MdG – Volume 4 – Capítulo 5 (Parte 1 de 5)

— Mrm… ooh… hha…

Logo após o amanhecer, o ar fresco eriçou sua pele; ela se revirou com os cobertores com pequenos ruídos.

Normalmente ela teria esperado ouvi-los nesse momento, mas hoje não houve qualquer sinal de passos se aproximando.

— …Oooh…?

Ela não era do tipo de ter problemas em sair da cama, mas sem os sons que estava acostumada, achava difícil abrir os olhos.

Quando finalmente se arrastou para fora da cama de palha, ela esfregou suas pálpebras pesadas e sonolentas e deu um grande bocejo.

O meio-dia ainda era quente, mas a noite e a manhã assumiam um frio.

Com muita tremedeira e sacolejos, ela colocou as roupas íntimas em seu corpo saudavelmente carnudo, como sempre.

— M-mm… talvez só um pouco… apertado demais?

Ela ganhara algum peso? Ou apenas cresceu um pouco? Seja como for, ela não via com bons olhos. Era injusto seu tio ficar sempre comprando roupas novas e roupas íntimas.

Mas, também não é bom usar coisas que não cabem.

Se calhar, ela faria modificações na roupa.

Com esses pensamentos em mente, ela abriu a janela e a brisa fresca da manhã soprou no quarto.

Sorrindo de prazer, ela se debruçou, repousando seu peito volumoso no parapeito da janela.

Era uma cena que ela conhecia e gostava.

Os campos da fazenda balançando. O mugido de vacas ao longe. O cacarejo de galinhas. A fumaça se erguendo da cidade longínqua. O mundo.

— …Ah, é mesmo — murmurou Vaqueira distraidamente, enquanto se deleitava na luz dourada do sol. — Ele não está aqui hoje.

— Que tal você ir à cidade?

— O que disse?

Vaqueira virou só a cabeça para olhar para seu tio. O café da manhã terminara, e ela estava empilhando os pratos na pia.

Não havia muito o que lavar quando ele não estava. Isso facilitava as coisas, e isso era bom, de certa forma.

— Eu disse: Que tal você ir à cidade?

Ela olhou para ele outra vez. Sua expressão era simples e franca, e ele olhava soturnamente para ela.

— Hum? — disse ela questionadoramente, olhando de volta para ele enquanto pegava os pratos e os secava. — Para mim tanto faz. Mas eu não teria muito o que fazer lá.

— Bom, isso não pode ser verdade. — Seu tio estava sempre tão sério. Ele continuou sem pausar: — Seus amigos estão lá, não estão?

— Amigos, certo…

Vaqueira sorriu vagamente. Ela pegou um pouco de areia de um balde ao lado dela e esfregou na superfície de um dos pratos, xric-xroc.

— Acho que podemos chamar aquela pessoa de amiga, se quisesse. Mas acho que talvez ela esteja bem mais para uma companheira que compartilha os mesmos valores.

— Devia sair para se divertir às vezes.

— Hmm…

Vaqueira fez um som que não foi nem aceitação quanto negação.

Vendo que a areia limpou todas as manchas do prato, ela lavou outra vez com água.

Finalmente ela limpou o prato suavemente para secá-lo e devolver para a prateleira de louças.

— Mas há os animais para cuidar, a colheita, o muro de pedra e a cerca para verificar, entregas para fazer e depois temos que se preparar para amanhã…

Ela contou as tarefas com os dedos; havia mesmo muito trabalho. Muitas coisas para serem feitas. Coisas que tinham de ser feitas hoje. Coisas que deveriam ser feitas hoje. Todos os tipos de coisas que poderiam ser resolvidas em vez de adiadas.

Exato, assentiu Vaqueira, fazendo seu peito balançar. — Não tenho tempo para brincadeiras. Ainda bem que temos trabalho a fazer!

— Estou dizendo para você ir se divertir. — Sua voz não tolerava qualquer argumento.

Ela olhou para ele, surpreendida com seu tom brusco.

Seu tio estava imóvel. Quando ele ficava assim, sua opinião era menos propensa a mudar do que uma montanha. Ele passara dez anos a criando, e ela compreendeu isso sem ele dizer nada.

