MdG – Volume 4 – Capítulo 9 (Parte 5 de 5)

— Ei, anão! — gritou Alta-Elfa Arqueira sem tirar os olhos do céu. — Você não pode usar uma magia para derrubá-lo ou algo assim?

— Acho que poderia, de certa forma… — Ele fechou um dos olhos e olhou para cima, avaliando a velocidade e a distância entre ele e o inimigo. A cortina da noite era impotente face a luz das luas e das estrelas, e, de qualquer forma, anões podiam ver com facilidade pela escuridão. — É só que se eu o derrubar com uma magia, ele simplesmente se ergueria de novo.

— O quê?! Mas que conjurador! Estúpido, anão estúpido!

— Ah, para de chorar — disse friamente Anão Xamã, franzindo a testa. — Eles não se movem com as mesmas leis que nós. Aço e ferro são as formas de lidar com eles.

— Fisicamente, você quer dizer. Muito bem dito! — Segurando as rédeas, Lagarto Sacerdote curvou suas imensas mandíbulas em um sorriso que lembrava tanto quanto o de um tubarão. Ele pareceu fazer alguns cálculos rápidos, depois assentiu com satisfação. — Mestre conjurador, você disse que pode derrubá-lo?

— Acho que sim — assentiu Anão Xamã. — Embora não por muito tempo.

— Então mestra patrulheira, finja gentilmente que vai dar um belo disparo…

— Consigo fazer!

Sem esperar ouvir o resto do plano, Alta-Elfa Arqueira lançou uma flecha na noite. Era potente como magia, uma flecha que só um elfo podia disparar, mas o demônio ziguezagueou agilmente do caminho.

— Ah, droga! — Alta-Elfa Arqueira estalou a língua e ajeitou uma nova flecha no arco, puxando a corda.

— Bem, então — disse Lagarto Sacerdote, puxando as rédeas para retardar o cavalo. — Talvez possa fazer a gentileza de perfurá-lo com uma flecha com uma corda amarrada?

— Uma flecha com uma corda amarrada…?! — Alta-Elfa Arqueira pegou a corda que fora jogada na plataforma de carga, com o rosto inexpressivo enquanto olhava para o inimigo. O monstro de pele vermelha continuou batendo as asas, procurando a sua oportunidade para ir até eles. — Beleza, vou fazer!

Tão logo falou e já começou a amarar a corda na flecha. Os dedos da elfa não tiveram problemas, mesmo em cima de uma carruagem agitada. Ela manteve seus olhos e ouvidos no oponente, com suas mãos se movendo como se houvesse outra pessoa as controlando. Sua expressão relaxou. — Você parece um general ou algo parecido — disse ela.

— Você é muito gentil. — Lagarto Sacerdote balançou bem sua cabeça. — Se quiser me comparar com alguma coisa, sou como a pena de uma flecha. Só defino a direção, eu não… — Antes de continuar, sua língua saiu e tocou a ponta do nariz. — Hm — disse ele por um tempo. — Para ter uma unidade funcional, é preciso juntar uma ponta de flecha, uma haste, uma pena, um arco e um arqueiro.

Ahh. Alta-Elfa Arqueira sorriu ligeiramente. Essa era uma metáfora que ela podia entender. — Me pergunto se isso me faria a ponta… Vamos, anão, tenha certeza de que a magia acerte o alvo!

— Hmph! Já estou farto de te ouvir!

Quando Anão Xamã retorquiu para Alta-Elfa Arqueira e colocou o inimigo no campo de visão, ele viu algo: uma única luz vermelha no céu. Estava ardendo na boca grande e aberta do demônio…

— Seta de Fogo vindo!

— Ahh, agora! — disse Lagarto Sacerdote com alegria sincera, dando uma sacudida forte nas rédeas. O cavalo deu um relincho horrível de confusão e medo, e a carruagem guinou em uma nova direção, rangendo o tempo todo.

