MdG – Volume 2 – Capítulo 11 (Parte 2 de 4)

— Nada. — Ele soou o mesmo de sempre: ordeiro, ainda mecânico e frio. — Porque você não é um goblin.

Ela contraiu seus lábios como se estivesse amuando; não, de fato, ela estava amuando.

— Por isso que você não pergunta por que, não é?

— Se quiser falar, vou ouvir.

— Oh-ho. — Um suspiro lânguido escapou dela. — Eu queria alguém que entendesse.

Uma rajada longa de vento farfalhou galhos e folhas.

Medo, tristeza, dor, terror, impotência; tais coisas estão nesse mundo, e nesse mundo são as pessoas que inspiram essas coisas.

— …Só queria alguém que entendesse.

Os goblins viviam debaixo da cidade.

Eles surgiam do esgoto à noite para atacar as pessoas nas ruas. Os aventureiros que foram enviados atrás deles não voltaram; não havia como e quando saber quem iria se tornar suas vítimas. Os goblins podiam estar se escondendo debaixo da cama, à sombra da porta. Se você adormecesse, eles atacariam você. Ela tinha certeza que todos sentiriam esse medo, assim como ela.

— Mas no fim… ninguém sentiu…

No fim, ninguém vivia com medo que os goblins os matariam. Era sempre outra pessoa que morreria. Nunca eles.

— …Eu posso te dar esse espelho Portal.

Ela pôs um grande sorriso adulador em seu rosto. Mesmo ela sabia que tudo era muito obviamente falso e frágil.

— Você certamente entende… Você acima de todos deve…

Ele a interrompeu bruscamente:

— Eu me desfiz dele.

— O quê…? — Pela primeira vez, algo mais do que um sorriso atravessou seu rosto. Surpresa e uma pitada de confusão. — Isso era uma relíquia antiga. Um tesouro que vale milhares de peças de ouro.

— Outros goblins podem ter aprendido como o usar. — Ele falou friamente, franco, como se para salientar seu desinteresse. — Nós envolvemos o espelho em concreto e o mandamos para o fundo do canal. Isso será um bom leito para o seu branco… seja lá como se chama.

Sua silhueta não vacilou nem um centímetro. Ele soou como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

— Heh-heh. Você é muito… muito interessante, de fato.

A normalidade esmagadora da sua voz a fez sentir muito estranha. Ela se sentia como se estivesse flutuando; havia uma tranquilidade incomum no coração.

— Não deve haver muitos como você.

— Talvez.

— Diga. Posso te perguntar uma coisa?

— Não posso prometer que saberei a resposta — murmurou ele.

— Agora que você já matou os goblins… alguma coisa mudou? — Ela abriu os braços quando perguntou, como uma garota inocente partilhando um segredo.

Heróis, heróis eram diferentes.

Quando um herói põe fim a Seita do Mal, a justiça, o mundo, a paz e assim por diante estavam todos salvos. Mas, o que dizer sobre alguém que ajudou uma pobre garota que tinha medo de goblins? As pessoas continuariam vivendo tranquilamente; o rio se manteria fluindo. Nada mudaria. Nada.

Essa foi a razão por ninguém a ter ajudado.

Mesmo quando uma sacerdotisa sem nome acabasse descuidadamente por ser capturada por goblins e era aviltada. Mesmo quando a garota de quinze anos dentro da mulher aclamada como Donzela da Espada chorava por salvação.

Quem iria se condescender para reparar em tais coisas?

Do contrário, como ela poderia emitir uma missão de goblincídio?

— Certamente nada… nada mudará.

— Não me importa — respondeu ele sem sequer hesitar. — Você disse que já passou por coisas terríveis, certo?

Ela acenou que sim.

— Eu já os vi. Do início ao fim. Então, eu não entendo seus sentimentos. — Matador de Goblins foi inequívoco.

— ………………………………………

Donzela da Espada vagou.

Ela estendeu a mão suavemente, suplicante, para a sombra vaga que flutuava no seu mundo branco.

— …Então, você não vai me ajudar?

— Não.

