MdG – Volume 2 – Capítulo 9 (Parte 1 de 5)

— Quando digo situação, quero dizer… essa coisa — disse Anão Xamã, quando os exploradores se reuniram no dia seguinte.

Nas regiões mais profundas das catacumbas, eles tinham encontrado uma sala com uma capela. Bancadas de pedra esculpida preenchiam a pequena sala, até o fim do que era um altar. Um espelho de corpo inteiro estava fixado na parede, com sua superfície estranhamente molhada. Era enorme, quase do tamanho de um escudo grande de batalha. Provavelmente um objeto de culto.

Se assim o for, então essa sala era um templo ou, pelo menos, algum lugar sagrado.

Eles haviam ido pela escada escondida, que descia e descia até, por fim, começar a subir de novo. E na sua extremidade mais distante estava esse corredor.

E o problema — a situação — estava descansando lá.

— O-o que… é isso…? — perguntou Sacerdotisa com uma voz baixa, espreitando nas sombras da entrada.

Alta-Elfa Arqueira, com suas orelhas caídas, balançou a cabeça.

— Não sabemos. Mas… acho que é um olho.

À primeira vista, alguém poderia o descrever como um olho voador.

O olho enorme era quase do tamanho de uma pessoa. Ele flutuava ligeiramente acima do chão, à espera dos aventureiros no meio da sala.

O monstro geometricamente em forma de pupila avermelhada se virava para ali e para lá. Da sua pálpebra — se assim se pode chamar — saíam tentáculos que balançavam. Na ponta de cada um havia um olho, um vasto número deles. Cada um parecia ser uma versão miniatura do olho principal de um jeito difícil de descrever, e cada um deles tinha um brilho cintilante. Sua boca estava cheia de dentes afiados que parecia de um gato grande. Parecia muito improvável ser amigável.

A criatura deve ter notado eles observando do corredor, mas ele não demonstrou reação. Parecia impossível que não os tivesse visto. Ele só não os tinha reconhecido ainda como uma ameaça.

Era uma coisa de outro mundo verdadeiramente profana, uma praga nesse lugar sagrado.

— Apenas por sua aparência, estou disposto a achar que é um agente do caos — disse Lagarto Sacerdote, com seus olhos se estreitando, descontente. — Ao menos, ele não foi criado por nenhum deus da ordem.

— Poderia contribuir para nosso crédito se livrar dele, mas, não sabemos bem o que é — resmungou Anão Xamã, dando de ombros.

— É um daqueles monstros cujo… cujo nome não deve ser falado — respondeu Sacerdotisa, tremendo.

Em uma aventura, poucas coisas são mais perigosas do que desafiar um inimigo que você não sabe nada. Se você não consegue estabelecer as suas linhas de frente e da retaguarda, pior ainda.

Três dos exploradores tinham ficado cara-a-cara com essa criatura estranha enquanto investigavam as ruínas no dia anterior. Foi Lagarto Sacerdote, seu melhor lutador, que os tinha ordenado a evitar o combate e determinou fazer uma retirada tática no dia anterior.

Não era isso um pouco além de extermínio de goblins? E não deveriam perguntar à sua registradora de missão, Donzela da Espada, por suas instruções?

— Isso não importa — disse sem hesitação Matador de Goblins. — Ainda é extermínio de goblins.

Depois disso, eles não tinham discutido com ele. O grupo não queria vir aqui, em primeiro lugar.

Mas, quais eram os aventureiros que não iam ocasionalmente em perigos desconhecidos? Em segurança, é claro.

Agora, vendo a criatura na capela, Matador de Goblins disse: — Olho Gigante será um nome bom.

— Nunca consegue um muito enfeitado, não é? — disse Anão Xamã com um pouco de sarcasmo.

— Se referindo ao Monstro Olho-Esbugalhado como um Olho Gigante — disse Lagarto Sacerdote, com seus olhos revirando de diversão.

— Nada mal. Eu concordo. — Alta-Elfa Arqueira assentiu, com suas orelhas balançando. Ela preparou uma flecha no arco e puxou sua corda suavemente.

— E — disse Sacerdotisa, trazendo seu cajado de monge para mais perto — o que vocês pretendem fazer sobre esse… Olho Gigante? Acha que devíamos começar com Proteção?

Ninguém contestou a ideia.

— Então, de acordo com nosso hábito, me permitam ir na frente. Quanto mais tanque termos, melhor.