Segundos depois, um feixe de fogo atingiu o lugar onde a carruagem estaria, com brasa voando pelo céu. A luz brilhante iluminou o semblante terrível de Lagarto Sacerdote.

— Ha-ha-ha-ha-ha-ha-haaaa! Agora as coisas ficaram interessantes!

— Acho que você confundiu nossa carruagem com uma biga, Escamoso!

— De fato — respondeu o lagarto, provocando um “maluco…” de Anão Xamã enquanto olhava para o céu.

O demônio vermelho parecia se preparar para outro mergulho, agora que eles evadiram sua seta de fogo, marca registrada.

Acha que vai ser assim tão fácil, é?

Anão Xamã berrou para a sombra que ficava cada vez maior:

— Pixies, pixies, rápido e depressa! Sem doces para vocês, travessuras é o que preciso!

Palavras cheias de verdadeiro poder para dobrar a realidade jorraram, e o círculo mágico apanhou em cheio o demônio.

Normalmente, a criatura nunca deveria ser capaz de escapar dos grilhões da gravidade, não importando quanto batesse suas asas. Demônios inferiores ainda eram demônios; esses monstros viviam para distorcer a ordem natural.

— ARREMERRRERRRR!!

O demônio, que caiu na terra, uivou e bateu as asas vigorosamente, quebrando os vínculos mágicos que o segurava. Ele teria a sua vingança contra aquele anão, aquele homem-lagarto e aquela elfa. Só de pensar no sangue de um antigo alto-elfo, o cheiro de seu fígado, era o suficiente para atiçar a ganância básica da criatura.

— Tome isso!

Foi uma flecha daquela mesma elfa que pôs um fim agonizante nessa ganância. Ela se inclinara, se apoiando na beirada da carruagem, e disparou uma única flecha ponta-broto implacável no monstro.

— AREEERM?!

Se debatendo de tormento, o demônio foi um pouco lento em notar a corda amarrada à flecha. E esse foi o tempo necessário que a carruagem precisou para ganhar velocidade e puxar a corda tensa.

Um rugido horrível de desespero, o suficiente para fazer o sangue gelar, ecoou pela planície.

O demônio estava longe de imaginar que seria arrastado pelo chão atrás da carruagem. Havia uma certa pena dele enquanto quicava, contida pelo grupo enquanto ele se bagunçava na terra e tentava voar desesperadamente.

Demônios inferiores ainda eram fortes. Se o trio não conseguisse controlar a posição dele, ele poderia rapidamente fincar as garras na terra, e se ele se levantasse, seria apenas questão de pouco tempo para estar no ar. E uma vez no ar, seria perigoso.

— E agora?! — gritou Alta-Elfa Arqueira, pegando outra flecha de sua aljava.

Lagarto Sacerdote se levantou com facilidade. — Daremos o golpe final, é claro. — Ele segurou um dos seus catalisadores, uma presa, entre as palmas. — Ó asas falciformes de velociraptor, rasgue e dilacere, voe e cace! — Uma grande Garraespada surgiu e então se modelou em suas mãos.

— E o cavalo?! — Mas quando Alta-Elfa Arqueira olhou para trás, ela viu um Guerreiro Dragãodente agarrando firmemente as rédeas.

— Espera um pouco, Escamoso — disse Anão Xamã, com os olhos se arregalando. — Que história é essa de golpe final? V-você não vai…

— Pular? Não seja tolo. — Lagarto Sacerdote balançou a cabeça com um movimento considerável. — Isso seria ridículo.

Nos próximos instantes, a carruagem chiou quando Lagarto Sacerdote saltou no demônio inferior.

— Ó temíveis nagas! Observem minhas ações, meus antepassados!

— AREEERMEER?!?!

Garra, garra, presa, cauda. Ele golpeou, cortou e rasgou o demônio enquanto ele se esforçava para resistir. A criatura abriu suas mandíbulas para liberar uma seta de fogo, mas Lagarto Sacerdote uivou… — Grrrryaaahhh! — …e visou um chute direto em sua garganta, esmagando sua traqueia. E então sua Garraespada alcançou a cabeça do demônio, a cortando sem esforço.

