MdG – Volume 4 – Capítulo 1 (Parte 6 de 8)

— Muuuuito bem! Aqui vamos nós!

— Certo, vamos rever a lista!

Nos arredores da cidade, logo após o amanhecer — com a neblina violeta azulada da manhã ainda suspensa no ar — as vozes de um garoto e uma garota podiam ser ouvidas perto da vala de esgoto.

— Antídoto!

— Confere!

— Suprimentos de primeiros socorros!

— Pomadas e ervas, confere!

— Luz!

— Um lampião do Conjunto de Ferramentas de Aventureiro, um pouco de óleo e uma tocha! E você?

— A Vela de Busca… Humm, mapa!

— Confere! Com isso quero dizer que peguei emprestado quando aceitamos nossa missão.

— Tudo bem. Agora, armadura!

— Minha armadura de couro ainda meio que fede… meu escudo também. Agora, me deixe te ver.

— Eu? Não tenho intenção de ser atacada usando essas vestimentas.

— Não me interessa, apenas me mostre. Senão, que adianta a lista de verificação?

— É, tudo bem… Última, armas!

— Confere!

E com isso, Guerreiro Novato pegou sua clava rudimentar — mas novinha em folha — com a mão direita.

Era tão intocada que ainda parecia ter uma etiqueta presa. O comprador comum teria considerado um item barato, mas o jovem dificilmente pensaria isso.

— Bom — disse Sacerdotisa Aprendiz, acenando para a clava. Ela abriu os braços e girou uma vez. As mangas de seu vestido branco inflaram. Havia costuras e rasgos em alguns lugares, mesmo assim estava limpo e atrativo.

— Estou bem?

— Você devia remendar alguns lugares mais tarde.

— Se depender de eu remendar ela… — Sacerdotisa Aprendiz pôs as mãos na cintura, e com uma expressão séria ela deu um grito. — Não cumpriremos a nossa meta de hoje, isso sim! Estaremos arruinados!

— Não acho que as coisas estejam tão ruins assim…

— Mas é com essa atitude que você tem que ir!

Guerreiro Novato parecia estar relaxado; Sacerdotisa Aprendiz lhe deu um bom golpe com sua espada-e-balança. — Nós nem temos dinheiro para voltar para casa. Você acabaria como um servo, e eu como… você sabe…

— Uma prostituta? Pfft, quem te contrataria?

— Como ousa falar assim, idiota! — Seu rosto ficou vermelho-vivo e ela deu uma cotovelada no flanco do garoto, bem onde sua armadura estava atada.

Ela olhou para ele tremendo e se contorcendo, e então bufou.

— Enfim, você entendeu?

— S-sim, entendi, mas… Bem, sim. — Guerreiro Novato se recompôs, ajustou seus itens na mão e assentiu energicamente. — Daremos um jeito nisso de alguma forma!

Essa era uma cidade fronteiriça, um dos lugares que as pessoas trabalharam para reivindicar, e havia um esgoto aqui porque, obviamente, alguém tinha construído.

Uma coisa era quando uma cidade era construída sobre algumas ruínas antigas, como a cidade da água, outra era ter serviços públicos em um campo desocupado. Anões artesãos e magos, construtores talentosos de todos os tipos, foram chamados para construir o esgoto de pedra do zero.

O esgoto fora construído porque a cidade estava prosperando, ou a cidade prosperou porque o esgoto foi construído? Guerreiro Novato não sabia o que aconteceu primeiro.

Raio, nem sei como isso funciona.

Para além das portas de metais enferrujadas e escadas que desciam, estava uma masmorra sombria e úmida.

Uma passarela se estendia ao longo do canal que corriam as águas residuais, e um fedor asqueroso flutuava por todo o lugar.

Sem hesitar, Guerreiro Novato cobriu a boca com um pano; Sacerdotisa Aprendiz franziu o rosto e pôs um tapa-nariz.

O esgoto era novo, mas ratos e baratas gigantes eram atraídos pela sujeira.

Por alguma razão, Personagens Que-Não-Rezam — os NPC — pareciam aparecer naturalmente nesses lugares. Mais um motivo para se livrar deles antes que alguma ameaça ainda maior surgisse…

— Então, para que lado vamos?

— Ah, hum, espere!

Enquanto Guerreiro Novato parou com o quê, para ele, era visto como vigilância constante, Sacerdotisa Aprendiz pegou alguma coisa apressadamente.

Ela pegou uma pederneira e acendeu o lampião, depois pendurou em sua cintura. Ela o abriu e tocou a vela na chama.