Ele não pegou a mão dela, mas sim lhe virou as costas.

Sua cabeça se abaixou como se ela tivesse sido lançada nas profundezas do inferno, e ela riu sem graça. Havia um elemento de resignação nele. Um sentimento que para ela era familiar demais.

É assim que sempre foi.

Sua alma, uma vez de uma donzela, fora ferida em todos os lugares possíveis.

Mesmo agora, aquela cena terrível, sua última visão nesse mundo, foi gravada em seus olhos. À noite, ela viria para atormentá-la. A horda de goblins a conspurcando, a estuprando, a violando, tomando tudo dela.

E ninguém podia a salvar disso. Isso iria continuar e continuar, para sempre…

Ninguém iria a ajudar.

Nunca. Jamais.

— Mas.

Ela olhou para cima, surpresa com a única palavra soando.

— Se os goblins aparecerem de novo, me chame.

A sombra escura, suas costas, já estava distante. Mas a sua voz impassível e mecânica a fez ouvir facilmente.

— Eu os matarei para você.

— Ah…

Ela deslizou de joelhos como se estivesse entrando em colapso. Suas características requintadas se distorceram e um soluço escapou de sua boca; ela não pôde conter as lágrimas que saíram dos seus olhos.

Quando foi a última vez que ela tinha chorado tanto quanto depois de um dos seus sonhos?

— Mesmo… Mesmo em meus… meus sonhos?

— Sim.

— Você… vai… Você vai vir…?

— Sim.

— Por quê? — A voz dela estava tremendo tanto que ela não podia dizer a palavra; ela se embaralhou com uma incompleta em sua boca.

Mas ele a respondeu claramente.

— Porque eu sou Matador de Goblins.

O único que mata os diabinhos.

A sombra escura chamada Matador de Goblins se foi.

Foi-se para destruir goblins.

— Ah…

Donzela da Espada se viu agarrando seu peito generoso.

Não era puro ou decoroso.

Mas, ela nunca havia imaginado que um dia como esse iria chegar. Ela nunca tinha imaginado que iria mais uma vez ser capaz de sentir esses sentimentos. Ela havia pensando que eles estariam para sempre além do seu alcance, mas agora ela se agarrou a eles.

Não era nada.

Uma mulher arrasada tinha conversado com um homem arrasado. Nada mais do que isso.

Mas, agora ela sabia a verdade sobre o calor que floresceu no seu peito. Era uma longa centelha ardente, atiçada inesperadamente em uma chama furiosa. Talvez pudesse ser comparada a uma lareira partilhada com outra pessoa: tudo indo bem, sem preocupações, um sono pacífico.

Sem ansiedade, sem medo.

Sem tremer e chorar no escuro, sem acordar gritando de um pesadelo.

Como ela tinha ansiado por uma noite de sono sem perturbação.

— Eu… Eu… Eu…

Ela ergueu a voz, fungando e soluçando.

Com as mãos, ela limpou desesperadamente as lágrimas que saíram dos seus olhos.

Quando uma alegria penetrante surgiu em seu coração, ela gritou:

— Eu gosto de você…!

Se as palavras alcançaram ele ou não, só os deuses sabiam.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

12 Comentários

  1. Não sei se choro ou não ao ler esse capítulo. foi uma mistura de sentimento sem igual, senti fúria sem igual ao sabe o que aconteceu com ela… Mas as palavras dele, fria e mecânica, sem a menor hesitação
    – eu os matarei para você
    Uma simples frase, tirou ela do mais profundo poço do inferno… Eu amo essa novel <3

    PS: pobre coitada, ela gosta do MdG… A sua ficha é de numero 5 na fila

  2. “Porque eu sou o Matador de Goblins”
    Cara, o que dizer? AHUSUAUSHUUausuuasUAUHSHUSAUUS

  3. Tava na maior emoção, olhos lacrimejando, aí você solta um “O único que mata os diabinhos”, então eu fiquei sem saber se ria ou se chorava. Obrigado pelo capítulo ^-^

Leave a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com
error: O conteúdo deste site está protegido!