A cabeça rolou pelo chão e desapareceu na grama. O resto do corpo, ainda preso à carruagem, traçava um jato de sangue roxo-azulado. Lagarto Sacerdote, em cima do cadáver, estava bastante calmo apesar da quantidade crescente de sangue o cobrindo; ele ergueu a cabeça alegremente.

— Ahh, eu fiz por merecer o mérito desse dia.

O sol começara a espreitar atrás do horizonte, e seus raios cobriram Lagarto Sacerdote com uma atmosfera indescritível.

— Olhe para isso. Não tínhamos concordado secretamente que não íamos contra ele?

— Ah, mas de vez em quando meu sangue ferve. — Depois da resposta simples de Lagarto Sacerdote, ele ergueu alegremente um naco de queijo com as duas mãos. Ele abriu a boca e a rasgou, com cada mordida acompanhada por um brado de “doce néctar!” e um bofetada com a cauda no chão. — Porque sou uma criatura de sangue quente, sabe.

— Suas piadas nunca fazem qualquer sentido para mim — resmungou Anão Xamã. Ele ergueu as mãos em resignação, mas também para sinalizar a garçonete que ele queria mais cerveja. Quando bebendo com amigos, Anão Xamã achava que estava sendo apenas educado ao encher seu barril tanto quanto podia.

— Então estamos todos juntos?

— Não entendi o que quer dizer.

— Sua flecha. Flecha e arco.

— Ahh. — Lagarto Sacerdote engoliu o pedaço de queijo bem-mastigado com um glub e lambeu os restos em seus lábios. — A ponta da flecha é a nossa patrulheira, a haste que nos mantém unidos é você, mestre conjurador, e eu sou a pena…

— …O arco é aquela garota, e Corta-barba seria o arqueiro… estou certo?

— Isso mesmo.

Anão Xamã pegou a cerveja que a garçonete lhe trouxe, observando de soslaio Lagarto Sacerdote assentir. Ele levou o copo transbordando até a boca e tomou um golinho, depois bebeu tudo em um único gole.

— Por mais renomado que seja um arqueiro, se ele dispara apenas para o céu, ele se machucará um dia.

— Então, de novo, se nós não caçarmos nada além de goblins, isso é bom ou ruim? — Anão Xamã, com o rosto vermelho, soltou um arroto e passou a mão em sua barba para limpar alguns pingos.

— Qualquer que seja o caso… — começou Lagarto Sacerdote.

— De fato, em todo o caso — subscreveu Anão Xamã.

— É um bom grupo.

— Sem queixas.

Lagarto Sacerdote sorriu com suas mandíbulas grandes, e Anão Xamã deu uma gargalhada estrondosa. Os dois pegaram os copos frescos que foram trazidos a eles, e os tocaram.

— Aos bons amigos.

— Aos bons companheiros de batalha.

— Às boas aventuras!

Ouça, ouça! No momento em que os copos foram erguidos três vezes, eles estavam vazios.

 

Quantas vezes nos encontramos, e separamos?

Alguns desaparecem, em cinzas, como devemos

Com a esperança de reencontro, cada jornada começa

Como virar uma página que está se transformando em pó

Lembra da lenda que treinou durante anos?

Qual era seu nome? Agora não me lembro

Você percebe tarde demais, agora ele já se foi

E apesar de nossas despedidas e encontros, todavia

Cada um desses encontros é único, e isso é tudo.

 

Assim a noite sucedeu para os aventureiros.

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

6 Comentários

  1. O Lagarto Sacerdote foi bem inteligente ao pensar rápido nesse plano, mas como sempre ele deixou seu “espírito de luta” fala mais alto kkkkk

  2. Obrigado pelo capítulo.

    Lagarto Sacerdote é um dos melhores personagens, principalmente quando ele mostra seu lado “selvagem” numa batalha como essa.

    E esse final? Pareceu até um interlúdio kkkk

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