MdG – Volume 3 – Capítulo 2 (Parte 6 de 10)

Era uma coisa ou outra envolvendo várias estacas, uma pá, alguns arames e um pouco de madeira.

Os olhos de Lagarto Sacerdote reviraram e brilharam com a perspectiva de batalha.

— Está planejando expulsar um vampiro?

— …? — Matador de Goblins inclinou seu capacete. — Por que acha isso?

— Creio que está bem estabelecido que alguém pode derrotar um vampiro com uma estaca de madeira branca.

— É?

— Acho que deveríamos ficar impressionados por você ao menos saber o que é um vampiro — disse Anão Xamã, meio exasperado e meio entretido.

Vampiros eram ranqueados com dragões como os monstros mais famosos do mundo.

É claro, a maior parte do conhecimento sobre os mortos-vivos era segredo, conhecido em detalhes apenas por magos e clérigos. Mas, para um homem que nem sabia o que era um ogro, ser capaz de reconhecer vampiros merecia uma atenção especial.

— Não estou muito interessado neles.

Depois de sua resposta breve e completamente previsível, Matador de Goblins voltou a apontar as estacas.

Mas então ele murmurou “Hm”, e parou subitamente de trabalhar, inclinando a cabeça. — Vampiros… Eles aumentam seus números mordendo as pessoas, não é?

— Ou assim se ouve.

— …Se um goblin se tornasse um vampiro, me pergunto como iria me preparar.

Anão Xamã suspirou, mas Matador de Goblins estava completamente sério.

— Bem, então — disse Lagarto Sacerdote, tocando a ponta de seu nariz com a língua. — Um goblin morto é um cadáver goblin. Caso venha a se mexer, não seria considerado algum tipo de zumbi?

— Seja como for — retorquiu Anão Xamã, mal conseguindo conter seu riso — não consigo imaginar ninguém querendo beber sangue de goblin para começar.

— Entendo. — Matador de Goblins balançou a cabeça firmemente. Se ele estava respondendo a insinuação de Lagarto Sacerdote ou de Anão Xamã, não ficou claro.

Depois ele retomou seu afazer, e a pilha de cavaco crescia enquanto eles observavam.

Anão Xamã abanou as lascas de madeira com seus dedos grossos, então começou a escolher os outros alojados em sua barba.

— Isso é para extermínio de goblins?

— É.

— Pensei que sim.

Aqui era onde Alta-Elfa Arqueira teria posto normalmente suas orelhas para trás com uma mudança gélida de atitude.

Mas, depois de meio anos juntos, Anão Xamã estava acostumado com essas coisas. Ele deixou passar.

— Então, suponho que não deveria perguntar os detalhes.

— É impossível saber de onde os goblins surgirão.

— Verdade, de fato — disse Lagarto Sacerdote, com sua cauda balançando suavemente. — É preciso estar sempre vigilante.

— Sim. — Matador de Goblins assentiu. — Eles são estúpidos, mas não são tolos.

Goblins não tinham desejo algum em aprender, mas quando eles aprendiam, poderiam usar ferramentas e estratégias. Mesmo Anão Xamã e seus amigos tinham sido muito pressionados lidando com goblins, que haviam aprendido o suficiente para tentar um movimento naval em uma aventura anterior. Se uma estratégia se espalhasse entre os goblins, significava problemas, mas esse homem em particular era muito rigoroso.

Anão Xamã e Lagarto Sacerdote eram ambos, à sua maneira, profissionais de suas raças. O anão era apaixonado por ferraria e trabalho, enquanto o homem-lagarto tinha uma inclinação para a batalha e força.

Para eles, obsessão e teimosia tinha uma espécie de beleza.

— Podemos tomar esse lugar ao seu lado então? — perguntou com cortesia Lagarto Sacerdote.

— Não ligo — disse Matador de Goblins indiferentemente. — Não sou dono desse lugar.

— Ah, ainda educado para perguntar — disse o anão. Mesmo enquanto falava, ele esticou um pano grande e se sentou.

Lagarto Sacerdote desamarrou um pacote que estivera carregando, espalhando seu conteúdo no pano.

Um olhar era o suficiente para dizer que os materiais eram para algum tipo de artesanato, mas não necessariamente o que seria. Ele tinha tiras de bambu, pedaços pequenos de papel de várias cores, juntamente com papel-óleo.

— Hm — murmurou Matador de Goblins, sem indicar uma pitada de surpresa. — Lanternas de papel… não, balões de papel.

