MdG – Volume 2 – Capítulo 6 (Parte 1 de 2)

— Por quanto tempo mais planeja dormir, idiota?

A voz que trovejou em sua cabeça, conspirou com a dor penetrante para o despertar.

Ele se ergueu, tomou uma posição e olhou em volta. Um frio de rachar penetrava a sua pele.

Branco.

Tudo estava branco.

Era a escuridão branca, a mesma de sempre. Ele estava mais familiarizado com esse mundo do que com a luz do sol.

Ele estava em uma caverna — provavelmente no fundo — rodeado por água e gelo.

Não muito depois que ele percebeu onde estava, outro golpe retumbante atingiu a lateral de sua cabeça. O golpe foi quente e doloroso, como se tivesse sido atingido por tenazes[1], e o seu contraste com o frio o confundiu completamente.

— O que você está procurando? Se se sentir capaz, então me cumprimente!

A voz nasalada ecoou através da caverna, mas ele não podia ver sua origem.

Ele não se atreveu a tentar descobrir de onde a voz vinha. Se ele espiasse ao redor da caverna, ele só iria convocar outro golpe.

E não era possível ver através da invisibilidade de Assaltante, para começar.

Nesses meses — ou anos? — de treinamento, ele tinha compreendido muito bem. Nessa semiobscuridade, sua noção do tempo era no mínimo confusa. Era como flocos de neve que voavam e se recusavam ser pegos.

O velhote era conhecido por muito nomes, incluindo o Viajante, mas ele preferia ser chamado de Assaltante ou Mestre.

— Claro, mestre. Obrigado por estar aqui.

Ele curvou a cabeça, embora ele não soubesse para onde devia se curvar.

Ele ouviu um bufo silencioso e sentiu uma emoção momentânea de nervosismo. Se ele tivesse enfurecido o mestre, ele não escaparia com uma simples repreensão. O mestre poderia mesmo parar de o treinar.

E isso era uma questão de vida ou morte.

— Hmm. Bom, o suficiente.

Seu mestre parecia satisfeito por enquanto.

Ele permaneceu prostrado, cuidadoso para não suspirar de alívio. Ele permitiu um pouco de neve se assentar em sua boca, depois fechou seus lábios. O sopro que ele tinha deixado escapar tão descuidadamente era quente, e o vapor que criou no ar podia o denunciar. Não seria a primeira vez que ele fora repreendido por essa falha.

— Mestre, o que devo fazer hoje?

— O que você deve fazer? — Assaltante deu um pequeno bufo zombador. — Essa é a pergunta mais estúpida que já ouvi! Que tipo de idiota você é?

De repente, algo voou até ele da escuridão.

Ele foi pego completamente desprevenido, e a bola de neve o atingiu em cheio no rosto. A sensação úmida rapidamente se tornou em um desconforto pleno.

Assaltante comprimiu deliberadamente o projétil ligeiramente, de modo que espalhasse a neve fria sobre ele. Quão maldosamente inteligente.

— Te peguei! Então, agora vá pegar eles! Os goblins!

— Sim, senhor.

Ele olhou para frente, sem sequer se incomodar em limpar o gelo de seu rosto. O pensamento de que talvez lhe desse congelamento nem sequer passou pela sua mente. A dor, a amargura, os goblins. Eram todos apenas parte da sua vida cotidiana. Quase nem valia a pena mencionar.

Mas ele ouviu o murmúrio de Assaltante: — Que tal? Eles são espertos, são cruéis e são muitos. Eles são vis. Consegue matar os goblins?

— Eu os matarei.

— Mesmo quando eles estavam se divertindo com a sua irmã e você só assistiu?

Assaltante lhe deu uma risada estranha e irritante.

Ele sentiu o calor desaparecer de sua barriga, juntamente com o sentimento acalorado que pesava em sua mente como uma pedra.

— Eu sei o que você vai dizer. Que você não tinha a força naquele momento, não é?

Ele mordeu os lábios.

— Sim, senhor.

— Errado! Está errado!

Dessa vez, a sensação úmida se misturou com uma dor fraca. Assaltante era inteligente e cruel. Ele tinha adicionado pedras na neve vagamente comprimida.

Sua testa doeu; ele sentia que estava inchando com cada batida do seu coração. Ele sentiu sangue escorrer da ferida, se fundindo a neve grudada em seu rosto enquanto escorria.

