MdG – Volume 4 – Capítulo 2 (Parte 2 de 4)

— A Guilda pode dar sua promessa, mas tenho certeza de que não quero esbarrar com nenhum bandido…

— E eu, eu tenho medo de magia negra…

As vozes sussurrantes pertenciam aos dois homens na casa dos vinte anos que pareciam ansiosos.

Eles seguravam machados feitos para cortar lenha, e os ajustavam e reajustavam impacientemente nas mãos.

— Ouvi dizer que não se pode baixar a guarda para as moças também, ou elas sugarão a alma de você!

— É, também ouvi dizer isso — disse um antigo soldado mais baixo que pôde. — Tinha uma jovem na aldeia dos fabricantes de seda através da cordilheira?

— Ah, sim, tinha.

— Bem, ela disse que não queria uma vida longa comendo pão duro. Ela iria viver uma vida boa e curta como uma aventureira.

— Deixou a casa, né?

— Certamente. Mas sabe do que mais, foi realmente porque ela estava A-P-A-I-X-O-N-A-D-A por uma elfa, uma feiticeira que viera à aldeia.

— Ah, caramba…

— É claro, às vezes é ao contrário. Garotas são pegas e estupradas o tempo todo por aventureiros que vêm para sua aldeia, não é?

— Acho que você já disse besteiras o suficiente. Meu avô não disse? — O líder do grupo, um homem de vinte e poucos anos que parecia ser provavelmente o próximo chefe da aldeia, falou com uma expressão séria. — As únicas aldeias que sobreviveram a um ataque goblin foram as que contrataram aventureiros.

— É, mas…

— Ou deveríamos enviar aos diabinhos a sua filha como uma oferenda?

— Olha…

— Você deve ter ao menos ouvido a história do mercador viajante cuja filha foi levada.

O antigo soldado concordou enquanto o homem tímido choramingava que isso não foi bom, que nem sequer suportava pensar.

— O que sei é que meu avô não está errado. Ele sabe muito mais sobre combate do que eu.

— É, mas… mas eles são goblins. Não temos que contratar nenhum aventureiro, certo? Se apenas o deixarmos em paz, não vai…?

— Quando um ou dois aparecem, você pode os afugentar. Goblins não são nada demais. — Seu líder balançou a cabeça, ainda parecendo sério. — Mas vovô disse que quando eles começam a montar um ninho… eles virão atrás de nossas esposas e filhas.

— É…

— Mas, olhe. Não é muito esperar que possamos matar todos os goblins nós mesmos, hum? — Quando o antigo soldado falou, o homem tímido deu um gritinho como se estivesse enfrentando a morte naquele momento.

— Co-co-co-co-com certeza, não podemos — disse ele. — Talvez eu pudesse enxotar um goblin que viesse à aldeia, mas…

— Bem, é isso aí — disse o antigo soldado. — É dessa forma que os aventureiros colocam comida na mesa… deixe-os lidarem com isso.

— Tsc — murmurou o líder — mas que chorão, covarde…

— Vamos, você tem que pensar nos sentimentos dele — disse normalmente o antigo soldado, protegendo o homem tímido da chacota. — Sabemos que é noivo da filha do chefe, e você está pronto para o futuro, mas nem todos têm isso a favor.

Face a esse argumento, todo mundo se calou, incluindo o líder.

Os jovens da aldeia eram todos fascinados por aventureiros. Eles queriam amar as mulheres, comer comida deliciosa, viver uma vida boa. Eles não queriam passar a vida arando a terra do país. Eles achavam melhor lutar com um dragão. A prontidão para enfrentar a morte vinha facilmente aos seus lábios, quando não no coração.