— Hã? Mas… Hum…

— Você ainda é muito nova. Quantos anos você tem? Quero que você me diga.

— Hum, eu tenho… dezoito… — Ela assentiu assiduamente. — Quase dezenove.

— Então não é o seu dever trabalhar de manhã até a noite todos os dias.

Vaqueira quebrou a cabeça por uma resposta.

…Hum? Por que estou tão contraria em sair?

O pensamento passou por toda sua mente e desapareceu. Esse não era o momento.

— M-mas, e o dinheiro…

— Felizmente, não somos servos. Nossas vidas não são ditadas pela falta de recursos.

— Bem, verdade, mas…

Não adiantava. Com sua frágil resistência sumariamente subjugada, Vaqueira ficou sem palavras.

Bem, e agora? Os pratos estavam limpos e ela não tinha outras cartas na manga.

Ela revirou afazeres na cozinha por um tempo antes de finalmente se sentar em frente ao seu tio.

— Não precisa se preocupar comigo. — Ele era gentil como sempre, como se estivesse falando com uma criança.

Vaqueira contraiu os lábios — ele não tinha que falar com ela dessa forma — mas ela não disse nada. Talvez isso mesmo fosse infantil. Nesse caso…

— Vá e se divirta. — Enquanto a observava, seu rosto escabroso se suavizou de repente e relaxou. — Uma jovem que trabalha o tempo todo na fazenda? Certamente há alguma coisa ou outra feminina que quer fazer.

— Fico pensando…

Vaqueira não sabia.

Coisas femininas?

O que seria isso? Arrumar-se? Comer doces? Todas as suas ideias pareciam distantes e vagas.

Comparado com isso, o clima de amanhã parecia concreto…

— …Está bem — disse ela depois de um tempo, ainda não sabendo ao certo se entendeu ou não algo. — Vou sair um pouco então.

— Sim, faça isso.

— …Tá.

Vendo o alívio de seu tio, tudo o que pôde fazer era acenar com a cabeça.

Ela não tinha a carroça e ele não estava ali, era apenas ela.

Ela viu seu ritmo instável mesmo que só estivesse indo à cidade por uma estrada que conhecia bem.

Como ela normalmente caminhava nessa estrada? Ela acabou se sentindo muito intrigada.

E assim, passando por entre aventureiros e mercadores enquanto iam e vinham, ela atravessou o grande portão da cidade.

Vaqueira sorriu jocosamente quando seus pés começaram a levá-la em direção à Guilda dos Aventureiros, geralmente o primeiro lugar que ia. Dominando conscientemente seu subconsciente, em vez disso ela foi reto para a cidade, em direção a praça.

Havia conversas no ar, vozes de comerciantes, crianças brincando, mães chamando, aventureiros conversando entre si. Mergulhando-se nos sons, Vaqueira se sentou vagamente em um meio-fio aleatório. Ela observou um menino e uma menina, talvez com uns dez anos, passar. Ela os seguiu com os olhos e suspirou.

Agora que penso nisso… — Eu tenho amigos…?

Não havia mais ninguém que conhecesse desde pequena. Ela se mudara dez anos atrás, e por cinco desses anos ela se absorveu só no que estava em sua frente.

É um pouco tarde para ir ao passado agora.

Da forma como ela estava naquela época, teve sorte de ele ter a chamado enquanto vagava.

Ainda havia chifres em seu capacete de aço, e o cabelo dela era consideravelmente mais longo.

Pelos cinco anos depois disso, sua cabeça estava cheia dele. Ela estivera completamente incapaz de se divertir.

— Ah, mas…

Ela balançou a cabeça, pensando na recepcionista e a empregada que via quase todos os dias. Elas podiam contar como amigas, mas só havia duas. Bem, duas amigas podem ser o suficiente.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. É tão bom esses momentos… Saímos de um massacre para um dia relaxante como se nada no mundo importasse…

  2. Obrigado pelo capítulo!!
    Vaqueira parece eu, fico arrumando desculpa pra não sair de casa… HUASHUHAHSHAHSA

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