Não era grave.

O crânio era um dos ossos mais duros do corpo, não era quebrado tão facilmente. Mais uma lição que ele tinha aprendido bem. Ele não fez nenhum movimento para limpar o sangue, apenas olhou para a direção que ele pensou que Assaltante estaria.

— Foi porque você escolheu não fazer nada!

Isso o afligiu.

Seus punhos já pareciam mais como uma pedra do que uma mão, mas ele apertava ainda mais.

— O que é isso? Por que você não lutou contra os goblins? Por que você não fugiu com a sua irmã?

O ar se moveu ligeiramente. Assaltante provavelmente chegou perto o suficiente para encarar seu rosto, só para salientar. Ele conseguia sentir o cheiro de vinho na respiração de Assaltante, mas ainda não conseguia o ver.

— Foi porque você se recusou a lhe salvar. Questões de êxito ou fracasso, vida ou morte, vem mais tarde!

 

— Eu não teeenho poder! Eu não tenho naaaada!

— Oh! Os deuses me concederam força! Agora eu consigo matar os goblins!

— Oh! Um herói lendário foi meu mentor! Agora eu consigo matar os goblins!

— Oh! Olhe para essa espada sagrada que encontrei! Cuidado, goblins!

— Agora eu tenho o poder para fazer alguma cooooisa!

 

A cantoria zombadora de Assaltante ecoou por toda a câmara gelada.

— Acha que um garoto que não fez nada quando não tinha poder fará alguma coisa uma vez que o ganhe?

— …

— Mesmo que o fizesse, seria apenas um espetáculo! E todos os espetáculos acabam, mais cedo ou mais tarde.

Vuum. O ar ondulou outra vez. Ele não moveu os olhos, mas tentou seguir a sensação dele.

— Ouça — disse Assaltante. — Você não tem genialidade. Você não tem talento. Você é mais um vagabundo sem nome com nada para se distinguir.

Pat. Alguma coisa acertou suavemente seu peito.

Ele olhou apressadamente para cima para ver um olho olhando para ele abaixo. O pequeno orbe brilhante era de uma cor amarela e estranha, como uma tocha queimando.

— Mas, você é o único que cabe escolher.

Ele engoliu em seco.

— Quando você decidir agir, essa será a sua vitória. Não que você não será alvo de chacota se tentar e falhar.

A voz de Assaltante de repente ficou calma. Ele estalou os dedos e uma fogueira que ele deve ter preparado em algum momento ganhou vida.

As paredes brancas da caverna assumiram a cor das chamas.

Isso era sem dúvida uma fissura nevada, em sua volta com gelo, neve e ar frio.

Mas, no momento que esse pensamento o distraiu, Assaltante desapareceu, deixando nem mesmo uma sombra.

— Você precisa de sorte, perspicácia… e culhões! — berrou Assaltante com uma voz que ecoou perturbadoramente.

Ele tentou acalmar a respiração e a manteve aos poucos.

Ele tomou uma postura: braços elevados, pés ligeiramente afastados, quadris flexionados.

— Primeiro, decida se você vai fazer isso… então o faça!

— Sim, senhor.

Quando ele assentiu, algumas gotas de sangue voaram, respingando vermelho em todo o seu pé. Ele ignorou. Se concentre em não escorregar na neve.

— Se conseguir entender isso, você poderá transformar gigantes em pedra, esmagar aranhas maiores do que você, matar dragões, até mesmo derrotar o rei do inferno!

— Sim, mestre.

— Você tem azar e não é muito esperto. Mas, você tem força de vontade? Eu vou treinar tudo isso ao mesmo tempo… olhe para cima!

Ele olhou obedientemente para cima. Uma luz deslumbrante e perigosamente brilhante encontrou seus olhos.


 

 

[1] Na raw é 火箸 (Hibashi), —> IMAGEM <—, é praticamente hashis, só que de metal, e que os japoneses usavam para pegar carvão de uma cesta de carvão 箱炭斗 (hakosumitori).

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

6 Comentários

  1. ‘-‘ eu leio o MTG Gaiden (que é um mangá) e gente é bem diferente algumas partes principalmente a invisibilidade do velho rancoroso, mas foda.

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