MdG – Volume 5 – Capítulo 2 (Parte 1 de 10)

Querido Matador de Goblins,

 

Espero que esteja bem quando essa carta chegar. A época dos espíritos da neve chegou, e o frio também. A saúde de um aventureiro é o seu recurso mais importante nessa época do ano. Por favor, tome cuidado para não ficar doente.

Quanto a mim, estou surpresa, mas feliz em dizer que depois de nosso último encontro, não tive nenhum sonho com goblins, e de fato, as coisas tem corrido pacificamente. É tudo graças a você e seus amigos. Envio-te minha sincera gratidão. Gostaria de ter escrito mais cedo e estou envergonhada por nem conseguir alegar falta de tempo para desculpar a intempestividade dessa carta.

Aliás, sinto que é bastante inapropriado de minha parte incomodá-lo de imediato novamente; então devo pedir seu perdão, pois é exatamente o que pretendo fazer. Acontece que há uma missão que gostaria de pedir-lhe para aceitar.

É uma história bastante comum: uma certa nobre jovem fugiu da casa de seus pais para se tornar uma aventureira. Ela pegou uma missão, após a qual todas as comunicações dela cessou; um desfecho triste, mas também não incomum. A de seus pais que visitaram a Guilda para oferecerem uma missão para encontrar a garota, também não é especial.

A única coisa que quero registrar é que a missão que a garota empreendera era uma de goblincídio.

Tenho certeza de que está vendo onde isso vai parar.

A missão de busca que seus pais deixaram, estabelecia que “os aventureiros mais confiáveis e de alto níveis” devem ser aplicados. Mas é claro, dificilmente alguém nos ranques avançados assumem missões de goblincídio. Quando a Guilda me consultou sobre o assunto, não pude pensar em ninguém além de você.

Conhecendo-te, tenho certeza de que está muito ocupado (ouvi sobre o que se passou no festival da colheita), mas se possuir um pouco de tempo livre, pedir-lhe-ia que usasse ele para proporcionar ajuda a uma jovem infeliz.

Rezo pela sua boa saúde e segurança.

 

Atenciosamente,

 

— É de Donzela da Espada. Ela diz que está rezando por você… Cartas humanas são tão fervorosas. — A voz de uma elfa animada soou claramente na estrada nevada.

A estrada se estendia sem parar pela planície varrida pelo vento. A única coisa que poderia ser vista eram as árvores mortas e moitas cobertas de neve até o horizonte. O céu fora pintado de cinza por traços grandes e largos de nuvens; não havia nada de interessante para olhar para qualquer lugar.

Nesse mundo monótono, a voz animada e contente da elfa se destacou. Sua forma magra estava envolta de um traje de caçadora. Um arco estava pendurado em suas costas, e suas orelhas longas se agitavam alegremente.

A curiosidade felina de Alta-Elfa Arqueira não se limitava de modo algum as aventuras. Ela dobrou jovialmente a carta em sua mão, segurada com seus dedos longos, e a passou para trás.

— Não vejo muitas cartas. Elas são todas assim? — perguntou ela.

— Hmm…

A garota humana a qual passou a carta deu um sorriso ambíguo, parecendo um pouco acanhada. Mesmo quando pegou o pedaço de papel, ela parecia hesitante em ler.

Seu corpo esbelto estava coberto de cota de malha, sobre os quais pendiam vestes clericais, e em sua mão, ela portava um cajado de monge: ela era uma sacerdotisa. Era isso; essa missiva possuía o cheiro de uma carta de amor. Seria errado dizer que ela não se perguntou sobre isso, mas ela também não se sentia muito confortável em ler a correspondência de outra pessoa. Se alguém fizesse isso com ela, ela consideraria muito difícil de responder.

— Mas… Mas está ficando muito frio, não é?

Então, por isso, ela resolveu mudar o assunto da conversa, à força se necessário.

Quanto mais ao norte eles avançaram, mais pesado as nuvens no céu se tornaram, até que a luz do sol não pudesse penetrá-las. O vento estava ficando implacável, e às vezes trazia algo branco com ele.

Era inverno. Isso ficava óbvio o suficiente pela neve que começara a acumular ao longo da estrada.

— Estou com frio — disse Sacerdotisa. — Talvez seja culpa minha. Malha não me ajudará a me manter quente…

— É por isso que produtos metálicos não são bons! — Alta-Elfa Arqueira deu uma risada triunfante e estufou seu pequeno peito, com suas orelhas balançando para cima e para baixo orgulhosamente. Era verdade: sua capa de caçadora não possuía nada de metal.

— Feche a matraca — disse um conjurador anão. — Sinceramente, estou espantado por você estar confortável em roupas tão finas.