E as jovens eram muito parecidas. Tudo o que podiam aguardar ansiosas era se tornar uma das cabeça-ocas que não tinham nada além da casa e trabalho na fazenda para fazer, ou servir o deus no templo para rezar até o momento da sua morte. Se tivessem azar, poderiam ser atacadas e estupradas por bandidos ou algo assim, ou ficarem tão pobres que se vender se tornaria a única saída…

Então por que não deveriam preferir passar a noite sonhando com um aventureiro, ou abraçar a fantasia de viajar com um? A mais forte entre elas poderia até querer reivindicar seus direitos como aventureira, como os homens.

— Bem, qualquer um se preocuparia com a própria filha, irmã, filho ou irmão.

A vida pioneira na fronteira era cruel.

Monstros estavam sempre aparecendo, e você não poderia contar com o exército vir e te proteger. Sua Majestade o rei, cujo rosto nunca sequer foi visto, estava certamente ocupado lidando com dragões, deuses das trevas e coisa assim.

Um templo onde eles rezavam aos deuses em seu nome poderia ser construído como medida de apoio, e talvez isso fosse reconfortante, de certa forma.

E havia impostos. A chuva caia, o vento soprava, o sol brilhava. Alguns dias eram nublados. E havia goblins.

Se o dinheiro esgotasse, havia sempre a prostituição ou uma viajem para algum lugar para encontrar trabalho… e para os jovens, era normal sonhar em se tornar aventureiro.

Se fosse o que queriam, eles poderiam tentar se tornar empregados na Guilda dos Aventureiros na Capital…

Mas sem educação ou dinheiro, isso, também, era apenas um sonho dentro de outro sonho.

— Espero que um aventureiro bom e forte venha até nós…

— Espera? É por isso que o rei gasta os nossos impostos construindo Guildas. Não precisa se preocupar.

— …É.

Mas premente do que seus sonhos ou dinheiro, eram os goblins que estavam bem próximos.

Os três jovens olharam um para o outro, depois suspiraram profundamente.

Provavelmente foi por isso que nenhum deles notou o garoto se esgueirando silenciosamente na floresta, completamente só.

Goblins.

O que era exatamente essas criaturas que os adultos tinham tanto medo?

O garoto nunca vira um, então agora ele queria dar uma olhada.

Assim eu vou ter algo para me gabar!

Era a simples lógica de uma criança.

Ele ouvira dizer que os goblins eram os monstros mais fracos. Ele sabia, também, que quando um ou dois apareciam na aldeia, os adultos o expulsavam.

Se isso fosse verdade, talvez ele pudesse lidar com eles.

E se pudesse…

Eu poderia me gabar ainda mais!

O garoto andava descuidadamente por uma trilha familiar, agitando sua espada de madeira.

Os humanos não faziam uso dessa floresta, e estava escuro mesmo ao meio-dia. As árvores eram densas; os odores de musgo e animais se misturavam no ar.

Ele fora avisado frequentemente que era perigoso, mas hoje estava especialmente perturbador. Mas o perigo e a estranheza eram porque ele vinha muitas vezes aqui para brincar.

— … Hum?

O garoto parou quando viu uma série de pegadas desconhecidas no lugar que sempre brincava. Elas eram maiores que as de sua amiga e do mesmo tamanho que as suas. Elas não eram de lobo, de raposa ou de veado.

— …Um goblin?

No momento em que ele disse, o vento soprou pela grama e folhas.

Ele engoliu em seco. Ele descobriu de repente que sua boca estava seca e sua garganta doía.

As palmas do garoto começaram a suar e ele reajustou rapidamente sua mão na espada.

— S-se estiver aí, então v-venha me pegar…!

Atuando como corajoso — embora ele não considerasse estar atuando — o garoto fez o que pôde para parecer preparado.

O vento soprou de novo, levando um cheiro úmido e fétido com isso.

Onde está ele?

O garoto inspirou fundo e soltou. Eventualmente, ele começou a se mover de novo.


KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

9 Comentários

  1. Então o menino não é o MdG (senti até um alívio), mas em compensação a curiosidade desse menino pode levá-lo a um fim trágico(sinceramente espero que nada de mal aconteça a ele)…

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