MdG – Volume 4 – Capítulo 3 (Parte 5 de 5)

Guisado, na verdade, era um prato de carne cozida, não uma sopa. Mas a comida que ela descreveu usava muito leite. Em suma, a impressão que isso fez foi…

— Surpreendentemente… normal?

— Exato — assentiu Vaqueira com um sorriso. — É totalmente normal.

— Digo, é apenas um guisado simples, não é?

— Isso mesmo — disse ela, não deixando o sorriso sumir — Apenas um guisado normal.

Foi inesperado, para dizer o mínimo.

A garçonete tinha certeza de que havia algo mais… único na receita. Ela esfregou a têmpora com a parte de trás da pena.

— É algum tipo de receita especial, passada pela sua família por gerações?

— Ha-ha-ha. Acho que sim. — Vaqueira sorriu ligeiramente e pulou da caixa. Ela bateu as mãos para tirar a poeira, então se alongou, arqueando seus peitos generosos. — Não foi como se tivesse aprendido de minha mãe… Embora gostaria de ter.

Garçonete Felpubro inclinou a cabeça com o murmúrio.

— Seus parentes, então?

— Um vizinho. — Vaqueira olhou para o céu azul e semicerrou os olhos. O vento passou pelo seu cabelo vermelho. — A garota mais velha que vivia ao lado.

— Olá, bem-vindos!

— Opa. Nos traga três ales e duas águas com limão… para começar!

— Certamente!

— E, hum… é, a travessa de batata ao vapor será o suficiente. Para cinco!

— É para já!

A taverna no pôr-do-sol. Garçonete Felpubro abria caminho pelas conversas diversificadas dos aventureiros.

Era a mesma vivacidade de sempre. Os mesmos rostos. Era maravilhoso.

Mais um dia em que eles poderiam voltar para casa e comer alimentos e bebidas deliciosos. Apenas isso era o suficiente para motivar todo mundo.

— Pedidos chegando, velhote!

— Pode deixar. Tente não os deixar esfriar… ou cair!

Essa era a resposta favorita de Chef Rhea.

Ela espiou a cozinha, onde uma sopa fervia ruidosamente, uma frigideira escaldava e uma faca passava velozmente pelos ingredientes.

E claro, o chef estava no meio disso tudo, com seus braços curtos se movendo incessantemente.

Ele faz bastante coisa com esse corpo pequeno.

Ela nunca se cansava de observá-lo, mesmo que o visse todos os dias.

Quando os pratos saíam, Garçonete Felpubro os empilhava nos braços, olhando para a panela mais no fundo da cozinha.

— Está certo? Ainda não ferveu?

— Quê? Está me dizendo como cozinhar? Isso é culinária equivalente a uma criança de cinco anos!

— Está bem, está bem. Era só para confirmar.

Sentindo um sermão chegando, ela ajeitou sua cauda e a saia, e se afastou.

Esse sempre foi o momento favorito de Garçonete Felpubro na taverna.

Ela poderia das as boas-vindas aos aventureiros enquanto chegavam em casa, vendo seu alívio em voltar.

Também havia aqueles aventureiros que não puderam voltar para casa. Ela tinha fé de que estava viajando para algum lugar.

O que houve com o aventureiro, e onde, era algo que só o mais valente poderia dizer…

— …Humm?

As orelhas de Garçonete Felpubro se contraíram subitamente. Elas haviam captado passos indiferentes, ousados e quase violentos se aproximando.

A armadura de couro suja, o capacete de aço medíocre, o pequeno escudo redondo no braço e a espada de tamanho estranho no quadril.

E com a aparição de Matador de Goblins, é claro, a taverna ficou em silêncio por alguns instantes.

— Senhor?!

— …A recepção me disse para não se esquecer de passar na taverna. — O capacete de aço se inclinou um pouco com o som de surpresa que escapou dela. — O que foi? Há goblins aparecendo aqui?

— Ah, não! Senhor, por favor, espere aí um momento.

— Está bem.

Deixando o estranho — mas assentindo — homem onde estava, Garçonete Felpubro correu para a cozinha.

—Oh… Oh-ho! O que foi agora?

— Dê-me um prato, velhote! Só um pequeno!

— Diga isso para a pessoa que os lavou!

— Fui eu!