A Vela de Busca queimava com uma chama azul e branca estranha; Sacerdotisa Aprendiz podia sentir ela ficando progressivamente mais quente em sua mão.

— …Como está?

— Está quente, mas ainda meio que…

— Se certifique de manter a minha espada nitidamente em sua mente.

Eles estavam lá para encontrar uma espada, verdade, mas também para matar ratos. Eles tinham uma cota para cumprir.

Guerreiro Novato, decidido que iriam conseguir tudo o que vieram fazer, partiu, ignorando vários túneis de esgoto até que finalmente alcançaram as profundezas.

Era o ninho dos ratos gigantes que eles tinham finalmente localizado depois de se aprofundarem na busca.

— …Ohh, aqui estão eles.

Talvez tenha sido a corrente que trouxera boa parte dos resíduos de comida da cidade para aqui.

Era isso que os ratos desproporcionais procuravam. Um deles, dois…

Guerreiro Novato cuspiu na mão e esfregou no cabo da sua arma, depois avançou nas criaturas.

— Iaaaaaahh!

— GYUUI?!

Um deles fugiu do garoto, mas ele acertou aquele que estava concentrado na refeição.

Houve um som seco de impacto que era totalmente diferente de atacar com uma espada. Ele sentiu a arma se conectar com o pedaço de carne.

O rato gigante gritou e caiu longe, mas ainda estava vivo.

— Você… morre… agora!

Ele há muito tempo havia descartado qualquer senso de simpatia pelos monstros. Era matar ou ser morto. Se eles enfiassem seus dentes em sua traqueia, era ele que morreria.

— Uoo! Iaa!

O rato gigante se levantou e saltou nele com as presas à mostra.

Guerreiro Novato o recebeu com seu escudo, jogando seu peso para trás em um golpe de corpo. Seu braço esquerdo, aquele que usava o escudo, formigou com o impacto do pedaço de carne pesando quase dez quilos.

— Ora… seu…!

Mas Guerreiro Novato tinha a vantagem se tratando de peso corporal.

Ele se apoiou contra a passarela suja para evitar cair, então moveu sua clava de cima para baixo na cabeça do rato.

Não havia nenhuma técnica, nenhum segredo. Uma briga de beco tinha mais sofisticação.

— GYU?!

Houve um crack como o quebrar de um galho molhado quando a coluna do rato quebrou. Outro golpe. O rato gigante se contorceu.

Ele verificou que os olhos do rato estavam em branco, e só então Guerreiro Novato finalmente limpou o suor de sua testa.

— O-o que houve com o o-outro…?!

— Ele já correu.

Guerreiro Novato sondou a área, enquanto a garota segurando nervosamente a espada-e-balança suspirou.

Ela andou rapidamente até ele e com um olhar atento checou o garoto em busca de ferimentos.

Guerreiro Novato fechou sua mão para confirmar se ainda estava respondendo, depois a abriu; então ele moveu seus braços e pernas também.

Ele estava sem ferimentos. Ele não fora mordido. O rato estava espumando sangue, mas nada dela era sangue dele.

— Estou… bem.

— …Parece que sim.

Bom. Sacerdotisa Aprendiz assentiu. Eles não precisariam usar seu antídoto ou qualquer um dos seus itens de cura.

— Então, como serviu a clava?

— Ainda não tenho certeza… — Guerreiro Novato fez um movimento descuidado com a arma. Ela não era afiada como uma espada, mas era mais pesada que uma, e isso trazia uma curiosa confiança. — Mas sei que se eu acertar alguma coisa com ela, vai morrer.

Ele não pôde evitar de suspirar, pensando em quão distante estava da atitude descontraída de Lanceiro ou a firmeza de Guerreiro de Armadura Pesada.

Foi só um rato.

Mas era um bom começo.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

  1. Ao menos percebeu a dica do Matador de Goblins e usou uma clava. Quero ver como ele vai se sair contra as baratas agora…

  2. Aí eu penso no mdg vendo ele… que satisfação aspira!!! Só falta agora ele ficar viciado em matar goblins e vamos ter um mdg junior.

    Aposto que se fosse qualquer outro aventureiro não prestaria atenção na dica do mdg só porque ele mata apenas goblins… “aim cara noobão só mata goblins”

        1. Os dois kkkk
          Já que alguns aventureiros falaram que ele parece um “morto-vivo de armadura”

  3. “Ele não pôde evitar de suspirar, pensando em quão distante estava da atitude descontraída de Lanceiro ou a firmeza de Guerreiro de Armadura Pesada.”
    Só acho que ele esqueceu de mencionar a ousadia, inteligência e resistência do MdG kkkk

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