MdG – Volume 3 – Capítulo 2 (Parte 1 de 10)

O dia de Matador de Goblins começou cedo.

Ele acordou antes do amanhecer, vestiu seu equipamento e patrulhou a fazenda.

O horário da madrugada criava uma boa prática de visão noturna.

Particularmente, assim que o verão acabava e o outono começava, as manhãs se tornavam escuras e frias. Um tempo bem adequado para ele, e para o goblins.

Nesses minutos gelados antes do horizonte se tornar visível ao longe, ele se dedicava ao treinamento e a vigilância.

Com olhos no chão à frente e arma na mão, ele dava um passo cuidadoso de cada vez.

Se um goblin aparecesse naquele exato momento, ele teria lidado com o tal calmamente e silenciosamente.

Eis quão minucioso ele era, quão minucioso ele queria ser.

— Bom dia! Está um bocado frio hoje, hein?

Assim que o sol nasceu, sua velha amiga se levantou com o canto dos galos.

Ela reclamou da temperatura, principalmente porque não usava nada além de roupas íntimas e um lençol.

Ela se apoiou para fora da janela, expondo alegremente seus grandes seios. Não era de se admirar que estivesse congelando.

— Vai pegar um resfriado. — Matador de Goblins mal olhou para ela, embainhando desapaixonadamente sua espada.

— Ah, estou acostumada. Vou ficar bem. O café da manhã estará pronto daqui a pouco, está bem?

— Não… — Ele inclinou a cabeça como se estivesse à escuta de algo, parecendo pensar. Por fim, ele balançou lentamente a cabeça. — Tem uma coisa que preciso fazer primeiro.

— Oh, sério?

— Por favor, vá em frente e coma. E… — Ele pensou por um momento, mas quando falou, foi no mesmo tom de sempre. — Provavelmente vou me atrasar à noite.

— …Claro. Está bem. — Vaqueira contraiu seus lábios com um pouco de decepção, mas logo depois estava sorrindo de novo. — Se certifique de guardar seus utensílios quando terminar de comer.

— Eu irei.

Com um aceno, ela desapareceu da janela. Ele se afastou dela, com seu olhar fixado no celeiro.

Bem, na verdade era o armazém inutilizado que ele passou a alugar.

Ele abriu a porta que rangeu e entrou.

O chão estava bagunçado com equipamentos e itens inidentificáveis. Ele empurrou as coisas para um lado ou outro, para abrir espaço.

Ele se sentou no espaço aberto que tinha feito desordenadamente, retirou a espada do seu quadril e pegou uma pedra de amolar.

Na luz tênue, Matador de Goblins conseguia ver que a lâmina estava começando a entortar, lascar e enferrujar.

Era dito frequentemente que uma espada não poderia cortar mais que cinco pessoas antes de cegar com sangue e gordura. Era verdade.

Mas, quantas vezes um cozinheiro de nível mundial, permanecendo o dia inteiro na cozinha, afiava sua faca?

Para um excelente espadachim, matar centenas de pessoas era essencialmente a mesma coisa. Mas o que era uma espada, na verdade, senão uma faca de cortar carne?

Só que no calor da batalha, a história era diferente. Muito mais para as espadas roubadas de goblins.

Para ele, armas e armaduras eram consumíveis. Elas poderiam ser retiradas dos inimigos se necessário.

— …

Mas, isso não era razão para negligenciar os cuidados dos seus equipamentos.

Matador de Goblins começou a polir sua espada.

Ele retirou a ferrugem, bateu na lâmina até se endireitar novamente e usou a pedra de amolar para retirar e afiar os lugares lascados.

Em geral, as pessoas acreditavam que uma espada só era boa se pudesse dobrar sem quebrar.

Mas a única coisa boa nessa arma era a habilidade do fabricante da Guilda que a fez. Era claramente uma obra simples de produção em massa, não uma lâmina famosa. Do jeito que era, ele poderia lançá-la sem hesitação.

— Próximo.

Ele pôs a espada de volta na bainha e se moveu para a próxima peça do equipamento.

Para o melhor ou para pior, ele havia substituído inteiramente seu escudo, armadura e capacete durante os acontecimentos na cidade da água. Particularmente, ele não queria usá-los para sempre, mas ele estava grato por eles ainda assim.

Consequentemente, tudo o que eles precisavam era de um bom polimento e uma inspeção rápida. Suas botas exigiam consideravelmente mais atenção, no entanto.