— Vou ficar aqui atrás e atirar como sempre, tudo bem?

— Agora, e quanto a mim…? — Anão Xamã acariciou sua barba e olhou para o teto. Algumas raízes de árvores tinham se espalhado através da pedra antiga. O grupo estava provavelmente bem para fora da cidade agora, já não estavam debaixo das ruas da cidade da água. A vida vegetal que esteve crescendo nos campos por quem sabe quantos anos, tinha penetrado até aqui embaixo. Antes que tivesse passado mais séculos, essas ruínas pertenceriam provavelmente às árvores.

Era simplesmente um lembrete: Ninguém pode melhor que o tempo.

— Não importa como se analise, isso é um Olho Gigante.

— Tentando ser engraçado, anão?

— Deixe disso, orelhuda. Estou falando sério.

Anão Xamã ignorou soturnamente a provocação da elfa.

Dragões cuspiam fogo, harpias cantavam e cobras tinham seus venenos… Olhos Gigantes eram capazes de ver.

Alguém não sobreviveria subestimando todos aqueles tentáculos se balançando, nem o olho sinistro que se escondia abaixo deles.

— Tiremos sua visão — murmurou Matador de Goblins. — Não me importa como. Consegue o fazer?

— Tão certo quanto céu aberto. — Assentindo, Anão Xamã remexeu na sua bolsa de catalisadores, depois começou a percorrer sua mão sobre o chão aos seus pés. — Gnomos são muito bons. Mas, que tal eu levantar uma Parede Espiritual?

— Está bem.

Anão Xamã assentiu firmemente e deu um tapa na barriga.

A conversa acabou, Matador de Goblins começou a verificar suas armas e equipamentos.

Tudo parecia que funcionaria tão bem quanto um novinho em folha, mas sua armadura de couro bem usada estava quebrada, e isso o agradava. Ele fixou seu escudo pequeno firmemente no braço esquerdo; a espada que ele tinha limado estava boa para se usar em um espaço apertado. Tudo na sua bolsa de item estava em ordem. O último era, como de costume, seu capacete sujo.

Eram coisas terrivelmente ruins para um aventureiro. Até um principiante teria equipamento com melhor aparência.

Mas, aqueles que conheciam quem esse homem era, jamais o menosprezaria por isso. Matador de Goblins tinha exatamente o que ele precisava.

— Você podia tentar parecer um pouco mais legal — disse Alta-Elfa Arqueira com uma risada.

— Sim… — disse Sacerdotisa, franzindo seu rosto pensando nisso, antes de bater a palma ligeiramente. — Já sei! Que tal uma pena no seu capacete, Matador de Goblins, senhor?

— Não estou interessado.

Ele dispensou sumariamente a opinião das garotas, depois se levantou.

Alta-Elfa Arqueira olhou com surpresa para o lampião balançando em seu quadril.

— Ei, Orcbolg. Sem tocha hoje?

— Tem uma coisa que quero testar. O fogo só iria atrapalhar — disse ele, fechando cuidadosamente o anteparo do lampião. — Vamos.

Ao seu sinal, os aventureiros avançaram para dentro da sala e entraram na sua formação de batalha habitual. O anão e a sacerdotisa ficaram por detrás, se concentrando para que pudessem oferecer as suas magias e orações.

À princípio, o Olho Gigante só se arregalou com a intrusão rude.

Foi Sacerdotisa quem percebeu primeiro que isso era na verdade a forma de atacar da criatura.

Ó Mãe Terra, abundante em misericórdia, pelo poder da terra conceda segurança para nós que somos fra… Ahh!

— BEBBEBEBEBEHOOOO!!

Seus olhos abriram amplamente enquanto ela foi jogada pelo ar por uma onda de choque invisível.

Alta-Elfa Arqueira deu um grito quando Sacerdotisa foi açoitada, depois contorceu e caiu.

— Você está bem?! — gritou ela ruidosamente, tentando correr mesmo enquanto mantinha uma linha de visão para disparar. Sacerdotisa se sentou, arfando.

— Si… sim… — Pálida e se ajoelhando, ela assentiu.

Esse olhar brutal tinha cortado violentamente o fio do espírito que a ligava aos deuses acima. Parecia como se a sua própria alma tivesse sofrido o impacto, e seu espírito doía amargamente.

Mas, isso não foi o que chamou sua atenção quando se levantou, ainda agarrada ao seu cajado.

— Eu não posso… eu não posso usar magia…!


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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