Ela pegou um prato da prateleira de louças enquanto gritavam um com o outro. Ela colocou um pouco de guisado nele, depois correu de volta para a taverna para que pudesse servir ele enquanto ainda estava quente.

— Prove!

— … — Matador de Goblins olhou duvidosamente para o prato que Garçonete Felpubro colocou na frente dele. — Guisado?

— Isso mesmo!

— Para que eu prove?

— Isso mesmo!

— …Entendi.

Ele pegou o prato relutantemente, mas depois engoliu habilmente através da sua viseira.

Lá se foi a expectativa de Garçonete Felpubro que ele pudesse tirar o capacete enquanto comia. Mas…

Matador de Goblins deu um ligeiro “Hmm” surpreso.

As orelhas da garçonete não eram tão boas quanto de um elfo, mas elas não perderam isso.

Ela tinha conseguido. Um sorriso gracioso surgiu em seu rosto enquanto perguntava triunfantemente: — O que achou? Muito bom, não é?

— Sim — assentiu Matador de Goblins. — Nada mal.

— Iiiissso!

Ela acabou por erguer o punho para o alto e deu um viva de vitória. Ela nem sequer se preocupou com os aventureiros que olharam, tentando entender o que estava acontecendo.

— Sim! Demais! Consegui! — Ela girou, com a bainha de sua saia flutuando, depois disse alegremente: — Então você vai comer essa noite, não é, senhor? Qual o seu pedido? Guisado?

— Nada. — disse Matador de Goblins. — Estou bem por hoje.

— O quê?! Por quê?!

Garçonete Felpubro ficou tão surpresa que quase deixou o prato cair, se esforçando para não o deixar cair. Matador de Goblins disse: — Alguém está esperando por mim.

Sua voz foi breve, desapaixonada e fria, quase mecânica.

Mas Garçonete Felpubro pestanejou com as palavras. Ela olhou atentamente para o capacete.

Em sua mente, o olho vermelho olhando de dentro se sobrepôs com outro olho vermelho mais claro.

Ah…

Então era isso.

— O que foi? — Matador de Goblins inclinou a cabeça questionadoramente para Garçonete Felpubro, que tinham sorrido de repente.

Ela podia ver agora. Olhando assim, era inconfundível.

— Nada. Só estava pensando, senhor, você não tem má intenção.

— É mesmo? — Matador de Goblins assentiu firmemente e depois disse: — Já acabou?

— Acho que sim — disse Garçonete Felpubro, ao qual ele previsivelmente respondeu “Entendi” e se virou. — Nesse caso, eu irei.

— Claro, foi um prazer tê-lo aqui.

— Não sei ao que se refere.

Matador de Goblins balançou a cabeça e andou pela taverna com um passo firme, mas rápido.

— Ei, Matador de Goblins! Vai matar mais goblins?

— Que tal você lutar com outra coisa uma vez? Tem que caçar algo grande como eu!

— Ahh, sozinho hoje? Nenhuma sacerdotisa bonitinha ou elfa sexy?

Respondendo “Sim”, “É mesmo?” e coisas assim para as vozes provocadoras ao seu redor, Matador de Goblins abriu a porta.

E então, deixando apenas o tilintar do sino atrás dele, ele saiu para a cidade, pela noite afora.

Bem, isso não era bem correto.

Sua aventura acabou, ele estava voltando. Para sua casa.

— Céus. Se era isso que ele estava fazendo, ele poderia ter dito alguma coisa!

Garçonete Felpubro riu, percebendo quão unilateral a competição fora.

Então ela soltou um “Muito bem!” e deu um tapinha na bochecha com as mãos.

A alegria a revigorou, e ela reforçou o laço do avental nas costas, pronta para trabalhar.

— O prato do dia é guisado que dei meu coração e minha alma! Alguém vai querer?

Mãos se ergueram. Pessoas gritaram. À medida que cada pedido vinha, Garçonete Felpubro sorria e os anotava, dizendo “Pode deixar!”.

Mas ela tinha optado por uma panela muito grande para fazer o guisado. Não havia “talvez” sobre isso: havia certeza de sobra.

E nesse caso…

— Eu só posso fazê-lo comer!

Se ela pudesse fazer a comida que gostava, como gostava e dar a uma pessoa que ela gostava, seria o bastante.

Garçonete Felpubro se apressou no furor da taverna.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

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