Elas, também, não eram nada especiais, do tipo que poderiam ser encontradas em qualquer lugar. Dito isso, elas eram importantes para andar e correr pelas cavernas e planícies, expulsar e esmagar inimigos. Ele dificilmente poderia ficar atolado em extensões normais de lama, muito menos em uma Trapeira.

Ele checou as solas das botas, raspando toda terra incrustada e limpando.

Ele verificou os cadarços, e se estivessem desgastados, ele os substituiria por novos.

Isso por si só reduzia a chance de ter um tropeço infeliz, e isso era razão suficiente para o fazer.

A seguir foram suas meias. Sua importância não pode ser subestimada. Elas eram cruciais para prevenir bolhas e problemas nos pés em caminhadas longas por terrenos ruins ou pântanos.

Seu mestre tinha feito pouco uso de calçados, mas isso foi porque ele fora um rhea. A raça de baixa estatura normalmente ficava descalça, o que era dizer que seus próprios membros eram “sapatos” melhores.

Se você pudesse ir a qualquer lugar sem fazer barulho, sem sequer escorregar, não havia nada a temer. Matador de Goblins sempre pensou que era uma habilidade que valia a pena aprender.

— Agora.

Tendo dado aos seus equipamentos uma olhada, ele ficou lentamente de pé.

Um capacete com manchas carmesim-escuras parecia ter caído de uma prateleira.

Era um equipamento antigo. Matador de Goblins o pegou e colocou de volta no lugar.

Agora seu armazém de itens estava bem organizado. Era hora de arranjar algum equipamento agrícola também.

Deixando a pedra de amolar onde estava, ele estava prestes a sair do galpão, quando viu uma figura na porta.

— …Você é um trabalhador dedicado.

— …Sim, senhor.

Ele avistou o fio de fumaça do tabaco na manhã magnífica.

O dono da fazenda estava encostado na parede, fumando seu cachimbo.

Ele tinha uma expressão sombria e Matador de Goblins curvou seu capacete bem levemente.

— Bom dia, senhor.

— Bom dia — disse o dono com a aspereza de uma clava. — Soube que prometeu ir ao festival com a minha garota.

— Sim, senhor.

— …Como seu pai adotivo, não sei se deveria ficar com raiva por isso.

Ele falou com um olhar azedo. Seus olhos se encontraram. Mas então ele sorriu.

Matador de Goblins notou que tinha esquecido inteiramente de como o sorriso do homem se parecia.

O dono franziu o rosto, abaixou a cabeça e coçou seus poucos cabelos.

— Sem me intrometer na sua vida, mas… — murmurou ele para ninguém em particular. — Sei que não tem intenção de a enganar. Mas, bem… não dê esperanças a ela.

— Sim, senhor.

— Ouvi dizer que você tem um bom número de mulheres perto de você… Eu sei, eu sei. Você não é do tipo em ser tão afetado por isso.

— Sim, senhor.

— Ela provavelmente deve saber também… Mas pense um pouco em seus sentimentos de vez em quando.

— …Sim, senhor.

O dono observou o aceno firme de Matador de Goblins, e aquela expressão ilegível regressou em seu rosto.

— Contanto que entenda isso. Ou… — Ele se cortou e lançou um olhar duvidoso para o capacete. — Você entende?

— Acredito que sim — respondeu Matador de Goblins. — Embora eu não esteja confiante.

Nisso, o dono esfregou a ponta do nariz com o dedo.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

11 Comentários

  1. Você realmente entende? O ‘entende’ dos dois eh o mesmo ou são coisas diferentes? Tomara que seja o mesmo…

    1. Eu acho que sim, mas para um aventureiro que só pensa em goblins eu tenho minhas dúvidas.

  2. “Para o melhor ou para pior, ele havia substituído inteiramente seu escudo, armadura e capacete durante os acontecimentos na cidade da água.” Ele fez isso e eu não percebi essa mudança…

    1. Opá, seja bem-vindo aos comentários do site @Klafico:disqus!

      Espero que esteja gostando tanto da obra quanto da tradução.

      Começamos a lançar recentemente Matador de Goblins 7x por semana. Então é só colar ai todos os dias depois das 11h30min — segunda e quinta 12h — que é sucesso!

      1. Obrigado pela recepção

        Sim estou gostando muito, ambos são excelentes

        Isso é uma ótima notícia, sempre que eu poder estarei acompanhando aqui no site.

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