.

A fonte do fedor estava próxima. Eles se depararam com uma porta de madeira apodrecida que parecia colocada para separar parte das ruínas.

— Hmph. — Matador de Goblins lhe deu um chute firme. Com um rangido agonizante, a porta abandonou seu dever e colapsou. O líquido sujo que cobria o chão espirrou quando a porta caiu nele.

Era aqui que os goblins colocavam todos os tipos de resíduos. Restos de comida, incluindo ossos com pedaços de carne agarrado a eles. Excremento. Cadáveres. Tudo. As paredes anteriormente brancas se tornaram de um carmesim encardido com as pilhas de lixo.

No meio de tudo, eles podiam distinguir uma mecha de cabelos cor de linho e uma perna presa a uma corrente. Quatro membros devastados cheios de cicatrizes horríveis. Os tendões foram cortados.

Era uma elfa.

Definhada, enterrada na imundice, e a metade esquerda de seu corpo, no entanto, ainda mostrava a beleza pela qual o seu povo era conhecido.

A metade direita era uma história diferente.

Sacerdotisa pensou que a elfa parecia como se estivesse coberta por cachos de uvas. Sua pele delicada e pálida estava invisível sob o inchaço azulado. Seu olho e seu peito estavam destruídos.

O objetivo era inconfundível: tortura por mera tortura.

Ah, de novo não… O pensamento floresceu na mente de Sacerdotisa e se apegou nela.

— Huegh… Eurghhh…

Bem próxima de Sacerdotisa — aparentemente tão longe — Alta-Elfa Arqueira adicionava o conteúdo de seu estômago aos resíduos que cobriam o chão.

— O que é isso? — O anão afagou sua barba, mas não conseguiu esconder o horror em seu rosto.

— Meu senhor Matador de Goblins? — Mesmo Lagarto Sacerdote normalmente inescrutável, estava com uma expressão evidente de nojo.

— Nunca viram isso antes?

Com sua pergunta calma, Alta-Elfa Arqueira assentiu, sem se incomodar em limpar a boca. Lágrimas pingavam em suas bochechas, e suas orelhas ficaram quase que completamente caídas em sua cabeça.

— Entendi. — Ele assentiu.

— … aaate…… ma… maaaate… — Sacerdotisa olhou subitamente para o gemido melancólico. A elfa aprisionada. Ela ainda estava viva! Sacerdotisa correu até ela e a segurou, ignorando a sujeira que imediatamente cobriu suas mãos.

— Me dê uma poção!

— Não, ela está muito debilitada. Só ficará em sua garganta. — O homem-lagarto seguiu Sacerdotisa até a prisioneira e estava inspecionando suas feridas com suas garras escamadas. — Ela não está ferida mortalmente, mas corre o risco de morrer de exaustão. Ela precisa de um milagre.

— Certo! — Sacerdotisa trouxe seu cajado para perto de seu peito com uma das mãos e colocou a outra no peito da elfa ferida. — Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, coloque tua venerada mão sobre as feridas da tua filha.

Observando sua curandeira conceder o milagre da deusa pelo canto do olho, Matador de Goblins se aproximou de Alta-Elfa Arqueira.

— Você a conhece?

Ainda agachada e tremendo impotentemente, a elfa balançou a cabeça. — Muito… muito provavelmente ela era como eu… uma elfa “desenraizada” que… se tornou uma aventureira.

— Entendi. — Matador de Goblins assentiu e então com seu passo ousado, andou em direção a prisioneira. Sua espada estava na mão. O homem-lagarto lhe deu um olhar desconfiado.

— Ah…!

Estamos sem tempo.

Sacerdotisa empalideceu e se levantou. — E-espere aí! — Ela ficou com os braços abertos na frente da elfa prostrada. Matador de Goblins não parou.

— Se mexa.

— Não! Eu… eu não vou!

— Eu não sei que ilusão você está abrigando agora — disse exasperado Matador de Goblins. Seu tom não mudou. Era implacável e calmo. — Mas eu vim aqui com um único propósito: para matar goblins.

Sua espada desceu.

Houve um jato de sangue e um grito.

— Três.

O baque de um corpo. Era um goblin, com a espada atravessada em seu cérebro. Ele largou a adaga envenenada que esteve segurando quando morreu. Ninguém notou ele se escondendo na pilha de lixos atrás da elfa aprisionada.

Não, pensou Sacerdotisa, balançando a cabeça. Isso não era verdade. Ele havia notado. E a prisioneira também.

— Ma… mate todos… eles… — A elfa aventureira trouxe para a boca um bocado de sangue juntamente com suas palavras.

Matador de Goblins colocou o pé contra o cadáver e tirou sua espada. Ele usou a túnica do goblin para limpar a gordura reluzente da lâmina.

— Essa é a minha intenção — respondeu ele calmamente. Ninguém mais disse nada.

O que esse homem vira em sua vida? O que ele era? As pessoas que estavam nesse lugar repleto de sujeira finalmente tiveram um lampejo de compreensão.

Sacerdotisa se lembrou da avaliação de Bruxa sobre Matador de Goblins. Em suas palavras: “Deixe, que seja sua própria decisão”.

Agora ela entendia claramente o que isso significava. Todo aventureiro, mesmo aqueles que não sobrevivem à sua primeira missão, experimentam matança e morte. Encontrariam coisas horríveis e terríveis. Aldeias e cidades devastadas por monstros não seriam uma visão incomum para eles.

Mas havia uma lógica por trás de tudo. De bandidos e vândalos, à elfos negros e dragões, mesmo os limos; todos possuíam um motivo para a forma como agiam.

Goblins por si só eram diferentes. Eles não tinham motivo. Apenas maldade. A maldade para com os humanos, para com todos os outros seres vivos. Para caçar goblins, você seria confrontado com esse mal várias vezes.

Isso não era uma aventura. E alguém que escolhia seguir esse caminho, não era um aventureiro. Eram como ele.

Um homem com uma armadura de couro suja e um capacete sujo, carregando uma espada que parecia quase que grande demais para se empunhar.

 

— Matador de Goblins…

 

Em meio a escuridão e o mau cheiro, alguém sussurrou seu nome.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

5 Comentários

  1. Esses goblins estão espertinhos de mais… Se escondendo atrás de um prisioneiro quase morto… Caramba !

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