— Ho, você é muito perspicaz, Corta-barba — disse Anão Xamã aprovadoramente, enquanto começava a montar os pedaços com movimentos hábeis.

As tiras de árvores de bambu nodoso eram leves e fortes, e os balões de papel formados delas eram uma parte clássica do ambiente do festival.

Eles eram simples o suficiente para se fazer: papel envolto sobre uma estrutura de bambu. Depois o papel oleado seria fixado dentro da estrutura, e a lanterna seria acesa.

— E aí, pelo que me disseram, eles flutuam para o céu. — Lagarto Sacerdote balançou lentamente sua cabeça alongada, como se estivesse com dificuldade em acreditar. — Tenho que ver com os meus olhos. Estou realmente ansioso por isso.

— Eles costumavam fazer isso em minha terra natal. Estou fazendo isso por Escamoso.

— Hum. — Matador de Goblins assentiu, examinando sua estaca na luz. — Não está perfeito… Mas também não está ruim.

— Então minhas expectativas por isso estão maiores — disse Lagarto Sacerdote, balançando a cauda em um dos seus gestos significativos. — Pois coloco grande fé no que você diz, Matador de Goblins.

“…É mesmo?” foi toda a resposta de Matador de Goblins. Ele se preparou para a próxima estaca.

O anão entendia o que significava quando um artesão ficava em silêncio. — Vamos, então, devemos começar também. — Ele pegou os materiais com um sorriso suave. — O festival é amanhã. Temos de estar prontos.

— De fato. Aguardo as suas instruções.

Lagarto Sacerdote enrolou sua cauda longa e se sentou perto de Anão Xamã.

Mas as mãos do anão se moviam muito rápido. Quem adivinharia que seus dedos atarracados poderiam fazer um belo trabalho? Ele tecia uma estrutura atrás de outra, sua produção não era menos mágica do que algumas de suas magias.

Ninguém poderia se igualar aos anões em trabalho manual. Mesmo os elfos estavam um passo atrás.

A função de Lagarto Sacerdote era colocar os papeis cobrindo as estruturas terminadas. Ele se esforçou em impedir suas garras de rasgar o papel, mas, francamente, era bastante difícil para ele.

Ao mesmo tempo, no entanto, seu trabalho era preciso e prudente. Parecia refletir sua personalidade.

— Me pergunto que costumes residem por trás dessas coisas — disse Lagarto Sacerdote. Ele exalou e limpou sua testa, como se para limpar o suor que não podia estar lá.

Anão Xamã pegou uma jarra de vinho com a mão e molhou os lábios, então murmurou: — Boa pergunta. Não sou daqui dessa área. Sei como fazer um balão de papel, mas não porque os usam nesse festival…

— …Você os vê em muitos lugares — disse brevemente Matador de Goblins. Os outros olharam para ele, surpresos.

Ele continuou aparando a estaca, aparentemente alheio a eles.

— Eles atraem bons espíritos e expulsam os maus. Eles mostram aos mortos o caminho para casa. Eles são semelhantes às lanternas de vegetais.

— Sabe um bocado sobre eles, hein?

— Minha cidade natal — disse Matador de Goblins — era perto desse festival. Como poderia não saber disso?

— Hmm. Confesso que não faz muito sentido para mim. — Lagarto Sacerdote coçou o nariz com a garra.

Seu povo acreditava que coisas mortas retornavam à terra, ou na carne daqueles que os comeram, em um grande ciclo. Os “mortos-vivos” não eram aqueles que haviam voltado da morte, mas cadáveres possuídos por espíritos malignos.

— Mas… — Os olhos de Lagarto Sacerdote reviraram. — Luto pelos mortos, nós entendemos. Talvez seja bom pensar que eles vão voltar para casa.

— …Concordo. — Matador de Goblins assentiu. — Deveria ser.

Então ele não disse mais nada. Suas mãos continuaram trabalhando, com sua expressão completamente escondida pelo seu capacete.

Cada vez que a serragem se acumulava, ele as varria para longe, afiando sua lâmina sempre que se cegava com a madeira.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

  1. Goblins vampiros…, Se eles existirem seria interessante ver as estratégias do MdG para exterminá-los…

    1. Gostaria de ver como a estória se desenvolveria a parte desse ponto. Mas não tenho esperança que eles existam.

      1. Eu também gostaria de ver, mas também sei que é melhor não ter nenhuma esperança nisso…

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