MdG – Volume 3 – Capítulo 4 (Parte 3 de 7)

Era como o olho de um furacão.

Por mais agitada que a cidade estivesse, esse edifício por si só estava coberto de silêncio.

A Guilda dos Aventureiros.

Em um dia tão brilhante e festivo, não havia ninguém aqui para apresentar uma missão, tão pouco algum aventureiro para pegá-la.

Garota da Guilda destrancou a porta da frente, levando Matador de Goblins para dentro.

— Pode ficar à vontade. Já venho em um segundo.

— Entendi.

Suas vozes ecoaram em um lugar normalmente tão barulhento que era difícil de se ouvir.

Era impressionante quão solitário o edifício parecia sem ninguém.

Matador de Goblins estivera em inúmeras ruínas abandonadas, mas ele nunca havia sentido isso antes. É claro, ruínas raramente ficavam silenciosas por muito tempo depois de ele aparecer.

— Hmm…

A silhueta de um banco se estendia no interior escuro e a sua própria sombra dançava pelas paredes enquanto caminhava.

Apanhado entre o silêncio e as sombras, ele se sentia um fantasma.

Matador de Goblins fez o que sempre fazia, foi até o quadro verificar.

Todas as missões urgentes tinham sido retiradas em antecipação ao festival. Os pedaços de papel sobrando eram todos de aventuras não-críticas.

Remover ratos do esgoto. Coletar ervas. Livrar-se de um Miconide nas montanhas.

Recolher itens antigos para um colecionador de raridades. Patrulhar as estradas. Confirmar a linhagem do filho ilegítimo de uma casa nobre.

Explorar ruínas inexploradas. Escoltar uma caravana mercante…

— Hmm.

Matador de Goblins folheou tudo de novo, só para ter certeza.

Mas, não. Nenhuma missão de goblincídio.

— …

— Uhhh, ah, aí está você. Já estou pronta.

Ele se virou para ela, ainda com seu raciocínio.

Garota da Guilda estava acenando para ele da área de recepção, ela parecia segurar uma chave.

— Venha para cá! Está bem, vamos!

E então ela se abaixou atrás do balcão da recepção, deixando Matador de Goblins onde estava.

Com um último olhar para o quadro, ele finalmente a seguiu.

Ele havia se filiado a essa Guilda há cinco anos, mas nunca estivera na área das empregadas.

— Isso é permitido? — perguntou ele, à qual Garota da Guilda respondeu com ligeireza “Não” quando espiou de volta para ele.

— Por isso ficará só entre nós. Não diga a ninguém, está bem?

Ela mostrou a língua provocantemente e Matador de Goblins assentiu.

— Está bem.

— Sério? Ficarei triste se estiver mentindo.

— Sim, sério.

— Então acredito em você.

Ela se virou de novo, com sua trança saltando no ar. Matador de Goblins seguiu mais para dentro.

Ele ouvia um som estranho, Garota da Guilda cantarolando. Ele não reconhecia essa canção.

Por fim, ainda muito alegre, ela ficou diante de uma porta velha, girando a chave ruidosamente na fechadura.

Para além dela, havia uma escada em espiral desgastada.

— É aqui em cima. Vamos!

— Entendi.

A escada não rangeu quando Garota da Guilda pisou, mas sim quando Matador de Goblins começou a subir. Apenas pelos rangidos de passos, alguém presumiria que só havia uma única pessoa.

— Oh, graças aos céus! — disse Garota da Guilda, pondo a mão no peito e se endireitando. — Se tivesse rangido sob o meu peso, eu não conseguiria ficar de pé devido ao choque!

— É mesmo?

— Claro. Garotas são muito preocupadas com essas coisas.

— É mesmo?

An-ham, assentiu ela.

Ela olhou para trás sobre o ombro e provocou: — Teria sido melhor se eu estivesse usando uma saia, Sr. Matador de Goblins?