— O que é isso que ouço? Elfos são mais resistentes do que pensava?

Resistentes e lentos para pegar resfriados são coisas diferentes, moça — disse o anão, passando a mão na barba, e provocando um “o quê?!” raivoso da elfa vermelha.

Sua discussão foi tão barulhenta como sempre. Sacerdotisa sorriu. — Algumas coisas nunca mudam!

— Hm — uma homem-lagarto enorme assentiu ao lado dela. — Eu os invejo pela energia para fazer tanta confusão. — O sangue de seus antepassados, os temíveis nagas, fluía em suas veias; e ele era da tribo do sul. O corpo escamoso de Lagarto Sacerdote tremia no frio congelante da neve.

Sacerdotisa achou isso difícil de se observar e olhou para ele com preocupação. — Você está bem?

— É uma questão de meus ancestrais, que eram igualmente vulneráveis ao frio. Eu poderia estar em vias de extinção. — Lagarto Sacerdote revirou seus olhos imensos e sua língua saiu rapidamente para fora da boca. Ele continuou em tom de brincadeira: — Meu senhor Matador de Goblins parece bem calmo. Você deve ter bastante experiência nisso, imagino.

— …Não.

Lagarto Sacerdote falara com um guerreiro humano que liderava a coluna. Ele usava uma armadura de couro encardida e um capacete de aço de aparência barata. Uma espada de tamanho estranho estava em seu quadril, e um escudo redondo e pequeno estava atado em seu braço. Até mesmo um aventureiro novato provavelmente teria um melhor equipamento.

Matador de Goblins: era assim que as pessoas chamavam esse aventureiro, um homem do terceiro ranque, Prata.

A única coisa que era diferente do habitual era as flechas produzidas grosseiramente que ele segurava em cada mão.

— Antes eu aprendi meu ramo em uma montanha nevada. — Ele mexia nas pontas das flechas enquanto caminhava, sem olhar para seus companheiros.

— Oh-ho — disse Lagarto Sacerdote encantadoramente. — Não é um tipo de prática que poderia imitar. — Sua cauda sibilou.

Matador de Goblins, sem abrandar o ritmo, disse: — Não gostaria de fazer de novo.

Como sempre, não havia qualquer hesitação em seus passos; ele caminhava com coragem, quase com uma impetuosidade indiferente.

— Hum, Matador de Goblins, senhor! — Sacerdotisa foi apressadamente até ele com passos curtos como um passarinho, segurando seu cajado com ambas as mãos. — Obrigada, hum, por isso. — Pedindo desculpa por fazê-lo interromper sua atividade, ela passou a carta de volta para ele. Foi uma boa oportunidade, já que Alta-Elfa Arqueira e Anão Xamã ainda estavam ocupados discutindo.

— Você entendeu o essencial da missão? — Ele segurou as flechas com uma das mãos, pegando jovialmente a carta com a outra e dobrando. Sacerdotisa apanhou um vislumbre do interior da bolsa de itens que ele colocou a carta. Como de costume, estava repleta de todo o tipo de coisas aparentemente aleatórias. Mas para ele, havia uma ordem nela, uma organização, e ele certamente considerava tudo ali necessário.

Talvez eu devesse tentar organizar meus itens com um pouco mais de cuidado também…

Sacerdotisa fez uma nota mental para perguntá-lo sobre isso e assentiu. — Hum… Precisamos resgatar uma mulher, certo? Dos goblins.

— Isso mesmo. — Matador de Goblins assentiu. — Em outras palavras, é uma missão de goblincídio.

E isso, mais ou menos, não passava disso. Pouco depois do festival da colheita na cidade fronteiriça, uma carta chegara da cidade da água. Era da arcebispa do Deus Supremo de lá — conhecida como Donzela da Espada — e tal como antes, a carta endereçava Matador de Goblins pelo nome.

Esse aventureiro excêntrico certamente não recusaria qualquer trabalho envolvendo goblins. E assim Sacerdotisa, que trouxera notícias para eles desde o templo, juntamente com Alta-Elfa Arqueira, Anão Xamã e Lagarto Sacerdote, foram para o norte com Matador de Goblins.

Era o início da tarde, e eles logo chegariam na pequena aldeia ao pé da montanha nevada.

— Espero que esteja tudo bem com a garota…

KakaSplatT
☦ Death To The World ☦

3 Comentários

  1. A carta da Donzela da Espada pareceu uma carta de amor indiretamente kkk

    Pelo jeito o MdG tem um certo trauma do seu treinamento (quem não teria?! kkk).

    PS: E que comecem a aventura!!!

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