Ele balançou a cabeça e disse: — Mantenha seus olhos à frente. Não iria querer tropeçar e cair.

— Ahh, mas você está aqui para me pegar.

— Mesmo assim.

— Está bem…

Ela parecia bastante animada, embora ele não tivesse certeza do que ela estava se divertindo tanto.

Logo eles chegaram o nível máximo do espiral. Lá eles encontraram outra porta velha.

— Espere um momento — disse Garota da Guilda, usando uma chave enferrujada para abrir. — Esse é o lugar que queria te trazer.

— …Eu?

— Sim… Vá em frente.

Ela abriu a porta.

Assim que ela o fez, uma corrente de ar se precipitou e sua visão ficou repleta de dourado.

Montanhas de tesouros e joias, o suficiente para confundir os sentidos… não.

Era o próprio mundo, refletindo a luz profunda do sol.

Montanhas, rios, colinas cheias de margaridas, florestas e fazendas. A cidade, o templo, a praça. Tudo.

Essa era a torre de vigia da Guilda, e a partir dela uma pessoa poderia ver tudo em qualquer direção.

Por mais alto, por mais distante, era visível dali.

Multidões agitada, músicos tocando. Risos. Uma canção. Tudo alcançava a torre.

Se a Guilda era o olho da tempestade, esse era o lugar para visualizar a tempestade em si.

Viva e alegre, um dia bonito o suficiente para se celebrar.

E Matador de Goblins estava em seu âmago.

— …Que tal? Surpreso?

Garota da Guilda estava no corrimão, passando as mãos por ele. Ela espiou o capacete, mas não conseguia ver nada.

Mas — ela acreditava — que não havia ninguém mais fácil de se compreender do que ele.

Não exigiu muita atenção para entender o seu objetivo quando ele deu voltas na cidade.

— Estava patrulhando, não estava?

Pelas ruas, verificando os esgotos, observando os rios por algum sinal qualquer de goblins.

Isso era quem essa pessoa era.

Então certamente, se ele visse tudo da torre de guarda, ele poderia…

— …Relaxou um pouco?

— Não… — Matador de Goblins balançou a cabeça lentamente com a pergunta de Garota da Guilda. — Acho.

Ele soltou um suspiro suave.

— Isso está certo? — murmurou ela, se apoiando no corrimão.

Sua trança dançava ao vento. Ela não olhou para ele.

— Mesmo que você já tenha trabalhado tão tanto para matar todos os goblins?

— Mais uma razão.

A luz ficou fraca. O sol estava se pondo, afundando no horizonte. Mesmo os dias mais belos tinha que acabar.

— …

— …

No seu lugar, luas gêmeas se erguiam juntamente com uma fina névoa roxa. O céu estava cheio de estrelas, nítidos pontinhos frios de luz.

A cidade estava coberta de preto, tão quieta que parecia que todos estavam prendendo a respiração.

O vento se cortava nos dois na torre de guarda com um som triste.

Outono, afinal, era o prelúdio do inverno.

Eles já podiam ver suas respirações enevoando.

E de repente, ela sussurrou:

— Olhe, está começando!

O dourado desapareceu e o par mergulhou nas sombras.

Então, uma luz.

Uma.

Duas.

Três.

Quatro.

Cinco.

Por fim, muitas para se contar.

As lanternas pequenas brilhavam como estrelas refletidas em um rio. Pela cidade escura aqui e ali elas piscavam, balançavam e brilhavam.

Finalmente, as luzes alaranjadas começaram a flutuar em direção ao céu como vaga-lumes.

Como neve caindo ao contrário, elas flutuaram, dançando até os céus.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

7 Comentários

    1. Eu também espero que continue tranquilo (no encontro), mas ao mesmo tempo espero um pouco mais de emoção kkkk

  1. Ah então foi um ataque indireto, é uma pena já que o MdG é imune a esses ataques kkk

    PS: Acho que aquela ilustração colorida do MdG e a Garota da Guilda iria pegar bem nesse final…

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